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Por que o polo norte magnético está em movimento e como isso nos afeta

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Por que o polo norte magnético está em movimento e como isso nos afeta

Shannon Hall

O polo norte magnético está inquieto.

Diferentemente do Polo Norte geográfico, onde as linhas de longitude se encontram no topo do mundo, o polo magnético é o ponto que a bússola reconhece como norte. No momento, está 4 graus ao sul do Polo Norte geográfico, que fica no oceano Ártico a 90 graus norte.

Mas não foi sempre assim.

Em meados do século 19, o polo norte magnético flutuava até bem mais ao sul, pairando na altura do Canadá. No entanto, nos últimos 150 anos, o polo vem se distanciando do Canadá em direção à Sibéria.

Não se pode ignorar a mudança de endereço, uma vez que as bússolas magnéticas ainda apoiam a navegação moderna, desde os sistemas usados pela aviação civil e militar até os que orientam nossos iPhones.

Em 1965, os cientistas iniciaram uma base de dados para representar o campo magnético da Terra, a fim de conseguir acompanhar as constantes mudanças de endereço do polo. A atualização do Modelo Magnético Global é realizada a cada cinco anos – a mais recente em 2015 -, pois o campo magnético está sempre em movimento.

No início de 2018, ficou óbvio que a edição de 2015 tinha problemas, porque o polo havia acelerado seu passeio para a Sibéria, tornando sem efeito o modelo e, consequentemente, alguns sistemas de navegação.

Assim, pela primeira vez, os cientistas atualizaram o modelo antes do previsto e o lançaram na manhã da última segunda-feira (11). Como o trabalho foi concluído após a paralisação parcial do governo norte-americano (atrasando sua publicação), os pesquisadores ainda tentam descobrir os mistérios do interior da Terra que devem estar provocando o imprevisível comportamento do polo.

Uma transformação contínua

A frenética dança do polo norte magnético foi descoberta quase 400 anos atrás, quando o matemático inglês Henry Gellibrand percebeu que o polo havia se aproximado centenas de milhas do polo geográfico num período de 50 anos.

“Foi uma descoberta monumental de que o campo não era estático, mas dinâmico”, comenta Andrew Jackson, um geofísico na ETH de Zurique.

Não demorou muito, no entanto, para que o norte magnético mudasse de direção e começasse a se afastar do polo geográfico – demonstrando que o campo não era apenas dinâmico, mas imprevisível.

“O problema que ainda hoje enfrentamos é que não temos um bom esquema que preveja a variação de movimentos do campo”, informou Jackson.

Em vista disso, os cientistas começaram a rastrear o inquieto campo magnético. Os primeiros mapas foram desenhados a mão por navegantes exploradores e revelaram que, nos duzentos anos seguintes, o polo magnético rodopiou entre as várias ilhas e canais do Arquipélago Ártico.

Em 1860, fez uma curva acentuada em direção à Sibéria. Desde então, o polo já viajou quase 2.500 km e sua posição mais recente foi no meio do Oceano Ártico, ainda em direção à Rússia.

Os cientistas atribuem esse gosto por viajar ao ferro líquido que sacode dentro do núcleo externo de nosso planeta. Esse ferro flutua: sobe, esfria e afunda. E esse movimento lá embaixo carrega o campo magnético da Terra, produzindo mudanças cá em cima.

Para mapear com mais precisão essas mudanças, cientistas lançaram, há quase 55 anos, o precursor do Modelo Magnético Mundial, que começou como uma parceria entre os EUA e a Grã-Bretanha.

O mapa que hoje conhecemos existe em sua forma atual desde 1990 e é criado por um órgão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e pelo Centro Britânico de Mapeamento Geológico (BGS). É encomendado por agências militares dos EUA e da Grã-Bretanha e usado por muitas outras forças armadas em todo o mundo.

Assim como com o GPS, os sistemas de navegação usados por satélites, aeronaves, navios e outros veículos dependem de bússolas para garantir que estão indo na direção certa. Boa prova disso são os grandes números brancos no fim das pistas de pouso dos aeroportos, que indicam a direção magnética da pista.

Mas, como o campo magnético se move, essa posição muda e as pistas têm de ser repintadas. Este ano, por exemplo, as pistas de pouso do Aeroporto Nacional Dwight D. Eisenhower em Wichita, Kansas, receberão novos nomes que indicarão as novas direções. Serão gastos centenas de milhares de dólares nesse processo – que inclui repintar os enormes números do fim de cada pista e substituir sinalizações.

E tudo isso depende do Modelo Magnético Global, que não é nada fácil de construir. Ao contrário do quilograma ou do segundo, o campo magnético não pode ser definido uma vez e depois usado durante décadas.

“O campo magnético muda constantemente”, afirma Susan MacLean, diretora aposentada da divisão de ciências geofísicas da NOAA, que já ajudou a montar o modelo magnético. “Ele muda com o tempo, muda de lugar; e muda até a forma como muda.” O rastreamento do campo magnético do planeta, ela acrescentou, é parecido com a meteorologia.

E, assim como o clima, prever exatamente onde o polo estará é simplesmente impossível. Mas os cientistas conseguem chegar perto se têm uma boa quantidade de dados coletados por satélites e observatórios terrestres. Essas informações permitem deduzir como o campo magnético mudou nos últimos anos e a extrapolar o futuro com um modelo que – assim esperamos – se manterá preciso pelos próximos cinco anos.

A peregrinação do polo

Depois do lançamento do Modelo Magnético Global em 2015, os cientistas checaram periodicamente as medições decampo para garantir que estivessem prevendo com precisão as variações do campo magnético da Terra. Quando fizeram essa checagem no início de 2018, descobriram que o modelo estava desalinhado com a realidade.

“Notamos que o desvio no Ártico estava aumentando mais rápido do que esperávamos”, conta Arnaud Chulliat, geofísico da Universidade do Colorado, em Boulder, e da NOAA.

Embora o polo norte magnético esteja se distanciando há muito tempo do Canadá em direção à Sibéria, a velocidade do movimento muda drasticamente. Durante a maior parte do século 20, o polo se moveu quase 10 km por ano. Na década de 1980, acelerou, e no ano 2000 já estava viajando a mais de 56 km por ano, quase saindo do Canadá.

Então, em 2015, o polo desacelerou até 48 km por ano. Portanto, quando a equipe publicou o mapeamento magnético mais recente, previa-se que a velocidade continuaria a cair – só que isso não aconteceu.

