Desde o fim de 2013, quando tiveram início os protestos contra o governo do então presidente Viktor Yanukovich, a Ucrânia tem figurado nas manchetes dos principais veículos de comunicação mundiais e provocado temor de muitos quanto aos desdobramentos de sua crise, especialmente a tensão crescente entre a Rússia e as principais potências ocidentais. A negativa do ex-mandatário em aderir à União Europeia pode ter servido de motivação para os manifestantes que tomaram as ruas da capital e de outras importantes cidades, mas esse fato está longe de explicar por si só as origens dos conflitos que ameaçam fragmentar o país. Resta voltar nossos olhos à história desse povo para entendermos um pouco melhor as raízes dessa conjuntura.
De dominador a dominado
As origens da Ucrânia estão diretamente ligadas ao nascimento de outro importante ator: a Rússia. Por volta do século IX, ancestrais comuns aos dois povos fundaram a chamada Rus Kievana, união de principados sob a liderança da atual capital ucraniana, Kiev, e que entre os séculos X e XI se converteria numa das organizações políticas mais importantes da Europa medieval. Desse passado partilhado restam hoje importantes características culturais que aproximam os povos, como as semelhanças linguísticas e a predominância do cristianismo ortodoxo.
A decadência da Rus se tornaria latente a partir do século XII, graças a disputas políticas internas e a invasões sucessivas de vizinhos, sobretudo os de origem turca. Contudo, seria a invasão mongol da primeira metade do século XIII que colocaria um fim ao domínio kievano. A partir de então, a região passou a ser objeto de disputa e ocupação por diversos povos, a exemplo de mongóis, turcos, poloneses, lituanos, russos e austríacos. Desde o fim do século XVIII, os territórios da atual Ucrânia encontravam-se divididos entre o Império Austro-Húngaro, na zona mais ocidental, e o Império Russo, mais ao sul e a leste. Já aqui é possível traçar um paralelo entre a influência que cada região sofreu e a atual configuração geográfica e política.
Esse cenário seria novamente modificado pelos eventos que marcaram as primeiras décadas do século XX. A Revolução Russa de 1917 derrubaria o Império Russo, enquanto o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, traria o esfacelamento do Império Austro-Húngaro. Como resultado, surgem vários Estados ucranianos que não teriam vida longa. Um novo conflito, dessa vez entre poloneses e russos, provocaria uma reconfiguração do território ucraniano a partir do início dos anos 1920: a parte ocidental seria incorporada aos domínios poloneses, enquanto as regiões mais a leste formariam a República Socialista Soviética da Ucrânia (RSSU), que em 1922 passaria a integrar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Entre as décadas de 1920 e 1940, a RSSU passaria pelas rápidas e dolorosas transformações, proporcionadas pelas políticas de coletivização agrícola forçada e industrialização soviéticas, que, a despeito do progresso econômico, trouxeram enormes perdas humanas.
Mas a Ucrânia só se veria nos contornos próximos aos atuais após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a grande maioria dos territórios, incluindo as regiões mais ocidentais, seria reunida sob os domínios da RSSU. Vale lembrar, contudo, que a Crimeia, hoje palco de disputa entre russos e ucranianos, ficara desde a queda do regime czarista sob o domínio russo, integrando a RSSF. Tal situação só viria a mudar na década de 1950, quando o líder do Partido Comunista da Ucrânia, Nikita Kruchev, assumiu a liderança da União Soviética após a morte de Josef Stalin e, protagonizando uma aproximação, cedeu o controle da Crimeia aos ucranianos.
No período, o país não só se industrializou como se converteu no principal celeiro agrícola da URSS. Politicamente, contudo, os ucranianos viam sua autonomia seriamente prejudicada pelo centralismo exagerado de Moscou e sua cultura ameaçada pelas políticas de caráter “russificante”.
Queda soviética e nova Ucrânia
A Ucrânia atual nasce da dissolução da União Soviética, no fim de 1991. O país é um dos signatários do tratado que criou a Comunidade de Estados Independentes (CEI), o que na prática decretou o esfacelamento da superpotência socialista antes mesmo da renúncia formal de seu último líder, Mikhail Gorbachev. Ao longo dos anos 1990, o país enfrentou uma dura trajetória na transição da economia socialista planificada para uma de mercado. A liberalização dos preços, as privatizações e a reforma monetária foram algumas políticas adotadas, seguindo os passos das demais ex-Repúblicas Soviéticas. As reformas foram acompanhadas de uma piora brusca nos indicadores econômicos, como o PIB, que amargaria redução de 24% em 1994, e o desemprego, virtualmente inexistente no período anterior.
