Archive for 6 de março de 2019

Rússia deixa tratado nuclear que foi marco do fim da Guerra Fria

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Rússia deixa tratado nuclear que foi marco do fim da Guerra Fria


O presidente russo, Vladimir Putin, assinou um decreto que suspende a participação da Rússia no INF (sigla inglesa para Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário), um dos principais acordos de desarmamento nuclear da história, anunciou o Kremlin nesta segunda-feira (4).

Firmado entre os Estados Unidos e a União Soviética em 1987, o acordo foi um marco do fim da Guerra Fria.

A Rússia já havia anunciado, no mês passado, que iria suspender sua participação no tratado depois que os Estados Unidos disseram que iriam se retirar do pacto sob o pretexto de violações russas ao acordo.

A Rússia nega ter descumprido o tratado e tem afirmado que Washington quer romper sozinho com o acordo. Washington anunciou na sexta que sairia do INF (sigla em inglês para Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário) em seis meses, a menos que Moscou encerre o que considera violações do acordo.

​Putin ordenou a suspensão da Rússia até que os EUA parem de violar o tratado e instruiu o Ministério de Relações Exteriores russo a informar os signatários sobre a decisão, segundo o texto do decreto.

O INF levou à eliminação de 1.846 ogivas soviéticas e 846 americanas até 1991. Na prática, contudo, os dois países seguiram desenvolvendo armas com capacidades análogas às dos mísseis proibidos. Não só eles: vários países, incluindo a potência nuclear China, operam tais foguetes. ​

No dia 31 de janeiro, Washington anunciou que sairia do INF em seis meses, a menos que Moscou encerre o que considera violações do acordo.

Para os americanos, os russos violaram o combinado após testar o míssil de cruzeiro 9M729, de alcance estimado em 2.000 km, em 2015, e de tê-lo instalado perto de fronteiras europeias em 2017. O INF veta qualquer míssil com alcance entre 500 km e 5.500 km na região.

Na época, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, também acusou os Estados Unidos de violarem os termos do INF e de outros acordos armamentistas, como o tratado de não proliferação. ​

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A exploração dos tributos e a injustiça nossa de cada dia

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A exploração dos tributos e a injustiça nossa de cada dia

Augusto Carlos de Menezes Beber

Foto: EBC

Segundo aponta a Oxfam, o 1% mais rico do Brasil recebe mais de 25% de toda a renda nacional, sendo que os 10% mais ricos recebem o mesmo que os demais 95% da população. Esses dados podem ser relacionados com pesquisas recentes que indicam que no Brasil é 14 vezes mais difícil um pobre melhorar de vida do que alguém rico manter o status quo.Conforme apontado pelo relatório “Efeito redistributivo da política fiscal”, elaborado pela Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, o Brasil funciona como um “Robin Hood às avessas”, pois transfere pouca renda para os 10% mais pobres, enquanto que distribui benefícios entre os 40% mais ricos da população.[1]

Esse fenômeno é endossado por relatórios que apontam o Brasil como um dos países maior índice de desigualdade no mundo. Conforme destaca Piketty, a concentração de renda no Brasil é tão grande que os brasileiros mais ricos detêm uma riqueza concentrada maior do que os sheiks do Oriente Médio.Para um país que se pretende republicano, esse abismo social revela nada mais do que uma verdade inconveniente: de que por trás da máscara institucional da equidade, permanece no Brasil uma genuína sociedade de castas e privilégios.

Há diversos fatores envolvidos na manutenção desse grau de desigualdade. A abolição tardia da escravidão e o protecionismo histórico aos “donos do poder” são alguns elementos que não podem ser descartados de um diagnóstico mais panorâmico da desigualdade enfrentada hoje no Brasil. Chama-se atenção, contudo, para um fator que insiste em ficar fora da agenda de debates: o modelo tributário adotado em terras brasileiras.

A tributação, embora não seja causa exclusiva para a perpetuação da desigualdade, em muito contribui para que ela seja mantida como está. Isso ocorre porque no Estado fiscal, em que as despesas públicas são custeadas por meio de tributos, a distribuição do ônus entre os signos presuntivos de riqueza – patrimônio, renda, salário e consumo – influi diretamente na capacidade de autorrealização dos sujeitos. De fato, a concentração da tributação em um signo em detrimento de outro tem o poder de afetar tanto a capacidade de ação do Estado quanto as possibilidades de ação dos indivíduos em sociedade.