Pouco depois da publicação do modelo, o polo norte magnético acelerou novamente, e agora a velocidade flutua em torno de 56 km por ano. No fim de 2017, o polo cruzou a linha internacional de mudança de data e entrou no Hemisfério Oriental.

“O problema não é que o polo está em movimento; é o fato de que está acelerando a essa taxa”, comenta William Brown, geofísico do BGS. “Quanto mais aceleração ou desaceleração houver, tanto mais difícil fica prever o que acontecerá a seguir.”

A consequência disso é que o modelo atual está incorreto, pelo menos no Ártico.

A maioria de nós nunca passará muito tempo – ou qualquer tempo – no topo do mundo; mas alguns voos internacionais passam bem perto do Polo Norte geográfico. O modelo magnético tem de ser preciso por uma questão de segurança.

Alguém que fosse usar o modelo atual para viajar ao polo norte magnético acabaria a 40 km de distância da localização correta do polo.

Assim, os cientistas correram para consertar o modelo, alimentando-o com vários anos de dados recentes. A nova versão disponível é um trabalho conjunto do BGS e da NOAA.

Mas a paralisação parcial do governo dos EUA atrasou o esforço de terminar a revisão dos sistemas disponíveis on-line ao público mantidos pela NOAA. Os pesquisadores conseguiram terminar a atualização na segunda-feira.

Os mapas abertos ao público têm muitos usos, desde o recálculo dos nomes de pistas de pouso até a garantia de que os sistemas do Departamento de Defesa estão devidamente instalados. Engenheiros incorporam o modelo nos sistemas de navegação de smartphones e carros.

Mas, para a maioria da população em baixas e médias latitudes, o modelo atual está apto para uso.

“Abaixo de 65° norte, longe do Canadá, o usuário médio notará muito pouca diferença em sua vida diária”, informa Ciaran Beggan, geofísico do BGS.

Apocalipse geomagnético? Provavelmente não.

Com as atualizações finalizadas, os cientistas estão ansiosos por compreender as causas da escapulida do polo em direção à Sibéria. “É óbvio que está acontecendo alguma coisa estranha”, comenta Phil Livermore, geofísico da Universidade de Leeds, na Inglaterra.

Durante a longa vida da Terra, o campo magnético enfraqueceu várias vezes. O polo norte magnético escorregou até a “base” do planeta e o polo sul magnético pulou em direção ao topo. O processo levou alguns milhares de anos, mas, quando a força total do campo voltar, terá se invertido.

A viagem recente do polo, juntamente com outras mudanças – como o enfraquecimento do campo magnético da Terra -, tem levando alguns cientistas a se perguntar se uma inversão dessas está prestes a acontecer, na escala de tempo geológico.

“Alguns requisitos da inversão magnética conferem”, explica Courtney Sprain, geofísica da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, acrescentando que não é possível ter certeza em definitivo.

A maioria dos cientistas, incluindo Sprain, têm dúvidas de que haverá uma inversão geomagnética; em primeiro lugar porque, embora o polo norte magnético esteja mesmo em movimento, o fenômeno não é global, mas regional.

Para Livermore, há duas grandes estruturas magnéticas no núcleo externo: uma sob o Canadá e outra sob a Sibéria. O polo magnético resulta da interação entre os dois.

A estrutura sob o Canadá está enfraquecendo. Como consequência, está perdendo um cabo de guerra com a Sibéria, que vai trazendo para si o polo norte magnético. Enquanto isso, o polo sul magnético permanece relativamente imóvel.

Em segundo lugar, embora o campo magnético da Terra esteja enfraquecendo, muitos peritos afirmam que ainda está bem acima da média geológica de longo prazo.

Peter Olson, geofísico da Universidade Johns Hopkins, acredita que as mudanças em curso representam uma flutuação transitória, e não uma reversão.

Mesmo que o campo magnético esteja à beira de uma inversão, os cientistas garantem que não há perspectiva apocalíptica. Embora o campo desempenhe um papel fundamental de proteção contra a poderosa radiação solar, os registros fósseis não revelam nenhuma extinção em massa durante as reversões passadas.

E, embora também haja riscos para as redes de energia e comunicações, a humanidade terá muito tempo para se preparar.

“De todos os problemas que temos, esse não está entre os dez maiores”, esclarece Olson.

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Sobre afrofuturismo – alguns links

https://revistacult.uol.com.br/home/afrofuturismo-tecnologia-ancestralidade/

https://www.geledes.org.br/dossie-afrofuturismo-saiba-mais-sobre-o-movimento-cultural/

https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,conheca-o-afrofuturismo-movimento-presente-em-pantera-negra,70002257251

 

 

 

Cada brasileiro joga mais de 40 quilos de comida no lixo por ano

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cartacapital.com.br

Cada brasileiro joga mais de 40 quilos de comida no lixo por ano – CartaCapital

Escrito por Deutsche Welle

Quantidade total descartada é suficiente para alimentar 13 milhões de pessoas

A cultura do “é melhor sobrar do que faltar” impulsiona o desperdício de alimentos no Brasil, aponta uma pesquisa recente realizada pela Embrapa com apoio da Fundação Getúlio Vargas. O gosto pela fartura, desde a ida ao supermercado até o preparo das refeições, e a preferência por comida fresca à mesa faz com que cada brasileiro jogue mais de 40 quilos de comida no lixo por ano.

Além de ser associada à hospitalidade e ao cuidado com a família, a abundância está ligada ao status, aponta o estudo. “O Brasil é um país muito desigual, e a comida sinaliza riqueza. Famílias que enfrentaram pobreza no passado, por exemplo, tendem a gostar de preparar uma mesa farta, como forma de mostrar que vivem tempos melhores”, afirma Gustavo Porpino, analista da Embrapa e líder da pesquisa sobre desperdício, realizada no âmbito dos Diálogos Setoriais União Europeia-Brasil.

Cada família brasileira joga fora quase 130 quilos de comida por ano, uma média de 41,6 quilos por pessoa

Ter a despensa sempre abastecida também traz tranquilidade para quem tem baixo poder aquisitivo. Por ser prioridade no orçamento, a comida é comprada e estocada em grandes quantidades para garantir que será suficiente para todo o mês. Contudo, o preparo de porções exageradas e o não reaproveitamento das sobras fazem com que parte da comida vá diretamente para o lixo.

