Sauditas e Catar deram US$ 3 bilhões por ano a grupos fundamentalistas.

Wahabismo, ala mais radical do Islã criada para combater xiitas, inspira EI e Al-Qaeda

Adriana Carranca

Como ocorre com os muçulmanos em oração, a atenção se volta para Meca quando especialistas tentam explicar a disseminação do extremismo e o fenômeno da jihad global. O motivo é que lá nasceu uma doutrina austera sunita disseminada pela Arábia Saudita como parte de um projeto de domínio contra os xiitas do Irã, inspirando grupos terroristas como o Estado Islâmico (EI) em todo o mundo.

A monarquia do rei Abdullah – e, mais recentemente, o Catar – teria investido desde a década de 70 cerca de US$ 3 bilhões por ano, segundo estimativas de diferentes fontes, para financiar a formação e exportação de xeques e a construção de escolas religiosas (madrassas), universidades, centros islâmicos, mesquitas, fundações e instituições missionárias em todo o mundo para disseminar o wahabismo, a vertente mais radical do Islã.

Também financiou a produção de material doutrinário em várias línguas para alcançar algo como 1 bilhão de pessoas, da população total de 1,6 bilhão de muçulmanos, que vivem fora do mundo árabe.

Gerações de muçulmano dos EUA à Ásia, cresceram sob a influência do que o escritor Stephen Schwartz, autor de Two Faces of Islam: The House of Saud from Tradition to Terror (As duas faces do Islã: a Casa de Saud da tradição ao terror, em tradução livre), descreve como uma “perversão do Islã pluralista praticado pela maioria dos muçulmanos”.

Uma doutrina sectária e intolerante que, segundo Schwartz, não é apenas contra o cristianismo e judaísmo, mas também contra outras vertentes do Islã como o xiismo, o sufismo e até o próprio sunismo moderado.

A ligação do reino saudita com grupos como a Al-Qaeda é conhecida do Ocidente. O rastreamento das conexões de redes terroristas responsáveis pelos atentados mais letais das últimas décadas – 15 dos 19 terroristas do 11 de Setembro eram sauditas – apontava para Riad, que teria financiado combatentes contra o governo xiita do Iraque e o de Bashar Assad, da Síria, aliado do Irã; combatentes que mais tarde formariam o EI.

“A Arábia Saudita permanece uma base de apoio financeiro fundamental para a Al-Qaeda, o Taleban, o LeT (Lashkar-e-Tayyiba)”, afirma telegrama diplomático de 2009, interceptado pelo WikiLeaks, a então Secretária de Estado americano, Hillary Clinton.

Mudanças. Pressionado pelos EUA e agora ameaçada pelo mesmo movimento que ajudou a criar – a Al-Qaeda e o EI prometeram derrubar o regime saudita – o rei Adbullah começou a promover reformas para reduzir o fluxo de dinheiro. No ano passado, a Arábia Saudita deu US$ 100 milhões ao programa antiterror da ONU e colocou o EI e outros grupos, como a Irmandade Muçulmana, em uma lista de terroristas.

No entanto, a influência exercida pelo wahabismo continua a ressoar nas mesquitas e madrassas de todo o mundo – e a abastecer as linhas de combate de grupos como o EI, na Síria e Iraque, Al-Qaeda e Taleban, no Afeganistão e Paquistão, Al-Qaeda na Península Arábica, no Iêmen, Boko Haram, na Nigéria, Al-Shabab, na Somália, e Jemaah Islamyiah, na Indonésia, Malásia e Filipinas.

Parte do financiamento viria do zakat (imposto) que deve ser pago por todos os sauditas, no valor de 2,5% de seu rendimento, para instituições de caridade, algumas delas banidas pelos EUA. Em junho de 2013, relatório do Parlamento Europeu apontou o envolvimento de organizações wahabitas e salafistas fora do Oriente Médio no “apoio e fornecimento de armas a grupos rebeldes”.

“A Arábia Saudita não é uma teocracia, mas governada pela família real, que tem aliança com os clérigos. O Irã formou a teocracia com que eles sonhavam. Então, ocorreu aos sauditas promover um trabalho missionário maciço para disseminar o wahabismo no mundo como forma de domínio”, diz Schwartz. “Em um levantamento que fiz até o 11 de Setembro, a Arábia Saudita havia colocado, pelo menos, US$ 2 trilhões nessa campanha.”

A Arábia Saudita concentrou esforços na defesa dos muçulmanos oprimidos em todo o mundo, para ganhar suporte à sua visão wahabita – mais tarde, essa mensagem se tornaria o ponto central da propaganda de Bin Laden, escreveu em artigo na News Statesman Karen Armstrong, autora de Fields of Blood: Religion and the History of Violence (Campos de sangue: religião e a história da violência, em tradução livre).

“O Islã está crescendo de forma errada e com a mensagem errada, principalmente em razão da disseminação do Islã saudita, uma interpretação errada que ignora estudos contemporâneos que ajudam a compreender os ensinamentos do profeta”, defendeu, em entrevista ao Estado, o xeque Abdel Ghani al-Hindi, porta-voz dos imãs da Universidade Al-Ahzar, do Egito, considerada o cérebro do Islã. “O problema do Islã é a ‘saudização’ de países como Paquistão, Indonésia… Seu entendimento do Islã é fundamentalista.”

O Estado de São Paulo

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