A Cracolândia, um potente conector urbano

diplomatique.org.br

 Taniele Rui e Fábio Mallart

Vinte e nove de abril de 2015, 7h30. Antes de chegar à Rua Helvétia, região central da capital paulista, ao lado da praça recém-“revitalizada” pela Porto Seguro, é notável a presença de dezenas de soldados da Guarda Civil Metropolitana, em especial da Inspetoria Regional de Operações Especiais (Iope), a tropa de choque da GCM. Viaturas da Polícia Militar passam pela região em alta velocidade. No fluxo, como é conhecida a cena de uso e comércio de crack, tudo acontece normalmente: a venda de cachimbos, o uso do crack, os afetos entre os casais, as conversas entre os parceiros, as discussões, as negociações, as solidariedades diversas e as tentativas de se proteger do asfalto e do sol, improvisando tapetes e tetos.

Na tenda do programa De Braços Abertos, da Prefeitura de São Paulo, a presença de uma infinidade de agentes estatais, dos mais diversos escalões, das mais diversas secretarias: os jalecos brancos, vermelhos, azuis e verdes, azuis e brancos se misturam às fardas, algumas delas repletas de medalhas e condecorações. Assistentes sociais, agentes de saúde, militantes, pesquisadores, comerciantes, moradores da região, usuários de crack, lideranças locais, integrantes da Secretaria de Direitos Humanos, inclusive o próprio secretário Eduardo Suplicy, religiosos – católicos, batistas e neopentecostais –, trabalhadores do comércio de drogas, funcionários do programa Recomeço (do governo do estado de São Paulo), jornalistas, enfim, uma infinidade de atores sociais dos mais diversos saberes e poderes estão presentes no cenário. Isso sem contar as conexões que – via telefones celulares – interligam esse pequeno recorte do espaço urbano, praticamente uma rua, a outros cantos da cidade. Ao mesmo tempo que agentes estatais estão conectados com o prefeito Fernando Haddad,lideranças locais estão sintonizadascom seus parceiros, situados fora da região conhecida como Cracolândia. Linhas de força, que conectam múltiplos espaços urbanos.

Por volta das 9h30, as barracas dos usuários começam a ser retiradas da Rua Helvétia, sendo deslocadas para a Rua Dino Bueno, a poucos passos de distância do local anterior. O objetivo da ação: remover barracas e carroças do espaço público, cadastrar novos usuários no programa e, não menos importante, possibilitar que a Porto Seguro entregue seu projeto de praça finalizado. Assistentes sociais cadastram usuários às pressas. Ofluxo, sob orientações de lideranças locais, também conhecidas como disciplinas, se desloca rapidamente, arrastando tudo aquilo que o constitui, inclusive as barracas e as carroças. Novo impasse: é preciso retirar barracas e carroças da Rua Dino Bueno, que agora está totalmente interditada. Os ânimos se exaltam. Uma mulher que teve a carroça retirada observa: “A prefeitura pegou minha carroça e não me deu nenhuma advertência, não me explicou por que estava tirando; então, posso concluir que ela me roubou, né?”.

A tensão aumenta progressivamente. Por volta das 12h, chegam Alexandre de Moraes, secretário estadual de Segurança Pública, e Haddad. A decisão sobre o que fazer com os usuários de crack e, principalmente, com suas barracas e carroças mobiliza instâncias governamentais do mais alto escalão. Ao mesmo tempo que as autoridades dialogam entre si, uma jovem vaga pela região. Parece procurar algo no chão, deixado para trás pelo próprio deslocamento do fluxo. Talvez, uma moeda de R$ 1. Talvez, uma ínfima lasca de crack. Sem planos, foi trazida na noite anterior pelo companheiro e igualmente deixada para trás. J. P., que saiu de um presídio no interior paulista, chegou há quatro dias. Para ele, assim como para muitos outros de nossos interlocutores, a Cracolândia oferece oportunidades para conseguir algum dinheiro que, no seu caso, será gasto na compra de uma passagem de ônibus para sua cidade natal, mas também alguma informação, alguma ajuda, alguma recepção. No período da tarde, por volta das 15h, ouve-se o barulho de tiros em meio ao fluxo, resultado de uma ação desastrosa de policiais à paisana. Duas pessoas são baleadas, novos atores entram em cena: policiais da Força Tática da PM, balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo. Ativistas articulados em torno do padre Júlio Lancellotti denunciam a arbitrariedade policial e a especulação imobiliária na região.

Ímã paulistano

Ao longo de todo o dia, inúmeros personagens passaram por ali, retrato condensado e ampliado do que acontece todos os dias, tal como um instante fotográfico que compõe um filme que se desenrola ano após ano. É por esse motivo que muitos dos que ali estão – não importam os motivos – se referem à Cracolândia como ímã, em que se cruzam vários atores que transitam pelo e a partir do local. Trata-se de um emaranhado urbano, novelo intrincado de trajetórias, histórias e múltiplos percursos, que se torna mais complexo a cada dia.

