Crise na Europa entra no sétimo ano

Problema com bancos virou crise social, com impacto nas famílias e projeções de que bloco levará 5 anos para voltar aos indicadores de 2007

JAMIL CHADE

ENVIADO ESPECIAL / BARCELONA

04 Janeiro 2015 | 02h 03

A Europa entra em seu sétimo ano de crise e, se o Produto Interno Bruto (PIB) deixou de sofrer uma forte contração, o continente substituiu a recessão por uma longa estagnação, sem data para terminar. No ritmo atual, as próprias projeções da União Europeia indicam que o bloco apenas voltará a ter os índices econômicos de 2007 em 2020.

Em sete anos, o que era uma crise dos bancos virou uma crise social, com políticas de austeridade tendo um impacto profundo numa sociedade que há décadas não sabia o que era uma crise.

Com as projeções de que a estagnação vai continuar, o que se observa é um novo rosto da Europa, redefinida ao longo dos anos pela crise. Famílias mudaram de comportamentos, governos mudaram de hábitos e empresas mudaram de estratégias, redesenhando a Europa.

Para a Unicef, as famílias europeias deram “um grande salto para trás” desde 2008. Hoje, a renda média das famílias no Reino Unido regrediu em seis anos. Na Grécia, as famílias voltaram ao que ganhavam há 14 anos. Na Espanha e na Irlanda, a perda foi de dez anos, contra oito na Itália.

“Muitos países afluentes sofreram um grande salto para trás em termos de renda familiar”, disse Jeffrey O’Malley, representante da Unicef. “O impacto será de longa duração para as crianças e para as comunidades onde vivem.”

Para este ano, a previsão da Comissão Europeia é de que o bloco vai crescer apenas 1,1%, pouco acima de 2014. “Teremos um sopro de ar fresco. Mas ainda não ventos fortes”, disse o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, num discurso coordenado entre líderes que tentam convencer, sem sucesso, suas populações de que a crise já acabou.

Para crescer, o bloco vai investir US$ 381 bilhões na esperança de relançar a economia, enquanto o Banco Central Europeu também indicou que pode fazer mais uma injeção de recursos. Mas dados industriais de dezembro já ficaram abaixo da previsão.

Não são poucos os analistas e entidades que já comparam a estagnação da Europa a uma repetição do cenário do Japão, que não conseguiu voltar a crescer por mais de uma década. Para a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Europa corre o “sério risco de viver uma armadilha da estagnação”.

Ao tentar ajustar sua dívida, os cortes impedem investimentos que, por sua vez, afetam o consumo e o crescimento. Esse ciclo prolongaria uma estagnação sem fim, ao ponto de o Fundo Monetário Internacional (FMI) também soar o alerta.

Para economistas, a realidade é que os instrumentos usados pelos governos se esgotaram. “Diante de altas dívidas, a política monetária parece ter uma tração limitada”, alertou Stephen King, economista-chefe do banco HSBC. “Com taxas de juros zero e depois de anos de iniciativas dos BCs, existem poucos sinais de que está ocorrendo um crescimento dos créditos na economia e é cada vez mais difícil de ignorar os ecos do Japão”, apontou.

“O crescimento da zona do euro foi frustrante em 2014 e o desempenho econômico nos próximos meses deve continuar baixo”, indicou o UBS, em nota aos investidores. O resultado tem sido o crescimento da percepção de que uma deflação pode atingir o continente, justamente como no Japão.

Para Stephen Fidler, da MarketWatch, existe apenas uma certeza em 2015: a Europa estará “um ano mais perto de completar sua década perdida”.

Desemprego alto derruba natalidade na Espanha

Taxa caiu 18% desde o início da crise econômica

BARCELONA – Com uma taxa de desemprego que afeta metade dos jovens, a Espanha registra uma mudança profunda em suas famílias. Desde 2008, quando a crise começou, a taxa de natalidade do país foi reduzida em 18%.

Casais que sofreram a redução de salários também foram afetados pelo fim dos benefícios sociais que o governo dava para cada filho nascido. Em 2007, o Estado estabeleceu um apoio de A 2,5 mil a cada família para aumentar a renda nos primeiros meses de vida do novo integrante.

Porém, a assistência desapareceu com os cortes de gastos em 2011 e, logo depois, foram os salários que desabaram. Hoje, uma família espanhola recebe apenas A 49 por mês em assistência social para cada filho, ante mais de A 300 na Alemanha.