A classe social não é o que determina o desperdício, aponta a pesquisa da Embrapa. “As famílias que desperdiçam pouco não são necessariamente as mais pobres, mas as que adotam hábitos de consumo mais sustentáveis”, explica Porpino.

Na prática, são as pessoas que fazem compras menores, preparam lista de compras e reutilizam as sobras em novas refeições. A pesquisa, que ouviu 1.764 pessoas de toas as classes sociais e regiões do país, aponta que quem tem maior consciência sobre o impacto do desperdício no orçamento tende a descartar menos comida.

Segundo o estudo, a família brasileira joga fora quase 130 quilos de comida por ano, uma média de 41,6 quilos por pessoa. Os alimentos que mais vão para o lixo, por percentual do total desperdiçado, são: arroz (22%), carne bovina (20%), feijão (16%) e frango (15%).

Cálculos do Instituto Akatu, ONG voltada ao consumo consciente, indicam que se uma família brasileira que gasta em média 650 reais por mês com alimentos reduzisse pela metade o desperdício com comida e depositasse o valor equivalente (cerca de 90 reais por mês) numa poupança, acumularia cerca de 1 milhão de reais em 70 anos, considerando o rendimento anual.

Além de pesar no bolso, o desperdício prejudica o meio ambiente, pois os recursos utilizados na agricultura para a produção de alimentos, como água, acabam sendo em vão.

“A Fao [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura] estima que se o desperdício de alimentos fosse concentrado em um único país, ele seria o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, depois dos EUA e da China, representando 8% das emissões globais, e o maior usuário de água, ultrapassando a Índia e a China”, compara Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu.

Além da renda familiar e de recursos naturais, com o desperdício de alimentos aptos ao consumo vai para o lixo também a oportunidade de alimentar quem sofre com a fome.

“No Brasil, o elevado desperdício de alimentos convive com a insegurança alimentar, uma combinação infeliz para um país onde 22,6% da população enfrenta algum nível de insegurança alimentar e com 54,8 milhões de pessoas vivendo com até 5,5 dólares por dia, linha de pobreza proposta pelo Banco Mundial”, comenta Porpino.

A pesquisa sugere que os brasileiros não estão alheios aos malefícios do desperdício. A grande maioria dos entrevistados (94%) tem consciência de que devem evitá-lo. Segundo Porpino, as sobras até são guardadas na geladeira, como forma de aliviar a culpa, mas não são de fato reaproveitadas. Assim, o descarte é apenas procrastinado.

No âmbito internacional, um terço da produção total de alimentos, ou 1,3 bilhão de toneladas, vai para o lixo, o que seria suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas, de acordo com cálculos da Fao. Com base nesse cálculo, é possível estimar que 8,7 milhões de toneladas de comida são desperdiçadas no Brasil, o suficiente para alimentar mais de 13 milhões de pessoas.

Ainda de acordo com o estudo, os números do Brasil o posicionam à frente da maioria dos países europeus. Uma pesquisa da União Europeia publicada em 2017, por exemplo, revelou que na Alemanha, Espanha, Holanda e Hungria são desperdiçados, em média, 439 gramas de comida por domicílio por semana, enquanto no Brasil são 353 gramas por domicílio por dia.

Uma das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas é reduzir pela metade o desperdício per capita de alimentos no mundo até 2030. Segundo Mattar, quantificar o desperdício de alimentos e fortalecer os sistemas de informação sobre a geração e coleta de resíduos em cada país é fundamental para que tal objetivo seja alcançado.

 

O fim da política de filho único e o futuro da fecundidade na China

ecodebate.com.br

O fim da política de filho único e o futuro da fecundidade na China, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


taxas de fecundidade na China

[EcoDebate] A China vai completar 70 anos da Revolução Comunista no dia 01 de outubro de 2019. Nestas 7 décadas muita coisa mudou no maior país do mundo em termos demográficos. Na primeira década revolucionária (1950-1960) as taxas de mortalidade infantil e de fecundidade começaram a cair, apontando para um declínio rápido que poderia atenuar as altas taxas de crescimento demográfico e a estrutura etária muito jovem.

Porém, com o fracasso da política do “Grande Salto para Frente” houve uma grande escassez de meios de subsistência entre 1958 e 1961, o que levou a uma grande crise de mortalidade (cerca de 30 milhões de óbitos) e uma grande redução na esperança de vida. Para se contrapor à enorme mortalidade infantil ocorrida na grande fome (1958-61) a taxa de fecundidade subiu e voltou para o patamar de 6 filhos por mulher. O caos da década de 1960 continuou com a Revolução Cultural, quando todo o aparato estatal de políticas públicas foi desorganizado e o sistema de saúde ficou em frangalhos. Mao Tsé-tung achava que uma população grande era mais impactante do que uma bomba atômica e dizia: “quanto mais chineses, mais fortes seremos”.

A taxa de fecundidade total (TFT) que estava em 6 filhos por mulher no quinquênio 1950-55, caiu para 5,4 filhos no quinquênio seguinte e voltou a subir para 6,3 filhos por mulher na década de 1960. A população da China que era de 554 milhões de habitantes em 1950 passou para 903 milhões em 1974 e o rápido crescimento populacional convenceu até o presidente Mao de que algo deveria ser feito. Assim, foi lançada, no início dos anos de 1970, a política “Mais Tarde, Mais Tempo e em Menor Número” (em chinês: “Wan, Xi, Shao” e em inglês: “later, longer, fewer”) que incentivava as mulheres a terem o primeiro filho em idades mais avançadas, que mantivessem um espaçamento maior entre os filhos e que limitasse o tamanho da prole, adotando um tamanho pequeno de família.

A política “Wan, Xi, Shao” foi um sucesso e a taxa de fecundidade caiu de mais de 6 filhos para menos de 3 filhos em 1980. Tudo indicava que a fecundidade continuaria caindo. Porém, um governo autoritário não costuma respeitar as livres escolhas e os direitos sexuais e reprodutivos. No bojo das reformas implementadas por Deng Xiaoping em dezembro de 1978, foi instituída a “Política de filho único”, a iniciativa controlista mais draconiana da história da humanidade.