Já faz tempo, portanto, que aos pesquisadores nenhuma ideia parece ser mais errônea que a de “gueto” com “lógicas próprias” para apreender a dinâmica do local. Já faz tempo também que se sabe que essa dinâmica não se resume apenas à compra e ao uso de crack. Ao contrário, é cada vez mais evidente que essa região de São Paulo, ou melhor, esse pequeno recorte do espaço urbano, conecta, faz circular e movimentar pessoas, espaços, histórias, discursos, empresas, valores, práticas, políticas governamentais e criminais, e muito dinheiro.

Contudo, é hora de observar que nem sempre as coisas se passaram assim; o que hoje ocorre é desdobramento de uma história urbana. A região foi se reconfigurando no correr de aproximadamente duas décadas pelas imediações de uma série de bairros da região central, entre os quais Luz, Santa Ifigênia e Campos Elíseos. Há, frequentemente, uma narrativa comum que a associa diretamentea espaço de uso de crack e sua formaçãoà Boca do Lixo – como era chamado pejorativamente o local, marcado por atividades de boêmia, prostituição e vários ilegalismos, entre meados dos anos 1950 e fim da década de 1980. Sem necessariamente discordar dessa narrativa, vale salientar que ainda há elementos importantes a serem perspectivados no passado, entre eles o fato instigante de que um dos primeiros locais marcados pelo consumo de crack na cidade foi a região de São Mateus, periferia leste de São Paulo, no início dos anos 1990. Além disso, as primeiras menções à Cracolândia no noticiário paulista faziam referência ao local como espaço de produção e venda, não de uso, de crack. Esses elementos importantes mostram que, em primeiro lugar, a Cracolândia nasceu conectada, de um lado, às dinâmicas mais amplas de gestão da violência e do tráfico de drogas na cidade de São Paulo.

A entrada do crack nas periferias, em especial em São Mateus, foi seguida de uma série de assassinatos de usuários da droga, que, à época, foram as vítimas preferenciais daqueles que arbitravam sobre a vida e a morte nas áreas periféricas. Portanto, não é exagero supor que, nesse período, o deslocamento espacial de consumidores de crack das periferias para o centro adveio do fato de que estes procuravam fugir de assassinatos e retaliações.1 Vale notar que, atualmente, o fluxo periferias-centro segue outra lógica, distinta daquela do início dos anos 1990, afinal, a possibilidade de ser morto em tais bairros periféricos é menor, em decorrência da gestão da violência praticada por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), que, entre outras consequências, contribuiu para a queda dos homicídios na cidade. Ao que parece, outro dispositivo de gestão foi acionado: a prática de interditar consumidores indesejados, isto é, não vender para aqueles que desenvolvem usos considerados abusivos e problemáticos da droga.2

Portanto, se por um lado a região conhecida como Cracolândia encontra-se conectada às dinâmicas mais amplas da gestão da violência e do comércio de drogas na cidade de São Paulo, por outro articula-se também com as inúmeras transformações urbanas desencadeadas por gestões municipais e estaduais de diversos partidos, ao longo das últimas duas décadas. Tais transformações tanto expandiram as centralidades da metrópole, depreciando simbólica e materialmente esse “centro antigo”, quanto, recentemente, o fizeram alvo de projetos urbanísticos, como o engavetado Nova Luz, atualizando localmente práticas de enobrecimento e recomposição do uso social desse espaço.

A Operação Sufoco, de 2012, que pretendeu expulsar os usuários de crack da região provocando muita “dor e sofrimento”, sem dúvida, é um ponto de inflexão para compreender as novas configurações do local. Essa intervenção, ao acionar a violência contra os ocupantes do local, também fez emergir uma disputa inédita em torno das formas de solucionar ou lidar com a “questão” da Cracolândia, alterando o campo de poder e conflitos, originando nova correlação de forças, bem como as condições de possibilidade para a emergência de outras formas de gestão do espaço urbano e da população nessa territorialidade móvel ao longo do espaço e do tempo.3

As disputas que a área movimenta nas agendas das políticas municipais, estaduais e federais, as lutas no campo jurídico e os embates incessantes entre os diferentes saberes da saúde pública evidenciam que a Cracolândia se configurou, nos últimos anos, como um potente conector urbano – um ponto de gravitação – no qual se cruzam múltiplas linhas de força, de intensidades e velocidades variadas. Trata-se de um ponto nevrálgico do urbano, espaço estratégico de entrecruzamento de uma infinidade de agentes governamentais, de atores do chamado Terceiro Setor, de ativistas e militantes, de vários atores religiosos, sejam eles católicos, batistas ou neopentecostais, e de participantes do “crime” conectados a outras regiões da cidade. Ímã, ela congrega uma diversidade de atores que transitam pelo local ou mesmo vivem e trabalham na região e, portanto, uma pluralidade de trajetórias, circuitos e percursos urbanos que, como linhas de força, conectam a Cracolândia à cidade.4

