Tempo de perguntar

 
 

Paul Johnson, em sua História do Cristianismo, cita exemplos da polêmica provocada pelas Teses de Wittenberg (1517), manifesto de Lutero que inaugurou a Reforma Protestante. Em um texto, amigos de Erasmo de Rotterdam descompunham um bispo católico inglês que ligara o nome do humanista ao de Lutero: “seu nojento, se não implorar perdão a Erasmo, atirarei seu nome, como excremento, para além das fronteiras da posteridade, de modo que as pessoas possam lembrar-se do seu fedor para sempre”.

Lutero, por seu turno, “convidou a cristandade a lavar suas mãos no sangue desses cardeais, papas e o restante da ralé da Sodoma romana”, enquanto os teólogos católicos de Louvain chamavam-no de “pestilento flato de Satanás, cujo mau cheiro chega aos céus”. Em outro momento, Lutero disse, ao atacar os seguidores do rebelde protestante Thomas Münzer: “quanto aos perversos, punam, apunhalem e assassinem todos os que conseguirem (…). Esses tempos são tão extraordinários que um príncipe pode conquistar os céus mais facilmente pelo derramamento de sangue que pela oração (…). Não se pode encontrar um rebelde com razão: a melhor resposta a lhe dar é socar seu rosto até fazer seu nariz sangrar”.

Os panfletos espantam pela truculência. Mostram, além do mais, que controvérsias públicas, ao ultrapassarem a barreira do decoro, beiram a fúria paranoica. No Brasil, creio, vivemos, infelizmente, num clima político que evoca esse tipo de beligerância. Mas, será que tem de ser assim? Ter pontos de vista divergentes sobre justiça e liberdade autoriza o tom fanático das discussões? Não falo de opinião apaixonada; falo de atitudes e palavras que buscam “socar o ponto de vista do outro até fazê-lo sangrar”. Muitos, porém, não se contentam com as respostas prontas e acham que ainda é tempo de perguntar: qual a razão desta degradação do debate público? É com esses que penso em partilhar duas ou três dúvidas sobre o status quo político.

Em primeiro lugar, a questão do primarismo político atual. Nesse caso, pergunto: o que significa viver num país de desigualdades atrozes e no qual os governantes, anos a fio, prometeram aos sujeitos uma abundância material perdulária, predatória e além de tudo fictícia? A meu ver, é isso que veio à tona de forma explosiva. A violência da expectativa frustrada foi proporcional à intensidade e à inverossimilhança da sedução imaginária. Intelectuais, políticos e militantes de todo espectro ideológico acordaram, de repente, sacudidos por protestos inesperados. Grande parte dos cidadãos, enfim, se deu conta, do que, talvez, sempre tenha evitado ver: a mentira sistemática na política. O tema da corrupção, penso, é o sintoma mais visível dessa insatisfação.

De fato, as oligarquias político-econômicas se revezam no poder, sem se sentir obrigadas a justificar eticamente seu modo de governar. A desfaçatez é tal que resolveram seguir o cínico conselho de Voltaire: mentez, mentez, il en restera toujours quelque chose (minta, minta sempre, alguma coisa ficará). Ora, diante dessas duplas mensagens político-psicológicas, é de estranhar que os mais descontrolados se entreguem a orgias de insultos e fantasias desabridas de revanche? O que esperávamos? Neutralidade emocional? Ingenuidade além da conta é prova de tolice. Se quisermos, de fato, civilidade na política temos que ter políticos civilizados!

Em segundo lugar, passemos ao tópico realmente importante da querela: socialismo ou capitalismo; estado coadjuvante ou estado protagonista? Aqui, caberia perguntar: no Brasil, estamos dispostos a rever as ideias dominantes sobre o papel da economia privada e do Estado em sociedades democráticas? Penso que o esforço nesse sentido é incipiente. O que predomina é a crença na infalibilidade das próprias visões de mundo, chamada por Tony Judt de “pecado intelectual do século 20”. O “pecado”, diga-se de passagem, havia sido denunciado por Popper, há quase 60 anos. Popper, na época, desmistificou a falácia das “profecias históricas” totalitárias que se apresentavam como “predições científicas”. Judt foi adiante e mostrou que as “profecias” sequer precisam de “autoconfirmação” para se perpetuar. Basta encontrar um “culpado” pelo malogro e tudo está explicado. Por exemplo, muitos liberais acreditam piamente que as sociedades capitalistas são o apogeu do progresso humano e muitos militantes do “socialismo estatizado” acham que seus objetivos, como notou Bernard Williams, “são abençoados pelo universo”. Por isso, quando raramente admitem falhas em suas previsões, culpam os rivais pelo insucesso da “profecia”: os culpados são a “esquerda”, os socialistas, os comunistas, os neomarxistas etc, ou, então, a “direita”, o capitalismo, o imperialismo etc.