Se um modelo tributário onera pouco o acesso a bens e serviços, a consequência lógica é que haja uma sociedade em que todos consigam se beneficiar com mais facilidade das demandas de consumo. Onerando-se mais a tributação sobre o patrimônio, cria-se uma sociedade em que é mais difícil haver o acúmulo de propriedade. Da mesma forma, ao haver uma tributação progressiva sobre a renda, edifica-se uma sociedade em que quem ganha mais, paga mais, o que redistribui, por meio da arrecadação, as riquezas adquiridas pela exploração do capital.

Na Europa, de modo geral encontra-se um modelo tributário que executa uma tributação maior sobre a renda e o patrimônio, o que vem acompanhado por um dos índices de menor desigualdade do mundo. A partir disso, especialmente de uma maior tributação sobre a renda e as heranças, os europeus mais ricos contribuem mais para o sustento do Estado e dos direitos sociais, evitando-se o acúmulo de riquezas entre gerações, e, consequentemente, a desigualdade social.

No Brasil, a situação é inversa. Com uma tributação voltada para o consumo, os detentores de patrimônio e de alta renda se beneficiam de uma política que estimula a manutenção de privilégios. A elite, que se rejubila com os seus discursos inflamados sobre a meritocracia, conquista ativos cada vez maiores por meio de artifícios como a isenção sobre os dividendos, apropriando-se de lucros verdadeiramente astronômicos, o que a permite sustentar um padrão de vida incompatível com a realidade da grande maioria da população.[2]

Com alíquotas que variam de 3 a 8%, a transmissão de patrimônio causa mortis praticamente não é tributada, enquanto que em países ditos liberais, como os Estados Unidos, o mesmo tributo chega a ter alíquotas de até 40%. Nessa perspectiva, torna-se relativamente fácil encontrar no Brasil gerações de famílias que possuem uma vida confortável ao custo de uma riqueza praticamente intocada pelo Estado. Enquanto que os mais pobres, que não têm absolutamente o que herdar, precisam trabalhar a vida toda para adquirir patrimônio, os mais ricos podem tranquilamente manter um padrão sem necessariamente dispender o mesmo esforço que os seus ascendentes.

Além disso, a opção brasileira de tributar o consumo também é altamente excludente na medida em retira uma parcela maior do patrimônio dos mais pobres em comparação aos mais ricos. Isso ocorre porque, embora ambos paguem o mesmo valor ao realizar compras, o valor dos tributos pagos ao final, observado em relação à renda auferida, torna-se proporcionalmente maior para o mais pobre, que usa uma parcela maior dos seus rendimentosno pagamento desses tributos.

A situação não melhora em relação à tributação sobre a renda. Hoje o Brasil adota poucas alíquotas progressivas (7,5%, 15%, 22,5% e 27,5%), o que chama a atenção, dado que houve períodos da história em que chegou a adotar 14 faixas diferentes, com uma alíquota máxima de 65%, modelo próximo do que é adotado atualmente em países desenvolvidos.Ademais, como o governo não reajusta a tabela do imposto de renda, encontra-se hoje um indevido aumento na arrecadação, pois os salários tendem a aumentar com a inflação, enquanto que a base de cálculo do imposto continua a mesma.O resultado disso é que, além do imposto ser pouco progressivo, ele incide sobre rendas que deveriam estar dentro da faixa de isenção, o que apenas prejudica aqueles que possuem rendimentos mais baixos.

Na esteira desse entendimento, dados apontam que só em 2013, 51,28% da receita dos impostos teve origem no consumo de bens e serviços, sendo 24,98% na folha de salário, 18,10% na renda e apenas 3,93% na propriedade. Considerando que os mais pobres são assalariados, desprovidos de propriedade imobiliária, o que se conclui é que, em termos fiscais, através do consumo, são eles que têm sustentado o Brasil – muito embora ironicamente não sejam os mais pobres os maiores beneficiários dos serviços prestados com a receita arrecadada.

Conforme aponta o Banco Mundial, no Brasil, as desonerações aplicadas em matéria de saúde, em termos de imposto de renda, fazem com que se divida entre a população inteira os custos da saúde privada da elite. Segundo levantamento, aqueles que auferiram mais de 320 salários tiveram abatidos em média R$ 18,1 mil por pessoa em razão de gastos com saúde. Do mesmo modo, o Banco Mundial afirma que os investimentos em educação pública superior são regressivos, dado que o povo sustenta um ensino de alto nível que é usufruído preponderantemente pelos mais ricos, que, apesar do sistema de cotas, ainda são a grande maioria nas universidades públicas.

