UM BRASIL SUFOCADO PELO ATRASO

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Uso de precários fogões a lenha persiste nas regiões mais pobres e responde por 50% das mortes por poluição no País

Fernando Scheller / HORIZONTE e LIMOEIRO DO NORTE (CE)

30 Maio 2015 | 16h 50

Grávida do oitavo filho, Eliene da Costa Santos ganhou um fogão de uma conhecida; na verdade, é uma carcaça de fogão que não funciona. Mesmo se fosse novo, não teria uso: a casa de taipa em que a dona de casa de 34 anos vive com a família não tem botijão de gás. Mesmo assim, refere-se ao eletrodoméstico quebrado como “presente”. É em cima dele, deitado sobre quatro tijolos, que Eliene improvisou seu fogão a lenha. Agora, não precisa mais se agachar para cozinhar. Pode trabalhar em pé, enquanto cuida do filho mais novo e se prepara para a chegada do próximo.

 Maria do Céu Costa Silva e sua nora Eliene da Costa Santos vivem na comunidade Km 60, em Limoeiro do Norte

A sogra de Eliene, Maria do Céu, mora em outra casa simples, construída no mesmo terreno. Tem fogão a gás, mas não o usa – não pode gastar R$ 50 no botijão. Teve 13 filhos, mas só quatro “vingaram”. Nove morreram pequenos – “de febre”, diz ela. Outro foi assassinado, já adulto, no ano passado. Ambas vivem na comunidade denominada Km 60, na zona rural de Limoeiro do Norte, município cearense a 210 km de Fortaleza. A estrada de chão batido que leva ao Km 60 é ladeada por grandes fazendas de frutas e fábricas de cal há muito desativadas.

Eliene e Maria do Céu fazem parte de um contingente invisível no Brasil: famílias muito pobres, que vivem longe dos grandes centros e sobrevivem quase sempre da agricultura de subsistência e de programas de auxílio do governo. Cerca de 7 milhões de famílias brasileiras ainda usam a lenha como combustível na cozinha, sobretudo no sertão nordestino e na região amazônica, segundo organizações internacionais. “Há um componente de tradição, mas o que leva à queima da lenha é a necessidade econômica, a falta de alternativa”, diz o pesquisador Ricardo Teles, da Universidade de Aalbrog, da Dinamarca, que conduziu um estudo, em parceria com o Instituto Federal do Ceará (IFCE), sobre os impactos dos fogões a lenha na saúde de famílias cearenses.

A queima de lenha e carvão para cozinhar é uma das maiores preocupações de saúde globais, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Esses combustíveis liberam monóxido de carbono e micropartículas invisíveis, absorvidas pelos pulmões, causando problemas respiratórios que podem levar à morte. É como se cada habitante de uma casa com fogão a lenha fumasse dois maços de cigarro por dia, segundo a organização não governamental dinamarquesa Copenhagen Consensus. O efeito causado ao organismo por essa poluição interna é oito vezes maior do que o de toda a poluição do ar da cidade de São Paulo.

Questão global. É por isso, segundo a OMS, que a poluição interna mata mais do que a externa. A queima de combustível dentro das casas para geração de energia é uma realidade para 3 bilhões de pessoas no mundo e causa cerca de 6 milhões de mortes por ano. Para combater o problema, foi criada uma aliança global que reúne universidades, ONGs e governos, com curadoria da Organização das Nações Unidas (ONU), visando à substituição de 100 milhões de fogões até 2020. As principais áreas de atenção são a Índia, onde 700 milhões de pessoas ainda queimam combustível dentro de casa para cozinhar, e os países mais pobres do mundo, sobretudo os da África ao Sul do Saara.

No Brasil, o problema é menor, mas um cálculo da Copenhagen Consensus – cuja meta é propor soluções baratas para problemas socioeconômicos globais – estima que cerca de 24 mil vidas sejam perdidas por ano por causa da poluição interna no País. Uma projeção do pesquisador Bjorn Larsen aponta que esse contingente é equivalente a quase 50% das mortes totais causadas pela poluição do ar no País (veja quadro acima). Segundo o instituto Data Popular, 96% das residências brasileiras têm fogões a gás. No entanto, a média cai para 93% no Norte e 91% no Nordeste, onde a renda é menor.

O engenheiro florestal Rogério Carneiro de Miranda, que presta consultoria em todo o mundo sobre a poluição interna pela queima de combustíveis e se dedica ao tema há 20 anos, afirma que as principais vítimas são as mulheres e crianças, que inalam mais fumaça por passarem mais tempo em casa. Miranda mantém uma fábrica de fogões a lenha em Minas Gerais. Ele diz que conseguiria produzir fogões eficientes por cerca de R$ 450, incluindo o custo para entrega no interior nordestino.

