A teimosia dos fatos – Ruanda França

A teimosia dos fatos

 http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-teimosia-dos-fatos,1153149,0.htm
GILLES LAPOUGE – O Estado de S.Paulo

Ruanda dedicou a segunda, 7 de abril, a iniciar cem dias de luto nacional para lembrar o genocídio de 1994. Líderes mundiais se reuniram na capital, Kigali, para refletir sobre o massacre e celebrar a reconciliação do país, dividido historicamente entre duas etnias.

Há 20 anos, em 7 de abril de 1994, no belo país das “mil colinas”, Ruanda, situado a leste do Congo, homens começaram a matar outros homens a golpes de facão, faca, tiros de fuzil. O sangue correu aos borbotões. A terra ficou encharcada.

Foi o começo de um genocídio, o pior após o perpetrado pelos nazistas. Mas, enquanto o massacre organizado por Hitler contra os judeus foi científico (câmaras de gás), sistemático, administrado com minúcia e economia, a hecatombe que salpicou de sangue as verdes colinas da África Oriental foi fulminante e breve, mas gigantesca: em dois meses, 800 mil homens, mulheres e crianças foram abatidos por seus matadores.

De lá para cá, Ruanda se reergueu. Ela é comandada com mão de ferro por Paul Kagame e conheceu tal expansão econômica que está à frente do continente africano. Fala-se dela como de uma futura Cingapura. Mas a desgraça de 1994 permanece intacta. Domingo passado, no grande estádio da capital, Kigali, o aniversário foi lembrado. Os discursos oficiais foram rapidamente encobertos pelos gritos de milhares de mulheres que manifestavam, 20 anos depois, seu espanto e tristeza. Era um rugido que parecia provir do outro lado das coisas, do nada.

Semelhante matança desafia o discurso. Ela tem sentido próprio, indizível, inominável, além de toda linguagem. A pesquisadora Hélène Dumas explica o que houve entre matadores, hutus, e mortos, tútsis.

“Em Ruanda, as pessoas falam a mesma língua, vivem na mesma colina, foram educadas na mesma religião cristã e os casamentos entre hutus e tutsis não são raros. Mas massacrou-se nas igrejas, o assassino matando o companheiro de paróquia ao lado do qual rezava na semana anterior; professores mataram seus alunos; tios mataram sobrinhos, etc. Crueldade infinita, com táticas e armas de caça. O vizinho se tornou o inimigo, uma presa a abater, um animal, uma coisa.”

Como explodiu a tragédia? É difícil explicar com simplicidade, sobretudo 20 anos depois e tratando-se de um país pouco conhecido no mundo ocidental. Em linhas gerais, e resumindo muito: Ruanda é dividida entre duas etnias há muito inimigas, a tútsi e a hutu. Os hutus, muito mais numerosos, são 80% da população.

Nos anos 1990 os hutus estavam no poder, tendo Juvenal Habyarimana como presidente. Um partido de oposição reagrupou tútsis na Frente Patriótica Ruandesa (FPR), comandada pelo militar Paul Kagame, atual presidente do país. Desde aquela época, e até muito antes, houve massacres de tútsis por hutus. Paul Kagame, futuro chefe da rebelião anti-hutu, ainda não estava em Ruanda. Tivera de deixar o país com a família aos 4 anos, já por causa dos massacres hutus. Fora levado para o país vizinho, Uganda. Saltemos alguns episódios. Trinta anos mais tarde, Kagame estava de volta a Ruanda como chefe dos guerrilheiros da FPR e comandando operações contra o poder hutu. Seus comandos avançaram sobre Kigali. E aí, em 6 de abril de 1994…

Nesse dia, quando o país era ameaçado pela rebelião tútsi da FPR, o avião do presidente Habyarimana foi abatido. Com isso, abriu-se a temporada de assassinatos. A partir de 7 de abril, os hutus, enfurecidos com a perda do chefe e tentando recuperar a vantagem, se lançaram ao crime. Todo o país se entrou na carnificina. Tútsis foram caçados e abatidos. Montanhas de cadáveres sobre as mil colinas. Mas os rebeldes da FPR, bem treinados, bem comandados, prosseguiram seu caminho, e sua vitória pôs fim ao genocídio. Assim, embora o chefe da FPR, Paul Kagame, hoje presidente de Ruanda, possa ser criticado por seus atos nos últimos tempos (ele sustenta privadamente, há alguns anos, revoltas no vizinho Congo, etc.), ninguém pode subestimar sua competência de soldado e pôr em dúvida que foi ele, com seus guerrilheiros, quem pôs fim ao genocídio. É essa, aliás, a base de sua legitimidade.

A esta altura, uma questão se coloca: por que Paul Kagame, antigo chefe da FPR e da guerrilha, hoje chefe de Ruanda, acaba de denunciar por ocasião deste 20º aniversário, mais uma vez, a responsabilidade da França no drama? Ele censurou o papel de Paris “na preparação política e na execução do genocídio”. Palavras pesadas que Kagame, longe de retirar após os protestos de Paris, confirmou, ao declarar: “Os fatos são teimosos”.