A partir disso, devemos pensar: como é possível haver um sistema estruturado dessa forma? Como é possível que uma ordem democrática possa ter uma política tributária tão excludente? A questão é simples: conforme declarou Marc Morgan Milá, a desigualdade no Brasil é – e sempre foi – uma questão de escolha política. Escolhemos – direta ou indiretamente – um sistema que onera os mais pobres em detrimento dos mais ricos, um sistema que permite que 6 pessoas possuam o mesmo patrimônio que toda a metade da população mais pobre, um sistema que ignorantemente se rejubila em afirmar que todos têm a mesma oportunidade de crescer na vida.

A história ocidental mostra que o Brasil há muito tem tratado a tributação como simples forma de arrecadação, e, com isso, tem oportunamente esquecido o seu papel de transformação social.Já em seus primórdios, no período colonial, as despesas que tinham a tributação como fonte de recursos variavam entre a manutenção do Estado para fins exploratórios e o pagamento de luxos para a nobreza. O casamento da infanta D. Catharina com Carlos II, da Inglaterra, em 1661, por exemplo, foi subsidiado inteiramente por tributos pagos pelos colonos em um período de 16 anos. Contudo, apesar do termo fixado, não eram raras as contribuições que se estendiam pelo tempo, cujo pagamento se automatizava ao ponto de se continuar pagando as núpcias de membros da família real que inclusive já haviam falecido.[3]

Infelizmente, essa tradição criada no Brasil, que reduz a política tributária à mera expressão da força do Estado, ainda permanece enraizada no senso comum dos responsáveis pelo desenho do sistema tributário nacional. Os tributos ainda são instituídos ou aumentados de acordo com as necessidades do Estado, o que, curiosamente, não implica diretamente nas necessidades do povo, conforme se percebe ao lume dos constantes aumentos de custos e cortes de gastos. Se antigamente a tributação servia para atender casamentos reais, festas, guerras ou para amparar elites agrárias, hoje a situação não é diferente – diferentes são apenas os beneficiários da tributação, prováveis herdeiros de uma nobreza disfarçada de classe média.

Nesse sentido, é preciso concordar com Buffon[4], apregoando-se a necessidade de se construir os sentidos das políticas tributárias por meio do que preceitua Constituição Cidadã de 1988. Urge observar o norte da dignidade humana, especialmente a proteção ao mínimo existencial em termos tributários. O primeiro passo para tanto é reconhecer a incidência efetiva de princípios como a progressividade e a capacidade contributiva, para que a tributação sobre a renda e o patrimônio deixem para trás o seu efeito meramente decorativo para assumir uma dimensão real em prol de uma sociedade mais justa e solidária.

Além disso, uma tributação conforme a Constituição de 1988 não pode permitir a existência de privilégios como a isenção dos dividendos, circunstância que apenas beneficia uma classe mais abastada da população. Somado a tanto, em relação à tributação sobre o consumo, deve ser assumida a obrigatoriedade da observância ao princípio da seletividade, para que bens e serviços vinculados ao mínimo existencial – tal como a energia elétrica, ainda absurdamente tributada – possam ter seu acesso universalizado, sem onerar os mais pobres.

Por certo que essas transformações exigem uma mudança drástica para serem efetivadas,admitindo-se a vontade de construção de uma sociedade em que todos possam ter condições de concretizar os seus planos de vida. Antes disso, é preciso reconhecer que a sociedade encontrada hoje no Brasil não é meritocrática, mas favorece relações pessoais, privilegia o capital e subjuga aqueles que não se encontram entre os “bem-nascidos”. A partir disso, é possível abraçar soluções para esse quadro, as quais devem incluir novas formas de gestão da política tributária, de forma a torná-la menos exclusiva e mais redistributiva.

Os mais ricos, que controlam as discussões públicas e os rumos da política nacional, em regra não estão engajados nesse plano. Os mais pobres, vítimas desse sistema perverso, em sua esmagadora maioria sequer conhecem o modus operandi da tributação brasileira. Nesse sentido, em meio a um debate mal concebido, composto por mais perguntas do que respostas, uma questão parece se mostrar preponderante: até quando ficaremos silentes diante desse quadro malicioso?

