Donald Trump põe em xeque a relação dos Estados Unidos com a China

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 http://epoca.globo.com/mundo/noticia/2016/12/donald-trump-poe-em-xeque-relacao-dos-estados-unidos-com-china.html

Antes mesmo de assumir a Casa Branca, Donald Trump tensiona as relações dos Estados Unidos com a China. Pode ser apenas um jogo de cena para arrancar vantagens comerciais, mas as consequências da manobra são imprevisíveis

TERESA PEROSA

A última tempestade a emergir do 58º andar da Trump Tower em Nova York – o Q.G. do time que coordena a transição para o governo do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump – começou com uma simples ligação telefônica no dia 2 de dezembro. A interlocutora de Trump era a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. O contato durou poucos minutos e serviu para que Tsai desse a Trump os parabéns pela vitória nas eleições de novembro. O aparente prosaísmo do ato esconde seu relevante significado diplomático: tratou-se do primeiro contato direto oficial entre o alto escalão dos dois países desde 1979, numa quebra do protocolo das relações entre China e Estados Unidos. Oficialmente, os Estados Unidos não reconhecem Taiwan como um Estado soberano.

Trump não só atendeu Tsai como, dias depois, questionou a própria natureza das relações entre China e Estados Unidos. “Não sei por que nós temos de seguir fiéis à política de ‘China única’, a não ser que façamos um acordo com a China que inclua outras coisas, como comércio”, afirmou em entrevista à Fox News, no domingo, dia 11. A declaração do presidente eleito corroborou o discurso do candidato Trump – que culpou a China, na campanha eleitoral, pela desindustrialização americana e pela queda nos empregos no país. Levada a cabo, uma mudança na política de “China única”, consolidada nos últimos 40 anos, significará uma mudança radical na postura dos Estados Unidos na relação com a China e tendem a aumentar os antagonismos entre as duas maiores potências globais.

A o mesmo tempo em criítica a china,Trump escolheu um amigo de Xi Jiping,o presidente da China,para ser seu embaixador em Pequim (Foto: ERIC THAYER / Reuters)JOGO DUPLO
O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Ao mesmo tempo que critica a China, ele escolheu um amigo de Xi Jinping, o presidente da China, para ser seu embaixador em Pequim (Foto: ERIC THAYER / Reuters)

O arranjo atual tem raízes históricas: Taiwan e China vivem um impasse que remonta a 1927 e à guerra civil no país, que terminou na vitória dos comunistas liderados por Mao Tsé-tung em 1949 e na fuga dos nacionalistas, seus opositores, para a ilha de Taiwan. Desde então, Taipei e Pequim reivindicam para si o status de China soberana. Num primeiro momento, os americanos, para combater a “ameaça comunista”, apoiaram os nacionalistas de Taiwan, romperam relações com a China continental e se confrontaram com aliados de Mao em vários conflitos. Em 1969, o então presidente Richard Nixon, sob a inspiração de seu então conselheiro de Segurança Nacional, Henry Kissinger, iniciou uma aproximação com os chineses. A guinada política dos americanos foi motivada tanto pela necessidade de sair do atoleiro da Guerra do Vietnã quanto pelo desejo de isolar politicamente a União Soviética – o movimento costurado por Kissinger é narrado em detalhes em seu clássico Sobre a China.

Depois da visita de Nixon a Pequim em 1972, o governo americano adotou  o preceito da “China única” e passou a reconhecer o governo de Pequim como o legítimo representante da China na comunidade internacional, com direito a cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidos. O restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países foi oficializado em 1979 – e o degelo político iniciado por Kissinger levou ao modelo econômico dos dias de hoje em que as economias dos Estados Unidos e da China são essencialmente complementares. Em 2015, o fluxo comercial de bens e serviços entre China e Estados Unidos somou US$ 659 bilhões. Os chineses detêm também 7% dos títulos da dívida pública americana e quase 40% de suas reservas estrangeiras são em dólar. Em contrapartida, centenas de empresas americanas operam plantas industriais em solo chinês, num exemplo da globalização econômica tão criticada por Trump na disputa da Casa Branca.