Em consequência, mesmo com a maior parte da população vivendo no meio rural, a fecundidade continuou caindo e a TFT ficou abaixo do nível de reposição no quinquênio 1990-95 (com 1,9 filho por mulher) e se manteve ao redor de 1,6 filho por mulher entre 2000 e 2015. Ou seja, depois de cerca de 35 anos de “Política de filho único” a TFT chinesa permanece baixa e o número de nascimentos anuais caiu de pouco mais de 30 milhões no quinquênio 1965-70 para cerca de 17 milhões de bebês na atual década (2011-20).

Para avaliar a situação demográfica da China dos demais países, a Divisão de População da ONU realizou um seminário nos dias 01 e 02 de novembro de 2018, como parte da revisão e avaliação do Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD) e sua contribuição para a continuação e revisão da Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável.

O demógrafo Baochang Gu, professor da Renmin University of China, fez uma apresentação sobre a situação atual e as perspectivas da fecundidade na China. Ele mostra que, embora sempre tenha havido exceções, especialmente na zona rural e entre minorias étnicas, a regulamentação rigorosa foi mantida até novembro de 2013, quando se permitiu que um casal tivesse um segundo filho, quando algum dos cônjuges fosse filho único. Em outubro de 2015, foi permitido a todos os casais terem o segundo filho. Em 2018 foram eliminadas as restrições ao número de filhos desejados.

Contudo, a baixa taxa de fecundidade veio para ficar, pois a flexibilização não implicou em um surto de nascimentos. Em 2016, imediatamente depois que se permitiu o segundo filho, nasceram 17,9 milhões de crianças, de acordo com a Agência Nacional de Estatísticas. Apenas 1,3 milhão a mais do que em 2015 e metade do que o Governo previa. Já em 2017, o número de nascimentos foi ainda menor, 17,2 milhões de novos bebês, muito abaixo dos 20 milhões estimados pelas autoridades. O gráfico acima mostra que houve um ligeiro aumento da taxa na idade 15-19 anos e a continuidade da queda (junto com o envelhecimento da estrutura da fecundidade) entre 2000 e 2015.

O gráfico abaixo mostra que a população da China era de 554,4 milhões de habitantes em 1950, chegou a 1 bilhão de habitantes em 1981 e deve alcançar o pico populacional de 1,442 bilhão de pessoas em 2029, para iniciar um longo período de redução até cerca de 1 bilhão de habitantes em 2100. Na segunda metade do atual século, a China deve perder cerca de 7 milhões de habitantes por ano.

A população chinesa em idade economicamente ativa (PIA), de 15 a 64 anos, que era de 341 milhões de pessoas em 1950 deu um salto para 1,015 bilhão em 2015. Mas já começou a cair e deve chegar a 814,9 milhões em 2050 e a 555 milhões em 2100. Ou seja, a PIA chinesa deve se reduzir praticamente pela metade no restante do século XXI, lançando dúvidas sobre a capacidade de manter a estrutura produtiva em funcionamento.

China: população

Os setores mais pronatalistas e populacionistas querem um aumento da taxa de fecundidade para evitar o declínio da população e da PIA, assim como para fazer frente ao alto envelhecimento populacional que marcará inevitavelmente a estrutura etária da China nas demais décadas do século XXI.

Artigo de Audrey Jiajia Li, (The Guardian, 29/11/2018) relata que, recentemente, dois acadêmicos causaram uma tempestade na mídia social com um artigo em um jornal provincial do partido comunista propondo um “fundo de maternidade” semelhante a impostos. Casais com menos de dois filhos teriam que pagar para o fundo, recebendo apenas o dinheiro de volta quando parirem um segundo filho – ou quando se aposentarem, se isso não acontecer. Mas estas posições pronatalistas encontram resistência, pois o Diário do Povo, o porta-voz do Partido Comunista, publicou um comentário sobre o assunto intitulado “Dar à luz é um assunto de família e também nacional”.

Mas a controvérsia continua. Artigo de Lily Kuo (The Guardian, 22/06/2018) mostra também que existem medidas para limitar o acesso ao aborto seguro, pois a província de Jiangxi emitiu diretrizes estipulando que as mulheres com mais de 14 semanas de gravidez devem ter assinado a aprovação de três profissionais médicos que confirmam que um aborto é clinicamente necessário antes de qualquer procedimento. As medidas destinam-se a ajudar a prevenir abortos seletivos, que são ilegais na China. O sexo de uma criança é frequentemente discernível após 14 semanas. Mas os comentários associaram a “O Conto da Serva”, referindo-se à série de TV ambientada em um futuro distópico em que as funções reprodutivas das mulheres são rigidamente controladas pelo estado.

Artigo de Zhou Xin e Sidney Leng no jornal SCMP (02/01/2019) mostra que o número de crianças nascidas na China em 2018 está estimado abaixo de 15 milhões, ou mais de dois milhões a menos que em 2017. Se confirmado, ficará muito aquém das estimativas anteriores da autoridade de planejamento familiar de até 20 milhões de nascimentos.

Contudo, a despeito da crescente preocupação pronatalista, o governo chinês está mais interessado em avançar na implementação da 4ª Revolução Industrial e nas tecnologias poupadoras de mão de obra. Com a automação e a robotização da economia a China pretende manter a produção em alta, mesmo com menor oferta de força de trabalho. O plano “Made in China 2025” visa promover um avanço da estrutura produtiva e a produção de bens de maior valor agregado e menos dependente de uma oferta ilimitada de mão de obra. As tecnologias do século XXI serão intensivas em capital, ciência e tecnologia e serão poupadoras de trabalho vivo.

Assim, o fim da “Política de filho único” não significa que a China terá um aumento significativo da taxa de fecundidade e nem evitará um declínio da população ao longo do atual século. Pelo contrário, a liberdade de escolha e o respeito aos direitos sexuais e reprodutivos podem conviver com o encolhimento populacional e o aumento da renda per capita.

