Febre amarela entre nós

“A acelerada expansão da indústria de materiais não biodegradáveis, além de condições climáticas favoráveis, agravadas pelo aquecimento global, conduzem a um cenário que impede a curto prazo a proposição de ações visando erradicação do vetor transmissor”, informa Artur Timerman, médico infectologista, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue/Arboviroses, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 20-01-2017.

Eis o artigo.

O governo de Minas Gerais decretou situação de emergência em saúde pública em regiões atingidas pelo surto de febre amarela no Estado.

Até quinta (19), balanço do Ministério da Saúde confirmava 23 mortes causadas pela doença. Além dos diagnósticos concluídos, há 31 mortes suspeitas e 141 casos sob apuração. A região afetada é o leste mineiro, onde estão cidades como Governador Valadares e Teófilo Otoni.

Os condicionantes da expansão das arboviroses nas Américas e no Brasil correlacionam-se em grande parte ao modelo de crescimento econômico implementado na região, caracterizado pelo crescimento desordenado dos centros urbanos.

O Brasil concentra mais de 80% de sua população em áreas urbanas, com importantes lacunas no setor de infraestrutura: dificuldade para garantir abastecimento regular e contínuo de água, deficiente coleta e destinação adequada dos resíduos sólidos.

Outros fatores, tais como a acelerada expansão da indústria de materiais não biodegradáveis, além de condições climáticas favoráveis, agravadas pelo aquecimento global, conduzem a um cenário que impede a curto prazo a proposição de ações visando erradicação do vetor transmissor.

Dentro desse contexto, é com enorme preocupação que nos deparamos com as notícias que revelam o ressurgimento de casos de febre amarela em nosso país.

Como apontado em boletim da Organização Mundial da Saúde de 2016, “grandes epidemias de febre amarela ocorrem quando pessoas infectadas introduzem o vírus em áreas densamente povoadas onde exista elevada densidade de mosquitos transmissores e onde a maioria da população apresente baixa cobertura vacinal. Sob tais condições, mosquitos infectados transmitem o vírus de pessoa a pessoa”.

Essa é situação prevalente no Brasil atualmente; conquanto os casos até agora relatados o tenham sido em regiões com densidade populacional inferior àquela de nossas grandes metrópoles, caso pessoas infectadas nessas áreas menos povoadas cheguem à metrópole, irão encontrar ambiente totalmente favorável à disseminação do vírus da febre amarela.

Nossa proposta para nos defrontarmos com esse grave problema tem por base as diretrizes estabelecidas pela OMS também em 2016: “rápida detecção de casos de febre amarela e rápida resposta através de campanhas de vacinação emergencial são essenciais para o controle de surtos. Um caso laboratorialmente confirmado de febre amarela em uma população não vacinada é considerado como um surto”.

Vacina constitui-se o mais importante meio de combate à febre amarela; é produto seguro, eficaz e relativamente barato, sendo uma única dose suficiente para induzir imunidade de longo prazo.

As recomendações da OMS em países onde há relatos de casos de febre amarela são enfáticas no que tange à indicação de imunização de toda população com idade acima de nove meses não previamente imunizada (em regiões epidêmicas há recomendação de vacinação acima dos seis meses de idade, quando então o risco da doença é superior àquele do evento adverso da vacina).

No Brasil, vem sendo empregada a estratégia de “vacinação de contenção”, isto é, vacinação de toda população em regiões onde foram descritos casos suspeitos e/ou confirmados da doença.

Precisaríamos ter uma vigilância epidemiológica atenta, com diagnóstico precoce dos casos; caso se mantenha esse panorama inicial verificado em Minas Gerais, certamente a abrangência da cobertura vacinal deveria ser ampliada, provavelmente atingindo todo o Estado.

Importante também é a cooperação com serviços que monitorem de perto a mortalidade de macacos e outros animais silvestres em regiões silvestres periurbanas, que se caracteriza como “sentinela” quanto à proximidade da febre amarela dos centros urbanos.

Em resumo, temos que encarar o problema como sendo de enorme relevância; não podemos menosprezá-lo, sob risco de virmos a nos deparar com mais um expressivo problema de saúde pública em nosso já combalido país.

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