Augusto Carlos de Menezes Beber é Advogado e Mestrando em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Bacharel em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC).


[1] BRASIL. Ministério da Fazenda. Efeito redistributivo da política fiscal no Brasil. Brasília: Ministério da Fazenda, 2017. Disponível em :<http://seae.fazenda.gov.br/destaques/redistributiva/efeito_redistributivo_12_2017.pdf&gt;. Acesso em: 29 jan. de 2018.

[2] Nesse sentido, é interessante observar que, segundo um estudo do IPEA, se os lucros e dividendos não fossem isentos no Brasil – situação que só se repete na Estônia – haveria uma arrecadação de mais de R$ 43 bilhões, o que poderia servir como alternativa às políticas de austeridade que dominam a agenda política hodierna.

[3] AMED, Fernando José; CAMPOS NEGREIROS, Plínio José Labriola de. História dos tributos no Brasil. São Paulo: SINAFRESP, 2000. p. 56.

[4] BUFFON, Marciano. Tributação e dignidade humana: entre os direitos e deveres fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009.

Revolução tecnológica num mundo regredido?

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Revolução tecnológica num mundo regredido?

Postagem: Ricardo Alvarez

Boaventura de Sousa Santos – O tempo em que emergem a automação, a robótica e a inteligência artificial é o mesmo em que declinam as ideias de igualdade, justiça e direitos. As distopias batem à porta, é preciso agir.

Quando o respeitado Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, renunciou ao cargo em 2018, a opinião pública mundial foi manipulada para não dar atenção ao fato e muito menos avaliar o seu verdadeiro significado. A sua nomeação para o cargo em 2014 fora um marco nas relações internacionais. Era o primeiro asiático, árabe e muçulmano a ocupar o cargo e desempenhou-o de maneira brilhante até ao momento em que decidiu bater com a porta por não querer ceder às pressões que desfiguravam o seu cargo, desviando-o da sua missão de defender as vítimas de violações de direitos humanos para o tornar cúmplice de tais violações por parte de Estados com importância no sistema mundial. No seu discurso e entrevistas de despedida mostrava-se revoltado com o modo como os direitos humanos se vinham transformando em párias das relações internacionais, empecilhos nas estratégias autoritárias e unilaterais de domínio geoestratégico. Reconhecia que o exercício do seu cargo o obrigava a opor-se à maioria dos países que tinham aprovado a sua nomeação sob pena de trair a sua missão. Chamava também a atenção para o fato de o perfil da ONU refletir fielmente o tipo dominante de relações internacionais e que, por isso, tanto podia ser uma organização brilhante como uma organização patética, dando a entender que este último perfil era o que começava a vigorar. Era um grito de alerta para os perigos que o mundo corria com o avanço de populismos nacionalistas de direita e de extrema-direita que há muito vinha sinalizando. Ao denunciar a crescente vulnerabilidade de uma boa parte da população mundial a violações graves de direitos humanos, tornou-se ele próprio vulnerável e teve de abandonar o cargo. O grito de alerta caiu no silêncio da diplomacia, dos alinhamentos e das conveniências típicas do internacionalismo patético que ele denunciara.

Tudo isto ocorreu no ano em que se celebravam os setenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e em que muitos, eu próprio incluído, defendiam a necessidade de uma nova declaração, mais robusta e mais verdadeiramente universal. Essa necessidade mantém-se mas neste momento o mais importante é identificar as forças e os processos que estão a bloquear a declaração atual e a fazer dela um documento tão descartável quanto as populações vulneráveis a violações dos direitos humanos que a declaração pretendia defender. É bom lembrar que esta declaração visava mostrar a superioridade moral do capitalismo frente ao comunismo. O capitalismo prometia, tal como o comunismo, o crescente bem-estar de populações cada vez maiores, mas fazia-o com respeito dos princípios da Revolução Francesa: igualdade, liberdade e fraternidade. Era o único sistema compatível com a democracia e os direitos humanos.

