Bolivianos em São Paulo (imigração)

imigração

Finalmente reconhecidos pela prefeitura, bolivianos de São Paulo querem mais direitos

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Festa de Alasitas é realizada no centro da capital pela primeira vez com apoio do poder público. Comunidade reclama direito a voto e reconhecimento de novas datas tradicionais
por Tadeu Breda, da RBA publicado 24/01/2014 20:04, última modificação 26/01/2014 10:1

São Paulo – Debaixo de um sol inclemente, Juan Apaza formava fila na tarde de hoje (24) no Parque Dom Pedro II, centro de São Paulo. “Costureiro como quase todos os bolivianos por aqui”, Juan leva menos de um ano na cidade, dividindo uma casa apertada com outras dez pessoas no bairro de São Mateus, na zona leste. Por isso, suportava o calor, esperando a vez de receber as bênçãos do curandeiro. Trazia uma casinha em miniatura nas mãos. Com as rezas do xamã, incensos e um pouco de cerveja, acredita, ela se transformará em realidade. “Quero uma só para mim.”

Todo dia 24 de janeiro, há mais de duzentos anos, os bolivianos costumam parar seus afazeres cotidianos para render cultos a Ekeko, o deus da abundância, atualmente representado por um homenzinho baixo e robusto, com chapéu, bigode, poncho, cigarro na boca e dezenas de penduricalhos. As miniaturas são desejos de consumo para o ano que se inicia. Juan comprou uma casinha por R$ 20 porque quer uma de verdade. Há quem tenha comprado dinheiro de mentira, porque quer ter os bolsos cheios. Outros, carrinhos, porque cansaram de andar a pé.

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As barraquinhas perfiladas no Parque Dom Pedro II vendiam ainda pequenos galos (para quem quer marido), galinhas (para quem quer esposa) e vacas (para quem quer subir na vida). Mini canteiros de obra são para quem, em vez de comprar uma casa, deseja construí-la. É o caso de Erlan Apaza, que chegou em São Paulo há quase três anos. Pagou R$ 25 pela réplica, com saquinhos de cimento, pá, carriola e tijolos que apenas começam a formar uma parede. “Quero erguê-la em La Paz”, conta, ao lado da esposa e dois filhos. “Antes, comprava dinheirinhos. Agora, o canteiro de obras. Está dando certo. Depois, vai ser um carro.”

A festa em honra a Ekeko é conhecida como Feira de Alasitas, termo que em aimará significa “Compre-me”. Graças ao grande afluxo de imigrantes bolivianos, a Alasitas é realizada na cidade desde 1999. É a primeira vez, porém, que a prefeitura apoia a organização, cedendo espaço, palco, som, limpeza e segurança. Para além do português falado aqui e ali, e das cervejas brasileiras, talvez a maior particularidade da Alasitas paulistana sejam as pequenas cédulas do Registro Nacional de Estrangeiros (RNE) vendidas nas barracas de miniaturas. Estão destinadas aos que ainda não conseguiram permissão para residir oficialmente no país.

Depois de adquirir réplicas de suas futuras aquisições, os bolivianos entram na fila para benzê-las. Conhecidos como yatiri, os curandeiros são os responsáveis por levar os pedidos até Ekeko. Enrolam as miniaturas em panos coloridos e as balançam sobre a fumaça de incensos adocicados. Também jogam cerveja sobre o pacote. O ritual é rápido, acompanhado de palavras em aimará. No final, o desejo de boa sorte. Alguns yatiri também abraçam o cliente. Uma das xamãs que oferecia serviços espirituais no Parque Dom Pedro II, Lídia Rufino, 50 anos, garantia seu diferencial. “Nasci gêmea”, explica. “Tenho quatro olhos e posso ler a sorte.”

Gládice Aromamani levou duas vaquinhas, um carrinho e dinheiro de mentira até as mãos do yatiri Julio Achuntola. Ao recuperar o pacote, pagou R$ 20. Além da bênção, em troca recebeu quatro latas de cerveja, que distribuiu ao marido e aos amigos que a acompanhavam. Colocou a trouxinha colorida no chão e todos jogaram o líquido dourado ao redor e em cima das réplicas. “Sem esse ritual, não funciona”, explica. Basta ver as enormes filas formadas diante de cada curandeiro – e a persistência que demonstram, aguentando o sol forte – para saber que a crença é compartilhada por muitos bolivianos.