Obviamente, conservadorismo reacionário existe, imperialismo existe, e o capitalismo desenfreado pode devorar tudo, do ambiente natural às entranhas cerebrais. Por outro lado, os regimes comunistas, caso tivessem sobrevivido à absurda ineficiência econômica e à atmosfera de terror que criaram na sociedade, seriam tão nocivos quanto a predação humana e ambiental produzida pela ganância do lucro. O problema do pensamento unidimensional não é ocultar o que salta à vista; é ter conhecimento do que se passa e, mesmo assim, ser incorrigível pela crítica e pela experiência. A crença profética é sempre autoevidente, apodítica, e nunca circunstancial. Não é de admirar, portanto, que o grande argumento em favor de sua “validade universal” sejam os mais sombrios episódios históricos do passado e as mais sombrias imagens hipotéticas do futuro.

O que não se considera é que o inferno de ficções morais como 1984, de Orwell, Admirável Mundo Novo, de Huxley, ou, do lado socialista, a “sociedade totalmente administrada”, de Marcuse, são táticas retóricas que visam reforçar o clichê “ou será como eu penso, ou será a barbárie”. Entretanto, a alternativa entre o ruim e o pior não é compulsória. Se trocarmos as lentes de leitura, em vez de impasses poderemos ver a confusa assimilação de objetivos políticos a objetivos culturais. É dessa maneira que leio as esclarecedoras afirmações de Tony Judt e Pepe Mujica. Para os dois, o projeto político e o projeto cultural, embora se entrelacem, não coincidem. A política deve coordenar a economia e os dispositivos de Estado para permitir que os indivíduos, de maneira tão livre quanto possível, possam fazer experimentos pessoais e comunais de aperfeiçoamento no viver democrático. Equipamentos de Estado e economia privada não são instituições sociais antagônicas, exceto se impedirem os respectivos funcionamentos.

Para mostrar como a coordenação pode operar, mesmo sem a plena consciência dos atores envolvidos, Judt dá como exemplo o uso do Estado pelos liberais. Os liberais, prossegue ele, sabem que “quando os bancos vão à falência e o desemprego aumenta brutalmente (…) não existe ‘Estado do mercado corporativo’. Só o Estado que conhecemos desde o século 17. É tudo o que temos”. Ou seja, malgrado os protestos aparentes, os liberais não hesitam em usar o Estado, mesmo em casos tão criticáveis quanto o socorro a bancos e corretoras desonestos ou incompetentes. Mujica, por sua vez, dialogando com o campo socialista, mostra qual a função das empresas privadas e do Estado eficiente. No que toca as empresas, diz que é “preciso levar o capitalismo a sério”; que se uma empresa capitalista “sucumbe todos perdemos” e que, “embora se escandalize com a exploração do homem pelo homem” sabe que se não “houver muito o que repartir, não há condições para o socialismo”. Quanto ao Estado, as opiniões são ainda mais contundentes. Insiste em dizer que a solução socialista para a sociedade não se encontra no “monopólio burocrático da miséria”; que o Estado como instrumento de governo “nem é de direita nem de esquerda”, e que, frequentemente “a burocracia se mostrou pior ainda que a burguesia, porque pelo menos a burguesia tem um impulso criador – mesmo que seja para comer seu fígado. A burocracia vive só do que outros já criaram”.

A vantagem desse ponto de vista é, a meu ver, tripla. Numero um, o cidadão ao ver a articulação às claras entre o capitalismo e o Estado voltado para o bem-estar social pode inibir mais facilmente a corrupção e os desmandos de políticos, administradores e empresários igualmente inescrupulosos. Número dois, os ideais culturais, satisfeita a etapa da mínima moral política, perdem a aura profética e reduzem, desse modo, o espaço das manifestações de sectarismo político. Numa sociedade razoavelmente justa, pensar sobre valores e modos de vida, deixa de ser privilégio de iniciados para ser uma prerrogativa da maioria. Consequentemente, o bem comum não é mais assunto de especialistas em profecias, e sim algo sujeito à opinião de todos. Por último, o mais fundamental. Livres de carências urgentes, podemos vir a refletir sobre mudanças significativas em nossas formas de viver, sem recurso à violência de Estado ou do poder econômico. Tenho em mente, por exemplo, as sugestões de Eduardo Viveiros de Castro acerca da incompatibilidade entre capitalismo e sustentabilidade. Esse e outros debates, verdadeiramente cruciais por implicarem o futuro das novas gerações, só podem ser justamente avaliados num clima de discussão democrática. Como diz Judt, “uma coisa é eu dizer que estou disposto a sofrer agora por um futuro desconhecido, mas possivelmente melhor. Outra coisa é eu autorizar o sofrimento de outros em nome dessa mesma hipótese inverificável”. No mesmo diapasão, diz Mujica: “não temos o direito de sacrificar a vida de uma geração em nome de utopias”, sejam quais forem. Mas, para cumprir esse programa exigente e delicado, o requisito maior é o pacto de honradez entre governantes e governados, pois, continua Mujica, “as pessoas vão lhe perdoar se você não conseguir fazer tudo por causa das dificuldades ou porque errou, mas não têm mais paciência para tolerar sacanagens (…). Estou propondo a honradez ao máximo”.

Alguns chamarão o pacto de “reacionarismo moralista”; outros, de “criptomarxismo”. Così è, se vi pare (assim é, se você quiser).

JURANDIR FREIRE COSTA PSICANALISTA E ESCRITOR, É PROFESSOR DO INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL DA UERJ E AUTOR DE O PONTO DE VISTA DO OUTRO (GARAMOND)

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