SALVEM AS BACTÉRIAS!

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 A necessidade de sua preservação é unanimidade planetária, e não cabe a máxima de Nelson Rodrigues de que toda unanimidade é burra. Defendo, contra a corrente do pensamento prevalecente, que: 1) conhecer a biodiversidade é uma utopia; e 2) a necessidade de conhecer a biodiversidade para preservá-la é premissa falsa e diversionista.

Dos fatos mais marcantes sobre as formas de vida destaco sua fungibilidade. Estão todas fadadas à extinção. Sem menosprezar a perda de biodiversidade por ações antrópicas, cerca de 95% das espécies que existiram no planeta já se extinguiram.

O Brasil se destaca no cenário internacional pela biodiversidade de seus biomas e programas de preservação. A justificativa dos projetos de levantamento de espécies, apoiada na racional “como preservar da destruição o que não se conhece?”, parece-me equivocada, embora estes tenham rendido grande quantidade de dados sobre ocorrências e a descrição de centenas de espécies novas sem, no entanto, consequências na sua preservação.

Outra estratégia, focada na proteção de espécies carismáticas como mico-leão, ararinha azul e pau-brasil, embora de forte apelo popular, ignora que a biodiversidade está concentrada em organismos microscópicos, inconspícuos e pouco conhecidos. A extinção do maravilhoso panda gigante ou da enorme baleia azul significa pouco em termos de perda de biodiversidade. Precisamos mais de insetos, fungos e bactérias que tartarugas e lobos-guará, seres cuja extinção terá repercussão dramática na biosfera, como fungos decompositores de madeira, bactérias nitrificadoras. Portanto, o foco da preservação deve ser a paisagem, o bioma, e não uma dada espécie, por mais “simpática” que possa parecer.

A catalogação como fator sine qua non para preservar a biodiversidade esbarra em dificuldades: de um lado, a falta de consenso na conceituação de espécie e as limitações dos sistemas nomenclaturais; de outro, os elevados custos de treinamento de cientistas e manutenção de coleções.

Dentre as categorias da hierarquia taxonômica optou-se pela de espécie por conveniência, embora seu conceito varie com o grupo de organismo e o especialista. É oportuna uma colocação de Charles Darwin, feita em 1851, sobre o grupo de crustáceos no qual era especialista: “Após descrever uma série de formas como espécies distintas, eu as reuni todas em uma única para depois voltar a separá-las, e uni-las … terminando por amaldiçoá-las …” Quantos taxonomistas já se defrontaram com problemas semelhantes? Eu, inclusive! O conceito é uma abordagem reducionista que tenta reconhecer padrões de descontinuidade na natureza. Fazia sentido quando se acreditava que as espécies eram estáticas, e não estágios de um processo. Isso explica por que prognósticos do número de espécies variam de 3 a 100 milhões. Estima-se que cerca de 91% das espécies marinhas aguardam ser descobertas. Catalogá-las é tarefa ciclópica, se não utópica, ainda mais que há vários grupos de organismos nos quais não temos especialistas.

O advento de técnicas sofisticadas de sequenciamento de genes e de bioinformática trouxe avanço considerável na sistemática biológica. Entretanto, a subjetividade ainda prevalece. Quantos genes diferentes são necessários para dizer que um grupo de organismos deve ser dividido em duas espécies? A resposta varia com o especialista, é subjetiva. Biologia não é nem de longe uma ciência exata.

Além disso, os nomes científicos não têm estabilidade – vão mudando na medida em que o grupo é mais bem estudado, o que traz inconvenientes –, espécies diferentes se encontram sob o mesmo nome, e vice-versa, uma vez que cada nome não passa de uma hipótese taxonômica, em permanente revisão.

Quanto aos custos, a preparação de um especialista é processo longo e dispendioso, que se estende por cinco ou mais anos após a graduação, incluindo bolsas de iniciação, mestrado, doutorado, pós-doc, sem falar na aquisição de equipamentos (importados) e outros insumos, e viagens de coleta, fundamentais para elaboração das teses. Em 2011, Carbayo & Marques calcularam um custo médio de mais de US$ 120 mil para a descrição de uma espécie de vertebrado. Acresce-se a isso que cada espécie nova deve estar representada por espécimes mantidos em herbários, museus e coleções de microrganismos, precisam ser curadas e demandam espaço com condições controladas de temperatura e umidade, para sempre. Está ainda fresco na memória o incêndio no Butantã, que destruiu espécimes insubstituíveis. Isso mostra que a catalogação da biodiversidade nos moldes em que se tem investido no Brasil tem custo elevado sem consequências na sua preservação.

Sem embargo, a diversidade biológica do planeta é um recurso e sua preservação, necessidade indiscutível. Segundo a corrente “biocentrista”, a natureza deve ser mantida intocada; segundo a “antropocentrista”, de viés econômico, ela se justifica pelos serviços ecossistêmicos. Valorizando esta última, acrescentaria a preservação como questão de ética para com as gerações por vir. Ecossistemas não são degradados por atos de malevolência intrínseca aos homens, mas pela busca por alimentos, energia e moradia, o que se entende. Mas exaurir recursos e degradar paisagens é de um egoísmo atroz. O que não se entende é o consumismo desenfreado. Não é com catalogação de espécies e transformação do país em uma grande reserva biológica protegida por um exército que legaremos um mundo melhor, mas com o uso parcimonioso dos insumos para uma vida decente, reduzindo o consumo de tudo, água, energia, minerais, alimentos. A insaciedade em consumir viralizou, já é uma patologia. É preciso tornar ofensivo e de mau gosto o desperdício, a ostentação, diminuindo nossa “pegada ecológica”. Não bastam argumentos científicos. É necessário mudar comportamentos, com a colaboração de todos os segmentos da sociedade, religiões inclusive. A ação do papa foi mais eficaz que o IPCC.

E, mesmo que nunca venhamos a conhecer a biodiversidade, Il faut proteger l´unconnue par des raisons unconnues. É preciso proteger o desconhecido, por razões desconhecidas, já diria Jean Rostand.]

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