Canal que mudou Panamá faz 100 anos

Canal que mudou Panamá faz 100 anos

Uma das obras mais ousadas do século 20 completa seu centenário em expansão e sob interesse crescente de americanos e chineses

Murillo Ferrari

enviado especial

CIDADE DO PANAMÁ – Considerado fundamental no início do século passado, quando, sob o comando de Theodore Roosevelt, os EUA iniciaram a expansão de sua capacidade militar e de sua política externa, o Canal do Panamá – cuja inauguração completou cem anos na sexta-feira – divide a opinião de especialistas em relação ao seu papel estratégico na região hoje em dia.

Enquanto alguns acreditam que apenas o aspecto econômico – em uma disputa entre EUA e, principalmente, China – continua em jogo, incluindo nessa análise a expansão do canal prevista para ser inaugurada entre o fim do próximo ano e o começo de 2016, outros ressaltam que a rivalidade crescente entre os dois países no campo financeiro também se aplica aos interesses políticos.

“Os EUA nunca diriam diretamente que estão em competição com a China pelo Canal do Panamá porque esse é um tema de grande impacto na infraestrutura do país”, afirmou ao Estado Johanna Mendelson Forman, analista da consultoria Stimson Center.

Para a especialista, o fato de projeções indicarem que, em 15 anos, Pequim pode se tornar a principal parceira comercial da América Latina cria implicações profundas entre os interesses dos dois países para a região. “Claro que os EUA estão observando os movimentos dos chineses, caso eles decidam investir em pontos estratégicos – o que os EUA não teriam como evitar. O Brasil também está observando os chineses, afinal, ambos fazem parte do Brics (grupo composto ainda por Rússia, Índia e África do Sul).”

A ideia de utilizar uma ligação entre oceanos como exemplo de sua capacidade de liderança e influência é contestada por quem vê o canal como uma necessidade majoritariamente econômica. “O canal era muito mais importante estrategicamente no século passado, quando o poderio marítimo de uma nação era mais importante do que hoje”, explicou Michael Hogan, do Centro para Deliberações Democráticas da Universidade da Pensilvânia e autor do livro The Panama Canal in American Politics (“O Canal do Panamá na Política Americana”, em tradução livre).

Para o analista, o canal hoje – ou mesmo após a sua expansão – continuará mais interessante para países com ampla atividade comercial. “Como a China compete com os EUA em muitos aspectos econômicos, Pequim se interessa em oportunidades em que possa ganhar terreno.”

A opção mais provável para os chineses concorrerem com os americanos na região é a construção de um canal similar na Nicarágua – obra de valor estimado em US$ 40 bilhões e cuja concessão de 50 anos, renováveis pelo mesmo período, foi emitida recentemente para o magnata chinês das telecomunicações Wang Jing.

Alejandro Bolivar/EFE

Hub. Com a ampliação do Canal do Panamá, o presidente panamenho, Juan Carlos Varela, que assumiu o cargo em julho, pretende transformar o país em um centro logístico mundial e já pensa em um projeto para a construção de um quarto conjunto de eclusas para enfrentar a disputa representada pela possível construção do canal nicaraguense.

“O Panamá está se preparando para aumentar sua relevância como centro internacional de comércio”, afirmou o presidente à agência Associated Press durante as festividades do centenário. “Nosso país estudará outros componentes – como portos, estradas e aeroportos – que precisam ser construídos para tirar proveito de nossa posição geográfica.”

Doenças mataram mais de 30 mil pessoas durante obra

Documentário narra como um dos maiores projetos de engenharia da história formou identidade panamenha

CIDADE DO PANAMÁ – No dia 15 de agosto de 1914, quando o capitão John Constatine completou a primeira travessia do Canal do Panamá com a embarcação Ancon, um sonho centenário – encurtar a distância entre os Oceanos Atlântico e Pacífico – tomou forma.

A obra, considerada uma das mais importantes do século 20, porém, foi cercada de dificuldades, imprevistos e mortes – estima-se que mais de 30 mil pessoas morreram, em razão da febre amarela e da malária.

Arquivo/AP

Iniciada em 1881 pela França, sob comando do conde Ferdinand de Lesseps, que anos antes havia construído o Canal de Suez, no Egito, a obra foi abandonada anos mais tarde, principalmente em razão da corrupção e de problemas de planejamento. Em 1904, os EUA retomaram o projeto, inaugurando-o dez anos depois.

“O canal praticamente define o Panamá. Existimos como nação, como país, em razão do canal”, afirmou escritor Ovidio Díaz Espino no documentário Panamá: o País que Uniu o Mundo, que estreou no History Channel na sexta-feira.

A produção, que mescla depoimentos e reconstituição histórica, relata os bastidores da construção do canal, explicou o argentino Carlos Cusco, responsável pela produção do documentário. “Não falamos sobre a tecnologia, mas sobre as pessoas que tornaram possível a construção do canal.” O programa será reprisado no dia 30, às 20 horas, e no dia 31, às 7h30 e às 14 horas.

O repórter viajou a convite do History Channel

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