Espécie híbrida pode ser nova ameaça para palmeira juçara

Espécie híbrida pode ser nova ameaça para palmeira juçara

Fábio de Castro – O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 22h 00

Para cientistas, a concorrência desigual entre as plantas pode fazer com que a espécie nativa perca espaço na Mata Atlântica

ELDORADO E MIRACATU (SP) – Pressionada há décadas pela extração ilegal de palmito, a palmeira juçara pode estar ameaçada por estratégias traçadas justamente para salvá-la. O principal exemplo é a espécie híbrida que surgiu da mistura entre a juçara e o açaí da Amazônia. Cientistas temem que a nova palmeira invada o espaço da juçara na Mata Atlântica. A concorrência desigual contribuiria com o desaparecimento da palmeira nativa.

A palmeira juçara, que no passado já dominou toda a paisagem da Mata Atlântica, hoje só é encontrada com relativa abundância no interior de unidades de conservação, em áreas de difícil acesso. Por produzir um palmito cujo sabor e textura são considerados insuperáveis pelo mercado, a juçara foi alvo de uma exploração predatória intensa por pelo menos 50 anos. De acordo com a Polícia Ambiental, entre 2009 e 2013, foram apreendidos no estado de São Paulo 98.279 unidades de palmito in natura e 87.672 vidros de palmito ilegais. Em 2014, até 17 de setembro, haviam sido apreendidas 12.828 unidades de palmito in natura e 14.161 vidros de palmito ilegal.

JF Diorio/Estadão
“Era palmito na canoa e dinheiro no bolso”, diz agricultor

Várias estratégias foram imaginadas para diminuir a pressão sobre a juçara, mas nenhuma delas parece ter sido capaz, até agora, de reduzir a avidez dos palmiteiros – como são chamados os membros dos grupos pagos para fazer corte ilegal das árvores. As alternativas mais defendidas atualmente são a substituição da juçara pela cultura de pupunha – uma palmeira da Amzônia – ou o manejo da juçara para a exploração de sua fruta, que é semelhante à nacionalmente conhecida polpa de palmeira açaí.

No entanto, uma das opções para preservação, colocada em prática há mais de 30 anos, é considerada por cientistas como uma potencial ameaça à própria planta que pretendia salvar: a criação de uma espécie híbrida entre a juçara e o açaí, outra palmeira amazônica.

A primeira experiência de hibridização foi feita no Vale do Ribeira, região com as áreas mais preservadas de Mata Atlântica e, consequentemente, onde ainda restam as maiores rerservas de palmito juçara. Em 1973, o agricultor Jorge Tuzino, de 90 anos, trouxe as primeiras mudas de açaí para o bioma. Depois de 12 anos de persistência, usando abelhas para a polinização, Tuzino criou o híbrido entre as duas plantas. Em 1999, com auxílio da organização SOS Mata Atlântica, ele abriu um centro de educação ambiental para difundir o novo palmito.

“Ao contrário da juçara, o açaí sobrevive à extração do palmito, porque tem múltiplos troncos. Meu híbrido produz um palmito claro e sem fibras, como a juçara, mas pode ser explorado de forma não predatória. Além disso, ele não produz sementes, só flores. Sendo estéril, ele não afeta a juçara e assim não prejudica a mata”, disse Tuzino.

Com cerca de 18 hectares, o Centro Tuzino é completamente tomado por palmeiras de juçara, de açaí e do híbrido. Segundo ele, o mesmo ocorre em sua outra propriedade, com 60 hectares. Ainda assim, ele acredita que iniciativa “não deu certo” e se diz amargurado. “Fiz tudo isso para preservar a palmeira juçara, porque sem ela, a Mata Atlântica não tem vida. Mas há anos os ladrões roubam tudo e eu estou desistindo”. Só nos últimos 15 meses, ele diz ter feito mais de 20 boletins de ocorrência de roubos de palmito. “Não adianta nada. Roubam até durante o dia. Cada quadrilha chega a cortar 5 mil palmeiras de uma vez”, diz.

Riscos e incertezas. Apesar das boas intenções de Tuzino, sua iniciativa é considerada temerária por cientistas que estudam a palmeira juçara do ponto de vista biológico e ecológico. Para Dalva Matos, porofessra de Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), ainda que não se reproduza, o híbrido pode ocupar o nicho ecológico da juçara.

