Jovens laicos se tornam radicais em prisões da Europa

Adriana Carranca – O Estado de S. Paulo

Jihadistas recrutam detentos ligados a pequenos crimes, com acesso a armas e justificam tráfico de drogas ‘por uma causa’

A resposta à pergunta sobre por que milhares de jovens europeus têm ingressado em grupos terroristas – a estimativa mais conservadora é de que 1 mil franceses estejam com o Estado Islâmico (EI) – pode estar nas prisões da Europa. A nova geração de jihadistas, da qual os irmãos Said e Chérif Kouachi (mortos após ataque ao Charlie Hebdo) são parte, tem em comum um passado de envolvimento com gangues, delitos e detenções.

É entre os muros e grades do sistema prisional de países como França e Inglaterra – e também nos EUA – que muitos estão se convertendo ao Islã (ou reafirmando sua fé) e adotando a ideologia radical de grupos como o EI, influenciados por extremistas presos com eles. É no sistema prisional que muitos têm o primeiro contato com redes que mais tarde facilitarão sua ida para Síria, Iraque, Iêmen, Afeganistão, ou serão cooptados para ataques em solo europeu e americano.

“Esse recrutamento ocorre de ponta a ponta da Europa. Por conversas que tive e fotografias que vi em posse deles, não resta dúvida de que os grupos que atuam na Inglaterra têm conexões fortes com redes de países como França, Alemanha, Bélgica”, disse ao Estado o documentarista Raphael Rowe, de From jail to jihad (Da prisão para jihad), exibido pela rede BBC. Rowe passou oito meses infiltrado entre extremistas que estão cooptando jovens para o terrorismo dentro das prisões.

Foi na prisão que Chérif se radicalizou, sob influência de outro detento: Djamal Beghal, considerado o homem designado pela Al-Qaeda para abrir uma frente terrorista na Europa – a começar por um ataque contra a embaixada americana em Paris. Ele foi detido no início de 2001 acusado de ter recrutado jovens como o britânico Richard Reid, que tentou explodir um avião na rota Paris-Miami com um sapato-bomba três meses depois do 11/9.

Beghal, de origem argelina como os irmãos Kouachi, declarou ter formado uma rede de células terroristas que se estendia à Grã-Bretanha, França, Alemanha e Espanha. Nos dez anos em que esteve preso, ele propagou sua ideologia extremista – tão radical que teria levado Osama Bin Laden a classificá-lo como “sem limites” e a afastar-se dele, segundo a Justiça britânica.

Ele teria conhecido Chérif na prisão em 2005, contato que levaria o jovem ao Iraque, após serem libertados. Em 2010, pouco antes da viagem, os dois foram fotografados juntos por autoridades francesas jogando futebol em Cantal, sul da França.

Beghal também teria sido a ponte entre seu irmão, Said, e a Al-Qaeda no Iêmen, em 2011, onde recebera treinamento militar, segundo fontes americanas. Foi também o homem que cooptou Amedy Coulibaly, cúmplice dos irmãos Kouachi morto pela polícia após fazer reféns em um mercado judaico. Coulibaly, segundo jornal Parisien, se encontrou com o ex-presidente Nicolas Sarkozy em 2009, como um exemplo em um programa de ressocialização de criminosos.

A trajetória para o Islã radical na Europa frequentemente começa com um pequeno crime, que joga jovens no sistema prisional, onde se tornam presas fáceis de grupos jihadistas. “A população carcerária é a mais vulnerável e traz a vantagem de ter conexões no submundo do crime: eles conhecem os caminhos de acesso a armas e dinheiro. Eles são o alvo mais facilmente manipulado”, diz Rowe.

Para esses jovens, o Islã se tornou o novo anti-establishment, a exemplo do movimento que levou negros como Malcom X a se converter nas prisões americanas nos anos 1960, como forma de protesto contra a supremacia branca cristã. “Eles passaram a ver o Islã como a nova ordem para desafiar as autoridades”, afirma Rowe.

Ismael Lea South, britânico de origem caribenha que foi convertido na prisão, alerta para outro perigo: segundo ele, os extremistas já começam a dominar o tráfico de drogas na Europa para levantar fundos para a jihad. “Eles convencem esses jovens de que continuar no tráfico não é contra o Islã porque se justifica na guerra contra os opressores”, disse South ao Estado. “Gangues inteiras da Inglaterra estão se convertendo.” South, ex-integrante de uma gangue em Londres, fundou o Salam Project (Projeto Paz) para tentar resgatar jovens radicalizados nas prisões. “O Islã é uma religião pacífica”, diz.

Uma das táticas adotadas por autoridades britânicas e francesas contra o recrutamento é transferir acusados de converter e cooptar jovens nas prisões para outras unidades – antes que consigam formar uma rede de seguidores -, mas isso pode estar espalhando mais ainda o discurso radical pelo sistema prisional.

“Eu diria que 85% dos presos são jovens pobres, que vêm de famílias desestruturadas, largaram a escola. O que esses extremistas estão oferecendo é uma nova família, um novo estilo de vida e a mesma fraternidade das gangues, mas em torno de uma ideologia maior. Eles propagam a jihad como o ‘extremismo correto’, enquanto o crime seria o ‘extremismo errado’. É isso que está convencendo esses jovens a lutar na Síria.”

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