Ora, a onda conservadora e reacionária que assola o mundo é totalmente oposta à filosofia que presidiu à elaboração da Declaração Universal e constitui uma ameaça séria à democracia. Assenta na exigência de uma dupla disciplina autoritária e radical que não se pode impor por processos democráticos dignos do nome. Trata-se da disciplina econômica e da disciplina ideológica. A disciplina econômica consiste na imposição de um capitalismo auto-regulado, movido exclusivamente pela sua lógica de incessante acumulação e de concentração da riqueza, livre de restrições políticas ou éticas, em suma, o capitalismo que dantes designávamos como capitalismo selvagem. A disciplina ideológica consiste na inculcação de uma percepção ou mentalidade coletiva dominada pela existência de perigos iminentes e imprevisíveis que atingem todos por igual e particularmente os coletivos que nos estão mais próximos, sejam eles a família, a comunidade ou a nação. Tais perigos criam um medo inabalável do estranho e do futuro, uma insegurança total perante um desconhecido avassalador. Em tais condições, não resta outra segurança senão a do regresso ao passado glorioso, o refúgio na abundância do que supostamente fomos e tivemos.

Ambas as disciplinas são de tal ordem autoritárias que configuram duas guerras não declaradas contra a grande maioria de população mundial, as classes populares miserabilizadas e as classes médias empobrecidas. Esta dupla guerra exige um vastíssimo complexo industrial ideológico-mental espalhado por todo o mundo, incluindo as nossas vizinhanças, as nossas casas e a nossa intimidade. São três as fábricas principais deste complexo, a fábrica do ódio, a fábrica do medo e a fábrica da mentira. Na fábrica do ódio produz-se a necessidade de criar inimigos e de produzir as armas que os eliminem eficazmente. Os inimigos não são aqueles poderes que o pensamento crítico esquerdista satanizou, o capitalismo, o colonialismo e o hétero-patriarcado. Os verdadeiros inimigos são aqueles que até agora se disfarçaram de amigos, todos aqueles que inventaram a ideia de opressão e mobilizaram os ingênuos (infelizmente uma boa parte da população mundial) para a luta contra a opressão. Disfarçaram-se de democratas, de defensores dos direitos humanos, do Estado de direito, do acesso ao direito, da diversidade cultural, da igualdade racial e sexual. Por isso são tão perigosos. O ódio implica a recusa de discutir com os inimigos. Os inimigos eliminam-se.

Na fábrica do medo produz-se a insegurança e os artefatos ideológico-mentais que produzem a segurança, segurança que para ser infalível necessita de vigilância permanente e de constante renovação das tecnologias de segurança. O objetivo da fábrica do medo é erradicar a esperança. Tornar o atual estado de coisas no único possível e legítimo contra o qual só por loucura ou utopia destemperada se pode lutar. Não se trata de ratificar tudo o que existe. Trata-se de limpar do que existe tudo o que impediu o passado glorioso de se perpetuar. Por sua vez, na fábrica da mentira produzem-se os fatos e as ideias alternativas a tudo o que tem passado por verdade ou busca de verdade, como sejam as ideias da igualdade, da liberdade negativa (liberdade de constrangimentos) e positiva (liberdade para realizar objetivos próprios, não impostos nem tele-comandados), do Estado social de direito, da violência como negação da democracia, do diálogo e reconhecimento do outro como alternativa à guerra, dos bens comuns como a água, a educação, a saúde, o meio-ambiente saudável. Esta fábrica é a mais estratégica de todas porque é aquela em que os artefatos ideológico-mentais têm de ser embalados disfarçados de não-ideológicos. A sua maior eficácia reside em não dizerem a verdade a seu respeito.

A proliferação destas três fábricas é o motor da onda reacionária que vivemos. A proliferação tem de ser a maior possível para que nós próprios nos tornemos empreendedores do ódio, do medo e da mentira; para que deixe de existir diferença entre produção, distribuição e consumo. Os meios de comunicação hegemônicos, a “comentariologia”, as redes sociais e seus algoritmos e as igrejas seguidoras da teologia da prosperidade são poderosas linhas de montagem. Mas isto não significa que as peças que circulam nas linhas de montagem sejam produzidas anarquicamente em todo o mundo. Há centros de inovação e de renovação tecnológica para a produção massiva de artefatos ideológico-mentais cada vez mais sofisticados. Esses centros são os silicon valeys do ódio, do medo e da mentira. As tecnologias foram originalmente desenvolvidas para servir dois grandes clientes, os militares e suas guerras e o consumo de massa, mas hoje os clientes são muito mais diversificados e incluem a manipulação psicológica, a opinião pública, o marketing político, a disciplinação moral e religiosa. A sofisticação tecnológica está orientada para colapsar a distância com a proximidade (tweets e soundbites), a institucionalidade com a subliminaridade (mediante a produção em massa da máxima personalização), a verdade e a mentira ou a meia-verdade (hiper-simplicações, banalização do horror, transmissão seletiva de conflitos sociais).

