Cidades Sitiadas — O novo urbanismo militar

Cidades Sitiadas — O novo urbanismo militar

Em um mundo cada vez mais urbanizado, as cidades se tornaram o lugar da guerra. Das favelas aos centros financeiros, dos países do Norte ao Sul, o livro “Cidades sitiadas” retrata a disseminação da violência política pelos espaços, infraestruturas e símbolos das áreas metropolitanas. De autoria do geógrafo urbano Stephen Graham, da Universidade de Newcastle, o livro apresenta uma ambiciosa teoria do “novo urbanismo militar” à altura da mudança paradigmática em curso.

“A guerra está se urbanizando”

Cidades sitiadas procura expor e solapar a maneira pela qual representações maniqueístas do nosso mundo em urbanização demonizam as cidades como lugares intrinsecamente ameaçadores. O livro explora em detalhes como as linhas de pensamento militares mais recentes colonizam espaços e locais cotidianos da vida urbana, impondo paradigmas que projetam a própria vida como uma guerra, dentro de um campo de batalha sem limite. Esse tipo de pensamento – xenófobo, profundamente antiurbano e tecnófilo – transforma a diferença no “outro”, o “outro” em alvo, e o alvo em violência. Essa lógica permeia a cultura popular, dos automóveis a videogames, cinema, ficção científica e daí em diante até uma fusão de entretenimento, guerra e design de armas. Finalmente, esta obra examina sonhos de fronteiras onipresentes e monitoramento onisciente dentro e para além dos Estados-nação; a desmodernização sistemática de cidades e sociedades consideradas adversárias; e fantasias de guerreiros robotizados.

“A militarização das cidades − ou a extensão de projetos de vigilância, rastreamento e controle por meio de dispositivos tecnológicos e reestruturação espacial sobre áreas cada vez maiores do ambiente urbano − é um fenômeno global que incide não apenas sobre a natureza dos espaços, mas também sobre a própria vida que neles se desenvolve. Stephen Graham revela os meandros, os agentes, os dispositivos e as lógicas presentes nesse processo, informação fundamental para quem, voluntaria ou involuntariamente, participa dessa guerra.” − Raquel Rolnik sobre Cidades sitiadas.

APRESENTAÇÃO

“A pior política é atacar cidades. Sitie uma cidade apenas como último recurso.” Essa advertência, registrada há mais de 2.500 anos no clássico A arte da guerra do filósofo chinês Sun Tzu, descreve a tendência dominante que o pensamento e as práticas militares estão desenvolvendo hoje. Pela primeira vez em seus 150 mil anos de história, a humanidade se torna no início deste século uma espécie predominantemente urbana. Nesse contexto, as principais cabeças das forças militares e securitárias do mundo passaram a conceber nossas cidades como verdadeiras zonas de conflito, permanentemente espreitadas por ameaças ocultas.

Cidades sitiadas é um estudo do presente e do futuro da guerra no século XXI. O livro revela a quantidade assombrosa de estruturas militares e corporativas ocultas por trás da vida cotidiana nas nossas grandes cidades. Articulando um farto material de pesquisas originais, o geógrafo urbano Stephen Graham, da Universidade de Newcastle, apresenta uma ambiciosa teoria do “novo urbanismo militar” à altura da mudança paradigmática em curso. Atualizando o conceito foucaultiano de “efeito bumerangue”, ele analisa o processo através do qual as cidades do ocidente estão implementando em suas fronteiras sociais internas, experiências e tecnologias militares de controle importadas diretamente de territórios ocupados no exterior, como a faixa de Gaza e o Haiti.

A nova doutrina de segurança que ora emerge ofusca dramaticamente as antigas separações entre guerra e paz, normalidade e exceção. Com as crescentes militarização da polícia e “policialização” das forças militares, os exércitos de hoje se vertem em forças altamente inteligentes de “contrainsurgência”, e os cidadãos comuns se tornam, em massa, alvos que precisam ser continuamente rastreados e controlados. A totalidade da paisagem, da infraestrutura e dos espaços mais banais da vida cotidiana nas cidades precisa ser colonizada por sistemas militarizados de rastreamento, triagem e controle. No novo urbanismo militar, “a guerra está sendo urbanizada”. Mais do que ser o novo lugar da guerra, o espaço urbano se tornou ele próprio instrumento ativo nessa guerra.

Graham não hesita em apontar no sequestro da prática e do planejamento urbano por ideias militarizadas de “segurança” a corrosão da esfera pública. Se já nos acostumamos com o léxico da “guerra às drogas” e da “pacificação” é porque cada vez mais é a linguagem da guerra que permeia a política metropolitana. Nesse cenário alarmante, deslocamentos migracionais passam a ser concebidos como verdadeiros atos bélicos, manifestantes são passíveis de ser enquadrados como terroristas, o medo de elementos antissociais é constantemente ativado por autoridades para pacificar protestos e novos mecanismos jurídicos são mobilizados para suspender a lei civil. Quando a gestão da polis passa a ser pensada em termos militares, não há mais lugar para a democracia.

A pedra de toque da teoria de Graham é sua análise da economia política do novo urbanismo militar. E aqui, as cifras são completamente alucinantes: em meio a um cenário de crise econômica global, as indústrias de tecnologia e inteligência militar vêm despontando em taxas de crescimento que variam de 5 a 12% ao ano. Em um mundo crescentemente marcado por desigualdades sociais abissais, a implementação de novas tecnologias militares passa a ser comprada e vendida como solução mágica para “resolver” nossos problemas sociais.

Compreender a dimensão e a natureza do projeto político por trás do novo urbanismo militar, e o fetichismo que lhe é próprio, é o primeiro passo para resistir a ele. Mais do que uma obra de referência para entender a cartografia da guerra e do pensamento urbano no século XXI, Cidades sitiadas é leitura incontornável para desenharmos novas e urgentes formas de resistência.

Ficha técnica:

Título: Cidades sitiadas

Subtítulo: o novo urbanismo militar

Título original: Cities under siege: the new military urbanism

Autor: Stephen Graham

Tradução: Alyne Azuma

Apresentação: Marcelo Lopes de Souza

Páginas: a definir

Preço: a definir

ISBN: 978-85-7559-499-5

Coleção: Estado de Sítio

Editora: Boitempo

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