Susana Vera/Reuters

Sem apoio do governo e diante de uma crise que não tem data para acabar, os planos de gravidez foram postergados. “Não há como pensar em ter filhos se não sabemos nem se vamos ter emprego”, disse Maria Gimenez, gerente de projetos em uma empresa de publicidade. Com 28 anos, ela confessa que está esperando “melhores dias” para ficar grávida.

Em 2013, apenas 425 mil crianças nasceram na Espanha, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE). Em 2008, 519 mil tinham nascido no país, 94 mil a mais. Apenas entre 2012 e 2013, a redução foi de quase 7%. Como resultado, o crescimento vegetativo da população espanhola – a diferença entre nascimentos e mortes – foi reduzido em 30% e hoje está em seu nível mais baixo desde 2000.

Parte da queda da taxa de natalidade é uma tendência mais geral da sociedade europeia. Mas, no caso da Espanha, a redução acentuada é explicada pelo desemprego. “Para cada aumento de 1% da taxa de pessoas sem trabalho, a taxa de natalidade cai em 0,1%”, indicou um estudo do Instituto Max Planck.

Outra constatação é de que as mães espanholas são cada vez mais velhas. A idade média para a primeira gravidez chega a 32,2 anos, ante 31,6 em 2012. Entre as mães estrangeiras – muitas delas imigrantes econômicas –, a taxa de natalidade também caiu. “Existe uma relação direta com a crise”, disse Nelson Restrepo, presidente da Federação Estatal de Associações de Imigrantes. “A crise afetou os imigrantes. Muitos estão sem trabalho ou ganhando salários muito baixo e isso influencia em todo o planejamento familiar.”

Para o INE, se a crise demográfica for mantida, existe um risco de que, em dez anos, a população espanhola seja 5,6% inferior aos números de 2013.  J.C.

Jovens evitam gasto com casamentos na Itália

Alto custo reduziu ainda divórcios no país

A crise econômica afetou até mesmo uma antiga instituição da Itália, um dos centros do catolicismo mundial: o casamento. Dados oficiais do governo mostram que, em 2013, 200 mil bodas a menos foram realizadas em comparação com 2012 – a menor taxa desde a Primeira Guerra Mundial.

Especialistas apontam que a tendência de realizar o casamento entre jovens já vinha caindo. Mas, desde 2008, quando a crise ganhou uma dimensão social, a redução foi ainda mais dramática, ao ponto de chegar “ao nível mais baixo da história moderna” do país.

Max Rossi/Reuters

Em apenas dez anos, a queda já é de 24%. Em comparação com o ano de 1965, a redução é de 65%, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas da Itália, o Istat.

“A queda vai muito além das previsões que haviam sido feitas”, confirmou o presidente da entidade, Antonio Golini. Segundo ele, existem fatores culturais que explicam a redução, como a decisão de milhares de jovens de não se casar na Igreja e deixar de ter registros oficiais. “Mas existem causas econômicas”, alertou. “Realizar um casamento representa custos e, numa crise, as pessoas não contam com recursos extras para isso.”

O problema, porém, não é apenas a festa. Hoje quase metade dos jovens na Europa entre 18 e 30 anos continuam vivendo com seus pais, diante da falta de uma renda suficiente para o sustento próprio.

A Itália se transformou no maior exemplo europeu de uma decadência econômica prolongada. Neste ano, o país terá um PIB inferior ao que tinha em 1999. Na imprensa italiana não são poucas as reportagens que, nos últimos meses, relatam como a crise está afetando outro costume entre os homens italianos: o galanteio.

Pesquisas em sites de encontros na internet revelam que os homens têm dispensado cada vez mais o envio de flores e presentes. “Os homens italianos estão cada vez menos românticos”, declarou Mariangela Chimienti, do site Cdate. “Notamos que, antes, os homens convidavam as mulheres para jantar e davam flores. Hoje, convidam para andar pelo parque e para um café”, disse.

O outro lado da moeda da crise é que os divórcios caíram em mais de 35% desde 2008. Mas não porque os casais estão mais em paz. O motivo da queda é, acima de tudo, financeiro. Muitos casais não conseguiriam sobreviver sozinhos em casas próprias. Além disso, o processo judicial na Itália para um divórcio é um dos mais longos e caros da Europa. / J.C.

Grécia voltou a ter casos de malária

Seis anos de recessão atingiram a saúde pública

Na Grécia, seis anos de recessão e de cortes nos gastos públicos não apenas deixaram uma população humilhada, mas também mais doente. A malária, que havia desaparecido há 40 anos, voltou. O número de casos de aids e de tuberculose explodiu e a mortalidade infantil aumentou.

