Situação dos guetos é terreno fértil para radicalização de jovens

A Paris rica e refinada que encanta turistas do mundo acaba sob os pilares da pista elevada do Boulevard Péripherique, o anel rodoviário da capital da França, a 5 quilômetros do Museu do Louvre. Ao norte da autoestrada situa-se Saint-Ouen, a primeira cidade do departamento vizinho de Seine-Saint-Denis – o departamento “9-3” –, onde se concentram comunidades muçulmanas pobres, marginalizadas e, não raro, em conflito com a cultura burguesa e boêmia da maior cidade do país.

Um dos foco de atuação de grupos islâmicos ultraconservadores, como os salafistas e a Irmandade Muçulmana, a região é um dos mananciais de recrutamento de jovens para as fileiras do Estado Islâmico (EI). Foi de lá, por exemplo, que saiu Samy Amimour, 28 anos, um dos três atiradores suicidas do Bataclan.

Seine-Saint-Denis é um departamento de 1,5 milhão de habitantes que concentra o maior número de cidades problemáticas do país. Além de Saint-Ouen, marcada pelo tráfico de drogas, fazem parte municípios como Aubervilliers, Saint-Denis, Drancy, Aulnay-sous-Bois, Clichy-sous-Bois e Montreuil. Todas têm em comum uma clara concentração de muçulmanos em relação à população total – não existem estatísticas de religião na França. Também tem níveis de desemprego em alta – 6,4% só neste ano – e problemas estruturais de habitação, de transporte e educação.

Esse coquetel, advertem sociólogos e criminólogos, contribui para a marginalização de jovens, que também se tornou um problema crônico das periferias na França. Não por acaso as revoltas violentas contra a polícia em 2005 e 2007 tiveram como epicentros Clichy-sous-Bois e Aulnay-sous-Bois, e não por acaso Hasna Ait Boulahcen, uma das terroristas mortas pela polícia no dia 17 e também nascida e criada no “9-3”, procurou um abrigo em Saint-Denis para se esconder com Abdelhamid Abaaoud, tido como o mentor dos atentados de Paris.

Nas ruas da região, é fácil constatar a presença do crime organizado e das redes de tráfico, além da alta concentração de populações muçulmanas que não se sentem integradas à cultura de Paris. “Quando você vai a algum lugar para deixar um CV em busca de um emprego, as pessoas olham atravessado porque nós vivemos em Clichy-sous-Bois”, conta o rapper Paco Rabanne, morador de Chêne-Pointu, o complexo de habitações populares da cidade.

Em Clichy, relatam os mais jovens, poucos são os que se sentem franceses ou se reconhecem nos símbolos do país, como a Torre Eiffel. “Eu estou na França porque meus pais vieram para cá”, conta Yassa Ba, jovem de 17 anos de origem camaronesa que abandonou a escola há um ano e não tem emprego. “Eu não me reconheço na França. Eu vim para cá, vou fazer o que tiver de fazer, e um dia vou embora.”

Para Michel Kokoreff, sociólogo da Universidade Vincennes-Saint-Denis, autor de Sociologia das Revoltas e um dos mais famosos especialistas em periferias da França, a marginalização e a religião não querem dizer forçosamente radicalização. Mas a presença do islã é cada vez mais marcante.

“A religião, por meio de seus valores e seus princípios, estende seus domínios e se traduz de forma mais geral na capacidade do islã de preencher o vazio das instituições, dos serviços públicos”, afirmou. “A religião joga com a exclusão social, política e cultural, e de outro lado gera um entrincheiramento identitário. Ela desempenha um papel estrutural nas periferias.”

Para quem acompanha de perto a evolução da sociedade do “9-3”, atentados como os de janeiro e novembro de 2015 tendem a acentuar a estigmatização e o fosso social que separa a capital de sua periferia mais sensível. “Tem uma tensão grande na sociedade, que a meu ver desvia a questão central”, entende a historiadora franco-brasileira Silvia Capanema, vereadora eleita pelo Partido Comunista Francês (PCF) em Saint-Denis.

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