Iêmen enfrenta separatismo após derrubada de ditador

DIOGO BERCITO
ENVIADO ESPECIAL A ÁDEN (IÊMEN)

Na úmida cidade de Áden, no sul do Iêmen, a população usa politicamente um dos recursos em extinção da língua árabe: o número dual. Deposta a ditadura de Ali Abdullah Saleh, em 2012, moradores sulistas agora falam de um “Iemenain” –ou, em árabe, “dois Iêmens”.

É o termo utilizado pela liderança separatista ouvida pela reportagem da Folha. A região exige a ressurreição do Iêmen do Sul, que foi unificado ao norte em 1990, após polêmica negociação política.

 

Editoria de Arte/Editoria de Arte/Folhapress

“Nosso país foi ocupado”, diz Nuwar al-Gafri, 26, chefe do movimento jovem e estudantil em Áden, a antiga capital do Iêmen do Sul. “Não há como resolver a questão do sul a não ser por uma completa independência.”

Os separatistas viram na Primavera Árabe iemenita a chance de voltar a discutir suas ambições nacionais.

Mas o Diálogo Nacional, iniciativa do governo para solucionar os impasses no país por meio de negociação política, não necessariamente atende às demandas deles.

“A conversa deveria ser entre dois países”, diz Gafri. Ele aponta também que os líderes sulistas no Diálogo Nacional não são aceitos pelos ativistas como seus representantes, de maneira que suas decisões não serão acatadas na região.

O Iêmen do Sul declarou sua independência da ocupação britânica em 1967, experimentando ali um polêmico regime socialista. A constante influência europeia, consequência do interesse imperial no porto de Áden no século 19, criou um impasse cultural, ao separar o norte do sul pelos costumes.

Enquanto na capital Sanaa a norma é ver homens com adagas (tipo de faca) na cintura, em um complicado código social, ao sul essa tradição é desprezada como um modismo tribal.

Em Áden, as mulheres são vistas com mais frequência sem cobrir o rosto pelo véu –norma no norte.

“Somos um Estado civilizado”, diz Ali Haitham al-Gharib, conselheiro político de Hasan Baum, um dos antigos líderes do Iêmen do Sul. “Temos uma cultura em comum com outras nações.”

“É um problema de mentalidade. Não podemos negociar com os líderes do norte como se eles fossem europeus civilizados. Eles querem roubar nossos tesouros”, diz, em referência às reservas de petróleo no sul do Iêmen.

DESTINO

Folha acompanhou, na periferia de Áden, uma reunião do Conselho Nacional, facção separatista do sul.

Para o líder Abd al-Hamid Shukri, a união com o norte em 1990 foi um equívoco histórico. “O partido socialista nos convenceu de que a unidade era o nosso destino.”

Shukri critica a comunidade internacional, que apoia o Diálogo Nacional e, por consequência, a unidade do Iêmen como um só Estado.

“Se o mundo quiser a estabilidade regional, terá de apoiar a separação do sul”, afirma.

Mas o líder diz também que o esforço pela recriação do Iêmen do Sul será sempre pacífico. “Não queremos ser a nova Síria.”

A região é de interesse global, já que abriga a franquia mais violenta da Al Qaeda. Recentemente, foi anunciada a morte do número dois da organização, Said al-Shehri, por um drone americano.

O governo do Iêmen reconhece haver “grande diversidade em relação ao sul”, mas nota não haver “consenso sobre separação”.

“Não é possível isolar uma área apenas devido a uma diferença cultural”, diz Wahid Ali Rashid, governador da província de Áden. “Nosso povo já passou pela experiência de estar separado, e só colheu luta e guerras.”

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