Boias frias do futebol. Onde o ‘bicho’ não chega

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Boias frias do futebol. Onde o ‘bicho’ não chega

A realidade para milhares de jogadores brasileiros é bem diferente da que se vê na milionária, porém desorganizada, elite do esporte no país
por Ciro Barros, Giulia Afiune e Renato, da Agência Pública publicado 22/02/2014 09:37
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A bola rolou sem ninguém na arquibancada. Mesmo assim, não falta emoção em um jogo em em que cada um luta por um lugar ao sol (Renato Leite Ribeiro/pública)

Terça-feira de céu nublado, “chove-não-chove” no ar. A reportagem da Pública está em Mauá, Grande São Paulo, para acompanhar um jogo sem torcida, estrelado pelo Grêmio Esportivo Mauaense. O time está na Série B do Campeonato Paulista – abaixo das séries A3, A2 e A1, portanto, na quarta divisão. Com o objetivo de montar uma equipe para o próximo campeonato, o Grêmio enfrenta um time ainda mais frágil: o dos desempregados, montado pelo Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo (Sapesp) para que possam manter a forma.

Não há fotógrafos, jornalistas, placas de publicidade. Ninguém está nas arquibancadas para vibrar pelas jogadas no campo deteriorado, cheio de entulho. Dois cachorrinhos brincam no fundo do “campo” do Estádio Pedro Benedetti, municipal. Mas não falta emoção em um jogo em em que cada um luta por um lugar ao sol, pela remota chance de realizar o sonho de se tornar, ou continuar a ser, um jogador profissional. A reportagem acompanhou a partida, vencida por 3 a 2 pelo Mauaense, do lugar do quarto árbitro – privilegiadíssima posição.

O objetivo não era fazer uma crônica do jogo, mas da realidade dos jogadores da base da pirâmide do negócio futebol. E o que esperam os que não ganham salários milionários, não saem em capas de revista, nem vendem milhões de camisas com seus nomes estampados. A maioria dos garotos tem por volta de 20, 21 anos, “velhos” para iniciar a carreira, e longe de obter um contrato em um clube da elite.

Mas ninguém desiste, como diz o meia-atacante Eddy Rocha, da equipe do Sapesp: “Me indicaram pro time do sindicato aí e eu tô aqui agora, mantendo a forma pra me empregar”, diz. Antes de chegar ali, o morador do bairro da Plataforma, na periferia de Salvador, passou pelas categorias de base de Vitória e Bahia. Depois foi jogar no Ferroviário do Cabo, da segunda divisão pernambucana, uma experiência que ilustra o que passam os aspirantes ao futebol profissional.

“A gente não tinha cozinheiro, ia um rapaz entregar marmita pra gente: feijoada, saladinha e um suco, quando vinha. A gente dormia num tatame. Todo mundo ganhava um salário mínimo, que chegou a atrasar uns três meses. Só consegui me manter com a ajuda de um amigo de infância, de Salvador”, lembra.

Eddy recebeu proposta de um empresário para participar de testes de dois times da A2 paulista, Audax e Grêmio Osasco, que pretendiam disputar o torneio estadual da categoria sub-21. ­Última chance para Eddy, já com 21 anos. Despediu-se da mulher e do filho de um ano em Recife e embarcou para São Paulo. Porém, era uma “barca furada”.

Quando chegou, o período de testes tinha acabado. Ele ficou sem chance e passou aperto até ser acolhido por um amigo. Não voltou para Recife, “lá ainda é mais difícil”, e aceitou as desculpas do tal empresário, que ainda tenta convencê-lo a assinar um contrato. “Ele disse que quer fazer um DVD meu pra mandar pra uns clubes, dar uma ajuda de custo. Mas é coisa só de boca, né, aí fica difícil.” Se nada der certo, Eddy, que estudou até a 8ª série, diz que vai virar professor de Educação Física.

O craque da partida

Do lado do Mauaense, a coisa não está muito melhor. O atacante Jorge de Araújo, de 26 anos fez um gol de cobertura, deu trabalho ao time adversário e é destaque da equipe. Mas não conseguiu ir além no futebol profissional, e agora o que o aguarda parece ser mais uma vez a Série B, a qual jogou pelo ­Mauaense em 2013 por um contrato de 90 dias e R$ 800 mensais. Mas Jorge não desanima: “É aquela coisa. Três meses, mas nesses três meses você tem a chance de mostrar alguma coisa. É precário, uma divisão difícil. Quem sabe não aparece alguma coisa, ­alguém me vê jogar e eu posso ir pra um clube melhor?”

