Exigência em redação do Enem derruba nota

JC e-mail 4676, de 04 de Março de 2013.
Na prova de 2011, 37,4% conseguiram elaborar de forma precária proposta de intervenção ao tema, uma das competências avaliadas

Dados do Enem de 2011 mostram que 37,4% dos candidatos conseguiram elaborar “apenas de forma precária” uma proposta de intervenção ao tema da redação. Além de demonstrar domínio da norma padrão da língua, entender a proposta e argumentar, o candidato precisa apresentar uma proposta de resolução ou conscientização do problema – que ainda respeite os direitos humanos.

 

Essa competência, que vale um quinto da nota da redação, tem jogado para baixo a média geral dos alunos.

 

As redações do Enem têm cinco competências avaliadas. Cada uma vale 200 pontos e a nota final vem da soma dessas cinco avaliações (mais informações nesta página). Na média do País, a competência que avalia a proposta de intervenção é de 82,30 pontos. O número é no mínimo 25% mais baixo do que a média de qualquer competência. A diferença pode chegar a 35%.

 

“É possível ver que as notas baixas nessa competência correspondem a redações nas quais os alunos elaboram respostas com intervenções precárias ou tangenciais ao tema, ou até redações nas quais os alunos não elaboram intervenção alguma”, explica o economista Felipe Cocco, do portal dadosdoenem.org, responsável pelo levantamento. Cocco utilizou os microdados do exame de 2011, quando o tema da redação foi “Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado”.

 

A pontuação que o candidato consegue em cada competência avaliada representa sua capacidade em atender aos critérios que o exercício pede. Assim, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) estipula uma escala de faixas de pontuação para cada quesito.

 

Diferença. Nessa divisão, é possível perceber que 35% dos participantes até conseguem elaborar a proposta, “mas pouco articulada à discussão desenvolvida no texto”. Apenas 5,5% conseguiram elaborar uma ideia “clara e inovadora”, tirando nota máxima nessa parte. Como comparação, na competência 3, que tem a segunda menor média, mais de 11% conseguiram nota máxima.

 

O estudante paulista André Luis dos Santos Valente, de 17 anos, fez o último Enem. Só não tirou nota 1.000 por causa da avaliação dessa exigência.

“Em todas as competências tive 100% de aproveitamento, mas na última, fiquei com 80%”, diz ele, que critica o modelo. “Não sei bem como eles avaliam, mas é difícil exigir que nós estudantes tenhamos uma intervenção que nem os governos conseguiram.” No Enem 2012, a proposta foi “O movimento imigratório para o Brasil no século XXI” – considerado difícil e complexo. Os dados do último exame ainda não estão disponíveis.

 

A diferença em cada parte da correção do texto foi ainda maior na prova de José Albérico da Silva Dantas Filho, de 18 anos, de Maceió. Nas outras quatro competências a nota variou entre 100 e 160. Mas na avaliação da proposta, ficou com 20. “Perdi qualquer chance de concorrer a uma vaga”, diz.

 

O Enem é o único vestibular do País a exigir que o candidato faça uma proposta de intervenção à problemática do tema. Nas últimas edições do exame, a redação centralizou as reclamações de alunos, que se queixavam das correções.

 

Na opinião da professora de redação Angela Maria de Souza, do colégio Albert Sabin, de São Paulo, os professores ainda não estão acostumados a trabalhar com os alunos essa habilidade. “Não é fácil para o aluno. Se ele não treinar exaustivamente, não consegue ir bem”, diz. Pela dificuldade, Angela conta que trabalha a competência desde o primeiro dia de aula. “Acho que é a parte mais importante, que diferencia um dos outros.”

 

Para a consultora em educação Ilona Becskeházy, a diferença entre as médias de cada competência é sinal de que há problemas no modelo. “Os critérios são subjetivos o suficiente para confundir tanto quem faz a prova como quem corrige”, diz ela. “Como mensurar a qualidade de uma proposta de intervenção?”

 

(Paulo Saldaña – O Estado de São Paulo)

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