Novo presidente da China enfrenta desafio de reduzir a pobreza

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O desafio de Xi Jinping é monumental. Trata-se de 8,5% da população economicamente ativa da China, quase a metade da população do Brasil, equivalente a toda Alemanha, oito vezes a Bolívia e quase cinco vezes o Chile. E tudo daqui até 2015. Segundo a economista chinesa Hong Bo, da Universidade de Londres, a estratégia do governo faz parte de uma mudança de modelo econômico. Por Marcelo Justo, de Londres.

Marcelo Justo

Londres – O novo presidente da China, Xi Jinping, assumiu nesta quinta-feira seu cargo com a promessa de retirar 80 milhões de pessoas da pobreza nos próximos dois anos. A chave-mestra é um programa de 35 pontos divulgado em fevereiro pelo gabinete de governo que contempla, entre outras coisas, um aumento do salário mínimo de 40%, investimento em educação e habitação pública e um pagamento de 5% de dividendos das poderosas empresas estatais.

O desafio é monumental. Trata-se de 8,5% da população economicamente ativa da China, quase a metade da população do Brasil, equivalente a toda Alemanha, oito vezes a Bolívia e quase cinco vezes o Chile. E tudo daqui até 2015. Segundo a economista chinesa Hong Bo, da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), da Universidade de Londres, a estratégia do governo faz parte de uma mudança de modelo econômico.

“O governo quer que sua economia cresça mais apoiada em seu consumo interno. Por isso os salários aumentaram várias vezes nos últimos anos, em particular depois da crise financeira de 2008. O problema em um país tão grande como a China é muitas vezes a implementação, disse Hong Bo” àCarta Maior.

A própria medição da pobreza está em jogo às vezes. Em novembro de 2011, o então presidente Hu Jintao anunciou que a pobreza havia diminuído em mais de 94 milhões de pessoas desde o final de 2000 graças à estratégia de redução da pobreza rural do governo, “uma conquista equivalente a tirar toda a França da pobreza”, segundo a agência oficial Xinhua. Duas semanas mais tarde, o próprio governo agregou em um canetaço estatístico cerca de 100 milhões de pobres, o que lançou por terra a suposta façanha social.

A diferença entre uma estimativa e outra era que a China havia usado na primeira sua própria definição de nível de pobreza, situando-o em 1274 yuanes anuais (menos de meio dólar diário). Na segunda medição, usando os parâmetros internacionais de um dólar diário ou 3.165 yuanes, as cifras de pobres no campo, onde reside metade da população, quadruplicava.

A desigualdade tem sido um espinho tão afiado como a pobreza desde que se lançou a abertura e reforma de Deng Xiao Ping nos anos 80. O coeficiente Gini, que mede a desigualdade, passou de 0,28% em 1978, pouco depois da morte de Mao Tse-Tung, para 0,45 em 2000 (0 e 1 representam igualdade e desigualdade absolutas). Em 2012, o índice cresceu para 0,47. Os sociólogos costumam citar um índice acima de 0,4 como a antessala de distúrbios sociais.

Os questionamentos pela desigualdade e a corrupção preocupam o Partido Comunista consciente de que a milenar história chinesa está repleta de dinastias eternas que caíram estrepitosamente da noite para o dia.

As metas são abundantes. O governo anterior de Hu Jintao lançou um plano ainda em marcha a fim de universalizar um sistema em marcha a fim de universalizar um sistema de aposentadoria para 2015 e uma cobertura sanitária para toda a população em 2020. O 18º Congresso do Partido Comunista Chinês, em novembro passado, definiu a duplicação do Produto Interno Bruto per capita em 2020 em relação aquele de 2010. Segundo essa meta, um camponês deverá ganhar em média, ao final desta década, 12 mil yuanes ou US$ 1.920 anuais.

Em declarações ao “China Daily”, um economista do Banco Mundial que trabalha em programas de redução de pobreza na China, Ulrich Schmitt, indicou que o êxito de programas governamentais anteriores torna mais difícil a atual campanha de erradicação da pobreza. “Os programas impulsionados pelo governo sempre foram muito bem sucedidos. O problema é que os bolsões de pobreza que restam são muito mais difíceis de combater porque se encontram dispersos e em lugares remotos”, assinalou Schmitt.

O grande salto
Em 2010, o Partido Comunista propôs uma passagem de uma economia baseada nas exportações para outra mais apoiada no consumo doméstico. A mudança estava vinculada não só à crise global, mas também a uma nova estratégia de desenvolvimento. Em nível econômico, a China deu um gigantesco salto de uma nação pobre para uma de rendas médias, mas tem diante de si um desafio muito mais árduo: a passagem a uma economia de alta renda como Estados Unidos, Japão ou a maioria das economias da União Europeia (UE).

Segundo o especialista em economia comparada da Universidade de Cambridge, Gabriel Palma, este salto é muito mais difícil. “Não basta ser capaz de absorver tecnologia, é preciso inovar; não basta ser campeão mundial em exportar matérias primas, é preciso industrializar o setor primário. É preciso manter a alta taxa de investimento da China em infraestrutura, mas é preciso colocar mais ênfase no capital e no bem-estar humano. A China vem a planejando esse salto há muito tempo”, assinalou à Carta Maior.

Segundo o Banco Mundial, entre 1960 e 2008, somente 13 países conseguiram dar o salto de uma condição de renda média para a do desenvolvimento: a grande maioria, entre eles muitos latino-americanos, fracassou na tentativa. Com uma população de quase 1,4 bilhão de pessoas, a China enfrenta um desafio maiúsculo.

Um setor populacional chave são os mais de 200 milhões de migrantes internos. Estes migrantes não tem acesso à saúde e à educação nas cidades porque seu “hukou” (registro de residência) encontra-se no campo. Ainda que as cidades costumem oferecer melhores oportunidades, cobram deles um alto preço que devora parte de seus rendimentos: eles têm que se tratar como pacientes privados e seus filhos não têm acesso à escola pública. “Uma mudança do Hukou teria um impacto em nível de desigualdade. Em termos de pobreza absoluta não será tão grande. Apesar das limitações do Hukou, muitos dos trabalhadores migrantes estão melhor na cidade”, disse Hong Bo.

A vontade política do governo será fundamental e merece uma reflexão adicional sobre o tema da pobreza na América Latina. Segundo um estudo do Fundo Monetário Internacional e da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), há seis países latino-americanos, entre eles Argentina, Brasil e Chile, para os quais o término da pobreza custaria menos de 1% do PIB. Gabriel Palma aponta que, na Índia, com 500 milhões de pobres, a tarefa é titânica: custa cerca de 10% do PIB terminar com a pobreza. “Na América Latina, tem havido vontade política em muitos países para baixar a pobreza a níveis entre 10% e 20% da população, mas eles ficaram por aí. Não havia tolerância para uma pobreza de 40%, mas parece que ela existe, como nos casos do Chile e do Brasil, para uma de 15%”, disse Palma à Carta Maior.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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