Desde a eleição de Trump, os analistas se desdobram para decifrar se a nova administração americana terá uma estratégia para lidar com a China e se colocará em prática as ameaças de retaliações comerciais aos chineses proferidas durante a campanha eleitoral. Trump não é o primeiro presidente americano depois de Nixon a querer falar grosso com a China: diferentes administrações adotaram tons mais ásperos em temas que variavam das relações comerciais aos direitos humanos. No entanto, Trump é o primeiro não só a questionar o entendimento diplomático entre os dois países, como a sugerir que pretende usar a questão de Taiwan como moeda de barganha. “A política da ‘China única’ nos permitiu colocar de lado diferenças para conseguir benefícios para os dois lados. Usá-la como barganha faz os Estados Unidos parecerem mesquinhos, pois significa uma aposta com a vida de milhões de taiwaneses. A reação da China pode ser  militar”, diz Oriana Skylar Mastro, da Universidade Georgetown, especialista em política de segurança chinesa.

Mao Tsé-Tung e Richard Nixon,na histórica visita dos EUA á China em 1972 (Foto: XINHUA/AFP)PRAGMÁTICOS
Mao Tsé-tung e Richard Nixon, na histórica visita do presidente dos Estados Unidos à China em 1972. O arranjo feito por eles estabilizou as relações entre os dois países (Foto: XINHUA/AFP)

Usar o tema de Taiwan como moeda de troca, além de perigoso, pode ser ineficaz. “Nenhum tema político será suficiente para pressionar a China economicamente”, diz Mastro. Ao mesmo tempo que coloca sobre a mesa a carta de Taiwan, Trump nomeou Rex Tillerson para secretário de Estado. A indicação foi encarada como um movimento de aproximação com a Rússia e uma possível tentativa de apartar Vladimir Putin, o líder russo, dos chineses – uma espécie de estratégia à la Kissinger às avessas. Para tornar sua jogada política ainda mais complexa, Trump, durante a campanha, fez promessas que, em tese, levaram em conta os interesses chineses. Ele ameaçou diminuir o engajamento militar dos Estados Unidos na proteção de dois de seus mais tradicionais aliados na Ásia – Japão e Coreia do Sul. Anunciou também a retirada dos Estados Unidos da Parceria Transpacífico, o acordo comercial desenhado pelo governo Obama para fazer frente à China  no continente. “A base do poder americano é econômica. Sem a fundação econômica, o papel dos Estados Unidos, mesmo permanecendo na condição de importante parceiro militar, vai se erodir na Ásia”, diz Mastro.

Pode ser que Trump, como um homem de negócios afeito a barganhas comerciais, esteja apenas blefando com o objetivo de arrancar concessões da China. Talvez por ter isso em mente, Trump anunciou Terry Branstad, governador de Iowa e amigo pessoal de Xi Jinping, presidente da China, para embaixador em Pequim. Mas as declarações de Trump já  motivam respostas enfáticas de Pequim. “Se a política da ‘China única’ for minada, não poderá haver diálogo para o desenvolvimento saudável e estável das relações Estados Unidos-China”, disse An Fengshan, porta-voz do governo de Xi, na quarta-feira, dia 14. Na sexta-feira, dia 16, o Pentágono confirmou que a Marinha chinesa apreendeu um drone aquático americano no Mar da China Meridional, um foco de tensão na região.

Tendo em vista esse tipo de reação, é bom que Trump, mesmo que esteja apenas trucando com o objetivo de obter vantagens, calcule bem seu jogo. “Em um cenário mais extremo, se os americanos adotarem medidas unilaterais contra os chineses, a resposta pode ser uma desvalorização do iuane e a adoção de medidas contra as empresas americanas que têm operação na China”, diz Marcos Troyjo, diretor do BricLab da Universidade Columbia, em Nova York. A milenar história da China ensina que os chineses são muito pragmáticos, mas também levam algumas ofensas a sério.

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