Redes sociais formam ‘bolhas políticas’

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Redes sociais formam ‘bolhas políticas’

Antes de os brasileiros a favor e contra a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro da Casa Civil invadirem as ruas nas últimas semanas, grande parte deles manifestou seus pontos de vista nas redes sociais. Em seus perfis, compartilharam suas opiniões políticas, convocaram amigos para manifestações, travaram discussões e recorreram a medidas extremas, como deixar de seguir amigos de longa data.

O que a maior parte dos usuários não sabe é que toda essa atividade é um “prato cheio” para os algoritmos, uma série de códigos baseados em inteligência artificial que estão entranhados no Facebook e em outros sites. Com base no que “aprende” sobre cada usuário, ele mostra mais conteúdos que “acha” que o usuário vai gostar.

Radyr Papini critica o governo no Facebook
Radyr Papini critica o governo no Facebook

Segundo especialistas consultados pelo Estado, a tecnologia que ajuda o usuário a encontrar mais conteúdo relevante na internet está criando uma “bolha” em torno das pessoas. No caso das disputas políticas, o efeito é claro: o usuário sempre tem a impressão de que está certo, já que só tem contato com aqueles que compartilham de sua visão.

Usar algoritmos em sites não é uma novidade. Eles ganharam fama em 1996, quando Sergey Brin e Larry Page, cofundadores do Google, escreveram um código para exibir primeiro as páginas da internet mais relevantes para uma determinada pesquisa. Sites com menor importância e menos links ficavam no fim da lista. A tecnologia – que atualmente leva em conta dezenas de outros fatores – deu origem ao maior buscador de sites da internet.

Com o sucesso do Google, outras companhias da internet criaram algoritmos. No caso das redes sociais, o Facebook passou a exibir postagens dos usuários mediante sua relevância a partir do fim dos anos 2000. A tecnologia foi um dos fatores determinantes para seu sucesso.

Caixa-preta. Assim como outras empresas, o Facebook nunca revelou em detalhes como seu algoritmo funciona. Pelo que se sabe, ele considera ações dentro do site: ao curtir, compartilhar, comentar ou bloquear conteúdos, o algoritmo “aprende” e passa a exibir apenas o que considera relevante para aquela pessoa. O restante fica no final do feed de notícias – ou, simplesmente, é ignorado.

“O algoritmo e o usuário coproduzem o feed”, explica o professor de ciência da informação da Universidade de Michigan, Christian Sandvig. “O computador te observa e aprende com o que você clica. Ao mesmo tempo, você decide como responder ao que ele mostra a você.”

Segundo o Facebook, o algoritmo ajuda o usuário a aproveitar melhor o conteúdo publicado na rede. “O volume de conteúdo criado e compartilhado é proporcional ao número de usuários. Assim, o algoritmo é uma forma de permitir que cada pessoa tenha acesso ao que julga mais importante”, disse a empresa, em nota. Atualmente, o Facebook é a rede social mais popular do mundo, com 1,59 bilhão de pessoas conectadas.

Na prática, se uma pessoa gosta mais de culinária do que esportes, ela interage de maneira positiva com postagens sobre o assunto. Ao compreender esta preferência, o algoritmo exibirá para este usuário as publicações relacionadas em primeiro lugar. Conteúdos sobre esportes ficarão, automaticamente, em segundo plano.

“O Facebook tende a filtrar aquilo que é socialmente relevante para um grupo. Isso dá a sensação de que toda a rede social concorda com você”, comenta a professora e pesquisadora de mídias sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Raquel Recuero.

Além da maçã. Enquanto o algoritmo se restringe aos gostos pessoais, os efeitos não são nocivos. As coisas mudam de forma, entretanto, quando o conjunto de códigos começa a influenciar na visão política das pessoas. A “bolha política” já foi comprovada por diversos estudos. Um deles – realizado em novembro de 2010 pela Universidade da Califórnia, com aval do Facebook – simulou as eleições presidenciais americanas e concluiu que cerca de 340 mil pessoas mudaram de voto após verem uma postagem positiva sobre um candidatos no topo do feed de notícias. “Seria bastante simples para uma rede social como o Facebook manipular uma eleição”, diz Sandvig.

No Brasil, nenhum estudo foi realizado para entender a influência do Facebook na política. Porém, usuários da rede social já sentiram na pele os efeitos da “bolha” ao longo das últimas semanas.

O administrador de empresas Radyr Papini, 37 anos, é a favor do impeachment da presidente Dilma e compartilha uma média de cinco posts contra o governo por dia. Ele afirma que, em seu feed de notícias, “95% das postagens são contra a presidente”. Do outro lado, a situação se repete. O estudante de matemática Gustavo Sales, 22 anos, bloqueou a maior parte dos amigos que são favoráveis ao impeachment. Ele notou uma mudança clara em seu feed. “Agora, nunca vejo pessoas apoiando o impeachment.”

Limitação. Esta sensação de que todos compartilham da mesma opinião causa problemas. A ausência de debate é um deles. “A experiência, sobretudo no Facebook, não permite que todo usuário seja escutado”, afirma Fábio Malini, coordenador do laboratório de estudos sobre internet e cultura da Universidade Federal do Espírito Santo. Outro fator é o “efeito manada”, que tem consequências nos mundos virtual e real: ao ver posições parecidas com a sua, as pessoas reforçam suas opiniões e se sentem mais estimuladas a protestar.

A solução para essa “bolha” ainda não está clara e a tarefa deve ficar mais difícil no futuro, à medida que outros sites adotam algoritmos. Nas últimas semanas, Twitter e Instagram anunciaram que vão abandonar a cronologia das publicações em favor desses códigos.

“É importante que as pessoas estejam conscientes desse processo algorítmico de seleção”, alerta Pedro Domingos, autor do livro The Master Algorithm e professor de ciências da computação da Universidade de Washington. “No futuro, ele será usado por outros serviços, que ainda nem imaginamos.”

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