Medo e ódio: a nova direita alemã

Martin Bahrman, político da cidade de Meissen, na Saxônia, preparava-se para falar num debate na Câmara sobre abrigos para refugiados, quando uma bola de paintball bateu na sua testa. Como membro do Partido Democrático Liberal (FDP), o assento de Bahrman na Câmara fica no fundo da sala e a galeria onde estão os visitante está logo atrás dele. A bola partiu de alguém do público. Quando ele voltou à sala, deparou-se com um mar de rostos hostis. Embora 80 pessoas assistissem ao debate, ninguém admitiu ter visto o culpado. O representante do FDP e seus colegas foram insultados e chamados de “traidores do povo alemão”.

A bola atirada em Meissen não chamou muita atenção da mídia, mas diz muito sobre o sentimento da população na Alemanha, país em que muitas pessoas estão unidas contra o Estado, suas instituições e autoridades eleitas. E é o país onde os incidentes da violência por parte da direita vêm aumentando e abrigos para refugiados são incendiados quase que diariamente.

 
 

Trata-se de uma minoria radical a responsável por grande parte da xenofobia e violência. As dezenas de milhares de voluntários que ajudam nos abrigos diariamente ainda predominam. Mas ao mesmo tempo uma nova direita vem crescendo. Ela é muito mais hábil e está seduzindo mais gente que seus predecessores neonazistas.

A nova direita provém do centro burguês da sociedade e abrange intelectuais com valores conservadores, cristãos devotos e cidadãos enfurecidos com a classe política.

O novo movimento atrai também pessoas que, do contrário, poderiam ser descritas como de esquerda: admiradores de Putin, por exemplo e ativistas antiglobalização. Movimentos que vêm se juntando e que nunca foram parte do mesmo campo. Juntos, formaram um movimento de protesto clamoroso que tem radicalizado o clima no país por meio de manifestações e uma ofensiva digital pela internet.

O Estado e seus órgãos, como governo e Parlamento, se tornaram objeto de uma espécie de escárnio jamais visto desde a fundação da Alemanha pós-guerra. Mais uma vez os representantes políticos são denunciados como “traidores do seu povo”, o Parlamento como uma “câmara fofoqueira” e os jornais são taxados de “conformistas”. Todos insultos que têm origem no passado sombrio do país.

Os mais de um milhão de refugiados que chegaram à Alemanha em 2015 hoje funcionam como catalisadores desse novo momento de direita. O temor dos estrangeiros, de serem “sufocados” por eles, está unindo a nova direita e atraindo mais “cidadãos preocupados” para suas fileiras.

Inquietação. A sociedade alemã parece mais inquieta do que nunca. Numa pesquisa realizada pelo TNS Forschung para a Spiegel, 84% dos indagados disseram que o grande número de refugiados que chega hoje à Alemanha provocará mudanças duradouras no país. Cerca de 54% estão preocupados de que o perigo do terrorismo aumente em virtude da quantidade de refugiados no país. Para 51%, os crimes deverão aumentar. E 43% disseram se preocupar com um aumento do desemprego.

As respostas refletem a profunda intranquilidade na sociedade. Muitas pessoas parecem ter perdido a orientação. Sentem que suas preocupações não são levadas a sério pelo governo federal, que não dá a impressão de que mantém sob controle a crise dos refugiados.

Mas são os conservadores de Angela Merkel, os cristãos democratas, juntamente com a União Cristã Social na Baviera, que estão mais inquietos. Seus membros e funcionários estão divididos entre a lealdade à uma chanceler que abriu as portas da Alemanha para os refugiados e o seu desejo de oferecer um espaço político para aqueles que estão preocupados com esse fluxo migratório. Na verdade, o destino político de Merkel em parte será decidido pelo modo como ela vai lidar com essa nova direita.

