Ataque à ciência 

O site da revista Veja divulgou comentários, não desmentidos, do governador do Estado, sobre as universidades públicas paulistas e, particularmente, sobre a Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, em reunião do secretariado. “Gastam dinheiro com pesquisas acadêmicas sem nenhuma utilidade prática para a sociedade. Apoiar a pesquisa para a elaboração da vacina contra a dengue, eles não apoiam. O Butantã sem dinheiro para nada. E a Fapesp quer apoiar projetos de sociologia ou projetos acadêmicos sem nenhuma relevância.” São comentários para deixar alarmada, pela improcedência, a comunidade científica, não só a de São Paulo. A pesquisa para a produção da vacina contra a dengue, já em fase final, pelo Instituto Butantã, é financiada pela Fapesp como o é, também, a pesquisa sobre a zika e a microcefalia. A pesquisa científica tem seu tempo e custo, por maiores que sejam as urgências dos políticos. As ciências da saúde levam quase metade de seus recursos, enquanto as humanas e sociais apenas 10%.

Sobrou também para as três universidades públicas paulistas, em diversos campos do conhecimento situadas com as melhores colocações da América Latina nos “rankings” internacionais. Foram definidas como “máfia das universidades sugando dinheiro público”. Fica difícil explicar isso aos professores da USP, da Unesp e da Unicamp, que veem seus salários reais sendo reduzidos a cada dia. Nem por isso deixam de cumprir com zelo e competência, em condições adversas, sua missão nas salas de aula, nos laboratórios e no trabalho de campo, não raro até mesmo fora dos horários e dos dias convencionais da lei. A última coisa de que os docentes e pesquisadores de São Paulo precisam é de um insulto desses.

Enormidade do engano. Convém lembrar o que são as três universidades paulistas e o que é a Fapesp para que se entenda a enormidade do engano. Em 1934, um dos mais lúcidos governadores que São Paulo já teve, Armando Salles Oliveira, criou a Universidade de São Paulo. Uma universidade pública, laica, gratuita e democrática. O governo de São Paulo queria uma educação revolucionária, moderna, que nos emancipasse definitivamente dos grilhões do atraso, da burrice e da ignorância. A Sociologia era um dos principais instrumentos dessa emancipação. Já haviam sido dados passos nesse sentido, após a Abolição, nas áreas básicas e técnicas, com a criação da Escola Politécnica, do Instituto Butantã, da Faculdade de Medicina, do Instituto de Higiene, do Liceu de Artes e Ofícios.

Em 1934, os paulistas propuseram-se a realizar aqui pela cultura e pela ciência, em curto prazo, a revolução social e econômica que em outros países tardou séculos. A USP e, depois, a Unesp e a Unicamp deram um passo gigantesco como centros de produção e difusão de conhecimento de alto nível, o que é internacionalmente reconhecido. Os fundadores da USP, sobretudo Júlio de Mesquita Filho, tinham consciência de que eram esses os atos finais de superação da sociedade criada pela escravidão, nosso grande débito e estigma.

A Fapesp foi o coroamento dessa revolução, em 1960, no governo do lúcido professor Carlos Alberto de Carvalho Pinto. Ela recebe hoje, da arrecadação do Estado, apenas 1% e, por lei, não pode gastar no custeio nem um centavo além de 5% daquilo que é recebido, uma norma que, neste país de desperdícios, deveria ser aplicada a todas as instituições públicas.

Conhecimento para superar a pobreza. Na universidade, o conhecimento para aplicação prática é uma de suas grandes metas, também nas ciências humanas e sociais. Na área médica e de saúde, se faz nos hospitais universitários. Ninguém diria que são hospitais irrelevantes, que as escolas de aplicação dos cursos pedagógicos são desnecessárias, que os hospitais veterinários são descabidos, que as fazendas experimentais são inúteis. Ora, as nossas universidades públicas e a Fapesp foram criadas justamente para que superássemos a pobreza e a estreiteza das soluções meramente práticas e caseiras dos problemas que temos.

Há os que acham que as ciências humanas, como a sociologia, que são parte integrante do ideário humanista de criação da USP, da Unesp, da Unicamp e da Fapesp, são inúteis e que é um desperdício que também elas tenham acesso a recursos públicos para a pesquisa. A sociedade movida por ímpetos de senso comum é a da evasão escolar, dos problemas sociais, dos linchamentos e dos esquadrões da morte, mas não a da escola e a da Justiça, da lei e da ordem, da elevação cultural e da emancipação da pessoa. Um dos programas apoiados pela Fapesp é o do Núcleo de Estudos da Violência da USP que, com base na sociologia, na antropologia e no direito, investiga, interpreta e indica soluções práticas para superação das questões que estuda. Se os governos, em particular o governo do Estado, se interessassem mais pelos resultados das pesquisas científicas realizadas pelas universidades e patrocinadas pela Fapesp, cometeriam menos erros do que os que cometem em áreas como a saúde, a segurança e a educação.

 
 
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