Inglaterra vive paranoia com suposta invasão de romenos e búlgaros

A coalizão liderada por David Cameron adotou medidas preventivas anti-imigração por causa do ingresso de Romênia e Bulgária na União Europeia.


 Marcelo Justo Arquivo

Londres – A Guerra Fria terminou há muito tempo, mas os búlgaros e romenos, hoje sócios da União Europeia, seguem sendo vistos como uma ameaça para o governo britânico. A coalizão conservadora-liberal democrata liderada por David Cameron colocou em marcha medidas preventivas para conter uma suposta invasão de búlgaros e romenos que, a partir deste 1º de janeiro, podem residir no Reino Unido sem necessidade de visto. As medidas foram denunciadas por Bulgária, Romênia e Comissão Europeia e geraram diferenças de opinião na própria coalizão governista, mas com as eleições de 2015 se aproximando, não há sinais de que o atribulado primeiro ministro vá mudar de política.

O perigo da imigração é um cavalo de batalha clássico dos conservadores e da direita em todo o planeta. Nos anos 60, um político conservador, Enoch Powell, vaticinou “rios de sangue” ante a massiva migração caribenha da época. A história demonstrou que Powell era um amante da hipérbole, mas a frase ficou gravada coletivamente e reapareceu na imprensa ante o fantasma desde 1º de janeiro no qual Romênia e Bulgária se convertem em membros plenos da União Europeia, a qual aderiram em 2007.

Em novembro, Cameron anunciou medidas para impedir que imigrantes búlgaros e romenos tenham acesso a uma série de benefícios sociais. “Queremos enviar uma mensagem clara os imigrantes para que não venham para cá pensando que no Reino Unido é fácil viver da assistência social”, explicou à BBC. Um mês mais tarde, o primeiro ministro advertiu a UE que vetaria o ingresso de novos membros (como Sérvia e Ucrânia) se não fossem introduzidas mudanças drásticas na liberdade de movimento das pessoas na Europa.

Alguns dias antes do Natal, um documento do Ministério do Interior vazado para a imprensa revelava planos mais radicais da ministra Theresa May para impor um limite ao número de imigrantes europeus no Reino Unido e proibir o ingresso de cidadãos de países que tivessem um Produto Interno Bruto menor que 75% do britânico. Segundo cálculos que circularam em manchetes catastrofistas, cerca de 50 mil romenos e búlgaros procurariam mudar-se para o Reino Unido a partir deste ano.

Nesta estratégia do terror brilham dois temas de fundo: a economia britânica da austeridade e a questão europeia. As pesquisas mostram que a preocupação entre os britânicos com a migração anda junto com a relativa à queda do nível de vida. Segundo os sindicatos, desde a crise financeira de 2008, o salário real médio caiu 13,8%; entre os salários mais baixos essa queda foi de 20%. “Com esta queda da renda, a atitude dos britânicos a respeito da imigração mudou da tolerância para uma profunda hostilidade”, escreveu neste final de semana o colunista Peter Willby, no The Guardian.

Este cenário permitiu ao xenófobo UKIP converter-se no terceiro partido britânico nas eleições municipais e europarlamentares de maio passado com 23% dos votos (2% menos que os conservadores, 6% menos que os trabalhistas). A mensagem do UKIP atribui o desemprego, a insegurança, a falta de moradias, os problemas do Serviço Nacional de Saúde e os baixos salários aos imigrantes e à União Europeia.

Pressionado pela direita, o primeiro ministro endureceu sua agenda anti-imigratória e convocou um referendo sobre a permanência britânica na União Europeia se ganhar as eleições de maio de 2015. O patente clima pré-eleitoral esquentou ainda mais o debate. Os trabalhistas concentram seus disparos no tema da queda da qualidade de vida, mas sem a suficiente convicção para conectá-lo com o tema imigratório.

Nesta segunda-feira, em sua mensagem de fim de ano, o diretor da Confederação de Industriais Britânicos (CBI), John Cridland, instou as 240 mil empresas que representam a aumentarem o salário dos trabalhadores, mensagem pouco usual para um representante empresarial. Cridland age com uma boa dose de lucidez econômica, consciente de que o leve reaquecimento na segunda metade de 2013 (crescimento de 0,7%) necessita mais consumo e melhores salários para gerar um investimento que o torne sustentável, mas não há razões para pensar que os empresários, acostumados pelo thatcherismo a estar no controle sem fazer concessões, irão escutá-lo.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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