Bacon, seu gostoso!

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 Eduardo Goldenberg
31 Outubro 2015 | 16h 09

Estou com 46 anos e já vi de tudo em matéria de orientação alimentar. Já vi o ovo, e a gema (a vilã das vilãs), serem dramaticamente condenados por fazerem profundo mal às coronárias e aos índices de colesterol (cujos limites são alterados com assiduidade em prol da saúde perfeita do homem-máquina). Vi também, alguns anos depois, o ovo (e a gema!) serem redimidos e alçados ao patamar de alimentos primordiais – isso foi em 2007, quando Luis Fernando Verissimo, em pungente texto, comemorou a absolvição do ovo cogitando pleitear indenização a ser paga pelos responsáveis pelo degredo da gema. Cito Verissimo: “Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êxtase e ela se desmanchará, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso escorrerá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com pão”.

Já vi o tomate, coitado, ser acusado de ser o responsável pelo aumento da próstata e, tempos depois, recomendado pelos médicos como importante alimento no combate e na prevenção de um sem-fim de doenças (inclusive o câncer de próstata). E a laranja? A grande vilã do aparelho digestivo, causadora de úlceras, pouco tempo depois festejada como indispensável para o bom funcionamento da flora intestinal por conta das fibras contidas nos gomos da dita cuja. Os exemplos são muitos, a paranoia é a mesma.

Doce veneno. Como o ovo e a gema, a crocância gordurenta do porco será redimida; por enquanto, padece na mesma categoria do tabaco
Doce veneno. Como o ovo e a gema, a crocância gordurenta do porco será redimida; por enquanto, padece na mesma categoria do tabaco

Os vilões do momento, segundo reportagens que trouxeram à tona mais uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), são o bacon, os embutidos, as carnes processadas e a lingüiça (assim como não abro mão do bacon, não abro mão do trema). Os tira-gostos, de primeiríssima, foram – vejam vocês se não há nisso algum exagero – comparados ao tabaco, durante muitos anos símbolo de charme e agora comprovadamente maléfico, mortal, incontestavelmente o responsável por milhões de mortes, ano a ano, em todo o planeta.

As matérias que trataram do assunto, abordado cientificamente no tal alerta da OMS, são ainda mais paranoicas do que paranoicas me parecem – não sou médico, bebo e como sem culpa há mais de 16 mil dias – as tais pesquisas. O bacon, tomemos o bacon como exemplo, não faz parte da dieta do brasileiro como da dieta dos americanos, que comem bacon no café da manhã, no almoço, no lanche da tarde, no jantar. As carnes processadas entraram também na lista. Os embutidos idem, tendo o presunto no carro abre-alas do alerta da OMS. E a lingüiça (escrevo lingüiça e salivo imaginando uma porção acebolada de lingüiça artesanal mineira) também dançou. Mas miudinho, eis que não foi apontada como a grande vilã do pacote de venenos.

Volto ao bacon (e aos embutidos): por que tanto estardalhaço na imprensa brasileira se não somos contumazes consumidores nem do bacon nem das salsichas? A mim, e eu me considero um brasileiro médio no que diz respeito à alimentação, a pesquisa não assusta. Seguirei usando o bacon (com ovos de gema mole, que continua condenada por conta da salmonela) muito esporadicamente nas manhãs de alguns finais de semana. Não me furtarei de pedir uma porção de torresmo nos botequins mais vagabundos que freqüento porque vai muito bem, o torresmo, com cerveja e com cachaça. Não deixarei de comer carne (processada ou não) porque não é só carne o que como. Não vou negar um cachorro-quente de vez em quando porque não acredito na dicotomia que emerge de um alerta como esse.

Afinal de contas, reitero, há 46 anos como de tudo e aprendi, ao longo do tempo, que é o equilíbrio que deve reger a dieta alimentar – muito embora eu perca o equilíbrio com alguma regularidade.

Aprendi, mais, que as diferentes dietas que existem no mundo não podem seguir um único alerta, ainda que feito pela respeitadíssima OMS. Temos, nós brasileiros, mais com o que nos preocupar.

Afinal de contas, convenhamos, como segurar esse rojão que é, pra ficarmos no que mais mal tem feito à saúde (física e emocional) da população, um Congresso Nacional retrógrado, machista, homofóbico e fundamentalista presidido por um sujeito feito salsicha como Eduardo Cunha? Como segurar o rojão diante da informação de que o Ministério Público de São Paulo age de forma implacável para impedir o fechamento da Avenida Paulista aos domingos – louvável e saudável (saudável!) iniciativa do prefeito Fernando Haddad em prol das bicicletas – a fim de saciar a sanha dos motoristas e de seus automóveis que envenenam o ar da cidade de São Paulo com rolos de fumaça de monóxido de carbono que fazem mais mal à saúde, quero crer, do que a fumacinha inofensiva que defuma delícias como o bacon?

Ora, a OMS e os fóbicos de sempre, hipocondríacos segurando o estandarte, que me perdoem.

