Esperança à deriva (sobre o Brasil)

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 A primeira reflexão ao terminar de ler o novo livro de Domenico De Masi, que apresenta previsões para o Brasil de 2025, é “vira essa boca pra lá”. A segunda: “Deus me livre!”, e sai-se em busca de algo de madeira, bate-se três vezes, isola-se bem. Em 2025 – Caminhos da Cultura no Brasil (Sextante), nas livrarias esta semana, o sociólogo italiano mostra um país que, em 10 anos, mal terá se movido da lama que o soterra hoje: seguiremos fechando os olhos para os direitos humanos, veremos os talentos fugirem e a educação falhar. Haverá um aumento avassalador no uso de drogas e a violência continuará o “grande traço constitutivo” do país. No cenário apresentado por De Masi (e por 11 pesquisadores entrevistados por ele), a sociedade brasileira será mais hedonista e menos reflexiva, e, à frente disso tudo, estará uma elite mais mesquinha e mais arrogante, empenhada “só em acumular e em nada distribuir”. E aí, De Masi: partiu exílio?

Otimista confesso e fã do Brasil, o sociólogo de 77 anos diz que não é o caso. O exercício de futurologia representa um convite a pensar a sociedade brasileira – e, pelo que se nota nesta entrevista, ele discorda de boa parte do panorama ruim apresentado no livro. “Muitas opiniões são dos especialistas brasileiros que participaram da obra (como Cristovam Buarque, Jaime Lerner, Leonel Kaz, entre outros). Como dizia Nelson Rodrigues, o Brasil é muito impopular no Brasil. Minha visão é mais otimista e continuo acreditando que o futuro do mundo globalizado passa pelo modo de vida brasileiro.”

Esperança à deriva
Esperança à deriva

De Masi, professor da Universidade La Sapienza, em Roma, e autor de conceitos como o do ócio criativo (aliar lazer, trabalho e estudos), encara o painel que montou como “provocação e desafio”, em um momento mundial importante. “Estamos todos desorientados. O drama é que a sociedade pós-industrial foi a primeira a nascer sem um modelo socioeconômico anterior. É preciso construir algo novo, e os pensadores brasileiros podem dar uma grande contribuição.”

Mesmo em tempos de “profunda depressão” no país, De Masi se permite crer no Brasil como guia. Só não arrisca oferecer saídas aos problemas nem aprofundar interpretações. Para ele, esse papel é nosso. “Depois de seguir durante séculos os modelos europeus e americanos, o Brasil está só diante do seu futuro. Pode se dissolver na desorientação ou gerar um mundo novo”, disse ao Aliás. “Meu palpite é a segunda opção.”

Passa pela elite. “A lentidão da evolução cultural no Brasil depende da própria natureza dessa evolução e, também, da elite cultural e política do país. Como acontece em outros lugares, por sinal. Um alerta feito pelos especialistas (que aparecem no livro) é que a elite brasileira ficará mais arrogante, menos nobre, mais mesquinha do que hoje na próxima década. Não me surpreende que os ricos se preocupem em acumular mais riqueza, faz parte da sua natureza. Isso é forte no Brasil, onde 10% da população branca detém 75% da riqueza nacional. Para reverter esse panorama, a elite política deve ser consciente dos problemas, assegurar boa educação e uma democracia cada vez mais completa. E a elite cultural deve proporcionar à sociedade um bom modelo de vida, uma boa produção de ideias, uma correta informação.

Mundo novo e sensual. “O Brasil está sozinho consigo mesmo diante do seu futuro. A posição intelectual do país pode se dissolver na desorientação ou pode gerar um mundo novo. Meu palpite é pela segunda opção. Porque hoje o país já possui características de grande vanguarda cultural, como a propensão à paz com os países limítrofes, a mescla de etnias e culturas, a doçura, o empreendedorismo, a convivialidade. Há também a sensualidade sem complexos, uma grande força vital que está na base do entusiasmo, do diálogo entre os gêneros, da alegria de viver. Essa é uma das forças cada vez mais fracas nos países mais industrializados, em que o estresse e a máquina predominam sobre a serenidade e sobre os biorritmos humanos. O Brasil representa uma grande reserva de sensualidade sadia, assim como a Amazônia representa uma reserva de oxigênio sadio.

Domenico de Masi, sociólogo italiano, professor da Universidade La Sapienza, em Roma
Domenico de Masi, sociólogo italiano, professor da Universidade La Sapienza, em Roma

Tudo misturado. “O Brasil é a mais significativa metáfora do mundo na sua atual fase evolutiva. Estamos assistindo a uma imponente migração de massas dos países pobres para os países ricos, o que quer dizer que muitos países, predominantemente monorraciais e monoculturais, são obrigados a se tornar – pela primeira vez em sua história – multirraciais e multiculturais. O Brasil experimentou essa mescla profundamente, desde o início de sua história, e o fez de maneira menos violenta do que outros países, como os Estados Unidos. Vejo o Brasil como uma metáfora, mas principalmente, como um guia.

Da paz. “Já hoje, o Brasil está oferecendo ao mundo o seu modelo de paz e de estética. O acolhimento das diversidades é um grande trunfo. No decorrer dos séculos, a Europa foi dilacerada por guerras sangrentas: Guerra dos Trinta Anos, dos Cem Anos, guerras napoleônicas, na Primeira Guerra Mundial. Neste momento, ela é invadida pelo grande medo do terrorismo e pelo grande medo da invasão de refugiados. Os Estados Unidos já tiveram sua guerra de independência entre Norte e Sul, e guerras constantes, da Segunda Guerra Mundial em diante. Nada disso aconteceu no Brasil, que, com exceção da guerra contra o Paraguai, sempre viveu de pleno acordo com os países com os quais faz fronteira. Hoje também, diferentemente da Europa, dos Estados Unidos, do Oriente Médio, da Índia, o Brasil vive uma paz interna e externa. É um exemplo que oferece ao mundo.