Os dados foram publicados em 2014 pela revista médica The Lancet, uma das principais referências em termos de saúde no mundo. Para os autores do informe, o que ocorre na Grécia é uma “tragédia pública”.

Os gregos são informados desde meados de 2014 de que, cada vez mais, a economia caminha para uma direção favorável e que, neste ano, o crescimento será recuperado. Mas o documento produzido pela Universidade de Cambridge revelou que houve alta no número de demandas de atendimento no setor público, justamente quando os cortes foram mais profundos.

Yorgos Karahalis/Reuters

Os problemas psiquiátricos explodiram e casos de depressão quase triplicaram de 2008 a 2013. Entre 2010 e 2012, o número de pessoas procurando atendimento aumentou em 120%, no mesmo momento em que houve um corte de recursos de 70% para o setor. No mesmo período, os suicídios avançaram em 45%.

A aids também registrou forte progressão. Em 2009, apenas 15 novos casos foram registrados oficialmente no país. Em 2012, eles eram 484. Para os pesquisadores, isso foi resultado da interrupção do governo na distribuição de preservativos e seringas descartáveis. A incidência de tuberculose entre usuários de drogas mais que dobrou em 2013 e, sem dinheiro para programas de prevenção e de spray, a Grécia viu a volta do mosquito da malária. O último caso da doença havia sido registrado nos anos 70.

A mortalidade infantil, que vinha sofrendo queda constante desde os anos 1950, voltou a aumentar em 43% entre 2008 e 2010. A Lancet aponta ainda que o número de crianças que nasceram mortas aumentou em 21% entre 2008 e 2011. O motivo: o acesso cada vez mais reduzido a programas de pré-natal.

Os seis anos de recessão ainda fizeram o número de pessoas sem programas privados de seguro-saúde aumentar de 500 mil em 2008 para 2,3 milhões no início de 2014. Enquanto isso, o orçamento público para os hospitais caiu 26% e o dinheiro usado para distribuir remédios foi cortado de 4,3 bilhões em 2010 para 2 bilhões em 2014, a pedido do FMI e da UE.

Com pedágios, férias em casa

900 km de estradas ganharam praças de cobrança

Num esforço de garantir uma maior arrecadação ao Estado, Portugal decidiu não apenas elevar impostos desde 2008, mas também aumentar o valor do pedágio na rede de estradas que foi construída no país nos últimos 20 anos. O resultado: os carros desapareceram.

A elevação dos encargos começou a distorcer os custos de viagem. Hoje, quem viajar da capital Lisboa para a cidade do Porto vai gastar cerca de 36 em gasolina para percorrer os cerca de 300 quilômetros, e deixará outros 22 em pedágios.

Dados oficiais do Instituto de Infraestruturas Rodoviárias sobre a Rede Nacional de Autoestradas indicam que, em algumas das estradas, a redução de circulação foi de 50% apenas no ano de 2010, seguindo desde então quedas acima de 10%.

O efeito tem sido um número cada vez maior de pessoas e empresas buscando alternativas, seja pelas estradas secundárias deixadas pelo regime de Salazar ou simplesmente evitando viajar.

Jose Vicente

Portugal recebeu um pacote de ajuda de 78 bilhões da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para evitar um colapso. Mas, em troca, adotou uma política de austeridade que transformou o país no “bom aluno” da Europa.

Entre os cidadãos, porém, essa decisão das autoridades significou mudar seu comportamento, até mesmo ao sair de férias ou se movimentar pelo país – 900 quilômetros de estradas que não tinham pedágios passaram a ter a cobrança.

No ano passado, as escolas identificaram uma alta no número de alunos que, em pleno período de férias de verão, frequentaram a escola uma vez por dia para se alimentar, enquanto os pais trabalhavam. Outra constatação é de que famílias têm usado cada vez mais os bônus ou subsídios de férias para pagar suas contas.

Segundo o Observador Cetelem, ligado ao Grupo BNP Paribas, cerca de 83% dos portugueses passaram as suas férias em Portugal em 2014.

Desse total, 57% passaram as férias no local de residência – ou seja, em casa. Desses, 45% admitiram fazê-lo por falta de disponibilidade financeira.

Já em 2012, a entidade Inrix, que monitora o fluxo de tráfego pelo mundo, constatou que Portugal era líder no que se refere à queda do trânsito nas estradas.

A redução apenas naquele ano havia sido de 44%. “Para onde vai o tráfego vai a economia”, declarou Stuart Marks, vice-presidente da entidade.

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