Apesar do apreço que a comunidade nutre pela Alasitas, há dois anos, na gestão de Gilberto Kassab (PSD), a feira foi reprimida por funcionários da Subprefeitura da Moóca e pela Guarda Civil Metropolitana (GCM). Como não havia um espaço especialmente destinado à comemoração, realizaram os festejos na Rua Coimbra, na zona leste, tradicional reduto boliviano. Muita gente compareceu. A prefeitura confundiu a venda das miniaturas com comércio ambulante – e inviabilizou o evento, mandando o rapa confiscar as réplicas.

“Pedimos autorização antes, mas não adiantou. Quase fomos linchados”, explica Luís Vásquez, presidente da Associação dos Empreendedores Bolivianos da Rua Coimbra (Assempbol), entidade que organizou a Alasitas no Parque Dom Pedro II em parceria com a prefeitura. “Foi triste, porque as miniaturas são todas trazidas da Bolívia. As pessoas investem dinheiro para buscá-las e vendê-las aqui. Além de ser uma tradição cultural, a festa é também uma oportunidade para juntar renda.”

O comércio é realmente intenso – e não só para os yatiris. Quem vende miniaturas não consegue ter sossego. As barracas de comida também ficam lotadas. Milhares de bolivianos compareceram à Alasitas paulistana. O prefeito Fernando Haddad (PT) também havia anunciado presença, mas teve um compromisso com a Fifa, por causa da Copa do Mundo, e teve de desmarcar. O petista assinaria na frente de todos um decreto incorporando a Alasitas ao calendário oficial das festas da cidade. Por conta da desistência, acabou dando a canetada dentro do gabinete.

“É um fato histórico”, classifica Luís Vásques, da Assempbol. “Saímos da repressão para a aprovação total. Felizmente os tempos mudaram, e estamos gratos à administração por ter trazido um novo olhar para os imigrantes.”

“Esse decreto é um reconhecimento da importância que os bolivianos têm para São Paulo. Outros imigrantes já são valorizados, como japoneses e italianos, mas os imigrantes mais recentes ainda sofrem muito”, analisa Rogério Sottili, secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania, que representou Haddad no festejo. “Nada mais justo de que uma feira como essa, tão importante para o povo boliviano, entrar no calendário oficial da cidade.”

O secretário lembra que várias medidas foram tomadas pela administração municipal no primeiro ano de gestão, como a criação de uma Coordenadoria de Políticas para Migrantes, submetida à sua pasta, e um convênio com a Caixa Econômica Federal para que imigrantes irregulares possam abrir contas. “Agora, queremos fazer com o Banco do Brasil”, anuncia. “Assim, ficam menos vulneráveis à criminalidade. Com a bancarização, damos mais segurança e pertencimento.”

De acordo com Sottili, o próximo passo da prefeitura na relação com os bolivianos é regularizar a feira da Praça Kantuta, no Pari. “Meu desejo é vê-la transformada num destino turístico, organizado, bonito, como a feira da Liberdade”, pontua, lembrando que, pese aos avanços, é preciso caminhar mais. “Temos que ajudar e pressionar muito o governo federal para que as políticas para migrantes sejam mais efetivas, desburocratizando o processo de vistos. Nossas escolas têm de combater a xenofobia e o bullying. É um processo longo de inversão da cultura de violação de direitos humanos que temos na cidade.”

A principal demanda dos bolivianos é poder votar nas eleições. “Sem esse direito, ficamos invisíveis para os políticos”, afirma Luís Vásquez. O secretário de Direitos Humanos se diz favorável à reivindicação. “Ter voto é ter poder”, afirmou, ao anunciar que a prefeitura já concedeu aos imigrantes direito a votar e ser votado para os Conselhos Participativos da cidade. “Nosso compromisso é pra valer.”

Tamanha – e inédita – abertura do poder público tem feito com que os bolivianos queiram mais. É difícil saber quantos deles vivem na capital. Estimativas apontam que entre 200 mil e 300 mil bolivianos residam em São Paulo. “Quem sabe agora a gente consiga incluir outras festas no calendário”, revela o presidente da Assempbol, já com uma data na ponta da língua: 6 de agosto. “É o aniversário da Bolívia”, conta, sem a menor preocupação de esconder a saudade.

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