Somos todos Tingas

Somos todos Tingas

Das arquibancadas de Huancayo ou do borrão coletivo de mil caras e nenhum rosto da web emergiu a face do preconceito

Nirlando Beirão

Tinga, meia-atacante do Cruzeiro, não consta da lista de meus favoritos do futebol. Milita naquele ex-Palestra Itália mineiro onde – a História registra e meu pai de alma alvinegra gostava muito de lembrar – se barravam atletas pelo critério da cor da pele. De mais a mais, protagonizou o episódio com o qual se buscou empanar a conquista do campeonato brasileiro pelo Corinthians em 2005: jogando pelo Internacional de Porto Alegre, no Pacaembu, Tinga ensaiou um salto ornamental diante do guarda-metas adversário, obra de notável efeito coreográfico capaz de atestar seus dotes de acrobata, mas não de enganar o judicioso árbitro. Há ainda quem diga que foi pênalti (naquele ano, o Inter tinha o Tinga, o Corinthians tinha o Tevez).

Jogador foi injuriado logo no Peru, tão distante de qualquer supremacismo racial ariano - Reprodução
Reprodução
Jogador foi injuriado logo no Peru, tão distante de qualquer supremacismo racial ariano

É justo reconhecer, porém, que o Tinga é um sujeito simpático, seus 36 anos o amadureceram e ele pratica hoje um futebol de sorriso e de alegria, em linguagem escorreita e com limpidez transparente, o que torna ainda mais doloroso o abuso que sofreu quarta-feira à noite em Huancayo, no Peru, quando o atual campeão brasileiro estreava na Libertadores contra o Real Garcilaso. Do instante em que entrou em campo até o final da partida, foi perseguido por injúrias na forma de gestos e ruídos simiescos.

Logo no Peru, ao que me consta nação bem distante de qualquer supremacismo racial de modelo ariano. Nem mesmo um Vargas Llosa, enfarpelado como um inglês da City, haveria de se envergonhar de suas raízes. Seus livros estão embebidos de encanto pelo policromatismo étnico da sua gente. Mas, lá, aqui, acolá, esta América Latina de múltiplas faces e muitas peles às vezes escorrega – como aconteceu em Huancayo – na discriminação e na intransigência. Uma deliciosa paródia disso frequenta o seriado Modern Family (produzido pela ABC e exibido no Brasil pela Fox). Gloria Delgado (Sofia Vergara) é o furacão latino, morenaça bem caliente, que seduz o pater familias gringo e sacode a pasmaceira de uma gente propensa a pensar como capiaus de Kentucky. A colombiana bonitona é vista com desconfiança, claro. Mas Gloria/Sofia demole o clichê com o requinte debochado da autoironia. “Quem vocês pensam que eu sou?” – provoca, acentuando o sotaque. “Uma peruana?”

De volta ao Brasil, Tinga parecia mais aturdido do que irritado. Alegou que já não estranha (“minha vida foi de provações”) aquilo a que, no entanto, nenhum ser humano há jamais de se acostumar, ato impossível de perdoar, atitude que apequena não a vítima e sim o algoz. Disse o craque que, além do preconceito de cor, já sentiu na pele rasgos de preconceito social, aquele que começa pelo desprezo arrogante aos pobres e pode terminar no culto ostensivo a algum tipo de apartheid. Aquela mentalidade que se pode ler no subtexto dos sermões-manifestos dos balofos xerifes crepusculares em seus programas de TV que vertem sangue. Coisa mais ao menos na linha de: pobre bom é pobre morto.

A brutalidade que impregnou o futebol vem do contágio com uma sociedade truculenta e ignorante? Ou é a sociedade que acabou se impregnando, toda ela, do violento espírito de arquibancada? Desconfio que as duas coisas se alimentam, em espiral de vertiginosa reciprocidade. Pelo menos no que diz respeito a este Brasil 2014, onde a barbárie espreita a cada esquina. O problema é que o espírito de arquibancada – no estádio, mas também fora dele – tenta isentar-se de qualquer responsabilidade. A arquibancada é anônima, o borrão coletivo de mil caras e nenhum rosto, um aglomerado humano prestes a explodir numa paixão que, por definição, não está sujeita às amarras da razão. É como se o futebol estivesse imune a regras de convívio social. Em nome da emoção, tudo será permitido. A promessa de alegria se converte, na estufa de ódio, em antecâmara da barbárie. Penso, por exemplo, na mítica torcida do Corinthians. A Fiel. Diz-se dela que o Corinthians não é um clube que tem uma torcida, mas a torcida que tem um clube. De algum tempo para cá, alguns descerebrados só têm prejudicado seu próprio time.

Releio a palavra barbárie – tema-síntese do momento brasileiro – e me transporto imediatamente para outro território muito além dos gramados, onde, no entanto, mais do que em qualquer outro sítio viceja hoje esse mesmo espírito vulgar e selvagem de arquibancada. Acertou quem pensou: a web. As redes sociais, os blogs do rancor, os tuítes babujados de cólera, muitos deles usufruem, assim como os torcedores de Huancayo, do benefício covarde do anonimato para botar lenha na fogueira da intolerância. A internet virou sementeira de todos os preconceitos. Aposto que tem por aí gente falando coisas horrorosas do pobre Tinga.

Em repúdio ao que aconteceu em Huancayo, é hora de responder aos detratores do jeito que os estudantes enragés de maio de 1968 responderam à acusação feita a seu líder, Daniel Cohn-Bendit. “Somos todos judeus alemães”, bradavam as ruas sublevadas do Quartier Latin.

Aqui, agora, somos todos Tingas. Com muito orgulho.

NIRLANDO BEIRÃO, JORNALISTA E ESCRITOR, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE CORINTHIANS – É PRETO NO BRANCO (EDIOURO), EM PARCERIA COM WASHINGTON OLIVETTO, E RODEIO CONTA OS JARDINS (DESIGNA)

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