A falácia do Brasil dividido em dois após as eleições presidenciais

A falácia do Brasil dividido em dois após as eleições presidenciais

Tomar o número de votos válidos do segundo turno das eleições presidenciais para sentenciar a divisão do país em dois, os a favor e os contra, é um dos mais grosseiros erros de análise que se pode incorrer.

Em primeiro lugar há que se considerar que o segundo turno das eleições reduz todo o espectro político e as inúmeras aspirações e convicções da população a apenas duas opções: candidato A ou candidato B.

A ou B, branco ou negro, alto ou baixo, católico ou evangélico, Esporte Clube Ypiranga ou ABC Futebol Clube? Escolha dentre opções binárias como essas estão longe de representar ou caracterizar o que de fato seja ou deseja intimamente cada brasileiro.

Outro exemplo. Todo desrespeito às leis deve ser punido e em cada julgamento o júri somente decidirá se o réu deve viver ou morrer. Esse seria um sistema justo? Nele, parar em cima da faixa de pedestre seria forca na certa. Pisar na grama também.

Assim como esse sistema não se adequaria ao ideal de justiça, também não corresponderia ao que cada brasileiro pensa sobre a pena adequada a cada delito.

 

Verdade ocultada

A escolha forçada entre duas opções disponíveis ocasiona distorções e pode ser manipulada para ocultar a verdade. Por isso o resultado do segundo turno das eleições presidencias não serve como parâmetro para concluir que uma metade do Brasil é a favor disso e que outra metade é contra isso tudo.

Há que se considerar inicialmente que nas eleições são computados apenas os votos válidos. Por conta disso, os não válidos e ausentes, 37.279.773 brasileiros, são ignorados – gerando mais distorções no resultado binário.

Como a justiça eleitoral conta apenas os brasileiros eleitores, outros mais 60.513.158 de brasileiros – não eleitores – engrossam a lista dos não computados.

Por essas distorções, Aécio e Dilma juntos receberam 105.542.273 votos de brasileiros que se manifestaram nas urnas sobre um ou outro projeto de governo – apenas metade dos 203.335.204 brasileiros que somos. A votação de um ou de outro representaria apenas ¼ da população. Juntos, seus 2/4 seriam apenas cômodos da imensa casa Brasil.

Contudo, com base nesses dados a análise ainda continua incorreta.

 

Fiel da balança

Para uma análise acertada sobre como está dividido o eleitorado nacional a base de dados deve ser o resultado do primeiro turno das eleições, no qual havia onze candidatos em nome de diferentes propostas de governo.

Dilma obteve 41,59% dos votos válidos, que representavam 30,29% do total de eleitores, ou apenas 21,28% do total de brasileiros. Aécio recebeu 33,55% dos votos válidos, que representavam 24,43% do total de eleitores, ou apenas 17,16% do total de brasileiros (Tabela abaixo).

 

 

 

Dizer que os 21,28% de brasileiros que escolheram Dilma como primeira opção e que os outros 17,16% que fizeram o mesmo com Aécio dividem o país ao meio e geram problema de governabilidade é um grande equívoco. Talvez uma enorme falácia, pois os outros 61,56% da população brasileira são deixados de fora dessa equação. Os votos de ambos no segundo turno, mesmo sendo inchados por consequência do sistema binário, representam 51,90%, pouco mais da metade do total da população.

 

Se tornando um adulto

Outra coisa nessas eleições é a necessária maturidade para aceitar e elaborar internamente a frustração de não ter seu candidato eleito. É na infância que o indivíduo começa a aprender a lidar com a frustração através dos inúmeros “nãos” e limites que recebe dos pais. Não pode comer só doces, só brincar, ganhar todas as vezes e ter tudo que deseja. Quando adulto idem.

Não aceitar a escolha da maioria, não aprender a lidar com a frustração de seu candidato não ganhar e não conseguir lidar com a vitória daquele escolhido por outros é sintoma de pouca capacidade em tolerar frustrações e aceitar diferenças. Isso leva à intolerância nas mais diversas formas de manifestação: religiosa, étnica, sexual, cultural etc. e está na base da maioria dos comportamentos agressivos.

No mundo dos adultos, num país democrático como o nosso, vence a maioria constatada pelo sistema eleitoral, os 50% +1. Por mais imperfeito que seja o sistema é o praticado em diversos países. Ou os opositores da vontade da maioria preferem uma ditadura?

 

Distorções cognitivas

Essa imaturidade em lidar com a frustração de nossos desejos também gera distorções cognitivas.

Veja, se um vendedor tenta lhe convencer a comprar um produto e você se recusa por preferir o de outro, seria coerente o raciocínio do vendedor chamar-lhe de burro ou mal informado por não querer aquilo que ele oferece? O pouco inteligente, nesse exemplo, é quem não compra ou quem não consegue convencer o outro a comprar.

Se na eleição de seu condomínio, na eleição de seu conselho profissional, de sua associação de moradores, clube, serviço etc. teria lógica o candidato A e seus simpatizantes julgarem os eleitores do candidato B menos inteligentes por não escolherem o primeiro? Se isso fosse verdade o candidato A seria ainda menos, tamanha incompetência em não conseguir convencer os já pouco inteligentes eleitores de B.

Considerar que as escolhas levam em consideração ou são determinadas por apenas um aspecto da situação ou do indivíduo é uma absoluta falta de entendimento da vida real e do psiquismo humano.

Tal qual no exemplo do vendedor, se a lógica do “você não compra meu produto porque é burro” fosse verdadeira, uma vez que há muito mais produtos no mercado do que as pessoas podem comprar, muitos perceberiam que são bem menos, bem menos, muito menos inteligentes do que imaginam.

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