Humanos de gaveta (Brasil – Humanidade)

Humanos de gaveta

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO. , PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE , FILOSOFIA DA USP, AUTOR, ENTRE OUTROS , LIVROS, DE A SOCIABILIDADE DO HOMEM , SIMPLES (CONTEXTO) – O Estado de S.Paulo

De quem é a perna? E o braço? E aquela orelha ali? E aquela mão? E os 40 cadáveres de bebês depositados na morgue do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro? Uma inspeção para localizar o cadáver de um bebê ali nascido em 2012, filho de uma toxicodependente, levou a uma verdadeira jazida de cadáveres de bebês, de fetos e de pedaços de corpos humanos amontoados em gavetas do necrotério. Alguns ali havia quatro anos, 15 bebês não identificados. Um verdadeiro documento antropológico sobre a banalização da morte, contrapartida da banalização da vida.

Evidências dessas banalizações surgem em diferentes pontos do País, de diferentes modos. É o caso do menino Bernardo, em Três Passos, Rio Grande do Sul, que teria sido sedado e morto com uma injeção, supostamente por pessoas que lhe eram muito próximas. Depois, sepultado em cova rasa, na mata e na beira de um rio. A história do menino é uma dolorosa história de descarte, de seres humanos reduzidos a coisa. Recém-nascidos abandonados no lixo pelas próprias mães. Adultos tratados como dejetos. Filhos que matam pais, pais que matam filhos. O crescente número de casos de nulificação absoluta de seres humanos no Brasil choca um pouco nos poucos minutos do noticiário do rádio e da TV. Depois, já é a notícia seguinte, a vítima seguinte, o esquecimento.

Essas ocorrências são sociologicamente preocupantes porque expressam uma problemática degradação da condição humana, a deterioração de valores fundamentais na organização desta sociedade. Há meio século a morte não comportava abandonos nem mesmo nos grandes centros urbanos, onde a secularização crescente suprime as referências de respeito pelo tenebroso transe, o momento da morte, os cuidados rituais com o morto. Em muitas regiões do interior do Brasil, a atitude em relação à morte e ao corpo do morto ainda está referida às alegorias barrocas que dão sentido ao morrer e confortam os vivos, tanto no sentido de pertencimento que enunciam e na responsabilidade dos vivos pelos mortos quanto pela certeza de que os mortos partem ficando na memória e nos sentimentos. Os cemitérios ainda estão povoados de túmulos em que a palavra “saudade” reafirma a morte como perda, não como descarte.

O caso dos bebês do Pedro Ernesto fala de mortos abandonados, de crianças sem infância, mas também sem morte. Porque em nossa tradição cultural a morte não é apenas e tão somente a cessação dos batimentos cardíacos e o fim dos sinais vitais. Em nossa tradição, o morrer começa afetiva e ritualmente muito antes da morte, nas providências de reconhecimento do fim próximo de alguém que é membro do todo, quando a certeza de pertencimento se afirma, quando o grupo de referência se revitaliza numa provisória ruptura do cotidiano. Entre nós, a morte não é a cessação, é a transformação. A morte não é do morto. Existe entre nós a expressão “dono do morto”, nome daqueles que decidem por ele os ritos da passagem, o funeral e a própria constituição de sua memória, a figuração simbólica da natureza imperecível e transcendente de cada um.

A privação de ritos é, em nossa cultura funerária, a máxima condenação que se pode impor a alguém. O Brasil tem hoje mais de um linchamento por dia. No caso dos que morrem nesses atos violentos, a vítima é sempre privada de qualquer assistência de natureza religiosa ou ritual. Em São Paulo, há alguns anos, na região da Sé, um senhor que tentou acender uma vela para colocar na mão de um linchado quase foi linchado também. Essa morte de privações rituais é fundamentalmente uma condenação à perdição eterna das trevas, a incapacitação do morto para o retorno da ressurreição no dia do Juízo. Isso não é necessariamente religião: é componente de uma cultura popular. É cultura que alcança até mesmo quem não tem religião. Basta observar como os caixões de defunto são retirados dos recintos do velório: sempre com os pés para fora, o contrário da posição de nascimento, um ritual de expulsão do morto do convívio dos vivos. Algo que nos vem dos gregos. No sertão de Santa Catarina conheci uma senhora que me explicava a importância da posição de saída do morto de casa não só com os pés virados para fora, mas virados para a direção da correnteza do rio mais próximo. Resíduo do mito de Caronte que transportava os mortos, pelos Rios Estiges e Aqueronte, para o Hades, as profundezas.

Os bebês e os pedaços de gente encontrados no hospital são seres que foram privados de um direito nessa cultura contido, o direito à integridade de suas pessoas, como corpo e como alma, como unidade de matéria e espírito. Bebês, sobretudo, eram, nos cemitérios brasileiros, até não faz muito tempo, sepultados nas chamadas quadras dos anjos pequenos, para que não fossem contaminados pela promiscuidade daqueles que haviam conhecido o pecado. Nas gavetas do necrotério do hospital foram encontrados mais do que cadáveres abandonados – foi encontrado o espírito moribundo do nosso ser coletivo.

Divulgada no domingo passado, uma investigação do Juizado da Infância e da Juventude descobriu 40 corpos de recém-nascidos “esquecidos” no necrotério do Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio. Entre os abandonados, 15 não tinham nenhuma identificação.

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