No momento em que se diz estarmos em vésperas de uma nova revolução tecnológica dominada pela inteligência artificial, a automação e a robótica, dá ideia que as incessantes fábricas do ódio, do medo e da mentira querem orientar a revolução tecnológica no sentido da maior concentração do poder econômico, social, político e cultural e, portanto, no sentido de criar uma sociedade de tal maneira injusta que a justiça se transforme numa monstruosidade repugnante. É como se antes da chegada massiva da inteligência artificial a inteligência natural se fosse artificializando e automatizando para coincidir e se confundir com ela.

Países que apagaram o passado colonial de seu nome, como as Filipinas querem fazer

Países que apagaram o passado colonial de seu nome, como as Filipinas querem fazer

Jaime Rubio Hancock

À direita, retrato de Felipe II, de Ticiano (Museu do Prado). © Proporcionado por Prisa Noticias À direita, retrato de Felipe II, de Ticiano (Museu do Prado). Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, manifestou a intenção de mudar o nome do país, com a meta de eliminar o rastro espanhol. O arquipélago foi batizado em 1543 com o nome de Filipinas em homenagem ao então príncipe e futuro rei da Espanha Felipe II. As ilhas foram colônia espanhola até 1898.

Não é a primeira vez que essa possibilidade é mencionada. Como noticiado pela agência Europa Press, houve propostas na época de Ferdinand Marcos, ditador que governou o país entre 1965 e 1986. Algumas semanas atrás, o próprio Duterte mencionou a ideia de chamar o país de Maharlika, um termo malaio que era usado nas referências às civilizações pré-hispânicas da ilha de Luzón, a maior do arquipélago. A atual Constituição prevê a possibilidade de mudar o nome depois de um referendo.

Não é comum um país mudar de nome, mas existem antecedentes. Às vezes, isso ocorre por conflitos históricos: recentemente, por exemplo, a Antiga República Iugoslava da Macedônia passou a ser chamada Macedônia do Norte, depois de um acordo com a Grécia, onde está a região da Macedônia. E, muitas vezes, também quando se quer apagar o legado do colonialismo. Especialmente considerando que as metrópoles, frequentemente, optavam por nomes que não tinham nada a ver com a história da região. Estes são alguns exemplos:

Burkina Fasso. Em 1984, o Governo de Alto Volta mudou o nome do país africano para Burkina Fasso. Essa antiga colônia francesa na África declarou independência em 1966, mantendo o nome colonial que fazia referência ao rio Volta. O novo nome significa “terra do povo incorruptível”.

As Cataratas de Vitória no rio Zambeze, no Zimbábue. As Cataratas de Vitória no rio Zambeze, no Zimbábue. eSwatini. É a mudança mais recente: em abril de 2018, coincidindo com o 50º aniversário da Suazilândia, o rei Mswati III mudou o nome desse país sul-africano para eSwatini. Como Suazilândia, esse nome também significa “a terra dos suázis”. A mudança ocorreu, principalmente, por causa do passado colonial do nome, visível no sufixo inglês land. O monarca também justificou a decisão devido à semelhança da pronúncia de Suíça em inglês (Switzerland).

Outras colônias também eliminaram o sufixo “land” quando se tornaram independentes, como Togoland (Togo) e Bechuanaland (Botsuana).

Gana. Esse era o nome do império comercial que, até o século XIII, estava localizado no noroeste do atual território do país. Foi colônia britânica no século XIX com o nome de Costa do Ouro, sendo uma importante fonte desse mineral. Em 1957, adotou o nome de Gana, quando se tornou domínio da Commonwealth. Tornou-se totalmente independente em 1960.

Indonésia. A partir do século XVI, o país tornou-se colônia dos Países Baixos com o nome de Índias Orientais Holandesas, cujo território abrangia Sumatra e as ilhas adjacentes, como Java e Madura. O nome Indonésia foi sugerido por etnólogos e geógrafos em meados do século XIX, e adotado pelos nacionalistas do país a partir do século XX. A Indonésia declarou independência com esse nome em 1949.

Mali. Esse país foi colônia francesa no século XIX com o nome de Sudão Francês. Tornou-se independente em 1960 e, após uma breve união com o Senegal, adotou o nome do antigo império de Mali. Esse império, como o de Gana, teve um grande peso no comércio internacional da Idade Média.