O último dos três salários está atrasado, assim como o dos colegas de clube, que ganharam R$ 678, o salário mínimo (até dezembro). “Temos a promessa do nosso presidente, que falou que tá vindo o dinheiro, a gente continua esperando”, diz. Para se manter Jorge arrumou um bico: “Hoje eu tô trabalhando numa escolinha de futebol, dando aula pras crianças. Sou técnico de um time infantil também, fiz uns cursos aí. E tem a várzea, né?”, conta. “Não gostaria de jogar na várzea, mas lá termina o jogo e tá lá o seu dinheirinho dentro do envelope. Aqui no profissional às vezes o mês tem 60, 80 dias, a gente não pode contar com o salário.”

Hoje há campeonatos de várzea bem estruturados. “Na várzea, eu já peguei R$ 5 mil pra assinar e R$ 250 por jogo. Jorge foi campeão da Copa Kaiser de 2013 pelo Leões da Geolândia, da Vila Medeiros, zona norte de São Paulo. O principal campeo­nato amador da capital paulista teve 192 equipes e jogos disputados de março a outubro. Como as premiações são pagas em dinheiro vivo, fica sempre a dúvida sobre suas origens. Mas fato é que a várzea funciona como alternativa ao vácuo de organização das divisões menores do futebol profissional.

Jogadores que chegaram à seleção brasileira, como o atacante Leandro ­Damião, agora no Santos, o volante Elias, que disputou o Brasileiro pelo Flamengo, e o meia-atacante Denílson, pentacampeão com o Brasil em 2002, jogaram a Copa Kaiser.

A falta de alternativas para quem busca ser profissional de futebol é tão grande para que os que ficaram fora das categorias de base dos times profissionais que alguns chegam a pagar – literalmente – para jogar, como conta Jorge, que já recebeu a indecente proposta. “Eu estava em Santa Catarina e um cara me pediu R$ 10 mil pra me colocar num time da segunda divisão do Catarinense. Fui pra lá, estava com dinheiro, mas vi que era uma barca furada e desisti”, diz. “Tenho amigos, por exemplo, que pagaram 10 mil por um contrato de seis meses num clube. Só que aí eles vão lá, jogam, e acabam recebendo esses 10 mil de volta nesses seis meses. Depois você vai embora, não é aproveitado. Fica tipo uma bagagem. Aí o cara fala: ‘Ah, eu joguei no clube tal…’ Jogou porque pagou”, afirma.

O Mauaense sofreu um fracasso retumbante. Em dez jogos da primeira fase, perdeu oito, empatou dois e ficou em último lugar do grupo. O público foi de 96 pagantes por partida em casa, com renda média de R$ 859. “O Mauaense precisaria de uns
R$ 70 mil por mês para bancar atletas, comissão técnica, médico, material esportivo, viagem, essas coisas. Gastei R$ 20 mil, que consegui emprestado de um amigo, de última hora. Relutei esse ano para não entregar o time na mão de um empresário”, conta o presidente Marco Antonio Capuano, o Quinho.

Diante da fragilidade de muitos clubes profissionais e das cifras que giram em torno do negócio futebol, muitos investidores se aproximam de equipes menores. “Chega um empresário com dinheiro, sonhando com uma transação milionária, e começa a arcar com as despesas. Às vezes vende o jogador, o clube não leva nada, e depois de um tempo vai embora, geralmente deixando dívida pro clube pagar, como já fizeram com o Mauaense, principalmente trabalhista, porque os contratos são firmados com o clube e não com ele”, resume o dirigente.

Para ele, falta visibilidade. “Quando as pessoas não enxergam aquilo que você faz, fica difícil. Como vou chegar numa empresa de Mauá se eles dizem ‘ah, você não dá retorno’? É isso que a gente precisa: retorno. Precisa a prefeitura nos ajudar, abraçar o time da cidade, e a mídia local e a própria federação paulista fazer um esforço maior de divulgação”, opina. “A falta de público é falta de iniciativa”, diz. De quem? “De todos, mas principalmente da mídia, do poder público e da federação paulista”, resume.

