Novo banco para uma nova ordem. (BRICS)

Novo banco para uma nova ordem

PARAG, KHANNA, GLOBAL VIEWPOINT – O Estado de S.Paulo

27 Julho 2014 | 02h 02

Recém-criado banco dos Brics reflete as diferenças filosóficas com relação às prioridades do Banco Mundial nas últimas décadas

Os últimos anos têm sido difíceis para as economias dos Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O Brasil reduziu drasticamente suas previsões de crescimento em razão da redução do ritmo do “superciclo” das commodities, os problemas políticos da Rússia fizeram despencar suas reservas, a moeda da Índia sofreu um grave revés quando o patamar de suas dívidas subiu acima do apetite do mercado e a África do Sul sofre com a corrupção e a agitação da classe trabalhadora. Somente a China desafiou as expectativas de uma explosão iminente da bolha e segue apresentando um crescimento consistente.

Não surpreende que Jim O’Neill, ex-executivo do Goldman Sachs, que cunhou o termo Brics, tenha afirmado no ano passado que, se tivesse de fazer tudo de novo, não criaria o acrônimo, mas se referiria apenas a “C”, de China.

As cúpulas dos Brics, que se realizam anualmente desde 2009, exibiram mais estilo do que substância – até agora. Principalmente porque o Brasil surpreendeu o mundo quando nenhum dos seus estádios desmoronou durante a Copa do Mundo e porque conseguiu fazer com que sua primeira cúpula abandonasse a retórica e passasse para a ação.

O Novo Banco de Desenvolvimento, anunciado em Fortaleza há duas semanas, marca o lançamento de uma plataforma de empréstimos coletiva administrada exclusivamente pelos países dos Brics. Com um capital autorizado de US$ 100 bilhões, a instituição poderá conceder empréstimos por até US$ 34 bilhões ao ano. O foco na infraestrutura é lógico: dois terços das nações do mundo são construções pós-coloniais, fisicamente caindo aos pedaços – principalmente a Índia – e precisam desesperadamente de um impulso nos investimentos no longo prazo justamente em infraestrutura.

Os orçamentos nacionais cobrem, quando muito, US$ 1 trilhão dos estimados US$ 3 trilhões anuais imprescindíveis para os gastos com infraestrutura, apenas para manter os atuais níveis de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

Não é um eufemismo afirmar que esse é um novo tipo de banco para uma nova ordem mundial. Pela primeira vez na história, os gastos com infraestrutura superam significativamente os da defesa. Cidades e edifícios, estradas e ferrovias, oleodutos e portos, pontes e túneis, torres de telecomunicações e cabos para a internet – e todos os outros tipos de ativos – exigem US$ 2 trilhões ao ano em gastos globais, um pouco acima do US$ 1,7 trilhão destinados à defesa – mas o fosso está se ampliando. O financiamento da infraestrutura é hoje um instrumento de geopolítica mais até do que as alianças militares.

Ressentimento. O Novo Banco de Desenvolvimento, portanto, não apenas nasceu do ressentimento com os principais doadores do Banco Mundial e do FMI obstinadamente apegados às suas participações com direito a voto, dotadas de um peso extraordinário. Mas também reflete uma diferença em termos de filosofia no que concerne à necessidade de priorizar a infraestrutura física em relação a outras prioridades (como educação, saúde, direitos da mulher, entre outros) para as quais o Banco Mundial se voltou nas últimas décadas. De um ponto de vista holístico, todos esses investimentos são cruciais para o bem-estar e a prosperidade das nações equitativamente distribuídos, mas nada cria mais empregos e, literalmente, permite a construção de um Estado, do que a infraestrutura.

O período que se sucedeu à crise financeira provou que os estímulos fiscais, particularmente os gastos com a formação bruta de capital fixo (um considerável componente da infraestrutura), produzem muito mais benefícios substanciais para o crescimento do PIB do que o estímulo monetário em si. Os Estados Unidos têm dedicado mais atenção a esse último aspecto, ao passo que a China cuidou de ambos.

Objetivos. A pressão dos Brics influenciou indubitavelmente a mudança do foco internacional nessa direção. Na cúpula do G-20 do ano passado, na Rússia, foi anunciada uma Global Infrastructure Facility (GIF) para estimular um aumento dos financiamentos destinados à criação de empregos e a investimentos para a promoção da produtividade, bem como um Project Preparation Fund (PPF) para ajudar os países a estruturarem projetos de maneira a se tornarem mais atraentes para os mercados de capital. Mas embora o G-20 seja adequado como mecanismo de revisão pelos pares (e de pressão dos pares), não se destina ao cumprimento de metas.

O Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics pode, portanto, cumprir os ambiciosos objetivos do G-20, mas também deverá servir de ponte para canalizar a liquidez global e o excesso de poupança por aproximadamente US$ 75 trilhões (nas mãos dos fundos de pensão, fundos soberanos, patrimônios familiares, entre outros) voltados para projetos essenciais de infraestrutura.

Para tanto, teria de associar-se à Multilateral Investment Guarantee Agency (Agência Multilateral de Garantia de Investimentos, Miga, na sigla em inglês) e a outras instituições financeiras e não financeiras que podem tornar investimentos de alto risco mais atraentes mediante acordos de seguro, compensação contra a inflação e outros instrumentos.

Na busca de rendimentos satisfatórios, a comunidade global de investimentos provavelmente vai aderir aos projetos do banco dos Brics, enquanto essas medidas forem tomadas com o objetivo de garantir bons retornos.

A meta da geração de investimentos imediatos, vultosos e de longo prazo em infraestrutura é inegavelmente muito válida – na realidade, tão importante que não deveria depender apenas dos Brics.

De fato, é preciso ter em mente que não existe um consenso total entre os próprios Brics, o que poderia comprometer a missão do Novo Banco de Desenvolvimento nos próximos anos. Não é segredo que a própria decisão a respeito de quem sediará o banco foi uma das várias questões que quase impediu o anúncio.

Na última hora, foi acertado que China e Índia ficariam com o banco no primeiro ano – provavelmente sediado em Xangai, com um diretor indiano – seguido por uma direção rotativa de Rússia, Brasil e África do Sul.

É importante notar que a China também criará um Banco Asiático de Infraestrutura que efetivamente concorrerá com o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB, na sigla em inglês) sediado em Manila – e não convidará a Índia a participar. A China está claramente expandindo seus sistemas de empréstimos em plataformas múltiplas e sabe perfeitamente que o financiamento da infraestrutura não é apenas um instrumento para uso coletivo dos Brics, mas também interno. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É AUTOR DE BEST-SELLERS E

PESQUISADOR PRINCIPAL DA NEW AMERICA FOUNDATION

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