Já no início dos anos 2000, a economia ucraniana finalmente daria sinais de recuperação. E, com a redução desses problemas, questões políticas e sociais ganharam centralidade. A população do país revelou-se dividida política e geograficamente: as regiões mais ao sul e a leste, historicamente sob forte influência da Rússia, mantêm laços estreitos com Moscou, concentrando inclusive porcentuais significativos de russos étnicos. Ao mesmo tempo, as regiões mais a oeste revelam proximidade com o Ocidente. Essa ruptura se expressa no sistema partidário local, polarizado por duas coalizões: uma de tendência mais pró-Rússia, liderada pelo Partido das Regiões, de forte base nas áreas orientais, e outra mais voltada à aproximação com a Europa, liderada pelo partido União de Todos os Ucranianos “Pátria”, cujo apoio maior se dá na região ocidental.
A disputa marca as políticas interna e externa da Ucrânia nos últimos 15 anos, e uma série de fatores ajuda a explicar a posição titubeante dos governos ucranianos. A Rússia, recuperada da crise dos anos 1990, busca resgatar espaço no cenário internacional e tem como objetivo primaz de política externa a hegemonia sobre os países que formam a CEI. Enquanto parte da população se vê ligada aos russos, outra parcela refuta qualquer alinhamento com Moscou, por considerar que uma aliança representaria o fim da autonomia, como no período soviético. Para esse grupo, o ingresso na União Europeia representa a saída da esfera de influência russa.
Não custa lembrar que os acontecimentos recentes não são completamente inéditos. Em 2004, a chamada Revolução Laranja não permitiu que o mesmo Viktor Yanukovich assumisse a Presidência do país, após ser virtualmente eleito em um processo que recebeu duras críticas da comunidade internacional e que foi considerado fraudado pela Justiça do país. Na ocasião, o líder da coalizão pró-europeia, Viktor Yushchenko, assumiu o comando e, ao contrário do que assistimos nos últimos meses, os protestos foram pacíficos e nenhuma gota de sangue foi derramada. O candidato da coalizão pró-Rússia, Viktor Yanukovich, seria eleito em 2010, dessa vez sem mais questionamentos quanto à validade do processo eleitoral.
A Europa e a Rússia acenam para a Ucrânia com interesses semelhantes: ambas desejam ampliar mercados, sobretudo para produtos industrializados, ao mesmo tempo que são compradores da gigante produção agrícola ucraniana. Os dois lados também oferecem recursos para ajudar a cambaleante economia local, que tem sofrido desde a crise de 2008. Para os russos, contudo, a manutenção ucraniana em sua esfera de influência é vista como questão de segurança: o ingresso de Kiev na UE e sua aproximação com o Ocidente significaria trazer riscos à sua fronteira.
Nas recentes disputas, os russos têm usado arma estratégica para fazer prevalecer seus interesses, e ela não está no poderoso arsenal bélico, mas no subsolo: o gás. Os europeus e em boa medida a própria Ucrânia são dependentes do gás vendido pela Rússia, que em momentos de crise coloca essa carta na mesa para direcionar negociações. Isso explica boa parte da passividade dos europeus nos desdobramentos da crise: qualquer enfrentamento direto com os russos pode significar corte de abastecimento e inverno consideravelmente mais frio para as populações.
A disputa pelo controle da Crimeia tem dominado discussões recentes sobre a crise e merece atenção especial. Como abordamos antes, essa região permaneceu por muitos anos sob o domínio direto dos russos. A etnia russa é maioria ali e sua língua tida como oficial, mais falada que o próprio ucraniano. Mesmo com o fim da URSS, a Federação Russa manteve sob seu comando duas importantes bases militares na área, onde concentra uma de suas mais importantes frotas navais, a do Mar Negro. Nesse sentido, são inquestionáveis os interesses russos na região – como também o são os da Ucrânia, que, como qualquer nação no mundo, não quer ver parte de seu território se separar e, o que é ainda pior, integrar um vizinho. Nesse debate, os tão maleáveis princípios da soberania e da autodeterminação dos povos têm sido proclamados pelos dois lados para legitimar suas posições, esquecendo que há pouco tempo esses mesmos conceitos foram utilizados contra si próprios em disputas e conflitos semelhantes.
É fundamental mencionar, por fim, que, embora polarizada, a atual configuração política da Ucrânia não pode ser caracterizada por dois lados homogêneos. Ao lado dos apoiadores do ex-presidente deposto Viktor Yanukovich figuram muitos ucranianos que consideram positiva uma maior aproximação com o vizinho eslavo ou que simplesmente são contrários à integração europeia. Já entre os manifestantes que derrubaram o governo estão não apenas partidários da coalizão pró-europeia, mas grupos nacionalistas xenófobos e de tendência fascista, que, embora contrários ao antigo governante, não demonstram qualquer interesse em ver seu país ingressando no bloco europeu. De todo modo, o resgate histórico ajuda a compreender um pouco melhor o cenário político ucraniano e as raízes de sua crise atual.