Salve a lingüiça (fresca ou defumada, isso não importa), o paio, o boi zebu, a rabada com angu, o lombo de porco com tutu, salve! Salve a couve mineira refogada com cebola e alho, pedacinhos de bacon fritos no refogado da couve, o caldo de feijão com costela defumada e a cachaça, a sagrada cachaça como abrideira abrindo os caminhos (é de propósito a repetição) para o exército de garrafas de casco escuro de cerveja (e cerveja de milho, a mais nova rejeitada do exército de chatos que, de uma hora pra outra, passou a desprezar a cerveja brasileira, que há gerações embriaga e embala o sonho dos biriteiros, batendo no peito pra dizer eu só bebo as lupuladas ou as mais maltadas, cáspite!).

Muito bem diz, e com isso ele me redime mesmo sem saber, um de meus guias espirituais, Rodrigo Gava, amigo-irmão querido, egresso do Paraná e hoje vivendo em Copacabana, tantas vezes debruçado ao meu lado nos balcões e diante das estufas das biroscas sem nenhum glamour que nos enfeitiçam: “Muito mais do que a paranoia (e mais do que bacon e companhia), é a alienação histórica e convenientemente embutida no cotidiano dos nossos olhos e ouvidos que faz mal e, em metástase, desestrutura toda a sociedade, tornando-a uma manada a caminho do sacrifício”.

É o que evito desde que nasci, quando ainda não sabia que agia assim. Hoje, é uma de minhas bandeiras: não fazer parte dessa manada a caminho (com saúde impoluta) do sacrifício, da morte, do desaparecimento súbito e para sempre. Afinal, qual a graça de envelhecer (e de morrer) com a saúde que esses alertas da OMS pregam? Porque eles não almejam, exatamente, a saúde, eles almejam é processar (olha o processamento aí!) a humanidade, transformá-la numa massa amorfa, marchando (como se numa manada) com total assepsia em direção à inevitável morte, que sempre há de vir.

E eu – eis aí a beleza do livre arbítrio – quero mais é envelhecer com a saúde que hoje eu tenho, ao lado da mulher amada, erguendo permanentemente o copo de cerveja (de milho!) cheio de espessa espuma, salgando a boca com as delícias que eles rotulam como veneno que envenena infinitamente menos do que os venenos que eles soltam, como pílulas de sabedoria que a mim não convencem.

Quero, no meu enterro, que há de ser um gurufim de respeito, que meus amigos encham o ambiente soturno da capelinha (apud Nelson Rodrigues) com o alarido dos copos americanos cheios de cerveja (de milho!) batendo uns nos outros, com um churrasquinho improvisado defumando minha alma que – os deuses assim permitam! – há de estar pairando sobre meu corpo inerte mas cheio da vida que terei vivido sem culpa, sem paranoia, como testemunharão cada um dos presentes ao furdunço. E há de haver velas acesas, fitas amarelas, pouco choro (salvo algum, do Pixinguinha, que algum amigo meu há de providenciar), muito samba, e o nome dela gravado, minha Morena, na coroa de flores que recebo em vida, diariamente, já que não me permito ser manipulado por essa pasteurização absurda que nada mais é do que a antivida, o decesso, a defunção, o triste finamento, passaporte fúnebre para o esquecimento. O esquecimento, meus caros, é a morte após a morte. Aquele que não é lembrado depois da partida nada mais é do que um sujeito que viveu morto seguindo a cartilha globalizada do corpo de laboratório sem alma e sem coração.

E hei de ser recebido de calças curtas e camisa listrada, no Orum, pelos tantos deuses que louvei em vida, por meus antepassados, por minha bisavó fazendo ventar com seu leque (ninguém mais usa leques…) numa das mãos e com seu cálice de licor de jenipapo na outra, por meu avô com sua dose generosa de uísque com muito gelo de todos os dias, por meus tios Eugênio e Luiz Carlos no comando da churrasqueira crepitando com o gotejar da suculenta gordura sobre o carvão em brasa, por minha tia Idinha servindo as rabanadas feitas em todos os Natais da minha infância, com muito ovo, açúcar e canela, o Cristo em pessoa dividindo e multiplicando o pão e o vinho, minha avó fumando de novo sem culpa seu cigarrinho e festa, muita festa, muito batuque, muitas lágrimas e muita emoção – que é de emoção que a vida é feita.

A mesma emoção, estou terminando, que esse movimento asséptico nos pretende surrupiar a cada recomendação emitida com alarde pelos órgãos oficiais que cuidam da saúde (!) da população e a cada propagação dessas recomendações por parte da imprensa do mundo inteiro, devidamente alardeada, numa tentativa, que há de ser em vão, de nos roubar nossa precípua condição de humanos, feitos à imagem e semelhança de Deus, imperfeitos e felizes à mesa farta da Santa Ceia de todos os dias. Tô fora, meus amigos. Comigo não cola, comigo não rola, meu negócio é – sempre foi – bola ou búlica.

EDUARDO GOLDENBERG É ADVOGADO, MORADOR DA TIJUCA E AUTOR DE ‘MEU LAR É O BOTEQUIM’ (CASA JORGE EDITORIAL)

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