Myanmar. A junta militar que deu um golpe de Estado na Birmânia em 1989 mudou o nome do país para República da União de Myanmar. Essa mudança de nome é atualmente reconhecida pelas Nações Unidas e pela União Europeia, embora outros países ainda a rejeitem, como os Estados Unidos.

Quando os ingleses colonizaram o país no século XIX, escolheram o nome Burma, embora no mesmo território também fosse usado o termo mais formal, Myanmar. Alguns independentistas reivindicaram essa segunda fórmula a partir dos anos vinte, como forma de lembrar a história de seu reino antes da chegada dos ingleses.

República Democrática do Congo. A colônia do Congo Belga declarou independência da Bélgica em 1960. Entre 1971 e 1997, o nome oficial do país era Zaire. O ditador Mobutu Sese Seko escolheu para o país o que considerava um nome mais africano: Zaire é uma variação do termo que significa “grande rio” em vários idiomas locais.

Quando Laurent-Désiré Kabila assumiu o poder em 1997, instituiu o nome anterior, Congo, tanto para o país quanto para o rio. Esse nome, na verdade, tem sua origem na época colonial, pois os europeus identificaram o rio com o Reino do Congo, cuja população habitava a região próxima à nascente do rio.

Esse Congo, com capital em Kinshasa, não deve ser confundido com a República do Congo, com capital em Brazzaville. No final do século XIX era uma colônia francesa, com o nome de Congo Francês. O país tornou-se independente em 1960 e é muito menor que seu vizinho, com 4,6 milhões de habitantes, comparado com os mais de 80 milhões da República Democrática do Congo.

O boxeador Muhammad Ali com o ditador Joseph Mobutu. Em 1974, Ali ganhou o campeonato dos pesos pesados em uma luta realizada em Kinshasa, a capital do país então chamado Zaire. O boxeador Muhammad Ali com o ditador Joseph Mobutu. Em 1974, Ali ganhou o campeonato dos pesos pesados em uma luta realizada em Kinshasa, a capital do país então chamado Zaire. Sri Lanka. O país manteve o nome de Ceilão durante a ocupação portuguesa (a partir do início do século XVI) e a ocupação britânica (1802-1948). Só mudou o nome para Sri Lanka em 1972, após 24 anos de independência, embora já fosse usado em movimentos nacionalistas da primeira metade do século XX. Lanka era o antigo nome da ilha.

A propósito, o nome persa da ilha é Serendip, do qual vem o termo serendipidade (do inglês serendipity, que significa acaso ou coincidência). Essa palavra foi popularizada graças a Horace Walpole, que a cunhou em 1754 fazendo referência ao tradicional conto persa Os Três Príncipes de Serendip.

Djibouti. Durante a ocupação francesa do século XIX, esse território africano onde estiveram os sultanatos de Ifat e Adal era chamado de Somália Francesa e, a partir de 1967, de Território Francês dos Afares e Issas. O país conseguiu a independência em 1977, já com o nome de Djibouti, de origem obscura: poderia estar relacionada a uma besta mitológica dos Issas ou ao nome das terras dos Afares, que os marinheiros árabes também deram ao porto da capital. Os Afares e Issas são os dois grupos étnicos mais numerosos do país.

Zâmbia e Zimbábue. A colônia de Rodésia, no sul da África, recebeu esse nome em homenagem ao empresário e colonizador britânico Cecil Rhodes. Essa colônia foi dividida em duas regiões, Rodésia do Norte e Rodésia do Sul que, quando se tornaram independentes, passaram a ser chamadas, respectivamente, de Zâmbia (1964) e República da Rodésia (1965). Em 1980 e após uma década de conflitos, essa segunda república passou a se chamar Zimbábue. O nome Zâmbia vem do rio Zambeze, enquanto o do Zimbábue tem origem, provavelmente, em uma antiga cidade do sul do país.

Embora seja comum, nem todos os países apagam esse passado colonial. Por exemplo, a Costa do Marfim mantém o nome dado por portugueses e franceses que comercializavam essa matéria-prima, e o Gabão conserva o nome dado pelos portugueses, que tem origem na palavra gabão, um tipo de casaco usado em Portugal, pela semelhança do formato com o do estuário do rio Komo, em Libreville, a capital.