É evidente que não vamos fazer cara de quem tem uma opinião sobre esse enigma. Falemos apenas de alguns elementos. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a política francesa da época (1994) podia ser às vezes fluida. Por quê? Porque estávamos num período conhecido como “coabitação”, isto é, o presidente da república pertencia a um partido e o primeiro-ministro ao partido adversário. No caso, o presidente era François Mitterrand (socialista) e o premiê era de direita, Eduard Balladur. E, entre os ministros de Balladur, havia um homem ainda mais importante que ele: Alain Juppé, um dos líderes da União por um Movimento Popular (UMP) do ex-presidente Nicolas Sarkozy.

Não espanta que nas condições atuais as denúncias terríveis do ruandês Kagame tenham provocado um coro tonitruante de negações indignadas tanto da direita como da esquerda na França. Depois que já esclarecemos, por que você ainda insiste? A França, tanto naquela ocasião como ao longo de toda sua história, foi sempre impecável, pura, perfeita, sem nuvens ou sombras. A França é um cordeiro, ponto final!

Quais são as acusações de Ruanda? A primeira é que antes de 1994, durante muitos anos, a França apoiou sistematicamente o governo hutu de Habyarimana (aquele cujo avião foi abatido). Paris e seus militares eram muito próximos desse poder então desafiado pelos guerrilheiros de Kagame. Testemunhas afirmam que os franceses, antes da explosão da carnificina, aconselhavam ou sustentavam os hutus em guerra contra os tútsis. A partir de 1990, a França entrou em guerra contra a FPR, e viu-se implicada na defesa do regime que tinha por amigo. Os soldados ruandeses engajados contra os guerrilheiros tútsis contavam “com o apoio de helicópteros franceses”. Isso é fato estabelecido.

Os ruandeses hoje no poder (antigos membros da FPR) acrescentam que os soldados franceses pegaram em armas e tomaram parte na chacina desencadeada em 7 de abril de 1994. Não há prova disso, e a França nega veementemente. Os soldados franceses teriam, então, se contentado com uma atitude neutra, fechando os olhos para o pior genocídio destes tempos?

Um pouco mais tarde a França ressurge na Operação Turquesa, que generosamente se propôs a dirigir. Foi Alain Juppé quem decidiu, com o aval do Conselho de Segurança da ONU, “levar ajuda às populações ameaçadas”.

No entanto, desde sua origem a Operação Turquesa foi denunciada. Os rebeldes da FPR, que já controlavam três quartos do país, a descreviam “na pior hipótese, como uma cortina de fumaça, na melhor, como um ato tardio de contrição”. E a ação dos 1.500 militares franceses engajados suscitou dúvidas expressas, por exemplo, nos artigos do grande repórter Patrick de Saint Exupéry no jornal Le Figaro.

Entre as suspeitas, está a de que a Operação Turquesa, embora salvando vidas, também permitiu retirar de Ruanda – isto é, subtrair à Justiça – alguns dos piores matadores de abril, seus líderes, seus organizadores. E o que sucedeu a eles, esses bárbaros que souberam aproveitar (sem a cumplicidade dos soldados franceses?) a Operação Turquesa para deixar o país? Eles são encontrados por toda a Europa.

Mas é preciso reconhecer que a França não brinca com a moral. Sua Justiça perseguiu os genocidas. Ela pensou muito, mas acabou indo atrás deles. A prova: após 20 anos, acaba de condenar, pela primeira vez, um desses genocidas que haviam se refugiado tranquilamente na bela França. Vinte anos, e já temos um matador punido! E não acabou. A Justiça francesa prossegue em sua missão. Coragem!

Não iremos mais fundo nos detalhes por vezes insuportáveis da aventura. Darei apenas uma opinião. A Bélgica e os Estados Unidos, que também foram interpelados por suspeitas bem menores que as que a França enfrenta, reconheceram que às vezes cometeram erros. A França não admite nem que se toque no assunto. Nega em bloco. Não fez nada de errado em Ruanda por uma razão muito simples: em 2 mil anos, nunca fez mal a ninguém. Se houvesse transgredido essa regra em Ruanda, isso seria conhecido.

É uma tradição deste país. Para reconhecer que ela às vezes se comportou mal na Argélia quando fazia a guerra aos independentistas argelinos nos anos 1950, foram precisos anos de reflexão, de controvérsias, de insultos, de perfídias, de mentiras até que, por fim, o trabalho dos historiadores prevaleceu.

Pior ainda: para a França admitir que o governo do marechal Pétain, entre 1940 e 1944, agiu mal colaborando com os alemães, dezenas de anos se passaram.

Sobre Ruanda, ninguém na França pede que o país se declare responsável pela vergonha ou mesmo por ter simplesmente fechado os olhos para os crimes. Pede-se apenas que ela abra o dossiê, que tenha a coragem, a nobreza e a altivez de abrir seus arquivos. Isso é tudo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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