O Afeganistão não acredita na paz

RETIRADA DAS TROPAS NORTE-AMERICANAS

A partida de praticamente todas as tropas norte-americanas e da Otan até o dia 31 de dezembro marca o fim de uma intervenção que começou há treze anos, após o 11 de Setembro. No entanto, nenhum dos objetivos proclamados pelos Estados Unidos foi alcançado: nem a democracia nem a estabilidade. E o Talibã ameaça

por Camelia Entekhabifard

Camelia Entekhabifard

Camelia Entekhabifard, jornalista, é autora de Save yourself by telling the truth: a memoir of Iran [Salve-se dizendo a verdade: uma autobiografia do Irã], Seven Stories Press, Nova York, 2007

Ilustração: Gabriel K
“A paz é nossa ambição nacional. Se estabelecer a paz no Afeganistão fosse uma tarefa fácil, ela teria sido realizada há muito tempo.” Essa foi a fala do novo presidente afegão, Mohamed Ashraf Ghani, em uma coletiva de imprensa em Cabul, no dia 1o de novembro de 2014, quando voltava de uma viagem à China. Esse objetivo parece, de fato, mais distante do que nunca.

Seu antecessor, Hamid Karzai, desviou-se de seus principais apoiadores e aliados ocidentais quando estes, sobretudo os Estados Unidos, prestaram-lhe um apoio muito frouxo diante das acusações de fraude maciça que marcaram a eleição presidencial de 2009. Ele nunca se reconciliou com o presidente Barack Obama e não confiava nos norte-americanos para realizar acordos de paz com o Talibã. Decidiu negociar diretamente com o grupo, sem envolver os Estados Unidos.

Karzai estava convencido de que só havia uma maneira de resolver o problema do terrorismo e das atividades de insurgência: livrar o país das tropas estrangeiras e entender-se com o Talibã sem intermediários. Os esforços para um acordo de paz com seus “caros irmãos”, como ele chamava os talibãs, continuaram até o último dia de seu mandato, 29 de setembro de 2014, mas sem resultado significativo.

Sinal dos tempos, os ricos fogem

O novo presidente, Ghani, também não parece querer os Estados Unidos para retomar as negociações com o Talibã. Se em sua busca por mediadores Karzai apostou no Catar, seu sucessor preferiu apelar para a Arábia Saudita e a China. De volta de Pequim, afirmou que os dirigentes chineses, dadas suas relações com o Paquistão, poderiam servir de intermediários com o país que serve de base de retaguarda para os talibãs1 e facilitar as negociações com a organização do mulá Omar, com a retirada das tropas estrangeiras.

Em 26 de outubro, na província de Helmand, onde os combates foram particularmente duros nos últimos anos, o “God save the queen” tocou para marcar a entrega de Camp Bastion aos afegãos. As cores do Reino Unido tremularam pela última vez, simbolizando o fim da presença britânica. Não são apenas as tropas britânicas que deixarão o país até o final do ano, mas todas as forças ocidentais, com exceção de um contingente norte-americano.

Esse é justamente o momento que os talibãs estão esperando. Eles pretendem aproveitar a retirada e a fragilidade das forças locais para lançar uma nova e potente ofensiva contra o governo central, enquanto a qualidade das tropas afegãs é seriamente questionada. Ao longo dos últimos treze anos, diversos oficiais militares entre os mais qualificados e influentes foram assassinados. Muitos mujahedins de alto escalão vieram da Aliança do Norte, cujo nome verdadeiro é Frente Islâmica Unida de Salvação do Afeganistão, que lutou contra o Talibã e a tomada de Cabul, de 1996 até a queda do regime, em setembro-outubro de 2001. Influente em muitas minorias, principalmente a tadjique, ela teve papel importante no início do processo de transição, antes de ser marginalizada por Karzai em favor dos pachtos.2 O Talibã eliminou conscienciosamente os mujahedins mais experientes. Entre os sobreviventes, muitos agora se dedicam a suas ambições pessoais ou estão prestes a se aposentar. Desse modo, não resta um número suficiente de homens experientes para unificar as forças armadas.

Em Cabul, a maioria dos afegãos comuns entrevistados não acredita que os militares sejam capazes de garantir sua proteção. Haydar, de 37 anos, trabalha em um escritório e ganha cerca de 160 euros por mês para sustentar a esposa e três filhos. “Os ricos podem ir embora”, reclama, “mas nós não temos para onde ir. Não temos armas e não poderemos lutar se o Talibã voltar.” Outrora, ele participou dos combates contra o grupo no Norte. “As coisas mudaram muito nos últimos treze anos, e nós não queremos voltar a lutar. Eu me casei, formei uma família e quero a paz. Mas, depois das eleições manipuladas e da saída das tropas estrangeiras, a ideia de paz parece irreal.”

Se para os ocidentais a guerra acabou, para os afegãos, não. Os meses de setembro e outubro fizeram muitos mortos, e a expectativa é de que o número de vítimas aumente. No final do ano, as tropas afegãs deixarão de ser apoiadas pelas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em solo e no ar. Os afegãos terão de se defender sozinhos. Sem armamento pesado nem capacidade aérea, é duvidoso que sejam capazes de garantir a segurança do país.

Isso porque, apesar dos bilhões de dólares gastos e da morte de 2.349 de seus soldados, os Estados Unidos não conseguiram estabelecer a paz e a democracia. O saldo de afegãos mortos é pesado, embora seja muito difícil obter números exatos: provavelmente dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de refugiados. O comando norte-americano estima que entre 7 mil e 9 mil soldados e policiais foram mortos ou feridos em 2013. E, segundo a declaração da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão, apenas no primeiro semestre de 2014 morreram 1.564 civis.

