‘Tráfico infantil está ligado à globalização’

Entrevista. Kailash Satyarthi, ativista indiano premiado com o Nobel da Paz

Segundo fundador de ONG que libertou mais de 80 mil crianças, nunca houve tantos escravos – são 35,8 milhões

‘Tráfico infantil está ligado à globalização’

ADRIANA CARRANCA

ENVIADA ESPECIAL / LONDRES

23 Novembro 2014 | 02h 00

Kailash Satyarthi exibe na pele as marcas de sua luta para libertar milhares de crianças do trabalho forçado e da escravidão na Índia. Ao desafiar sequestradores, traficantes e empresários, foi espancado, teve uma das pernas, duas costelas e um osso do ombro quebrados. A cicatriz na cabeça é de um golpe que levou em uma ação para resgatar crianças de uma mina de exploração de cristais. Dois amigos que trabalhavam com ele foram assassinados – um a tiros e outro foi espancado até a morte.

Satyarthi tinha 5 anos quando se viu pela primeira vez diante da exploração da mão de obra infantil: um menino da mesma idade que engraxava sapatos na porta de sua escola. “Por que eu usava sapatos e ele, descalço, tinha de engraxá-los? Por que eu podia estudar e ele era impedido de entrar na escola?”, disse Kailash em entrevista ao Estado, em Londres, onde esteve para a Conferência Trust Women sobre escravidão moderna. “Diziam-me que era um menino pobre, que precisava ajudar a família e isso era comum. Mas não me convenceram, eu queria saber por quê.”

Aos 60 anos, a mesma pergunta ainda inquieta o ganhador do Prêmio Nobel da Paz deste ano cada vez que um novo caso chega a suas mãos. Em 1976, Satyarthi fundou a organização Bachpan Bachao Andolan (Movimento para Salvar a Infância), que já libertou 80 mil crianças. Um dos destaques de sua atuação foi a liderança na Marcha Global contra o Trabalho Infantil em 1998, quando as manifestações mobilizaram crianças libertadas em mais de 60 países e chegaram à sede da ONU, em Genebra. Satyarthi já coordenou invasões em diversas fábricas ilegais de tapetes durante a década de 90. Também ajudou a criar um selo de responsabilidade social que fiscaliza a produção no sul asiático, certificando que produtos exportados estão livres de trabalho infantil.

Gentil, de fala suave e sorriso fácil, ele pede um pacto por um mundo livre da escravidão infantil, “um dos maiores pecados da humanidade”. A seguir trechos da entrevista.

O que o senhor, um indiano, achou de dividir o prêmio Nobel com a paquistanesa Malala Yousafzai. Acha possível estabelecer a paz entre seus países, envolvidos em um conflito antigo?

Fiquei muito emocionado e acho que o comitê foi muito feliz na escolha de Malala, porque ela é uma menina corajosa e brilhante e o que faço – e o que todos nós temos de fazer – é encorajar crianças e jovens, muitas vezes vítimas de opressão. Garantir a elas as ferramentas e o ambiente necessário para que possam transformar o mundo. Malala é muito jovem, tem muito mais tempo do que eu para colocar em prática essa transformação em seu país e no mundo. Sendo uma menina, é ainda mais importante para as sociedades patriarcais do Sul da Ásia. São as novas gerações que construirão a paz.

O senhor falou com Malala?

Sim. Conversei com ela ao saber do prêmio. Nós falamos sobre como levar ao conhecimento do mundo os problemas de nossa região e concordamos em trabalhar juntos para encontrar soluções. O primeiro passo é criar uma Índia e um Paquistão onde nenhuma criança seja submetida à opressão, ao terror, ao trabalho forçado, à pobreza. Nós temos um objetivo comum: garantir que todas as crianças estejam na escola. Este é o primeiro passo para um futuro de paz. E este passo tem de ser dado agora.

Qual é o seu objetivo agora como Nobel da Paz?

