POR DENTRO DO DEBATE

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O que você precisa saber para ganhar com um debate…


POR DENTRO DO DEBATE

( Marcia Kupstas )

 

VAMOS IMAGINAR TRÊS SITUAÇÕES:

 

SITUAÇÃO 1. Acontece numa lanchonete. Zeca, um jovem torcedor do Palmeiras, encontra-se com amigos tor­cedores de outros times. É domingo à noite, acabaram de assistir à partida cuja vitória foi do Palmeiras. O pessoal avalia os lances e o melhor jogador em campo, discute a favor ou contra a arbitragem. Se Zeca for um debatedor justo, e se os amigos apresentarem argumentos bem-fun­damentados, ele mesmo poderá concluir que seu time não foi o melhor em campo — apesar de ter ganho o jogo.

SITUAÇÃO 2. Foi convocada uma assembléia de estu­dantes. A verba arrecadada na festa junina deve ser usada em prol da escola: qual a melhor forma de se gastar o dinheiro? A Associacão de Pais e Mestres su­gere que se faça a reforma dos ba­nheiros, por exemplo. Há alguns alu­nos que preferem comprar novos livros para a biblioteca. Outro gru­po quer que o dinheiro seja usa­do na ampliação da quadra de esportes… Cada lado argumen­tou sobre seu ponto de vista no jornal mural durante um mês e agora a assembléia promove a eleicão livre que vem confirmar, democraticamen­te, qual proposta convenceu a maio­ria dos alunos da escola.

SITUAÇÃO 3. É época de eleições. Há um debate político na tevê entre dois candidatos, de partidos diferentes. O telespectador assiste ao confronto dos candidatos, geral­mente mediado por um repórter conhecido e em que e estabelecido tempo para perguntar, para responder e con­tra-argumentar. Nos dias seguintes ao debate, o público se divide. Muitos eleitores se convenceram de que fulano ou beltrano pareceu mais preparado para governar, argu­mentou melhor sobre os assuntos… Os jornais pergun­tam “quem ganhou o debate” ou quem melhor convenceu o eleitor”, e a corrida eleitoral percorre mais uns

quilômetros nos caminhos da democracia.

O   que acontece nessas três situações? O que a aproxima e o que as distingue?

Todas astrês são situações conhecidas: quem nunca participou de um acalorado debate sobre futebol, polïtica, religião, um crime estrondo­so… ou foi cha­mado a opinar so­bre novas regras do condomínio, uso de material coletivo na escola ou no tra­balho? Ou não presen­ciou, como espectador,debatedores pelos mei­os de comunicacão anali­sando comportamentos, novas leis sobre tabagismo ou regras de trânsito, por exemplo?
Essas são situações sociais que envolvem a prática do de­bate e se manifestam numa condição democrática, de liberdade. Um debate informal pode ser a manifestação livre e pessoal a respeito de qualquer assunto… Debate­mos no bar, na sala de nossa casa, na cantina da escola no ônibus ou no trabalho. Ou podemos encontrar o deba­te definido por regras mais formais, nos congressos polí­ticos ou científicos, nos tribunais ou nas escolas.

O que é o debate, afinal? Como ele se manifesta na vida das pessoas, desde quando, por quê? Ë o que va­mos ver nos próximos itens.

DEBATE E DEMOCRACIA

O   debate é um processo democrático. Por princípio, ele existe em sociedades que vivem esse momento de­mocrático e que aceitam o diálogo como forma de solu­cionar as questões sociais.

Sociedades tribais, por exemplo, que explicassem os fenômenos naturais por meio de mitos e de leis divinas, dificilmente aprovariam alguma discussão a respeito des­ses mitos e leis. Tudo estaria estabelecido por princípio. O mesmo ocorre em sociedades muito fechadas: imagi­ne se a população seria convidada a opinar sobre uma nova lei de impostos instituída num regime autoritário!

Se formos buscar a origem da palavra debate, en­contraremos duas palavras latinas: disputatio e debattuere. Ambas apontam para um “embate”, “com­bate”, “disputa”.., palavras que ainda hoje significam “luta”. Na sua origem, é provável que o debate ainda tivesse um caráter violento. No nível do discurso, porém, nin­guém imagina a destruição física do debatedor “inimigo”. Podemos “cruzar armas com as idéias, sem pretender­mos que os outros sejam reduzidos ao silêncio.

