A economia do ouro azul (Irrigação no Brasil e no mundo)

A economia do ouro azul

Desperdício de água na lavoura brasileira preocupa comunidade científica. Apesar de ser considerado uma potência na agricultura, o país ainda tem muito a melhorar em sistemas de irrigação e monitoramento meteorológico para fins agrícolas.

Por: Henrique Kugler

Publicado em 09/09/2014 | Atualizado em 09/09/2014

A economia do ouro azul

O Brasil detém 12% da água doce disponível no mundo. Mas o uso irracional dos recursos hídricos é um problema crescente que exige mudanças urgentes. (foto: Flickr/ Kleber 2007 – CC BY-NC-ND 2.0)

Dizem que o Brasil é uma potência agrícola – e isso é verdade. Mas cuidado com esse discurso. Por mais irônico que pareça, o país considerado ‘celeiro do mundo’ apresenta notável deficiência no uso inteligente de um precioso recurso natural: a água.

É certo que temas ambientais raramente suscitam consensos. Nesse caso, entretanto, parece imperar desconfortável unanimidade entre os especialistas: “A necessidade de usarmos com mais racionalidade os recursos hídricos, na agricultura, é uma constatação de todos os pesquisadores que trabalham diretamente com o assunto”, garante o engenheiro agrônomo Luís Henrique Bassoi, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Semiárido), em Petrolina (PE).

Há áreas estratégicas nas quais o Brasil ainda precisa fazer sua lição de casa. Duas delas merecem destaque: a melhor distribuição de estações meteorológicas por nossos territórios agrícolas; e a maior capacitação dos produtores rurais para manejo de sistemas de irrigação.

Meteorologia mal resolvida

“Em boa parte de nossas áreas rurais, a segurança na previsão das chuvas é muito limitada: não podemos sequer planejar nossa agricultura porque não sabemos nem quanto e nem onde vai chover”, afirma o engenheiro florestal Laerte Scanavaca, da Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP). “Esperamos as chuvas, plantamos e torcemos para dar pragas ou catástrofes naturais em países concorrentes ou compradores: essa é nossa política agrícola.”

Na agricultura, a falta de dados precisos acerca da dinâmica atmosférica em nível local pode arruinar uma safra. E costuma resultar em rotinas de desperdício de água

É que a imprevisibilidade das chuvas, apesar de inerente à complexidade do sistema climático, é agravada pela má distribuição das estações meteorológicas em uma das principais regiões agrícolas do país. No Sul e no Sudeste, essas estações são abundantes. Mas no Centro-oeste – o grande feudo do agronegócio e o pujante motor da economia agrária do país – a distribuição geográfica dos equipamentos meteorológicos é esparsa e fica muito aquém do esperado.

Na agricultura, a falta de dados precisos acerca da dinâmica atmosférica em nível local pode arruinar uma safra. E costuma resultar em rotinas de desperdício de água que atingem proporções embaraçosas: “Se plantarmos e chover pouco, perderemos a produção; mas se plantarmos e chover bastante, muita água será desperdiçada”, diz Scanavaca.

É como regar as plantas do jardim pela manhã, tendo previsão de chuva para o início da tarde. Joga-se fora assim valiosa quantidade de água do sistema de abastecimento, quando as chuvas poderiam perfeitamente suprir a demanda hídrica daquela área. Segundo os pesquisadores, essa é uma forma crônica de desperdício à qual poucos produtores rurais se mantêm atentos.

“Precisamos nos instrumentalizar mais e instalar estações meteorológicas de maneira mais bem distribuída”, opina Scavanaca. “Poderemos então otimizar o aproveitamento das águas pluviais na agricultura; e, é claro, devemos instalar cisternas sempre que possível para armazenar essas águas.”

Equipamento irrigação
Equipamento irriga plantação nas proximidades de Goiânia (GO). O uso de sistemas de irrigação aumenta a produtividade agrícola e a oferta de empregos no setor. (foto: Flickr/ Feio e Bobo – CC BY-NC-ND 2.0)

No melhor dos cenários, porém, mesmo que o sistema de monitoramento meteorológico seja aperfeiçoado, ainda teremos um desafio: “Falta mais capacitação técnica aos nossos agricultores”, diagnostica Bassoi. “Em geral, poucos deles sabem usar adequadamente tecnologias que os permitiriam aproveitar de maneira mais eficiente os recursos hídricos.”

Um exemplo: milhares de litros de água poderiam ser economizados todos os meses, em cada propriedade agrícola, se produtores entendessem o simples conceito de evapotranspiração. Trata-se da quantidade de água que uma cultura perde por meio da evaporação da água no solo e por meio das folhas.

Milhares de litros de água poderiam ser economizados todos os meses, em cada propriedade agrícola, se produtores entendessem o simples conceito de evapotranspiração

Taxas de evapotranspiração mudam segundo a espécie vegetal e sua fase de desenvolvimento. E também mudam de acordo com as condições atmosféricas locais: nível de radiação solar, umidade relativa do ar, temperatura, velocidade do vento… Tais dados são facilmente mensurados por estações meteorológicas – desde que bem distribuídas nas áreas rurais. Eis o truque: quanto menor for a evapotranspiração, menor será a quantidade de água necessária às plantas. Melhor para o bolso do produtor e para a economia de recursos hídricos no país.

