Cheios de fome (sobre o PMDB)

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 Escrevo com o Brasil já sob nova administração. Crônica de uma morte longamente anunciada, a presidente Dilma foi afastada do cargo, e o vice, Michel Temer, assumiu o posto máximo do Executivo.

Vices são fundamentais no Brasil. A história da República tem tantos que seria prudente colocar em primeiro plano, nas próximas eleições, as ideias e a biografia do eventual substituto.

Deodoro foi nosso primeiro presidente, mas renunciou meses após ter sido eleito. Seu vice, Floriano Peixoto, trouxe energia e ideologia ao cargo, e é chamado de “consolidador da República”.

Nosso primeiro presidente civil, Prudente de Morais, tinha saúde frágil, e o vice, o médico Manuel Vitorino Pereira, teve oportunidade de substituí-lo. A morte do presidente Afonso Pena, em 1909, levou o vice Nilo Peçanha ao poder. A gripe espanhola levou o eleito Rodrigues Alves, e seu vice, Delfim Moreira, assumiu entre 1918 e 1919.

O assassinato de um vice, João Pessoa, em 1930, foi o estopim de um movimento que levou Getúlio Vargas ao Catete. Sem vice ao subir, Getúlio caiu sem vice em 1945, levando o presidente do STF, José Linhares, a se tornar a alternativa  possível. Outro vice, Café Filho, assumiu quando do suicídio de Vargas, em 1954, sendo o primeiro protestante a subir à presidência do Brasil. Outro vice, João Goulart, tornou-se presidente em 1961, com a renúncia de Jânio Quadros. Pedro Aleixo foi impedido de assumir quando o marechal Costa e Silva teve um problema de saúde. Daqui em diante a memória de muita gente ajuda: desde a redemocratização, três vices (Sarney, Itamar e Temer) tornaram-se presidentes.

Os três últimos apresentam em comum serem membros do PMDB. Partido surgido com o Ato Institucional número 2 (outubro de 1965), que dissolveu o pluripartidarismo e criou MDB e ARENA, uma oposição confiável e um partido da situação.

Curiosamente, nas justificativas para o ato institucional, os militares usaram um argumento que, de alguma forma, foi repetido por muitas pessoas nas votações da Câmara e do Senado recentes. Dizia o texto : “A Revolução é um movimento que veio da inspiração do povo brasileiro para atender às suas aspirações mais legítimas: erradicar uma situação e um governo que afundavam o País na corrupção e na subversão”.

É uma característica quase universal dos movimentos políticos invocarem que falam em nome do povo e não de interesses partidários ou pessoais. Desde que o conceito povo entrou no vocabulário político do Ocidente, com a Revolução Francesa, ele tem sido usado para tudo, menos para os interesses do povo propriamente ditos. O nome povo sempre foi sagrado, mas o povo real sempre foi alvo de gás de pimenta.

O MDB virou PMDB e continuou sendo uma frente ampla, sem uma posição clara sobre a maioria das questões. Acima de tudo, o partido virou peça estratégica. Por quê? Ele é suficientemente variado e amplo para poder estar associado a qualquer projeto político mais claro. Pode estar ao lado de um político tradicional como Tancredo Neves ou ao lado de um emergente da política como Collor. Também não faz má figura ao lado de um ex-operário socialista como Lula. Não existe contradição em termos porque não existem termos no PMDB. Não há negação de valores porque isso implicaria a existência deles.

Eventualmente, críticos do governo FCH podem levantar pontos e medidas que contrariam a tradição sociológica do ex-presidente ou a alegada social-democracia do seu partido. Da mesma forma, inimigos da era Lula-Dilma podem demonstrar que o mercado financeiro foi beneficiado de forma estranha para a orientação esquerdista de ambos. Esqueçam o que escrevi ou deletem quem eu fui são frases inerentes ao exercício do poder real no Brasil. Porém, seria injusto alegar qualquer incoerência com o PMDB. Incoerência em relação a qual princípio?

O PMDB foi convidado para estas chapas eleitorais não pelos valores, mas pela sua presença no legislativo federal e nas prefeituras, pela sua imensa atomização e maleabilidade. Sei exatamente o que pensam os deputados Bolsonaro ou Jean Wyllys. E um deputado do PMDB?

O novo presidente da República, Michel Temer, anunciou que constituiria um ministério de notáveis e com cortes no absurdo número daquela esplanada. Retrocedeu nas duas decisões. Lógica da Realpolitik: não é o idealismo da transformação que marca a ação nem de Temer e nem do PMDB, mas da já gasta ideia do príncipe de Salina de Lampedusa, da mudança superficial para garantir a manutenção estrutural. Dilma levou tempo para entender que o cão de guarda furioso ajuda o dono, desde que muito bem alimentado.

Monocórdio. Temer dá posse aos ministros, todos homens e todos brancos
Monocórdio. Temer dá posse aos ministros, todos homens e todos brancos

O curioso é que o PMDB foi escolhido por representar essa segurança. Sarney era o líder do partido que apoiou a ditadura e seu nome deveria acalmar conservadores sobre as intenções da Nova República. Itamar Franco era o contrapeso à ação coruscante de Collor. Temer cumpriu o mesmo papel. O PMDB garantia a blindagem do governo e essa quase autonomia bonapartista que marca Brasília em relação à nação.

O poder dos bastidores, o conchavo de sacristia, as reuniões que decidem tudo antes de levar a questão já acordada para o plenário foram e são as marcas dos políticos profissionais. A politica assim concebida, só entende valores como “clamor das ruas”, “respeito à constituição”, “bandeira da ética” ou outra qualquer como óleo a ser usado para lubrificar as engrenagens do poder. Democracia e povo são fundamentais, desde que, claro, não contrariem o objetivo prático e imediato do interesse político.

Mas há um risco em passar de vice a titular. É o risco inerente a toda amante que deseja ser esposa. A vida alternativa tinha quase todos os benefícios e pouca exposição. Agora, a vidraça está exposta ao sol e ao alcance dos estilingues. Poderíamos inverter a frase de Jesus no Calvário: “Pai, eles podem ser perdoados? Não sei, mas eles sabem exatamente o que fazem”.  Não duvide disso, leitor!

LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR E PROFESSOR DE HISTÓRIA CULTURAL DA UNICAMP

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