Uma população menor, mas com maiores níveis educacionais e com uma estrutura produtiva mais eficiente, pode também contribuir para reduzir os impactos negativos sobre o meio ambiente e para a redução do déficit ecológico chinês, que é o maior do mundo.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:

United Nations, Department of Economic and Social Affairs, Population Division (2017). World Population Prospects: The 2017 Revision

https://population.un.org/wpp/Graphs/Probabilistic/POP/TOT/

Audrey Jiajia Li. Can the Communist party get out of China’s bedrooms now, please?, The Guardian, 29/11/2018 https://www.theguardian.com/commentisfree/2018/nov/29/communist-party-china-bedroom

Lily Kuo. China: new rules to prevent sex-selective abortions raise fears, The Guardian, 22/06/2018 https://www.theguardian.com/world/2018/jun/22/china-new-rules-jiangxi-province-prevent-sex-selective-abortions

Zhou Xin; Sidney Leng. China birth numbers expected to fall to lowest level since 2000, creating new economic and social challenges, SCMP, 2 Jan, 2019

https://beta.scmp.com/economy/china-economy/article/2180339/china-birth-rate-expected-fall-lowest-level-2000-creating-new?fbclid=IwAR2BgIQ7rLxQfoSr1BQsDWuG_PDB9jUWK0LpP1FRxe5T0hUW9h3SF8VnTSQ

Baochang Gu. Fertility, reproductive health and population change with particular reference to China, Population Division, 01 e 02 de novembro de 2018

https://www.un.org/en/development/desa/population/events/pdf/expert/28/EGM_Baochang_Gu_ppt.pdf

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/02/2019

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Para educadores brasileiros, a escola é o único lugar capaz de ensinar a conviver e lidar com a diversidade humana


Afinal, qual é a função social da Escola?

Por Katia Machado – EPSJV/Fiocruz

A escola representa ainda hoje a instituição que a humanidade elegeu para socializar o saber sistematizado? Alguma outra forma ou lugar foi capaz de substituí-la? A reflexão sobre o papel social da escola e a quem ela serve parece ganhar relevância no atual cenário brasileiro.

sala de aula
Foto: EBC

Em setembro de 2018, o chamado homeschooling – ou ensino doméstico – foi pauta do Supremo Tribunal Federal (STF), que julgou um recurso extraordinário originado em um mandado de segurança contra uma secretaria municipal de educação que negou a solicitação de uma família para educar a filha em casa. A proposta da ação foi recusada, sob a justificativa de parte dos ministros da Corte de que a legislação brasileira exige que o Estado ofereça escolas e que os pais enviem seus filhos à escola. Além disso, definiu o STF, não existe uma lei que regulamente a prática do ensino doméstico no Brasil. De outro lado, o ministro Luís Roberto Barroso, relator do caso e um dos que defendeu o direito de escolha das famílias em nome de sua liberdade religiosa, sustentou que a socialização da criança sob o ensino domiciliar poderia ocorrer com seus pares em outros espaços que não a escola, tais como praças, clubes e igrejas.

Somando-se a isso, em novembro de 2018, o Ministério da Educação (MEC) homologou as novas diretrizes curriculares do ensino médio, permitindo que alunos desse segmento cumpram até 20% das horas obrigatórias a distância, nos cursos diurnos, e até 30% nos noturnos. Já na Educação de Jovens e Adultos (EJA), esse percentual de educação a distância (EaD) pula para 80%. Sobre a efetivação disso, pairam muitas dúvidas como, por exemplo, a forma como se daria o ensino de áreas como as linguagens artísticas e a educação física nessa modalidade. A questão é: se a educação básica pode se dar em casa ou a distância, que papel sobra para a instituição ‘escola’?

Onde se aprende a conviver?

O homeschooling surgiu nos Estados Unidos na década de 1970, com base em um movimento de reforma da educação, proposto pelo professor e escritor norte americano John Holt, sob a justificativa de impossibilidade de transformar a escola em espaços de aprendizagens lúdicos, variados e cheios de estímulos. No Brasil, a educação domiciliar surge, timidamente, nos anos 1990, praticada por algumas poucas famílias, grande parte de origem estrangeira. Em 1994, o tema ganha visibilidade por conta de um projeto de lei (PL 4.657/94) do então deputado federal João Teixeira (PL/MT), que visava regulamentar a educação domiciliar para o ensino fundamental. Este projeto foi rejeitado, bem como o PL 6.001/2001, de autoria do deputado Ricardo Izar (PTB/SP), que surgiu sete anos depois sob a justificativa de aumentar as possibilidades de ensino no Brasil. Sobre ensino doméstico, foram apresentados vários projetos de lei ainda nos anos 2002, 2008, 2012 e 2015, bem como uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), em 2009. Quase todos tiveram seus pareceres rejeitados ou foram retirados de pauta. Na Câmara, atualmente, tramita o PL 3.179/12, de autoria do deputado Lincoln Portela (PR-MG), acrescentando um parágrafo ao artigo 23 da Lei nº 9.394, de 1996, de diretrizes e bases da educação nacional, sobre a possibilidade de oferta domiciliar da educação básica.

Os defensores dessa modalidade, cerca de 2.500 famílias, segundo a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), alegam defasagens estruturais no modelo de ensino público brasileiro, declaram questões de violência, drogas e bullying em sala de aula e justificam a escolha pela modalidade com argumentos religiosos. Na educação domiciliar, segundo esclarece o site da Aned, os pais se responsabilizam por todos os aspectos da educação dos filhos: valores, condutas, formação do caráter, questões afetivas e também a instrução formal ou o saber acadêmico.

Em países onde a educação domiciliar vingou, há um mercado a serviço dessa modalidade de ensino: organizações especializadas no assunto ofertam currículos já montados, dispõem de módulos de EaD e tutores especializados em determinadas áreas. “O Brasil é atrasadíssimo nisso, todos os países de língua inglesa permitem esta modalidade, o que implica os pais seguirem o currículo da escola, com a diferença de que esse currículo é aplicado em casa”, explica o professor emérito da Escola de Comunicações e Arte da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), Fredric Michael Litto.

Para a professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e integrante do Grupo de Trabalho (GT) sobre currículo da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), Inês Barbosa de Oliveira, ensinar e aprender são, de fato, as primeiras funções da escola. Mas não se resume a isso. “A escola tem a importante função de socializar as crianças e jovens e, por isso, não pode ser substituída pelo ensino individualizado, longe do convívio com outras crianças, jovens e adultos”, analisa. Isso significa, segundo ela, que a escola é a única instituição capaz de fazer com que crianças e jovens, ao se deslocarem de seu ambiente social de origem, aprendam a conviver com outras pessoas, encarar diferentes visões de mundo e múltiplas possibilidades culturais e de conhecimento. “O processo de socialização é profundamente educativo, algo que o espaço doméstico, em especial, não é capaz de assegurar”, garante. Carlos Maurício Barreto, vice-diretor de ensino da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), completa: “A escola é o único espaço capaz de tratar de questões diversas, que outros âmbitos da formação, seja o familiar ou o religioso, por exemplo, não conseguem dar conta”. Já o presidente da Abed discorda que isso seja um problema. Para ele, nesse caso, a socialização pode se dar no bairro, “brincando com seus amigos”.