Existem métodos para se estimar taxas de evapotranspiração com bastante acurácia. Alguns agricultores, por exemplo, já consultam na internet – em sítios de institutos de pesquisa e extensão agrícola de suas regiões – dados para otimizar o uso da água. Mas, de acordo com Bassoi, tal cenário ainda é mais exceção do que regra.

“Não é todo produtor rural brasileiro que tem acesso a isso”, constata o pesquisador da Embrapa. “As informações deveriam ser difundidas de maneira mais simples”, defende. “Por exemplo: órgãos de assistência técnica poderiam enviar mensagens de celular para os agricultores, informando-os quanto aos procedimentos mais indicados para aquele momento e para aquele determinado período.” O pesquisador argumenta que, se tais práticas fossem adotadas, o uso da água em nossa agricultura seria muito mais racional.

Irrigai vossas terras

Para quem é novato no assunto, o básico: irrigação é a forma como a água é conduzida às plantas. Pode ser via canais, tubos, mangueiras… Diversos são os métodos existentes. Exemplos: é possível cavar sulcos ao longo das fileiras das plantações, e através deles a água será distribuída às diferentes áreas do cultivo. Também podem-se usar equipamentos como aspersores, microaspersores ou gotejadores – estruturas que, de diferentes maneiras, vão controlar o fluxo e o volume da água a ser administrada por aquelas terras.

“Com irrigação, adquire-se relativa independência em relação às condições meteorológicas”, diz Scanavaca. Não é só isso. A economia de água (que chega a aproximadamente 20%) e de energia (que pode atingir 30%) também torna os sistemas irrigados muito mais vantajosos. “Ao final das contas, eles resultam em acentuado aumento de produtividade”, assegura o engenheiro da Embrapa.

Existem 120 milhões de hectares agriculturáveis no Brasil – o equivalente a 111 milhões de campos de futebol. O problema é que, desse total, apenas 30 milhões têm condições favoráveis à instalação de métodos de irrigação. Engana-se, no entanto, quem imagina que o país aproveita esse potencial em sua plenitude. De fato, a estimativa mais otimista reza que menos de 6 milhões de hectares – dos 30 milhões disponíveis – são irrigados.

“A maioria dos países do mundo irriga, em média, 72% de suas terras agricultáveis”, contextualiza Scanavaca. O Brasil, segundo relatório da Agência Nacional de Águas (ANA), aproveita apenas 19% de seu potencial de irrigação.Diz-se frequentemente que a maior parcela da água doce usada no mundo é destinada a atividades agrícolas. E isso é verdade. Mas há uma diferença crucial entre países industrializados e aqueles ainda em desenvolvimento. Enquanto nos primeiros a maior parte da água é usada na indústria, nos segundos ela é direcionada, de fato, para a agricultura.

Tecnocratas em baixaÉ saudável que o debate sobre os descaminhos de nossos recursos hídricos seja conduzido em perspectiva não apenas técnica – mas também social. Gestores e tecnocratas apostarão suas fichas na ciência como via de salvação – uma redenção tecnológica – para um problema que, na verdade, também é regido por variáveis políticas e sociais.

“Podemos dizer que, no Brasil, nossa produção agrícola atua como uma espécie de dumping ambiental, em que se apresentam produtos abaixo do custo para eliminar a concorrência. Além disso, as externalidades negativas não são computadas, o que coloca em dúvida seu padrão de competitividade”, dispara o geógrafo José Gilberto de Souza, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro (SP). Em outras palavras: os preços cobrados pelos produtos vendidos em nossa agenda de exportações não contabilizam os reveses ambientais – entre os quais estão a poluição e o desperdício da água – acoplados ao nosso modelo agrário.

Bassoi: “Da agricultura familiar ao chamado agronegócio, todos os produtores podem e devem ser mais eficientes no uso da água”

Importante: não são apenas as grandes plantações que respondem pelo mau uso da água. “Da agricultura familiar ao chamado agronegócio, todos os produtores podem e devem ser mais eficientes no uso desse recurso”, diz Luís Bassoi.

O geógrafo da Unesp concorda: “Muitos agricultores chamados de ‘familiares’ desenvolvem um processo produtivo atrelado aos padrões do agronegócio; e os efeitos disso sobre a preservação e contaminação ambiental são tão severos quanto aqueles verificados entre os grandes produtores de commodities.”

Segundo Souza, a relação entre os pequenos agricultores e o mercado acontece em uma lógica de subordinação técnica, financeira e comercial. Pois eles são muitas vezes impelidos a comprar os chamados ‘pacotes’ ofertados pelas grandes empresas do setor – como Monsanto, Syngenta, Cargill e congêneres. Esses ‘pacotes’ são vendas casadas: incluem desde as sementes até os fertilizantes e os agrotóxicos que o agricultor deve aplicar nas culturas.

“Isso cria uma situação de exploração e espoliação das potencialidades agrícolas, isto é, da terra e da água, aos desígnios das grandes corporações que regem o setor agrário no Brasil e no mundo”, analisa Souza.

Na avaliação dos pesquisadores, o mau uso de nossa água – assim como a má gestão dos recursos naturais de modo geral – é mais um capítulo na trama socioambiental que se desenvolve no cenário da agricultura brasileira desde os idos da revolução verde.

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