Ano a ano, mais e mais poderosa

A depender da perspectiva, e como poucas pesquisas sobre a área vêm atentando, desse pequeno recorte do espaço urbano conhecido como Cracolândia – que muitas vezes se reduz a uma única rua – é possível acionar reflexões variadas sobre políticas governamentais, redução de danos, cosmopolítica batista, conversões religiosas, prisões, comunidades terapêuticas, periferias, albergues, ocupações, acesso à justiça, repressão e arbitrariedade policial, PCC, usos da cidade, interações entre citadinos, interesse imobiliário e humanitário, processos de subjetivação existencial dos mais marginalizados da cidade. Nada, portanto, mais descontextualizado do que a insistência do poder público em realizar ações apenas locais. Conectora do urbano, da Cracolândia se depreendem questões sensíveis, portanto, que explodem com visões estanques sobre a localidade e a observam não como uma “ilha impenetrável” na região central de São Paulo, mas como ponto de gravitação de onde se vislumbra a cidade. Por isso, a Cracolândia persiste, ano a ano, mais e mais poderosa.

Sua força reside principalmente na insistência e na resistência de usuários de crack, ex-presidiários, prostitutas, alcoólatras, adolescentes infratores e moradores de rua, entre outros que são vistos, tratados e classificados apenas como dejetos sociais, em permanecer no espaço, em existir, a despeito das variadas iniciativas que visam retirá-los de lá ou mesmo eliminá-los, seja sob a lógica da punição, repressão e controle – cujo principal exemplo é a utilização do mecanismo da prisão provisória –, seja sob a lógica da assistência, saúde e cuidado. Esse embate é cotidiano e tem sua evidência performada todos os dias às oito da manhã, às três da tarde ou às sete da noite. Pois todos os dias, nessas três ocasiões, a municipalidade os importuna com a limpeza das ruas do entorno utilizando jatos de água, até quando chove, e retirando seus pertences – na maioria das vezes à força, com tapas, chutes e socos –, que são depositados em um caminhão por homens da guarda municipal que, muitas vezes, utilizam máscaras e luvas nessa cruzada diária. Do mesmo modo, todos os dias, três vezes por dia, as pessoas que ali estão se movimentam orquestradamente, sempre com novos utensílios e objetos, sempre encontrando formas de se proteger do asfalto molhado e do sol cortante. As pessoas que ali estão resistem existindo juntas, se acumulando aos seus objetos, como que zombando do incrível aparato mobilizado para higienizá-las, docilizá-las, eliminá-las e geri-las, permanecendo vivas no coração da metrópole.

Taniele Rui e Fábio Mallart

*Taniele Rui é pós-doutoranda do Núcleo de Etnografias Urbanas do Cebrap e autora do livro Nas tramas do crack: etnografia da abjeção (Terceiro Nome/Fapesp, 2014); e Fábio Mallart é doutorando em Sociologia pela USP (bolsista Fapesp) e autor do livro Cadeias dominadas: a Fundação Casa, suas dinâmicas e as trajetórias de jovens internos (Terceiro Nome/Fapesp, 2014).

1              Mais amplamente, a década de 1990, dos anos de redemocratização, reestruturação produtiva, abertura econômica e expansão de mercados, inclusive os ilícitos, é a mesma que ficou conhecida pelo recrudescimento dos índices de crime violento, isto é, de morte matada, na cidade de São Paulo. Para muitos moradores de bairros periféricos, esse período é lembrado como “a época das guerras”. Ver Gabriel Feltran, “Crime que produz governo, governo que produz crime”, Revista Brasileira de Segurança Pública, São Paulo, v.6, n.2, p.232-255, 2012.

2    Sobre a questão do consumo de drogas no que se refere às políticas do PCC, ver Karina Biondi, “Consumo de drogas na política do PCC”, Coletivo DAR, 14 mar. 2011. Disponível em: http://coletivodar.org/2011/03/cartas-na-mesa-consumo-de-drogas-na-politica-do-pcc/.

3    Mais informações, cf. Taniele Rui, “Depois da ‘Operação Sufoco’: sobre espetáculo policial, cobertura midiática e direitos na ‘Cracolândia paulistana’”, Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar, v.3, p. 287-310, 2013.

4            Parte dessa reflexão acerca da Cracolândia como potente conector urbano está sendo desenvolvida no âmbito do Projeto Temático Fapesp 2014-2018: A gestão do conflito na produção da cidade contemporânea: a experiência paulista, sob coordenação da professora Vera da Silva Telles (Departamento de Sociologia, USP).

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