O que não vimos (Aylan)

  Aliás – Estadão

 http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,o-que-nao-vimos,1756884

Qual força possui a imagem do sofrimento alheio? Mostrar o horror seria mesmo o meio mais adequado para impedir que ele se repita? Polêmica antiga, presente ao menos desde que a fotografia passou a documentar os campos de batalha, e que foi repertoriada com muito talento pela ensaísta americana Susan Sontag no último livro que publicou antes de falecer, Diante da Dor dos Outros, de 2003. Motivada em parte pelo escândalo das fotos de iraquianos torturados nas prisões de Abu Ghraib, fotos divulgadas pelos próprios soldados americanos, Sontag se mostrou à época bastante cética quanto a qualquer possibilidade emancipadora da imagem fotográfica. Posição mais esperançosa demonstraram aqueles que sustentaram, nos últimos dias, a importância de se divulgar a fotografia de Aylan Kurdi, 3 anos, encontrado morto na praia de Bodrum, na Turquia. Difundida pela agência Reuters, a fotografia estampou as capas de alguns dos principais jornais do mundo, e se alastrou pelas redes sociais. Logo se seguiu uma viva polêmica sobre a pertinência ou não da publicação, julgada por alguns demasiadamente ofensiva. A aparente polarização elide o fato de que uma mesma premissa subjaz às argumentações de ambos, implícita e não questionada. Quer os que são a favor, quer os que são contra a publicação da imagem partem do pressuposto de que a fotografia mostra algo em excesso. Para os que se opõem, trata-se de uma exposição obscena da morte alheia – obscenidade acrescida por se tratar de uma criança. Os que defendem a publicação insistem na necessidade de mostrar a realidade, por mais dura que seja. Em comum acordo quanto ao caráter revelador da imagem, ambas as posições erram o alvo. A força da imagem, como tentarei argumentar, não está naquilo que ela revela, mas naquilo que ela oculta.

O que vemos, de fato, na fotografia divulgada essa semana pela agência Reuters? A imagem mostra uma criança pequena caída de bruços à beira do mar, enquanto um homem uniformizado, de costas para a câmera, parece tomar notas. O rosto da criança é muito pouco perceptível, enquanto o do homem é praticamente invisível. Não é difícil perceber que se trata de uma criança morta e de um policial que registra o ocorrido. Porém, que se trate de uma criança curda refugiada, que pereceu na tentativa de atravessar a fronteira turca com a Grécia, essa já não é uma informação contida na imagem, e que pode apenas se tornar conhecida por outros meios. Isso não altera em nada o efeito de choque da imagem, que não depende de seu contexto. Pelo contrário, a força da fotografia está, em grande parte, ligada a seu caráter genérico, no sentido forte da palavra, isto é, não apenas genérico enquanto pouco definido, mas genérico na acepção que se dava a essa palavra em filosofia, enquanto “essência genérica”, ou seja, aquilo que remete ao gênero humano.

A imagem do garoto caído à beira-mar evoca, em primeiro lugar, a dor da perda de uma criança, morte que é sempre sentida como mais injusta. Em consequência, evoca também a empatia com a perda de um filho, sentimento que é fortalecido particularmente pela posição na qual se encontra a criança, uma posição em que bebês comumente dormem. É difícil imaginar um pai ou uma mãe que possam ficar impassíveis diante dessa foto, que deixem de associar a imagem com a lembrança de seu próprio filho dormindo de bruços no berço. Muitas pessoas, incomodadas com a divulgação da imagem, mas sensibilizadas pelo fato, preferiram compartilhar nas redes sociais uma ilustração que sintetizava de maneira clara essa identificação: nela víamos o garoto curdo representado na mesma posição da foto, só que deitado em um berço.

O fato de que o rosto do garoto não estivesse visível na foto é um dado fundamental para compreender sua eficácia, pois torna a identificação tanto mais fácil. Se nela víssemos um garoto de traços étnicos específicos, uma parte do público já não mais se identificaria com ela – sobretudo porque o garoto não era caucasiano. Pode-se questionar se o europeu, principal público visado pela foto, teria nesse caso demonstrado a mesma comoção, ou se teria reagido da mesma forma caso o garoto estivesse trajado com uma indumentária típica de uma etnia não “ocidental” – como tantas outras crianças que perecem periodicamente em tentativas de travessia do mesmo mar Mediterrâneo, e cujas fotos não chegam à primeira página dos jornais.

Vemos, assim, que a própria noção de gênero humano comporta já implicitamente uma hierarquia, a empatia sendo proporcionalmente maior para com aqueles que são “como nós” do que para com aqueles que são diferentes. O que importa aqui, porém, não é fazer uma acusação de hipocrisia. Pretendo apenas sublinhar o quanto a força da imagem está relacionada à sua falta de especificidade, o que vai na contramão da argumentação padrão daqueles que, ao longo dos últimos dias, defenderam a publicação da fotografia. Para estes, seria fundamental divulgar a imagem por sua força de revelação: ela daria a ver uma realidade desconhecida, ou mesmo ocultada.