A fundação Otto Brenner Stiftung, ligada aos sindicatos trabalhistas alemães, publicou um estudo sobre o populismo de direita na Alemanha. A fundação concluiu que os que apoiam a nova direita não se identificam claramente como sendo de direita.

Violência. Casos de violência por parte da direita aumentaram muito nos últimos meses e os ataques são cada vez mais brutais. Na noite do dia 7, dois carrinhos de bebê foram incendiados no hall de entrada de um edifício de apartamentos que abriga 70 refugiados na cidade de Altenburg. Ao menos 10 pessoas, incluindo dois bebês, ficaram intoxicadas pela fumaça. Dois dias antes, ativistas de direita de Thügida, sucursal local do Pegida, realizaram manifestação em Altenburg com cartazes que diziam: “Continuem sua luta”.

A manifestação e o incêndio dos carrinhos foram noticiados por poucos jornais. As pessoas se acostumaram a esse tipo de ataques na Alemanha.

Em dezembro o ministério do Interior registrou 817 “atos criminosos contra abrigos de refugiados”. Em outubro foram 505. Em comparação com 2014, o número de ataques quadruplicou. Essa nova forma de resistência é vista por todo o país.

Mais importante do que combater os sintomas é saber o que tem causado essa guinada para a direita. A crise dos refugiados juntou os temores reprimidos da sociedade alemã, criando uma mistura explosiva. Os nacionalistas temem ser esmagados pelos estrangeiros. Os que criticam o Islã alimentam a ilusão de uma islamização do Ocidente. Os assalariados de baixa renda não querem que os refugiados disputem seus empregos. E há os que consideram os políticos incompetentes e a democracia uma forma medíocre de governo.

Além disso, os membros da grande coalizão no poder – conservadores e social democratas – compõem quase 80% do Parlamento. Os únicos partidos de oposição, a esquerda e os verdes, são deixados de lado. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), não conseguiu votos suficientes na última eleição de 2013, assim como o FDP. Milhões de cidadãos que se identificam com a direita cristã não têm voz no Parlamento.

Imprensa. “Mídia mentirosa”, grita a multidão. Alguns dias depois, Armin Paul Hampel, um dos novos líderes do partido Alternativa para a Alemanha, dirá que não é bem assim. “Naturalmente nem todos os jornalistas mentem. Sempre digo às pessoas que nunca vi um editor censurando uma notícia. As coisas não funcionam assim”. Mas existem muitos colegas, afirmou, que “têm tesouras na cabeça” e se autocensuram.

O fato de o pessoal da extrema direita ter suas próprias ilusões sobre o mundo tem muito a ver com o fato de que, deliberadamente, boicotar a mídia convencional e confiar mais nas suas fontes de informação.

Durante muito tempo o centro da Alemanha não deu atenção necessária à radicalização da direita, que foi ignorada. Não é possível mais essa atitude. A nova direita se tornou muito ruidosa; sua influência no clima do país cresceu demais.

Mas os grandes partidos alemães só conseguirão reconquistar a credibilidade perdida se eles se distanciarem da xenofobia e do nacionalismo de um lado e mostrarem para a sociedade que não são vulneráveis e incapazes de lidar com a questão.

Nem os políticos, tampouco a população alemã, devem nutrir qualquer ilusão quanto ao objetivo derradeiro dos pensadores de direita e o seu crescente número de seguidores. É o mesmo pensamento de pessoas como Carl Schmitt, pensador fascista da República de Weimar. Ele queria destruir o sistema democrático e criar algo novo, não importava o que fosse.

Uma das imagens mais populares da nova direita é o de uma mulher loira com uma criança loira no colo. Abaixo da foto está escrito: “A Alemanha sobreviverá à República Federal”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*MELANIE AMANN, MAIK BAUMGÄRTNER, MARKUS FELDENKIRCHEN, MARTIN KNOBBE, ANN-KATHRIN MÜLLER, ALEXANDER NEUBACHER E JÖRG SCHINDLER

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