A Síndrome de Estocolmo da esquerda brasileira

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Leonardo Sakamoto
12/01/2016 17:21
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É incrível como alguns atores sociais e políticos autodeclarados de esquerda, que tanto criticam os veículos de comunicação tradicionais, dependem da validação destes para serem felizes.

Em sua defesa dizem que não é possível menosprezar esses veículos por sua abrangência nacional e influência junto a formadores de opinião e à população em geral. O problema é que superestimam – e muito – essa influência, criando uma relação estranha. É natural que pessoas comuns peguem o nicho do qual façam parte e, metonimicamente, extrapolem para o todo, mas o mesmo não se esperaria de atores mais experientes.

Vejo postagens em redes sociais descascando jornais, com reclamações que fazem sentido, mas afirmando que esses veículos não têm a mínima credibilidade – o que, por sua vez, é bizarro por atacarem o argumentador e não o argumento.

Bradam aos quatro ventos o fechamento do periódico, perguntam por que as pessoas ainda leem esses veículos, choram sangue em público.

Daí, dias depois, vejo recomendações de leituras dessas mesmas pessoas, felizes da vida porque os mesmos veículos deram destaque em editoriais para um assunto que os interessava. Ou, pior, que os elogiava. Da notícia de um filme a uma nota na editoria de política.

Há quem pede que uma determinada emissora feche as portas e fica possesso se marcamos uma reunião no horário da novela.

Caso conhecido, que se tornou piada em Brasília pelos próprios colegas, é a relação entre determinados petistas e certos jornais. Reclamam quando são criticados ou ignorados (tem gente que fica deprimido) e ficam radiantes, quase de forma pueril, quando suas posições saem publicadas.

Nesse momento, o mundo se ilumina, Harry Potter mata Voldemort, a mãe do Bambi ressuscita.

Com alguns tucanos, isso é diferente. Pois, conforme histórias de um rosário de colegas editores que, por razões óbvias não querem se identificar, há políticos que já ligaram na redação para tentar demitir repórter em ano de eleição.

O impacto de notícias equivocadas por apurações preguiçosas, incompetentes ou decorrentes de má fé é inquestionável. Mas já passou da hora de amadurecermos as relações, pois estamos em uma democracia. Uma mal feita, mas ainda assim uma democracia.

No fundo, todos sabem que o caminho não é calar determinada revista, jornal, rádio, TV ou site e suas linhas editoriais mas, sim, criar alternativas reais de comunicação para que outros discursos de interpretação da realidade tenham força. Em outras palavras, fomentar a pluralidade – que até existe, mas com pesos diferentes. Temos muitos veículos, muitas vozes, mas umas sussurram e outras gritam.

Fomentar veículos tradicionais ou alternativos é uma política fundamental para um país (inclusive vozes dissonantes do governo de plantão e não apenas amigos). Países subdesenvolvidos e miseráveis, exemplos de um comunismo centralizador e decadente, com uma população sem dentes na boca que comem ratoburguers para sobreviver, como a Noruega, já fazem isso.

Mas há gente que se acostumou tanto na patológica relação de apanhar e ganhar um afago que dificilmente conseguirá sair dela. E só será feliz se for validado pelo seu veículo de comunicação preferido. Nesse caso, talvez apenas uma mudança geracional resolva.

Enquanto isso não ocorre, fica martelando na minha cabeça as palavras de uma liderança do movimento negro: a primeira senzala a ser derrubada é aquela que está dentro do próprio oprimido.

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