Essa argumentação reavivou alguns dos mais antigos lugares-comuns acerca da fotografia. O primeiro é aquele concentrado no adágio de que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Assim, tudo o que havia sido escrito até então sobre a crise dos refugiados foi considerado inócuo se comparado a essa imagem, tida como muito mais significativa do que as frias estatísticas. Mas é necessário frisar essa palavra: as imagens são, de fato, significativas; e os significados que elas veiculam dependem da interação de seus elementos, bem como de seu contexto. Apesar dessa evidência, no debate público parece predominar ainda a velha crença na imagem como revelação.

O que essa imagem mostra, porém, é justamente o contrário. Se ela tem de fato uma capacidade, maior do que a dos textos e das estatísticas, de mobilizar o público leitor em torno do drama dos refugiados sírios, tal não se deve àquilo que ela revela, mas sim àquilo que ela oculta. Ela não é uma “imagem forte” no sentido em que se emprega essa expressão no senso comum. Ao contrário do que afirmam aqueles que se opõem à publicação da foto, ela não é uma imagem explícita. Tantas fotos muito mais explícitas de crianças vítimas do conflito sírio circulam na imprensa e nas redes sociais desde que esse começou, sem lograr, contudo, o mesmo impacto.

O pai. Abdullah Kurdi perdeu também o outro filho, de 5 anos, e a mulher
O pai. Abdullah Kurdi perdeu também o outro filho, de 5 anos, e a mulher

Portanto, insisto, a fotografia que tomou as capas dos jornais tira sua força justamente daquilo que ela oculta. Ela oculta o específico. Ela oculta o fato de que aquele garoto é curdo. Ela oculta o fato de que Aylan morreu porque era curdo.

Aqueles que defendem a divulgação da foto com a nobre intenção de mobilizar as pessoas em torno do drama vivido na Síria parecem não perceber esse lado perverso. A imagem funciona como instrumento de propaganda – mesmo que para uma boa causa – precisamente porque esvazia a biografia de Aylan, porque o disfarça de garoto ocidental. A contradição é justamente que, se Aylan fosse ocidental, não teria morrido na travessia. Cai assim também outro lugar-comum bastante presente na argumentação dos que sustentaram a difusão da fotografia, e que postula seu valor epistemológico. A fotografia seria um meio de conhecimento, ela permitiria às pessoas conhecer uma realidade que ignoram, ou que não podem compreender devidamente apenas com textos e estatísticas.

Entretanto, como vimos, a fotografia é extremamente pobre em informações. Se dependêssemos apenas da imagem, não saberíamos quase nada sobre o ocorrido, e muito menos sobre a situação calamitosa na Síria. Não saberíamos que a família de Aylan Kurdi fugiu de Kobani, cidade síria tomada pelo Estado Islâmico antes de ser reconquistada pelo YPG, a milícia popular ligada ao Partido Trabalhista Curdo (PKK). Nem saberíamos que o YPG, que se provara até então o mais eficaz inimigo do Estado Islâmico na região, está agora sendo bombardeado pelo exército turco do primeiro-ministro Recep Erdogan, que, pretendendo-se um aliado do Ocidente na luta contra o Estado Islâmico, aproveita-se para, com o aval da Casa Branca, despejar mais uma vez suas bombas sobre os curdos.

Todas essas questões são conhecidas e, não obstante, não logram mobilizar a opinião pública da mesma forma que a foto de Aylan. É preciso, contudo, evitar a crença, um tanto ingênua, de que esse sucesso se deva a uma força intrínseca da fotografia, à sua capacidade superior de revelar a verdade, e encarar o lado menos nobre dessa mobilização. A comoção em torno da foto não se compreende se não atentarmos para o terrível esvaziamento que ela opera da alteridade de Aylan. Com efeito, Sontag propunha, no livro já citado, que as imagens atrozes comunicam pouco, justamente porque aqueles que as veem, não tendo vivido experiências atrozes, não podem compreender integralmente aquilo que elas representam.

Se a fotografia de Aylan Kurdi é tão provocadora e parece dizer tanto, talvez seja porque, na verdade, ela nos fale simplesmente da dor genérica da morte, do medo da perda de um filho, sem que por isso possa comunicar a devastadora experiência da guerra.

GABRIEL ZACARIAS É DOUTOR EM ESTUDOS CULTURAIS PELAS UNIVERSIDADES DE PERPIGNAN (FRANÇA) E BERGAMO (ITÁLIA), MEMBRO DO PROGRAMA ERASMUS MUNDUS, DA UNIÃO EUROPEIA, E PÓS-DOUTORANDO EM SOCIOLOGIA PELA USP

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