Bolsonaro, Feliciano e a direita brasileira em: ninguém nasce estúpido, torna-se estúpido


Nesse final de semana ocorreu o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). E um dos temas mais comentados nas redes sociais foi o conteúdo de algumas de suas questões. O conteúdo em si do ENEM, porém, não deveu nem excedeu em nada do que tem sido nos últimos anos, desde que deixou de ser apenas uma avaliação de desempenho e passou a representar a possibilidade de ingresso para uma parcela ínfima da juventude brasileira no ensino superior do país. O que chamou a atenção esse ano, no entanto, foram os comentários mais que conservadores de Bolsonaro e Feliciano contra o conteúdo da prova, que se relacionava ao tema do machismo hoje na sociedade brasileira.

Para entender a questão é preciso notar o histórico do ENEM. O tema da redação esse ano foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, tema bastante atual considerando os altos e persistentes índices de violência contra a mulher, que mostram os efeitos limitados das políticas da Lei Maria da Penha e da sanção de pena especifica para feminicidio. Ano passado o tema foi “A publicidade infantil e em questão no Brasil”, em 2012 “Os efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil” e em 2011, após o aumento do fluxo imigratório haitiano para o Brasil “Movimento Imigratório para o Brasil no século XXI”. Ou seja, a cada ano, o ENEM, assim como as Fundações que aplicam os vestibulares específicos de algumas Universidades ainda mais elitistas do país, como a FUVEST (USP) ou a COMVEST (Unicamp), aborda nas questões sociais que tem tido maior relevância no último período.

Já foi surpreendente, porém, que muitos internautas tenham vindo a público manifestar indignação com a impossibilidade de defender, pasmem! um posicionamento favorável a violência contra a mulher, já que a defesa de qualquer proposta que viesse a ferir os direitos humanos seria, como em todos os anos, automaticamente zerada.

O que chama a atenção mais ainda foram alguns dos mentores intelectuais desses ardilosos internautas que vociferaram contra uma suposta ideologização feminista do ENEM e que se contorceram com a impossibilidade de poderem defender a violência contra a mulher foram ninguém menos do que Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP).

Tanto um quanto outro já haviam se manifestado contra a utilização de uma frase da famosa filosofa francesa Simone de Beauvoir “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”. Um singelo pensamento que apenas se esforça em conceber as definições sociais, inclusive a definição de masculino e feminino como algo construído a partir de múltiplas variáveis civilizatórias e, portanto, diverso e complexo, e não determinado unilateralmente, homogêneo e igual.

Não foi, porém, essa conclusão lógica que estes parlamentares absorveram. Bolsonaro disse que “Mais ou tão grave quanto a corrupção é a doutrinação imposta pelo PT junto à nossa juventude. O sonho petista em querer nos transformar em idiotas materializa-se em várias questões do ENEM (Exame Nacional do Ensino MARXISTA)”, e continuou “Essa canalhada deverá ser extirpada do poder em 2018 com o VOTO IMPRESSO, ou antes, da mesma forma como o Congresso, em 02 de abril de 1964, cassou o comunista João Goulart.”

O cúmulo de ignorância presente nessa curta fala poderia até ser uma questão do ENEM: “encontre o trecho mais abissal na seguinte frase:”. A dificuldade entre escolher qual seria a parte com maior conteúdo de estupidez faria muitos candidatos errarem.

Se existe ainda alguma doutrinação do governo petista sobre nossa juventude ela passa longe de ser a favor das liberdades democráticas, do direito das mulheres, dos homossexuais e dos negros. Em doze anos de governo Dilma não se conquistou e nem se pautou temas elementares da pauta histórica das mulheres como a legalização do aborto, que se cala com a exigência da criminalização da LGBTfobia, que vetou a distribuição do Kit anti-homofobia nas escolas esta longe de ser parte da doutrina do marxismo. E, diga-se de passagem, Beauvoir não era marxista, mas sim existencialista.

O show de asneira não se encerra, e Bolsonaro defende que o governo possa cair (ser extirpado!) “da mesma forma como o Congresso, em 02 de abril de 1964, cassou o comunista João Goulart”. Em 01 de abril de 1964, os militares haviam dado um golpe no Brasil com o apoio de empresários, latifundiários e outros membros da sociedade civil, não havendo qualquer cassação, mas sim uma deposição forçada do governo pelos militares.

E João Goulart está tão para o comunismo quanto o Partido dos Trabalhadores esta para o marxismo. Essa confusão proposital que Bolsonaro e seus pupilos tentam fazer entre figuras e partidos da burguesia, questionados pelas massas, e o comunismo e marxismo tem como intuito polarizar o país sobre duas variantes burguesas e reacionárias de ideologia, mantendo ainda o PT como alternativa “menos pior” para a burguesia frente ao conservadorismo ignorante e acéfalo dessa outra direita representada por Bolsonaro, Feliciano e Cunha.

Como pudemos constatar, Bolsonaro, Feliciano e essa afluência de membros nas redes sociais são fruto de um momento histórico conjuntural no país em que a burguesia tenta polarizar as posições sociais apenas entre duas variantes políticas possíveis: “PTismo” ou “anti-PTismo de direita”. São ideias fruto de doze anos de governo do PT que cedeu espaço para os conservadores na política, com acordos com ruralistas e falsos-evangélicos em sua base aliada para manter a governabilidade, que agora cobram seu preço.

Em suma, a direita brasileira atual que enxerga na democrática – e até republicana – defesa do fim da violência contra a mulher uma conspiração de cunho marxista e comunista, parafraseando Simone de Beauvoir, não nasceu estúpido, tornou-se estúpido como produto elaborado pela atual situação do país.

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