O debate é parte de um processo de diálogo que nas­ceu na Grécia, berço da filosofia e da democracia. Na ágora [praça pública) das cida­des gregas debatiam-se os te­mas de interesse geral. Lá nasceu um novo ideal de jus­tiça, diante dos antigos pri­vilégios dos nobres: com a democracia, todos os cida­dãos [excluídos os escravos, mulheres e estrangeiros) tinham direitos. Direitos inerentes ao cidadão sem privilégios de nascimento ou dinheiro. Reconhecendo esses direitos re­conhecia-se a igualdade. E, se havia igualdade, havia pos­sibilidade de discutir idéias, analisá-las e debatê-las.

Foi no século V a.C. que se deu o apogeu da demo­cracia ateniense, com grandes filósofos como Sócrates, Platão e outros incentivando o pensamento crítico, a dúvida diante das verdades da fé e do poder. Eram filóso­fos e grandes debatedores…

O DEBATE: CHEGANDO LÁ

 

Debate é uma discussão escrita ou oral em que razões a favor e contra um tema são postas em confronto. O debatedor conduz seus argumentos de modo a equacio­nar um problema, esclarecer seus muitos aspectos e encaminhá-los para uma possível adesão ou solução.

Nos nossos exemplos iniciais, imaginemos a situa­ção 1 acontecendo entre o Zeca e outros debatedores muito intolerantes que, de antemão, achassem que todo e qualquer palmeirense fosse teimoso; ou que os palmeirenses jamais discutissem os critérios do juiz da partida ou que se fechassem na avaliação dequeoseu time é o melhor do mundo porque e.

Esse é um tipo de postura intransigente que ape­nas “finge” debater, mas que na verdade traz a morte ao debate. É bate-boca. Não aceita o diferente, não dialoga, não permite variações de postura. Quer impo sua opinião e não conquistara adesão do outro… Nad tem do espírito democrático do debate.

Pode até ser que, no nosso exemplo futebolístico, um maioria presente na lanchonete acabasse acatando ess tipo de argumento por intimidação ou interesse pessoal mas, de qualquer modo, seria uma vitória “no grito”: outro não foi convencido por argumentos e idéias, ma foi obrigado a aceitar uma situação fechada, ditatorial.

O DEBATE É UM JOGO

Mesmo que informal, um debate acaba seguindo alg mas regras. Como num jogo, que pode ser jogado a sério ou sem valer pontos – mas que não ocorre, senão contar com normas de antemão aceitas e respei­tadas pelos participantes. Nosso jogo-debate depende, portanto, de que respeitemos essas regras para que possamos desenvolver o seu processo…

INTERAÇÃO

 

A primeira regra é respeitar quem está falando. Inicia­do o debate, esperar que o outro conclua sua idéia, mesmo que não se concorde com ela, para depois pe­dir a palavra, confirmando a po­sição alheia ou questionando-a. Afinal, há que se discuti­rem as idéias dos outros e não os outros… Fazer isso é promover a interação en­tre os debatedores; é criar um clima em que as partes possam se relacionar de modo participativo.

Para garantir a manutenção desse clima de respeito pelas idéias, é comum que o debate conte com a figura de um mediador. Ele é o juiz da partida: aquele que com­bina quais serão as regras do debate, qual o tempo de falar e de ouvir de cada lado, o modo de interromper o outro, as possíveis penalidades para os que descum­prirem as regras… Em alguns casos, é função do medi­ador fazer a síntese do debate, concluíndo com um resu­mo das posiçées defendidas pelos grupos debatedores.

ARGUMENTAÇÃO

O debate vive do confronto de argumentos. O que são eles? O que é argumentação?

Argumentação é uma série de argumentos (ou racio­cínios) que tem por finalidade provar ou refutar um de­terminado ponto de vista ou uma tese qualquer. Com isso, tentamos convencer alguém sobre a validade da nossa conclusão.

Por exemplo: a conclusão de alguém é que um can­didato a cargo executivo deve ter diploma universitário.