A diferença talvez esteja no que se considera como ‘socialização’. Para Jefferson Manhães de Azevedo, reitor do Instituto Federal Fluminense (IFF), a escola tem a função essencial de socializar porque ela é espaço de “alargamento de horizontes”. “Isso significa que a escola amplia a perspectiva de vida, os espaços de convivência familiar, entre amigos e vizinhos, bem como a capacidade de reflexão crítica sobre as próprias atitudes e as dos outros”, orienta. A escola que só desenvolve a formação intelectual, segundo Manhães, é uma escola “capenga”. “A escola é um conjunto de ações, que envolve atividades de educação física, alimentação, música, entre outras”, elenca, nomeando esse ‘pacote’ como “ecossistema de aprendizagem”, no qual a sala de aula é apenas uma parte do processo de ensino e aprendizagem. “Não adianta um aluno aprender apenas mecânica, eletricidade, física, matemática, entre outras disciplinas importantes para uma dimensão do seu trabalho, se ele não sabe lidar com o outro”, exemplifica.

Isso implica reconhecer, conforme a análise de Inês, que somente a escola tem a capacidade de respeitar as diferenças e a pluralidade dos conhecimentos, tanto aqueles mais claramente identificados com o currículo – como as ciências naturais, sociais, a matemática e a língua portuguesa – quanto outros, como a educação artística e a educação do corpo. Ressaltando que os jovens precisam de mais do que competência profissional e que o ensino da tecnologia não dá conta de todas as dimensões da vida, o reitor do IFF complementa: “Isso quem faz é a escola integral, que afirma a importância das atividades culturais, artísticas e esportivas”.

Exemplo de uma escola integral, tal como os Institutos Federais, a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), da Fundação Oswaldo Cruz, dedica parte importante do currículo do ensino médio integrado à educação profissional a atividades como essas. Na disciplina de Artes, por exemplo, os estudantes podem escolher ter aulas de música, artes plásticas, teatro ou audiovisual. Todas essas dimensões da cultura são tratadas também em eventos regulares, que misturam apresentações dos alunos com debates de especialistas. É o caso do ‘Som e Cena’, que acontece anualmente misturando música e teatro, e do ‘Arte e Saúde’, que coloca a linguagem artística a serviço da discussão de temas associados à produção social da saúde, como meio ambiente, trabalho e cidade. O mergulho no universo do audiovisual já rendeu, inclusive, alguns prêmios a estudantes da EPSJV/Fiocruz. O mais recente foi o filme ’Contracorrente’, que conta a história de Caio, um menino incrédulo e rodeado de amigos, que passa a receber mensagens anônimas pelo celular que desviam o curso de sua vida. Em novembro de 2018, a produção ganhou o segundo lugar na categoria ‘Ensino Médio’ no Festival de Cinema Estudantil de Guaíba, no qual Rodrigo Gomes, aluno do quarto ano do Ensino Médio de Análises Clínicas da EPSJV, também recebeu o prêmio de melhor ator.

A preocupação com a dimensão cultural da formação escolar se estende para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), que também inclui, no currículo, disciplinas como música e dança, além de oficinas como vídeo e artesanato. Como atividade física, a EPSJV/Fiocruz também oferece aos estudantes do ensino médio integrado duas modalidades: desporto e expressão cultural. “Nós acreditamos na formação humana ampliada. Isso significa reconhecer a importância das várias áreas do conhecimento humano, explica Carlos Maurício.

O reitor do IFF reforça que é papel da escola – preferencialmente em tempo integral – ofertar a crianças e jovens todas as atividades necessárias ao desenvolvimento humano. “A escola em tempo parcial serve aos ricos, porque no contraturno o pai e a mãe podem pagar aulas de dança, música, esporte, entre outras. Os alunos, especialmente os meninos e as meninas mais pobres, precisam ficar em tempo integral, porque é no contraturno que eles poderão receber o reforço escolar, fazer o dever de casa, participar de uma atividade cultural ou esportiva”, conclui.

Esse debate remete a outra dimensão da política educacional brasileira atual: a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio, aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e homologada na sequência pelo Ministério da Educação (MEC), em dezembro de 2018 (ler entrevista na página 18). Isso porque, a despeito das muitas críticas, o texto aprovado manteve apenas as disciplinas de matemática e português como obrigatórias nos três anos de ensino médio. As demais disciplinas – química, física, biologia, história, geografia, filosofia, sociologia, artes, língua estrangeira – ficam diluídas em áreas do conhecimento, sem indicação a respeito do conteúdo que deve ser assegurado. “Com garantias apenas de português e matemática se empobrece a capacidade de formação de um espírito crítico, de uma cidadania mais contemporânea. Considerando a situação das escolas públicas no Brasil, a maior parte com muitas carências, elas vão oferecer apenas o que é possível. É educação pobre para os pobres”, lamenta o ex-conselheiro do CNE César Callegari, ouvido pelo Portal EPSJV/Fiocruz em 6/12/2018.

Socializar a distância é possível?

O presidente da Abed acredita que mesmo a socialização pode ser promovida pela internet. “Não era possível pensar essa interação entre alunos antes da internet. Hoje em dia, por exemplo, é possível a uma universidade dispor de um conjunto de materiais para uma comunidade seleta ou ao público em geral, que pode selecionar o que ele ou ela quer e puxar para o seu computador”, exemplifica, em alusão a um estilo de comunicação em rede, por meio do qual a solicitação inicial de dados é originada do “cliente”, chamado pull technology.

Na observação de Litto, o brasileiro, de um modo geral, não conhece a educação a distância e, por isso, critica a modalidade. “O brasileiro acha que tudo o que está em EaD tem a estrutura de cursinho de poucas horas. Isso não é verdade. A educação a distância pode ter estrutura de curso, como também poderá servir para complementar o ensino, mediada por tecnologias”, afirma. Ele cita exemplos em prática na USP, como a primeira biblioteca virtual criada por ele, que permite à comunidade acessar uma infinidade de produções científicas, artísticas, acadêmicas e técnicas. “Uma biblioteca virtual poderia dispor de todos os livros que um aluno do ensino fundamental ou médio no Brasil precisaria para fazer seus trabalhos escolares”, sugere.

