Extremistas aterrorizam estudantes na Nigéria

Extremistas aterrorizam estudantes na Nigéria

Em 2013, mais de 15 mil deixaram escolas nas áreas controladas pelo Boko Haram

18 de maio de 2014 |

ADRIANA CARRANCA – O Estado de S.Paulo

O sequestro de 276 alunas de uma escola secundária no vilarejo de Chibok, no nordeste da Nigéria, pelo grupo radical islâmico Boko Haram, causou comoção internacional e mobilizou o mundo. Mas o sequestro das meninas está longe de ser um caso isolado. Nos últimos dois anos, centenas de ataques contra escolas foram registrados na região – nesses ataques, alunos e professores foram assassinados e salas de aulas, incendiadas.

Antes da campanha na internet para trazer de volta as meninas de Chibok levadas pelo Boko Haram – difundida na rede pelo usa da hashtag #bringbackourgirls (tragam de volta nossas meninas) -, as mães nigerianas já tinham feito outro apelo – este com a hashtag #dontkillourboys (não matem nossos meninos) -, após uma série de ataques do Boko Haram contra estudantes, que levou o governo nigeriano a fechar cinco escolas públicas em Adamawa, Borno e Yobe, todas no nordeste do país. O apelo, porém, teve pouca repercussão internacional.

No pior dos ataques, em 25 de fevereiro, 43 alunos foram mortos durante a madrugada no dormitório de uma escola federal em Buni Yeadi, no Estado de Yobe. Em setembro, um atentado similar matou mais de 40 alunos de uma escola técnica de agricultura no mesmo Estado. Os milicianos invadiram os dormitórios durante a noite e abriram fogo contra os estudantes, todos meninos.

Um relatório da Anistia Internacional, divulgado em outubro, alertava para o massacre nas escolas do norte da Nigéria. Segundo organização, apenas naquele mês, cerca de 70 professores e mais de 100 estudantes foram assassinados. Em Yobe, 209 escolas foram destruídas. Em Borno, mais de 800 salas de aulas foram incendiadas.

A onda de violência espantou os alunos – somente no ano passado, 15 mil crianças deixaram as escolas. Pelo menos mil professores tiveram de fugir do norte nigeriano para regiões mais seguras, desde 2012.

“A taxa de matrícula no norte da Nigéria, que já era a mais baixa do país, caiu nos últimos dois anos, simplesmente porque os pais têm medo de mandar os filhos para a escola. Muitas escolas foram fechadas por falta de alunos e de professores”, disse ao Estado o jornalista e ativista nigeriano Alkasim Abdulkadir, editor do site Citizens Platform.

O Boko Haram – que significa “a educação Ocidental é pecado”, em hauçá, idioma local – defende a criação de um Estado islâmico na Nigéria e o ensino secular é considerado um obstáculo pelo grupo, por promover “valores ocidentais”, segundo seu líder, Abubakar Shekau.

Em declaração em vídeo, feita em julho, Shekau assumiu a responsabilidade pelos ataques contra escolas, dizendo serem “anti-islâmicas”, e fez ameaças: “Vamos matar os professores que ensinam educação ocidental. E vamos queimar as escolas.”

Os ataques do grupo levaram o governo da Nigéria a declarar, em maio de 2013, estado de emergência em Yobe, Borno e Adamawa, estados onde o Boko Haram tem sido mais ativo, como parte de uma ofensiva contra os milicianos. No entanto, o grupo radical respondeu com mais ataques, que deixaram pelo menos 1,2 mil mortos desde então, muitos deles crianças.

O norte da Nigéria também tem sido uma fonte de novos milicianos para o Boko Haram, facilitada pela miséria. Eles recrutam meninos muçulmanos que mendigam pelas ruas da região, que tem a mais baixa taxa de matrícula da Nigéria.

Mais de 40% das crianças entre 6 e 11 anos estão fora da escola no norte da Nigéria e, destas, pelo menos a metade deixará a escola antes de terminar o ensino fundamental. Entre as meninas, o índice é ainda menor – há apenas uma aluna para cada 3 meninos em sala de aula, segundo a Unicef.

Um dos motivos é que elas se casam antes. Pelo menos 67,4% das meninas no norte da Nigéria estão casadas ao completarem 15 anos – a mesma taxa no país para os meninos não passa de 10%.

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