Mais longe, mais difícil

Em estados distantes dos grandes centros, os jogadores precisam se virar ainda mais para atuar o ano inteiro. “Quando termina o campeonato paraense em Belém, se a gente não consegue renovar o contrato, tem de ir para Macapá jogar os outros três meses”, conta José Romeu Tavares, de 28 anos. O campeonato paraense foi de janeiro a junho e o amapaense, de julho a outubro. “Em dezembro começa a pré-temporada para o paraense e aí os jogadores voltam para não ficar parados.”

Isso significa que muitos não têm férias. Romeu se machucou no fim de 2012 e teve de passar por cirurgia no joelho. Ele  jogou apenas o segundo semestre, pelo Ypiranga, de Macapá. “Graças a Deus tive ajuda de amigos, da família, e sempre deixo um dinheiro guardado, porque a gente nunca sabe…” No final do ano, ele retornou a Belém para a pré-temporada.

O zagueiro Bruno Oliveira de Andrade, colega de Romeu no Ypiranga, não conseguiu time para jogar no primeiro semestre. “Temos de economizar para sobreviver esses meses. Trabalhei como motorista e de ajudante de pedreiro.” Muitos amigos desistiram do futebol porque precisavam sustentar suas famílias, mas Bruno não quer esse caminho. “Quando você fica três, quatro meses parado, passam várias coisas na cabeça. Já pensei várias vezes em parar por causa da mulher, do filho. Continuo porque tenho condições de chegar em um lugar melhor. No futebol, do dia para a noite podem acontecer coisas melhores. Meu sonho é ser campeão por uma equipe grande do Rio, de São Paulo, até de fora.”

Em 2013, o Ypiranga jogou três partidas amistosas e 20 oficiais – 14 no estadual e seis na Série D do Brasileiro. O time sobrevive com R$ 8 mil a R$ 10 mil mensais que recebe da loteria Timemania, e R$ 50 mil anuais vindos do governo do Amapá. “Muita coisa o presidente tem de tirar do bolso”, diz o diretor administrativo do clube, Claudio Celio Góes Conrado. “Se não tem campeonato, não tem como manter o time. A gente monta a equipe para jogar três meses se for só o estadual, e cinco meses se tiver a Série D do Brasileiro”.

Os contratos de jogadores e patrocinadores vigoram apenas durante os campeonatos. “É complicado conseguir patrocinadores pela questão da credibilidade que a gente foi perdendo ao longo dos anos”, conta o dirigente. O time, fundado em 1963, possui sete títulos do campeonato amapaense, mas não ganha desde 2004.

Na segunda divisão de Sergipe, a situação é semelhante. “Nossos campeonatos não são rentáveis, não temos patrocínios, não temos público nem boas equipes”, descreve o diretor do departamento técnico da Federação Sergipana de Futebol, Diogo Andrade. A média de público para jogos da primeira divisão varia entre 800 e 1.000 pagantes e na segunda, de 150 a 200 pessoas.

Fundado há quase 97 anos em Maruim, no interior de Sergipe, o Maruinense teve oito jogos em 2013. Com R$ 50 mil reais de patrocínio para todo o ano, o clube tenta diversificar sua receita fazendo parcerias. “Estamos firmando um projeto de clube-escola, em que vamos receber jogadores franceses, treinar e mandar pra fora. Além disso, estamos negociando com amigos meus na Ponte Preta, na Portuguesa e no Palmeiras para mandarem jogadores que não estão sendo usados nos times de base”, relata o presidente Manoel Rodrigues Neto. Ele conta que o time já revelou jogadores conhecidos como o atacante Oséas, que atuou no Atlético Paranaense, no Cruzeiro e no Palmeiras. “Meu sonho é colocar o Maruinense na Série B do Brasileiro”, conta o dirigente do time que hoje disputa a segunda divisão do sergipano.

Para Diogo Andrade, o maior problema é administrativo. “Os clubes precisam ir atrás de patrocínio e trabalhar dentro do que arrecadaram, fazendo um orçamento. Aqui, primeiro se forma a equipe, pra depois pensar em uma forma de pagar.” Ele acredita que os campeonatos deveriam ter menos equipes, que deveriam passar por um filtro das federações exigindo profissionalismo, para que não acumulem dívidas com os funcionários.

“Eu já vi clube lamentando porque ir para a decisão da segunda divisão ia significar mais 15 dias de despesas”, relata, inconformado. E cita como bom exemplo de administração o caso do River Plate de Sergipe, que diante da possibilidade de disputar o estadual, a Copa do Nordeste e a Copa do Brasil, desistiu dos campeonatos oficiais por falta de condições financeiras.