Para chegar a essa conclusão, a pessoa desenvolveu uma série de raciocínios provando o seu ponto de vista sobre a importância da formação superior para se fa­zer uma administração competente. Se fu.lano concor­re numa eleição e não tem curso superior, segundo esse raciocínio ele não deve ser eleito…

Mas é possível outra pessoa responder com a con­tra-argumentação: Não é necessário um diploma uni­versitário para candidatos a cargos executivos. Esse raciocínio assinalaria, por exemplo, casos em que ad­ministradores de pouca escolaridade fizeram bom go­verno, ou discutiria a importância da “escola da vida” para administradores competentes.

Num debate, novos argumentos seriam desenvolvi­dos, defendendo ou atacando a idéia de que candidatos a cargos executivos devem ou não ter diploma supe­rior. Ë no confronto desses argumentos que o debate avança, com cada lado procurando convencer o ou­tro das suas razões.

POSICIONAMENTO

 

A partir da seleção de argumentos feita por uma pes­soa, pode-se constatar qual é a posição assumida por ela diante de um determinado tema. O posicionamento é um juízo de valor sobre um assunto.

O  debate, por ser um campo fértil de posicionamentos, faz circular inúmeras idéias… mais conservadoras, mais liberais, mais práti­cas, mais inovadoras, mais equilibradas… E na escolha dos argumentos que o debatedor vai encontrar a sua turma.

Num debate não há apenas posições ex­tremadas. Um mesmo tema pode apresen­tar prós e contras bem-delimitados e, de A a Z, posições intermediárias, O importante é que todas elas tenham espaço para ex­pressão; aliás, é próprio da democracia a con­vivência com situações e posições diferentes.

Fundamental é tomar posição e reunir ar­gumentos para defender essa posição, seja

ela qual for, tendo consciência de qual bandeira se er­gue quando se está posicionado aqui ou ali. O ruim énão assumir as suas razões nem aprofundá-las… ou, ainda, temer o embate das idéias divergentes.

Uma postura comum em debates informais é aquela em que se nega a opinar. “Não discuto política, reli­gião e futebol” é lugar-comum de muita gente. Na ver­dade, a postura aqui resumida não deixa de ser uma posição. Negar-se a discutir já é posicionar-se. E, por exemplo, dar munição às idéias da maioria, em certos momentos.

Além disso, sem dúvida é difícil divergir. Podemos pessoalmente não “concordar muito” com algum ar­gumento, mas tememos a pressão do grupo se for­mos contra a maioria ou contra a opinião de alguém mais “poderoso”… Esse tipo de postura é compre­ensível por vários motivos, mas há que se ter cons­ciência de que fugir de opinar é agir contra as re­gras essenciais do próprio debate, que pressupõe o confronto…

 

 

PRIORIDADE E PESQUISA

Não adianta assumirmos posições e tentarmos bus­car argumentos com predisposição para interagir, se não tivermos munição suficiente para o debate. Essa munição vem com nossa capacidade de priorizarposi­ções e realizar pesquisas para fundamentá-las.

Voltemos à situação 2 de nosso texto, aquela que se refere à assembléia dos estudantes e à melhor forma de usar a verba arrecadada em prol da escola. É claro que todas as posições sobre o uso do dinhei­ro têm seus atrativos, mas é necessário príorizar uma posição. Vamos supor que os pais que defendem a reforma dos banheiros pesquisaram as condições do local e confirmaram sua precariedade. A partir daí, eles fizeram forte campanha para que os demais deba­tedores cedessem em suas posições e priorizassem também a reforma urgente dos banheiros, pelo fato de as instalações colocarem em risco os próprios alunos.

Definir prioridades, defendê-las em relação às ou­tras e identificar qual grupo será o beneficiado com esta ou aquela solução são processos de argumenta­ção que aprofundam as possíveis soluções diante de um tema de debate. Mas… como fazer isso? Como selecionar os argumentos e avaliá-los?

A pesquisa é fundamental. É por meio dela que po­demos fugir de saídas fáceis, apressadas… como o achismo.