Para Manhães, do IFF, a EaD pode ser “extremamente produtiva” para a requalificação de trabalhadores, não servindo porém a crianças e jovens, um público que, segundo ele, carece de espaço físico, pois ainda está em processo de formação. “Nessa faixa etária, a EaD pode ser usada para a prática de exercícios complementares”, sugere.

Litto também reconhece que esta modalidade de ensino não serve a todo mundo. “Ela exige um grau de autonomia e maturidade”, orienta. Além disso, afirma, precisa ser optativa. “Ou seja, se o aluno não se sente seguro em ter a ausência de um professor em ‘carne e osso’ ao seu lado, deixe-o ficar no presencial”, sugere. Ele observa que a EaD na educação básica pode servir como atividade complementar. “Mas, na formação de trabalhadores, pode permitir a uma pessoa que trabalha há anos na área têxtil, migrar para a farmacologia, ou qualquer outra área, sem precisar voltar aos bancos escolares”, exemplifica. Além disso, segundo ele, o ensino a distância consegue dar conta de muitas pessoas que têm dificuldades de locomoção ou outras necessidades especiais. “Nesse caso, a escola pode ir até a essas pessoas”, orienta.

Na avaliação de Inês, da Anped, para todas as crianças e jovens em idade escolar, a EaD é “mais danosa que benéfica”. Isso porque, segundo ela, essa modalidade de ensino, para os mais jovens, compromete a função de socialização, bem como algumas dimensões da educação, em especial a educação física (ou do corpo) e a artística. “O sentido de convivência se perde com a EaD, além de colocar em risco a universalidade da educação pública”, observa a professora. Ela critica: “Eu compreendo a defesa da EaD para suprir a ausência de uma escola. Ou seja, onde não é possível ter uma escola, é melhor que se tenha a EaD. Mas, no momento em que se autoriza a modalidade, você acaba desobrigando o Estado de oferecer escolas de qualidade, reduzindo-as outra vez à função de ensino e aprendizagem”.

Voltada para trabalhadores, mas centrada na educação básica, a EJA – que pelas novas diretrizes curriculares do ensino médio, pode ser realizada com até 80% de aula a distância –, também está no meio desse debate. Danielle Cerri, professora-pesquisadora da EPSJV/Fiocruz que já coordenou a EJA da instituição, fala sobre a importância de se garantir também aos jovens e adultos o direito de usufruírem do espaço escolar. “Precisamos lembrar que a classe trabalhadora a quem a EJA em geral atende é formada por pessoas que já saíram há algum tempo da escola, que não conseguiram por vezes se alfabetizar na infância, que trazem várias demandas pessoais. A essas pessoas não se garante o processo de ensino e aprendizagem apenas com um computador a sua frente, muito menos o processo de socialização”, analisa.

Desinteresse ou necessidade?

Mas por que, então, o espaço da escola muitas vezes é abandonado? Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), a educação básica vem sofrendo com o aumento da evasão escolar em todas as etapas do ensino desde 2014, contrariando o período de queda verificado de 2007 a 2013. O Censo Escolar mostra que, entre 2014 e 2015, 12,9% e 12,7% dos alunos matriculados nas 1ª e 2ª séries do ensino médio, respectivamente, evadiram da escola. A terceira maior taxa de evasão fica com o 9º ano do ensino fundamental (7,7%), seguido do terceiro ano do ensino médio, com 6,8%. Considerando todas as séries do ensino médio, a evasão chega a 11,2% do total de alunos nessa etapa de ensino. Parecem muitas e variadas as razões pelas quais esses estudantes abandonam a escola.

Análise da Galeria de Estudos e Avaliação de Iniciativa Pública (Gesta), realizada em 2017 pela Fundação Brava, aponta 14 motivos para a evasão escolar, com destaque para o acesso limitado, em decorrência da falta de escolas, de vagas próximas à residência do jovem e transporte público demorado ou inexistente, e limitações físicas por doenças graves ou por serem portadores de necessidades especiais.

O reitor do IFF destaca também o fato de o jovem não se sentir atraído pela escola. “Uma escola é atrativa e de qualidade quando oferta bibliotecas, laboratórios, quadra de esportes, espaços para o desenvolvimento de atividades culturais e artísticas, entre outros”, elenca, citando como exemplo o próprio IFF e a EPSJV/Fiocruz.

Na avaliação de Inês, a evasão é motivada, especialmente no ensino médio, pela pressão da vida profissional. “O jovem sai da escola porque precisa trabalhar. Essa é a nossa realidade”, afirma. Ela ressalta que a população mais pobre, quando termina o ensino fundamental, já está “festejando”, porque os pais não chegaram sequer ao fim do primeiro segmento do fundamental. “O cenário é ainda pior, pois muitos deles estão fora da escola, não estão trabalhando ou estão em subempregos”, acresenta Manhães, observando que as escolas deixaram de cumprir um papel importantíssimo, de inclusão social. “Muitas estão em áreas de conflitos, outras não têm qualquer estrutura física para a oferta de atividades físicas e culturais”, exemplifica.

As dificuldades materiais que obrigam o jovem das camadas mais pobres da população a entrarem precocemente no mercado de trabalho ultrapassam os limites de ação da escola. Mas algumas medidas no campo da educação podem surtir algum efeito sobre esse tipo de problema. A concessão de bolsas é um exemplo. Previsto na Lei de Cotas (12.711/2012), o Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes) do Ministério da Educação, por exemplo, apoia a permanência de estudantes de baixa renda matriculados em cursos de graduação presencial das instituições federais de ensino superior através da oferta de uma ajuda de custo de R$ 400, em média. Deste programa, fazem parte também as ações de auxílio moradia, transporte, alimentação, creche, inclusão digital, apoio pedagógico, esporte e cultura, executadas pela própria instituição de ensino, que recebe verba do governo federal.

Embora não seja instituição de ensino superior, na EPSJV/Fiocruz os alunos do ensino médio integrado recebem uma bolsa de demanda social no valor de R$ 150, que é concedida após avaliação de uma comissão interna. Entendendo a realidade de parte dos alunos que, para estar na escola em tempo integral, precisam trabalhar à noite, a Escola Politécnica estuda criar uma bolsa de permanência com um valor mais alto, em substituição ao auxílio de demanda social. Mas, por enquanto, o projeto esbarra nas restrições orçamentárias. Para os alunos cujo passe-livre não cobre a locomoção do mês, é oferecido também um auxilio complementar de transporte. Por ser uma instituição federal, a verba para o custeio das bolsas sai do orçamento anual da instituição.