Soluções. O consenso entre as entidades que pesquisam o tema é de que existem duas saídas viáveis para a substituição de fogões a lenha ineficientes. Uma delas é o uso do gás, em botijão ou encanado – o problema, neste caso, é a renda para pagar pelo combustível. A outra saída é a construção de fogões a lenha de melhor qualidade, que liberem a fumaça na atmosfera. Essa segunda alternativa é defendida pela Copenhagen Consensus. Segundo os cálculos da ONG, a escolha traria R$ 7 em economia – ao sistema de saúde, por exemplo – para cada R$ 1 investido. Já o fogão a gás, por ter um custo de instalação e manutenção mais alto, traria benefícios menores, entre R$ 2 e R$ 3 para um investimento de R$ 1.

Em termos estritamente econômicos, a substituição por fogões a lenha é mais barata. No entanto, o estudo de campo desenvolvido no interior cearense pela Universidade de Aalbrog e pelo Instituto Federal do Ceará mostra que, na prática, essa alternativa raramente se mostra eficiente. Na comunidade do Km 60, cerca de 250 fogões “melhorados” foram instalados nas residências pelo governo estadual.

O professor Adeildo Cabral, do IFCE, explica, porém, que é difícil assegurar que a população fará a manutenção correta do equipamento. Na verdade, é quase impossível: na maior parte das casas visitadas pela reportagem do Estado, as chaminés estavam entupidas e toda a fumaça e o calor emitidos pelo fogão ficavam no ambiente, o que se refletia em grandes manchas negras nas paredes das cozinhas.

Um Brasil sufocado pelo atraso

O uso precário de fogões a lenha persiste nas regiões mais pobres. Foto: Hélvio Romero/Estadão

Apesar de o marido, Manoel Chagas da Silva, 77 anos, reclamar da fumaça e dizer que não pode ficar na cozinha porque os olhos lhe ardem, Antônia não vê relação alguma entre o problema e a queima da lenha dentro de casa. O professor Adeildo Cabral explica que a questão é justamente essa: como as micropartículas se instalam nos pulmões ao longo dos anos, é muito difícil convencer a população de que o fogão a lenha – ou, mais especificamente, o mau uso dele – possa causar doenças graves ou até levar à morte. Dona Antônia, sentada ao lado da lenha que queima sem parar, está no time dos que não se deixam convencer. “Criei oito filhos sozinha. Lá de onde eu venho, a gente nem sabia o que era um botijão de gás. E está todo mundo saudável aqui. A fumaça não faz mal.”

Mas nem os que seguiram todas as especificações técnicas conseguiram uma boa relação com o novo fogão. Antônio Geraldo Almeida, de 42 anos, trabalha na construção civil e ajudou a instalar vários dos fogões patrocinados pelo governo. Em sua casa, fez tudo conforme o figurino: câmara fechada e chaminé constantemente limpa. Os responsáveis pelo projeto também exigiram que a instalação fosse feita em um ambiente interno. Geraldo, como é mais conhecido, conseguiu praticamente zerar a emissão de fumaça dentro de casa. No entanto, o local de instalação escolhido pelos técnicos tornou o uso do fogão quase inviável. Com a lenha queimando, a temperatura ambiente passa da marca de 60 graus. “Eles (os responsáveis pelo projeto) não pensavam que o calor poderia se expandir.”

CASA AGORA É LENHA PARA FOGÃO

 Dona Zilma Lopes Ribeiro, 68 anos, demora para atender a porta de sua casa de alvenaria recém erguida – ainda falta parte do reboco – e pede desculpas. Não está em seus melhores dias, acha que pegou a febre chikungunya, mas pode ser qualquer outra doença. Tem os olhos bem vermelhos, mas isso não a impede de se movimentar de um lado para o outro freneticamente. Mesmo depois da hora do almoço, faz questão de ligar o fogo para mostrar o poder do equipamento que ela mesma construiu na varanda atrás de sua casa. Faz todo o tipo de comida que exige mais tempo no fogo ali – doces, carnes e feijão. É um jeito de economizar o gás de cozinha, cujo botijão de 13 kg não sai por menos de R$ 54 em Limoeiro do Norte. O fogão “de rico” só é usado para esquentar a comida ou ferver água e leite.

Zilma Ribeiro usa madeira de sua antiga casa para abastecer seu fogão a lenha

Muitos moradores da comunidade do Km 60 estavam acostumados a simplesmente se embrenhar no mato e trazer galhos de árvores que achavam pelo caminho para fazer comida. Nos últimos anos, porém, as empresas de exportação de frutas, que compraram grandes pedaços de terra na região, começaram a cercar as propriedades. Quem se arrisca a invadir quando ninguém está olhando corre o risco de ter de se explicar com a polícia – ou até a um destino pior.

Resultado: é difícil encontrar lenha disponível em áreas abertas. E o pouco que sobrou quase sempre é de má qualidade, afirma o professor Adeildo Cabral, do IFCE. Lenha “verde”, como dizem os moradores de Limoeiro do Norte, demora mais para queimar, tanto que muita gente simplesmente decide deixar o fogo aceso o dia todo. Esses fatores ampliam a quantidade de partículas emitidas e também o tempo de exposição dos habitantes à poluição interna – é a pior das combinações, diz Cabral.