Em termos financeiros, explica Diogo, vale mais a pena disputar o campeonato sergipano do que o nacional. “O estadual dá vaga para duas competições nacionais: Copa do Nordeste e do Brasil. Jogando dentro do estado a despesa é menor, por isso o lucro é maior. E você tem certeza que o campeonato dura de janeiro a maio, pode contratar um atleta sabendo que vai cobrir todas as etapas do contrato. Já no Brasileiro, a primeira fase tem dois meses. Você contrata um jogador por três meses (mínimo exigido pela lei). Nesse mês extra os atletas querem receber, mas o clube está inativo.”

Para ele, compensaria aumentar o número de times na série D ou criar uma série E do Brasileiro, se a CBF colaborasse. “Teríamos equipes com condições de ingressar em competição nacional, se a CBF se comprometesse a cobrir despesas com transporte, alimentação e hospedagem”, diz. Diogo defende os campeonatos estaduais e regionais e elogia a Copa do Nordeste, bancada pela CBF, em que os 16 clubes recebem cota fixa em torno de R$ 345 mil pela participação, mais a renda das partidas: “Um clube de Sergipe não ganha menos do que R$ 500 mil em uma competição como essa. Ela serve para engrandecer os times da região”, afirma. O campeão tem vaga na Sul-Americana. “É um caminho curto para uma equipe de menor porte chegar a uma competição internacional.”

De acordo com o site Esporte Nordeste, o campeão receberá cerca de R$ 1,5 milhão, incluindo a cota de participação, a classificação até a final e premiação. Em novembro, a CBF divulgou a tabela da Copa Verde, que terá seis clubes das regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste. O vencedor da competição, disputada entre fevereiro e abril, também ganha vaga na Sul-Americana.

Bom Senso

“Eu morava num sítio que ficava a quatro quilômetros da cidade, dormia num galpão com outros 30 sonhadores. A nossa alimentação era precária: arroz, feijão e salsicha todo dia. A estrutura de treino era qualquer pedaço de grama na cidade. Nas viagens longas que se faziam pelo interior, o ônibus quebrava e a gente chegava em cima da hora, atrasado pra jogar. Ganhava um salário mínimo, que era de 180 reais, e atrasava”, conta o zagueiro do Corinthians Paulo André, um dos líderes do Bom Senso FC.

A realidade vivida 11 anos atrás, quando ele defendia as cores do Águas de Lindoia Esporte Clube, não mudou para os clubes menores, que ainda sofrem com esse vácuo de atuação de quem organiza o futebol. “Isso não é fomentar futebol e sua prática, isso é expor trabalhadores a condições de risco. É vender uma ilusão de ser jogador a milhares de pessoas, milhares de atletas, que vivem como verdadeiros boias-frias do futebol, vivendo do futebol três, quatro meses no ano”, reflete.

“Queremos a redução de jogos dos times da Série A e aumento do número de jogos de todos os outros times brasileiros”, defende Paulo André, que vê os jogadores dos grandes times sobrecarregados de jogos e os dos pequenos sem calendário. “A gente acredita que os clubes têm de jogar no mínimo 36 e no máximo 72 partidas no ano. Qualquer modelo que consiga inserir essas duas premissas já é muito melhor do que o que está aí. O que a CBF e as federações têm feito é um assassinato contra os clubes do interior.”

“Não é verdade que para que o pequeno exista deva jogar contra o grande. Hoje, no estado de São Paulo tem 105 clubes. Desses, 85 não jogam contra os grandes porque fazem parte das Séries A2, A3 e da B. E continuam sobrevivendo”, enfatiza. “Assim como os sete clubes que jogam a A1 e não disputam competições nacionais. O que a gente pergunta para as pessoas que defendem esse modelo é: qual é a diferença estrutural e financeira dos sete clubes que jogam a A1 para os 85 clubes que não jogam? Não existe. Todos estão se matando para tentar sobreviver.”Por meio do Bom Senso, Paulo André e um grupo crescente de jogadores da elite aproveitam sua visibilidade para denunciar os baixos salários e o atraso nos pagamentos que atingem a maior parte dos jogadores. De acordo com dados da CBF, de 2010, 60% dos atletas profissionais registrados ganhavam até um salário mínimo. Apenas 4,3% ganhavam acima de 20 mínimos.

Conteúdo compartilhado
Reportagem originalmente publicada pela Agência Pública
www.apublica.org/2013/12/os-boias-frias-futebol

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