Tudo isso mostra que a instituição escola cumpre um importante papel “assistencial”, segundo Inês. “Ao pensarmos que ainda vivemos em um país com uma enorme desigualdade social, é possível afirmar que a escola tem também a função assistencial, de fornecer alimentação, uniforme para garantir a frequência, material escolar e transporte, como parte de uma política educacional em prol da universalização da escolarização”, acrescenta.

Uma dificuldade que atinge principalmente a Educação de Jovens e Adultos é o que fazer com os filhos enquanto os pais – principalmente as mães – estão em aula. Para esse problema, não existe ainda garantia legal no Brasil, embora haja iniciativas isoladas. A EJA da EPSJV/Fiocruz, por exemplo, criou um espaço e uma dinâmica de trabalho para receber essas crianças. “Trata-se de uma demanda dos nossos alunos. Durante as aulas, as crianças são acolhidas por duas mediadoras que promovem teatro, contação de histórias, enfim uma série de atividades que estão aportadas no currículo da EJA”, conta Danielle Cerri.

A Escola, que garante ainda três refeições por dia para alunos do ensino médio integrado à educação profissional, que estudam em tempo integral, estendeu esse direito aos estudantes de todos os cursos, inclusive aqueles voltados para adultos trabalhadores, desde que não recebam auxílio alimentação. A garantia de refeição nas escolas públicas está prevista na Lei 11.947/2009 que trata do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/02/2019

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Desastres da Vale em Brumadinho e Mariana fazem parte de um projeto de país

Desastres da Vale em Brumadinho e Mariana fazem parte de um projeto de país
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Duas barragens não se rompem, matam dezenas de pessoas e alteram para sempre o meio ambiente por conta da incompetência, ignorância ou má fé de um punhado de pessoas. Chamamos o que aconteceu em Brumadinho e Mariana de tragédia, desastre, catástrofe e, muito inadvertidamente, “acidente”, por tentativa de objetividade. O correto seria dizer que isso faz parte de um empreendimento, um projeto coletivo, pacientemente implementado ao longo do tempo, tendo a Vale à frente.

Quando o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirma que “as investigações têm que chegar no CPF de alguém”, pois “alguém deu ordens para fazer isso ou aquilo”, ele livra a barra do sistema.

Também são responsáveis mandatários, senadores e deputados que não agiram para manter a empresa na linha, via leis, fiscalizações, punições. Ou magistrados com interpretações de leis que amenizaram a punição a projetos com sofrimento humano sob a justificativa de evitar que fossem inviabilizados. Ou ainda com a parcela dos investidores e acionistas cuja preocupação é apenas com a redução no valor das ações ou no pagamento de dividendos – não se importando que a empresa não diga toda a verdade sobre o riscos sociais e ambientais de sua fábrica de dinheiro. O que os olhos não veem, o coração não sente.

O amor da Vale pela democracia levou a empresa a distribuir R$ 79,3 milhões na eleição de 2014, de acordo com reportagem do UOL – a última com doação (legal) de pessoas jurídicas. As campanhas de Dilma Rousseff, Aécio Neves, Fernando Pimentel estavam entre as grandes recebedoras.

O ato de doação é um indício de que o doador comunga das propostas do candidato e deseja que ele o represente politicamente, seja por suas ideias, seja por sua classe social, ou porque quer criar com ele um vínculo. Alguns eleitos mantêm apenas diálogos cordiais com os financiadores, outros literalmente pagam através de serviços prestados.

Esse tipo de empreendimento coletivo não enxerga barreiras ideológicas e matizes políticos. Não surgiu neste governo, que acaba de começar (apesar dele se esforçar em atacar o licenciamento ambiental e a fiscalização do trabalho para alegrar alguns grupos arcaicos que lhe dão suporte), mas não deve terminar com ele.

O fogo que consumiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em setembro do ano passado, é representativo do mesmo empreendimento e paradigmático da ausência de um projeto nacional que enxergasse naquele patrimônio um subsídio fundamental para a construção de um país melhor. E que, portanto, precisaria ter sido protegido a qualquer custo. Se assim fosse, haveria recursos para monitorar, conservar e estudar esse patrimônio da mesma forma que existe para garantir o funcionamento dos mais diversos palácios que hospedam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário pelo país. Até porque representantes políticos vêm e vão, mas nossa história fica.

Da mesma forma, a vida vale muito pouco diante do extrativismo brasileiro, com o perdão do trocadilho. Nossa riqueza natural e ambiental tampouco. Muito menos as vidas de comunidades tradicionais atingidas pela lama que correu, em 2015, pelo rio Doce ou das que são alcançadas pela que corre, agora, em direção ao rio São Francisco. Talvez se tivéssemos outro projeto de país, um em que a centralidade estivesse na dignidade humana, o poder público e a empresa teriam sido convencidos de que o minério de ferro teria que ficar no solo até que fosse possível garantir o armazenamento dos resíduos sem riscos.

Mas direitos humanos, que incluem a proteção à vida e à dignidade em seus aspectos econômicos, sociais, ambientais e culturais, são chamados de “lixo” pelas mesmas pessoas que, logo depois, replicam memes do tipo “Salve, Brumadinho”. O que parece esquizofrenia comunicacional na verdade é parte da lógica do tal empreendimento coletivo. Desconectada e alienada do curso de sua vida e da história de sua gente, treinados para atuar como cães de guarda daqueles que os oprimem, muitos se tornam soldados do capital alheio.

Não houve um desastre da Vale em Brumadinho depois de um da Samarco (Vale + BHP) em Mariana. São o mesmo desastre. Duas temporadas da mesma série, passando via streaming na tela do seu celular.

Por não percebermos isso, deixamos de entender o encadeamento de nossa própria história e de construir um outro projeto de país. Passivo, diante dos planos de terceiros, o povo não é mais povo, mas gado. E como gado, pode ser tocado adiante. Um amontoado de mugidos difusos que não tem ideia para onde está indo, tampouco faz questão de saber. Até ser surpreendido pelo próximo atoleiro de lama, ali, logo em frente.