Após 4 anos de diálogo com Farc, luta política é novo obstáculo à pacificação

Com parte dos pontos acertados em Havana ganhando aplicação no dia a dia, presidente tenta convencer céticos de que guerrilha cumprirá compromissos e desconstruir discurso de opositores como Uribe, que pretendem derrotar acordo nas urnas

Após a assinatura do acordo final de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), após quase quatro anos de negociações, o governo de Juan Manuel Santos tem agora outro desafio: convencer a população a dizer “sim” ao acordo e, dessa forma, torná-lo efetivo. Para isso, além da “campanha pedagógica” sobre os pontos acertados, o presidente terá de enfrentar uma oposição política que pede a rejeição ao acordo.

Políticos e especialistas acreditam que o trabalho nas ruas para mostrar que os compromissos serão cumpridos pelas Farc é essencial para a vitória do “sim”. “Mesmo parecendo óbvio que para qualquer sociedade o melhor é a paz, existe aqui uma oposição de extrema direita empenhada há meses em mentir, distorcer informações e ganhar muitos eleitores, dizendo que vamos entregar o país à guerrilha. Nenhum desses argumentos delirantes têm a ver com a realidade dos acordos”, afirma o senador Roy Barreras, presidente da Comissão de Paz do Congresso e autor do projeto de lei do plebiscito que será votado no dia 2 de outubro.

Foto: REUTERS/John Vizcaino
Combatentes das Farc patrulham área montanhosa na região central do país

Combatentes das Farc patrulham área montanhosa na região central do país

A economista colombiana e pesquisadora associada do Instituto Igarapé, Katherine Aguirre, afirma que mesmo sendo noticiado que a paz terá um grande impacto econômico no país, “principalmente porque deve direcionar recursos do setor de segurança para setores de produção”, existe uma polarização.

“Muito em razão dos mitos sobre o processo de paz e das ideias falsas que ganharam força por falta de conhecimento do que realmente foi acertado.”

Com a desconfiança de uma população que viveu mais de 50 anos aprendendo que as Farc eram o inimigo a ser derrotado, a melhor forma de o governo mostrar que a guerrilha aceitou os termos impostos é noticiar as etapas do acordo de paz que já vigoram. Na sexta-feira, guerrilheiros começaram deslocar-se para as 23 zonas de concentração onde ficarão até que sejam plenamente reintegradas à vida civil, informou o Alto-Comissariado para a Paz.

“O fim do conflito já é uma realidade: as Farc estão deixando as zonas de conflito e se dirigindo para comunidades rurais”, disse o principal negociador do governo colombiano, Sérgio Jaramillo. “Isso requer uma logística especial, que virá acompanhada de zonas de registro de armas e o início do processo de capacitação para a reincorporação à sociedade”, explica Barreras.

Além dessa ação, a substituição de cultivos – outro ponto da agenda de negociações que ocorreram em Havana desde 2012 – também foi iniciada e reuniu integrantes do governo e da guerrilha mesmo antes do cessar-fogo bilateral ser acertado. Em julho, o conselheiro para o pós-conflito, direitos humanos e segurança, Rafael Pardo, iniciou, ao lado do integrante do secretariado das Farc e negociador, Pastor Alape, um projeto-piloto de substituir a plantação de coca em dez veredas de Briceño, no Departamento (Estado) de Antioquia, local muito afetado pelo conflito.

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Outro programa que já foi iniciado é o processo de desminagem em diversas cidades onde a atuação das Farc foi grande. Esse foi o primeiro programa das negociações de paz a ser implementado e com ações conjuntas entre a guerrilha e representantes do governo.

Capital político. O resultado do plebiscito não depende apenas de provar para os colombianos que as Farc cumprirão os acordos, esbarra na briga política. Na campanha pelo “sim”, Santos terá o apoio do ex-presidente César Gaviria, referência política no país. Ele coordena a campanha a favor do acordo e recebeu do presidente a missão de dar um enfoque regional à campanha e conseguir o apoio de líderes locais.

Encabeçando a campanha pelo “não” está o ex-presidente Álvaro Uribe. “Esse processo transforma as Farc em grupo paramilitar, sócio do Estado para combater outros delinquentes”, disse o ex-presidente dois dias depois do anúncio do acordo de paz.

Uribe tem o apoio do seu partido, o Centro Democrático, e de outro ex-presidente, Andrés Pastrana. O enfoque é dizer que com o acordo aprovado pela população, as Farc serão beneficiadas com a impunidade e a representação na política.

A batalha política será travada nas ruas do país e devem ter enfoques diferentes em cada região. “Nas últimas eleições para o Congresso, ficou comprovado que em vários municípios, como San Vicente del Caguan, onde as Farc têm uma presença e uma influência há anos, a votação das pessoas foi a favor do uribismo”, explica o sociólogo francês especialista em problemas políticos da América Latina e autor do livro Farc: uma guerrilha sem fins?, Daniel Pécault, ressaltando que o governo de Santos terá um longo trabalho até 2 de outubro para evitar que quatro anos de conversas sejam o fim de seu legado político.

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