Dona Zilma não tem esse problema, já que seu fogão, apesar de improvisado, fica do lado de fora de sua casa. A aposentada também não tem dificuldades para encontrar lenha. Depois de conseguir uma ajuda do governo para levantar uma casa de alvenaria, ela está, de certa forma, reciclando a morada antiga, em taipa (combinação de madeira e barro molhado), que ainda é bastante comum na região.

Ao desmontar as caixas de madeira que formaram a estrutura de sua casa por décadas, dona Zilma não deixou que os feixes fossem levados para longe e simplesmente jogados fora. A antiga residência continuou ali, empilhada no fundo do quintal, junto com uma televisão antiga que não funciona mais, bem ao lado da criação de galinhas e do porco – que está em fase de engorda – trazido por um dos filhos. Todos os dias, antes de acender o fogo, ela mesma atravessa o quintal, machado à mão, e pica a madeira em pedaços que possam ser acomodados no fogão. E não vê problema nisso: “Aqui em casa, sou o homem e a mulher”.

SEM USO, BOTIJÃO DE GÁS ‘VIRA’ TELHA

Luzia Lopes Ribeiro, 48 anos, já fez de tudo um pouco. Trabalhou como carvoeira no Piauí, suou na lida da roça e limpou terrenos com um bebê de colo amarrado ao corpo. Ainda assim, não tinha um lugar decente para morar. Durante muito tempo, apertou-se em um barraco de menos de um metro de altura. Ela e os filhos tinham de se agachar para entrar em casa e se locomoviam quase sempre de joelhos. O único bem que tinha era um botijão de gás, comprado a prestação. Foi justamente ele, que não tinha razão de ser em uma casa sem fogão, o passaporte para que ela construísse uma casa de verdade.

Luzia Ribeiro vive na comunidade de Km 60 na Chapada do Apodi, no município de Linmoeiro do Norte: ela construiu o próprio fogão a lenha

Luzia já tinha juntado um pouco de madeira e sabia que poderia aprender, se alguém lhe ensinasse, a bater o barro para formar as paredes da casa de taipa. A mãe, Zilma (veja texto acima), lhe deu mil pregos de presente – eles eram necessários para unir os feixes que formam as caixas de madeira usadas para assentar a terra e garantir que as paredes parem em pé.

Luzia foi fazendo a casa aos poucos, sozinha, mas precisou que um primo lhe ajudasse a revirar as telhas que havia instalado. Do jeito que estavam, de cabeça para baixo, a primeira chuva iria que caísse inundaria a parte interna. O botijão de gás foi usado justamente para a compra das telhas, a parte mais cara da construção.

O botijão, até hoje, não faz falta. Luzia continua usando só o fogão a lenha. Depois de construir a própria casa, fazer um fogão não foi tão difícil. Custo total da empreitada: zero. Hoje aposentada por invalidez, ela angariou uma grande caixa de madeira para a base. Recobriu a superfície com uma camada de tijolo e de barro molhado para evitar que o fogo produzido incinerasse o equipamento. A chapa ela ganhou de uma conhecida. A chaminé, que retira a fumaça do ambiente de forma moderadamente eficiente, também foi improvisada: costumava ser a armação da cama tubular que a vizinha tinha decidido jogar fora.

PREFERÊNCIA É PELO ‘GOSTINHO DE QUEIMADO’

Quem usa o fogão a lenha sempre tem na ponta da língua uma receita para deixar a comida mais gostosa ou um “macete” para tornar a queima do combustível mais eficiente. Maria da Conceição Pereira, ou simplesmente “Preta dos Doces”, montou uma cozinha com fogão industrial, toda azulejada, com dinheiro de uma linha de microcrédito do Banco do Nordeste.

Mesmo assim, a doceira de 53 anos, comandante do único terreiro de umbanda em uma comunidade quilombola de Horizonte, que hoje se divide entre católicos e evangélicos, mantém no quintal um fogão a lenha para atender a paladares bastante exigentes. Assim, evita que a fumaça tome conta da casa reformada e, ao mesmo tempo, agrada aos clientes que não abrem mão das tradições regionais: “Tem gente que sente falta daquele gostinho de queimado”.

No Km 60, em Limoeiro do Norte, o aposentado Josafá Barbosa da Silva, 70 anos, está entre os que defendem que o feijão feito no fogo a lenha é mais saboroso. Para Josafá, no entanto, o problema é encontrar lenha para manter o costume na “nova” família – ele voltou a se casar recentemente e tem três filhos pequenos. Além de aproveitar todo o pedaço de pau que acha no terreno de 12 hectares em que planta banana, defende um método “científico” para que o fogo dure mais: “O segredo é construir o fogão voltado para o lado em que o sol nasce”.

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