Gostaria de ver um mundo livre da escravidão e do trabalho infantil. Há hoje no mundo 5,5 milhões de crianças traficadas como animais, escravizadas, mantidas em cativeiros nas condições mais deploráveis, submetidas a situações de violência e conflitos. Crianças que tiveram a infância roubada. O número de crianças traficadas nunca foi tão alto e isso tem ligação direta com o processo de globalização. É inaceitável que 35,8 milhões de pessoas estejam escravizadas no mundo hoje, incluindo as crianças – o maior número da história.

Quanto movimenta hoje o tráfico de pessoas?

Estima-se que o tráfico de pessoas movimente US$ 150 bilhões no mundo. Não se trata de um problema regional. Governos, empresários, ativistas, homens da lei, todos temos de nos unir para libertar o mundo da escravidão moderna. O número de crianças que trabalham pode chegar a 190 milhões em 2020. Sugiro um pacto por um mundo livre do trabalho infantil e da escravidão. Temos de ser incansáveis nessa luta.

O que levou o senhor a desistir da engenharia e a fundar uma organização para libertar crianças do trabalho forçado e da escravidão?

Eu amo o que eu faço. Cada vez que liberto uma criança, me liberto também. Toda vez que vejo o primeiro sorriso de uma criança que acaba de ser resgatada, posso enxergar o sorriso de Deus no sorriso dela. É um trabalho divino.

O senhor nasceu em uma família modesta. A sua infância determinou seu futuro?

A minha infância, não. Mas eu me lembro do meu primeiro dia de escola. Eu tinha 5 anos e havia um menino da minha idade sentado nos degraus que levavam à porta de entrada. Ele era engraxate e estava olhando para nós, esperando que parássemos para ele engraxar nossos sapatos e ganhar algum dinheiro. Tínhamos sapatos novos, livros novos, sonhos novos. Fiquei angustiado. Por que eu tinha sapatos e ele, descalço, tinha de engraxá-los? Por que eu estava indo estudar e ele era impedido de entrar na escola? Eu perguntei ao diretor, depois ao meu pai e, mais tarde, ao pai do garoto. Eles me diziam que o menino precisava ajudar sua família, mas não me convenceram. Isso determinou a minha infância. Passei a recolher livros usados para crianças carentes e conseguir doações para ajudar em seus estudos. Também venho de uma família modesta, meu pai era policial e minha mãe era dona de casa. Mas eu achava que tinha de fazer o melhor e me superar nesse sentido.

O senhor mencionou que aspectos da pobreza variam em diferentes países. A pobreza na Índia ainda é determinada pelo sistema de castas?

Sim, definitivamente. O sistema de castas ainda está profundamente enraizado na Índia. Os políticos locais tiram proveito eleitoral dessa característica indiana. A descriminação social e a desigualdade econômica, resultado desse sistema, somam-se para privar crianças de educação ou, pelo menos, da educação de qualidade e não lhes deixa alternativa, a não ser o trabalho infantil e, muitas vezes, a escravidão. O sul da Ásia é uma das regiões onde a condição das crianças, especialmente das meninas, é mais grave, mas não é a única. Vale ressaltar que esse é um problema e uma luta de todos nós.

O senhor ajudou a libertar 80 mil crianças. Há 38,5 milhões de pessoas escravizadas hoje no mundo. Como organizações, governos e civis, como o senhor disse, podemos ajudá-lo nessa luta contra a escravidão moderna e o trabalho infantil?

Eu não sou um herói. O apoio deve ser também dado a muitas pessoas que estão lutando contra o trabalho e a escravidão infantil. Qualquer pessoa comum pode se tornar um Kailash Satyarthi. Precisa apenas de um pouco mais de coragem, um pouco mais de ação, um pouco mais de iniciativa. Precisa dar um passo a mais e entender que se não eu, então, quem? Qualquer pessoa pode fazer mais do que eu fiz e há muitas pessoas ao redor do mundo fazendo um trabalho bonito. São pessoas invisíveis.

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