Coberto de sangue. “Tenho pleno conhecimento da violência inaudita que cobre de sangue o Brasil. É resultado acima de tudo da distância entre ricos e pobres, da classe média ainda pouco numerosa, além da excessiva contiguidade urbanística entre bairros de luxo e favelas. Em cidades de outros países, os bairros ricos estão distantes dos bairros pobres, em termos topográficos. Um habitante do Bronx não vê de sua janela os ricos arranha-céus de Manhattan. No Rio, em São Paulo, em Salvador, ao contrário, favelas distam poucos metros de bairros ricos. Isso torna mais visível, mais imediata, mais escandalosa a desigualdade, e cresce o ressentimento, o conflito dos pobres em relação aos ricos.

Deprê autodestrutiva. “O pessimismo do brasileiro nesses dias é reflexo da profunda depressão da qual padece o país. Em parte, ela se deve à difusão de um consumismo já de estilo americano numa economia ainda em vias de desenvolvimento, motivo pelo qual todos se sentem mais pobres do que são. Em parte, se deve à ideologia protestante, que se difunde substituindo a ideologia católica mais tolerante e substituindo o sincretismo permissivo por uma ideologia triste e repressiva, de estilo calvinista. Deve-se ainda a ameaças à democracia, e não com uma oposição séria e construtiva, mas com pedidos estéreis de impeachment e com a depressão autodestrutiva da economia.

Vira-latas. “Os brasileiros que aceitam de maneira acrítica o modelo americano o fazem por falta de autoestima, uma outra característica ruim da brasilidade. Para melhorar nesse sentido, é preciso, acima de tudo, que os intelectuais retomem o caminho palmilhado pelos chamados “inventores do Brasil” – Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Joaquim Nabuco, Darcy Ribeiro etc – e recomecem a elaborar um modelo brasileiro ditado pela visão sócio-antropológica, pela genialidade criativa, pela segurança em si, recuperada ou recém-adquirida.

Desorientação global. “O mundo todo está desorientado, com exceção de papa Francisco e do Estado Islâmico. Como tentei demonstrar no livro O Futuro Chegou (Casa da Palavra), o drama da nossa época consiste no fato de que nossa sociedade pós-industrial foi a primeira, na história da Humanidade, a nascer sem um modelo socioeconômico anterior. Como afirma o filósofo Sêneca: “Nenhum vento sopra a favor para quem não sabe aonde ir”. É preciso que os melhores intelectuais do mundo tratem de construir esse modelo que permita orientar nosso caminho. Os intelectuais brasileiros, com base na experiência do próprio país, poderiam oferecer uma grande contribuição nesse sentido. Mas é necessário, depois de recuperada a autoestima, que os intelectuais se dediquem dialeticamente à elaboração desse novo modelo, levando em conta que deve servir a toda a humanidade.

Educação para o lucro. “As escolas do mundo todo, incluindo as brasileiras, têm uma carência em comum: não possuem o modelo de sociedade com base no qual possam educar os próprios estudantes. Que mundo, que sociedade, que valores aprendem os jovens em Harvard, no MIT, em Oxford, em Cambridge, Stanford, que são as melhores universidades do mundo? Eles aprendem a ser bons capitalistas num mundo capitalista que sabe produzir a riqueza, mas não sabe distribuí-la, num mundo capitalista em que 85 ricos detêm a riqueza de 3 bilhões e meio de pobres. Por isso tanta insistência nesse livro para os problemas do Brasil em relação à educação, cuja ênfase continuará em modelos de negócio profissionalizantes em vez de humanísticos.

Humanos criativos. “Apesar de os especialistas afirmarem no livro que no futuro os intelectuais perderão importância no Brasil, eu tenho uma opinião diferente. Em todos os países do mundo, à medida que a tecnologia incorporar o trabalho humano, aos seres humanos restará o monopólio da criatividade, e as atividades intelectuais serão mais apreciadas. O Brasil não será a exceção.

Sem ódio racial. “A possibilidade de convivência sem ódio racial representará uma contribuição da sociedade brasileira à civilização mundial. Ainda não será em 2025, muito cedo para que a intolerância e o preconceito sejam eliminados, mas o Brasil permanece no mundo como um dos países com melhor convivência, com menor ódio racial, com menos intolerância. O racismo disfarçado que há no Brasil tem de ser superado, mas é menos grave do que o que existe nos Estados Unidos, por exemplo. Se o racista fala de forma velada significa que tem medo de falar explicitamente porque teme o negro interlocutor. Melhor ser um negro temido do que um negro impotente.

Ingênuo, não: otimista. “Após meu último livro, fui tachado de ingênuo por alguns intelectuais brasileiros. Em 30 anos, visitei todo o Brasil, li os principais textos da historiografia, da sociologia, da antropologia, da economia brasileira. Falei com grandes intelectuais, artistas, empresários brasileiros. Fiz duas pesquisas sociológicas sobre a “cara brasileira”. Acaso serei ingênuo porque, depois disso tudo, amo o Brasil e o julgo um dos melhores modelos socioculturais do mundo? Certamente o modelo brasileiro é imperfeito, mas os outros 14 modelos (o modelo romano, o renascentista, o americano, entre outros, com os quais ele compara o modelo brasileiro em O Futuro Chegou) são ainda mais imperfeitos. O Brasil não é o melhor dos mundos possíveis, mas talvez seja o melhor dos mundos que existem hoje.”

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