“Se o híbrido for difundido, os inúmeros animais que se alimentam da fruta da palmeira juçara – e dispersam suas sementes pela floresta – passam a se alimentar do híbrido também. Isso diminui a dispersão da juçara, que nesse caso ficaria cada vez mais escassa. Além disso, o híbrido rebrota e tem vários caules, produzindo muito mais inflorescências. A competição com a juçara pode ser desigual”, afirmou.

Segundo ela, ninguém confirmou que o híbrido seja de fato estéril e há grandes incertezas sobre seus impactos na floresta. Matos participou dos estágios iniciais de um amplo estudo sobre os riscos ecológicos da hibridação entre juçara e açaí, coordenada pela cientista Marilene Leão Alves Bovi, do Instituto Agronômico (IAC). O insituto havia realizado estudos de hibridação na década de 1980. Mas o trabalho foi interrompido com a morte de Bovi no acidente do voo da Gol, que matou 156 pessoas na Amazônia em 2006. “Depois dessa tragédia não retomamos a pesquisa”, disse Matos.

As pesquisadoras também sofreram com o roubo de palmeiras. “Em 1973, o IAC organizou uma área de plantio de juçara para pesquisas. Em 1993 fomos coletar os dados para reavaliação, mas as palmeiras haviam sido roubadas e o trabalho ficou sem conclusão”, contou.

O IAC abandonou as pesquisas com juçara e híbridos e concentrou os esforços nos trabalhos com pupunha, de acordo com as pesquisadoras Maria Luiza Sant’Anna Tucci e Lilian Cristina Anefalos. “Nossas pesquisas confirmaram a possibilidade de que a pupunheira se tornasse um cultivo agrícola, como produtora de palmito”, afirmou Lilian.

Polpa de juçara. Para Pedro Brancalion, professor de silvicultura e espécies nativas da USP, o híbrido é uma aposta arriscada. “O risco de se utilizar o híbrido é que ele pode cruzar com o juçara nativo, gerando poluição genética. Ninguém sabe as implicações disso em longa escala”, disse. Brancalion disse não saber se o híbrido já ameaça a Mata Atlântica. “Que eu saiba, não se espalhou”, afirmou. Para ele a melhor solução para evitar a extinção da juçara seria mesmo a exploração da polpa da planta, em vez do palmito.

“Temos um projeto de manejo do juçara para produção de polpa. O fruto da juçara produz uma polpa tão boa quanto a do açaí, mas com valor nutritivo maior”, afirmou. Segundo ele, a exploração ilegal do juçara é feita por pessoas em condição social extremamente desfavorecida – em especial no Vale do Ribeira, que é a região mais pobre do estado de São Paulo. “Em uma semana de trabalho, essas pessoas ganham um bom dinheiro ilegal, apesar dos riscos. É uma combinação de problema social, vulnerabilidade da planta e leniência do Estado”, disse.

Um dos trabalhos orientados por Brancalion trata do manejo de juçara para produção de frutas. Foram estudadas parcelas com populações de palmeiras juçara em diversos graus de conservação. “Como já esperávamos, nas áreas manejadas pela comunidade encontramos uma população de juçara muito mais densa que dentro das próprias unidades de conservação”, disse. Isso acontece porque, segundo ele, porque quando há acesso livre a um recurso, há uma competição por ele. “Assim a maior parte da comunidade tendia a entrar no parque e roubar o palmito. Mas quando temos uma área protegida por um particular, ela tende a ser melhor conservada”, disse.

Com isso, foi possível concluir que a integração do manejo comunitário pode ser importante para conservar a espécie. “A fronteira artificial da unidade de conservação é ineficiente para proteger a palmeira. É importante fazer as pessoas ganharem dinheiro com a conservação”, disse. Assim, a exploração da polpa da fruta pelas comunidades locais poderia proteger a palmeira. “Em vez de contratar guardas, sugerimos a estratégia de contratar membros das comunidades para que usem as sementes que sobram da extração da polpa para fazer o repovoamento da juçara dentro dos parques”, explicou.

Existem experiências de manejo do juçara para produção de polpa em diversas comunidades de diferentes pontos da Mata Atlântica, como nas cidades paulistas de Sete Barras e Bairro do Turvo, no Vale do Ribeira, assim como em São Luís do Paraitinga, no Vale do Paraíba. Em Ubatuba (SP), no litoral norte, há cooperativas que produzem a polpa e fornecem para a merenda de escolas da região.

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