Se no debate informal o achismo é uma posição irri­tante, já que reduz a conversa ao mero “é assim por­que eu acho”, num debate formal essa pos­tura é um equívoco. Reduz os argumen­tos à esfera pessoal; “fecha” o debate em torno de um confronto impossível [como se questiona uma afirmação tipo é porque é?). Surge o impasse, que “encerra o jogo” do debate…

A defesa de um bom argumento vem com a seguinte constatacão: bons argumentos se conseguem com estu­do e pesquisa. Há que se ter cuidado em analisar uma posi­ção; procurar exem­plos e fatos; ler ou ouvir especialistas e pesquisa-dores; identificar posições contrárias e

optar por uma linha de raciocínio; ter a humil­dade para, se necessário, mudar de opinião, caso a pesquisa aponte caminhos diferen­tes do que se pressupunha.

A pesquisa vem suprir nossa ignorân­cia sobre o tema; pode principalmente aju­dar-nos a identificar nossa posição, como também antecipar quais serão os contra-argumentos levantados pelo grupo rival. Aí sim, a pesquisa se mostra ampla e um forte auxílio na argumentação das idéias debatídas.

 

 

QUEM GANHA COM UM DEBATE

 

Começamos o texto citando situações típicas de deba­te, seja o informal, o escrito, o de finalidade eleitoral… Diante da situação 3, sobre o grande debate na tevê, entre hipotéticos candidatos, fazíamos as perguntas:

Quem ganhou o debate? Quem melhor convenceu o telespectador?

No caso dos políticos é normal que os institutos de pesquisa apontem o “vencedor”. Afinal, se o candidato X seduziu um número maior de espectadores, é possível também que tenha conseguido a adesão de um número maior de eleitores. Aqui, seduzir com seus argumentos pode equivaler a ser eleito…

Mas não sejamos ingênuos: na vida prática, sabe­mos que existem manipuladores muito astutos… e nem sempre a vitória premía a competência na pesquisa, a seriedade diante das diferenças, o empenho em argu­mentar com profundidade. Num exemplo em sala de aula, quantas vezes o aluno tímido e de voz baixa faz excelente pesquisa e demonstra seriedade na exposição de seu tema e “perde” a atenção dos colegas para um fulano de postura arrogante, boa voz e nem sempre tão empenha­do em realizar sua pesquisa… E aí, como ficamos? Acei­tamos a “injustiça” de premiar o manipulador?

Manipuladores existem e muitas vezes vencem na vida. Constatação trágica, mas verdadeira, O que pode­mos fazer? Será que nos deixaremos envolver pelos mais falantes? Pela boa aparência? Pelo discurso de­magógico?

É necessário ficar alerta. É fundamental que apren­damos a ouvir. Que reconheçamos as posições das pessoas, que questionemos a sua validade. O pensa­mento crítico é a resposta diante do cinismo de certas posições que pretendem “ganhar a qualquer custo”…

O debate é uma forma eficaz de nos vacinarmos contra a prepotência e a manipulação. De ficarmos aten­tos às posições alheias, checarmos as nossas, aprofundarmos nossos pontos de vista…

Além disso, nem sempre um debate é conclusivo. Questões nas quais nunca se chegará a um consenso

podem ser expressivas nos debates; afinal, é sempre possível se examinar o problema sob diferentes aspec­tos antes não considerados, ou mais atualizados. O debate é um processo, na realidade.

Mesmo o debate de um tema árido, como miséria no Brasil e distribuição de renda, por exemplo, ou sobre di­reitos femininos (num congresso) talvez acabem apresen­tando poucas soluções práticas. Mas só o fato de os problemas serem equacionados, organizados, priori­zados… enfim, apresentados para o mundo, já sinaliza um começo para que os interessados em soluções en­contrem forças para continuar lutando por suas idéias.

Ou ainda: um jovem que debate em sala de aula pode ter aprendido mais sobre o assunto com a pesqui­sa feita em seu grupo. Discutiu idéias que lhe eram desconhecidas anteriormente. Aprendeu a ouvir, a res­peitar idéias diferentes…

Por tudo isso, quando se pergunta quem ganha com um debate…

…  a resposta só pode ser: todos nós. E a democracia.

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