Desde o início da “guerra contra o terrorismo”, em 2001, a missão norte-americana tinha dois objetivos: lutar contra o Talibã e os rebeldes, ajudando a reconstruir o país, e acompanhar de perto a situação política, trazendo à razão os “senhores da guerra” dissidentes e outros líderes influentes a fim de estabilizar a situação interna.

A eleição presidencial em dois turnos (5 de abril e 14 de junho de 2014) foi, mais uma vez, caracterizada por fraudes maciças, denunciadas por todos os observadores internacionais. Seguiu-se uma paralisia política de três meses, levando o país à beira da guerra civil. Contra todas as expectativas, Ghani foi anunciado vencedor, o que foi contestado por seu adversário, Abdullah Abdullah. Nesse momento tão crítico, Obama só conseguiu encontrar um remendo: essa democracia rachada, quase caindo aos pedaços, foi amarrada por mediadores norte-americanos para permitir a retirada das tropas até o final do ano.

A solução encontrada foi chegar a uma forma de partilha do poder. Após duas visitas do secretário de Estado John Kerry, alguns telefonemas de Obama e esforços intensivos do embaixador dos Estados Unidos em Cabul, um acordo foi aprovado pelos candidatos rivais: Ghani foi proclamado presidente, enquanto Abdullah foi nomeado “chefe do Executivo” no novo governo, função que não existe na Constituição e cujas atribuições não estão claras. É um acordo muito frágil. Na véspera das cerimônias de posse, irrompeu entre os dois homens uma briga a respeito da distribuição dos gabinetes, e Abdullah ameaçou se retirar. Vai ser difícil manter o acordo por cinco longos anos.

Abdullah é conhecido em todo o país por ter combatido os talibãs ao lado de Ahmad Shah Massoud, comandante da Aliança do Norte até seu assassinato, em 9 de setembro de 2001, pela Al-Qaeda. Homem político de envergadura nacional, ele foi ministro das Relações Exteriores durante a presidência de Karzai. Mantém boas relações com a maioria das tribos e grupos étnicos, que o apoiam e confiam nele. A família de seu pai é pachto (de Kandahar) e sua mãe é tadjique. Ele sempre viveu no Afeganistão.

Ghani pertence ao principal grupo étnico do país, os pachtos, mas viveu principalmente no Ocidente. Embora tenha sido ministro das Finanças de Karzai, permaneceu desconhecido para a maioria dos afegãos até o segundo turno das eleições. Em compensação, goza de certa notoriedade no exterior, como ex-colaborador do Banco Mundial e candidato vencido para suceder Kofi Annan como secretário-geral da ONU.

Os dois velhos rivais precisam trabalhar em conjunto, no momento em que o Afeganistão enfrenta a situação mais difícil desde a derrubada do Talibã em 2001– situação que o país tem de enfrentar com apenas 325 mil militares e policiais militares, eles próprios pouco confiantes em sua eficácia. Os Estados Unidos e a Otan realizaram uma avaliação da capacidade das forças de segurança afegãs, cujos resultados foram classificados como secretos em julho. Mas poucos observadores têm dúvidas sobre suas conclusões. Desde 2001, os contribuintes norte-americanos gastaram mais de US$ 50 bilhões para treinar e equipar as forças de segurança afegãs; no entanto, sua resistência, competência e vontade real de encarregar-se da segurança da nação devem ser vistas com cautela. Além disso, o Talibã ganhou terreno no sul, particularmente na província de Helmand, desde a evacuação das tropas britânicas.

No entanto, os Estados Unidos estão decididos a se retirar a qualquer custo, seja qual for a sorte reservada aos afegãos. Em maio de 2014, o presidente Obama declarou que sua missão de combate seria concluída antes do final do ano e que a partir de 1o de janeiro de 2015 ele se contentaria em “treinar as forças afegãs e apoiar as operações contra o que resta da Al-Qaeda”. Todos os 9.800 soldados designados para essas missões vão embora até o final de 2016. A Otan confirmou essas orientações: as tropas restantes vão assumir uma missão “não combatente”, destinada a “treinar, aconselhar e assistir as forças de segurança afegãs”.

Não podendo contar, portanto, com as potências ocidentais, ocupadas no combate à Organização do Estado Islâmico, o Afeganistão sente-se abandonado. É por isso que o poder se volta para as potências asiáticas, especialmente a China, tentando evitar o mesmo destino do Iraque. Os afegãos temem por seu futuro. Eles não acreditam no sucesso da coalizão governamental liderada por Ghani e Abdullah. Sinal dos tempos, aqueles que fizeram fortuna durante os treze anos de presença militar internacional apressam-se em enviar seus ativos e negócios para fora do país. Um deles, que deseja permanecer anônimo, transferiu sua empresa de segurança para Dubai, a fim de criar projetos com parceiros estrangeiros no Iraque e no Golfo. E não é o único. Os ricos empresários aprenderam com o que viram acontecer no Iraque e mandaram seus ativos para os Emirados Árabes Unidos. Paraíso fiscal para um dinheiro facilmente ganho, os Emirados oferecem um ambiente seguro para as famílias exiladas. Gerentes de agências imobiliárias em Dubai confirmam que, desde as eleições presidenciais, os clientes oriundos do Afeganistão estão mais numerosos.

Para o presidente Obama, a guerra termina em breve. Ele pode se orgulhar de ter mantido a promessa, feita a seu povo, de remover os boysdo Afeganistão. Já os habitantes de Cabul e de outras grandes cidades afegãs temem esse período de transição, enquanto o novo governo não encontra seus marcos.

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