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Coronavírus, Meio Ambiente e Humanidade: O que temos a (re)aprender?

Coronavírus, Meio Ambiente e Humanidade: O que temos a (re)aprender? artigo de Wendell Andrade

Em tempos de Saúde e Economia disputando o Oscar de Melhor Argumento numa “Holiúde” refém da polarização, Meio Ambiente segue há anos-luz de qualquer protagonismo e também muito distante de ser ator coadjuvante. No máximo, um figurante… De luxo.

Nem as proporções que a epid… ops, pandemia, do “Novo Coronavírus” está tomando a cada dia têm sido suficientes para fazer com que os olhares do mundo – imprensa, autoridades, grandes corporações, cidadãos comuns – se voltem ao Meio Ambiente como um reconhecimento de que a catástrofe dos dias atuais é, antes de tudo, uma crise da relação homem-ambiente, e da apropriação que o primeiro lança sobre o segundo, como se dele não fosse parte constituinte.

Mesmo em meio a tanta desinformação e linha cruzada neste momento crítico, o exemplo de que essa relação promove desequilíbrios de toda ordem não poderia ser outro senão a disseminação de uma nova variante de vírus (da família viral denominada Coronavírus), provavelmente gerada a partir do manejo inadequado de animais selvagens (dizem, o morcego e o pangolim), na China.

Agora vamos pra um olhar mais amplo, além do caso chinês e observe ao redor. Faça uma avaliação rápida consigo e constate: qualquer assunto relacionado à área ambiental, pelo menos no Brasil, é sempre tratado com muito menos atenção do que se deve. Isso quando não recebe os requintes do esquecimento, do desprezo ou até pior: da chacota.

E por “assunto ambiental” não precisa cometer aquela mistura de romantismo e bucolismo e pensar em florestas e pássaros a cantar, não. Abra a janela de casa e olhe, por exemplo, o lixo ali na rua.

A mera expressão “Meio Ambiente” não tem sido nem de longe capaz de entrar na acirrada competição entre as duas palavras do momento: “Saúde” e “Economia”. Nem como se acessória fosse, que dirá como essencial…

Nicholas Cage e John Travolta duelam em "A Outra Face", filme de 1997. Mais ou menos como "Saúde" e "Economia" nos discursos do Brasil polarizado de hoje. O spoiler que dá pra adiantar? Todos perdem.
Nicholas Cage e John Travolta duelam em “A Outra Face”, filme de 1997. Mais ou menos como “Saúde” e “Economia” nos discursos do Brasil polarizado de hoje. O spoiler que dá pra adiantar? Todos perdem.

Mas afinal: qual a base, a pedra fundamental sobre a qual “Saúde” e “Economia” se escoram para se manter e desenvolver? Sim, é justamente o tema escanteado.

Isso me remete quase que em automático para o ano de 2010, quando nos idos da época de mestrado, um professor sempre nos alertava de que vivemos uma “Crise Invisível”, que já se fazia presente (não esqueça que a fala é de 10 anos atrás!), mas ainda não a enxergávamos porque tínhamos conosco a viseira da abundância. Abundância de recursos naturais. Diversidade. Plena disposição. O “Eu, consumidor, tenho tudo o que eu quero, na hora em que eu quero, na quantidade em que eu quero, para fazer o que eu quiser”. Ele não falava em tom profético, pois já tínhamos crise naquele tempo. Acrescentava dizendo algo como “enquanto esse modelo de apropriação que a gente imprime sobre o meio ambiente for visto como algo inofensivo, que não traz prejuízo visível e imediato a nós, as grandes forças não se alertarão para a crise, na intensidade e no senso de urgência capazes de mudar a nave de rota”.

O professor ainda é vivo. Sua fala também. E a crise? Ahh, essa está mais viva do que nunca.

A pergunta-chave é: De quanto mais de desgraça precisaremos até nos darmos conta, como Humanidade, de que o descolamento do Homem em relação à Natureza – como se ele não fosse parte indissociável dela – e toda a degradação ambiental que decorre desse pensamento, é EXATAMENTE o que gera o desequilíbrio em escala suficiente para favorecer a ocorrência de catástrofes?

Tenho sempre tomado cuidado ao falar de Meio Ambiente, fico parecendo monotemático, sei que nem sempre as pessoas querem ler, parece assunto de “ecochato” que vive em bolha… Eu sei, sei de tudo isso, mas insisto num raciocínio sempre, acreditando que precisamos de uma “virada de chave”: eu, você, nós SOMOS AMBIENTE, nós somos parte integrante dele. Não estamos à parte, e sim somos parte!

Enquanto Humanidade, nós não nos servimos do meio natural assim, pura e simplesmente, sem nenhuma consequência – mesmo que imperceptível de imediato – a esse comportamento atrelada.

Isso não é achismo, é ciência. James Lovelock e sua “Teoria Gaia”, Fritjof Capra e sua “Teia da Vida”, Carl Sagan… Vários autores sustentam que as consequências de um modelo predatório baseado em recursos finitos afetarão diferentes pontos do Sistema Vivo, em graus e modos também diferentes, até que esse mesmo sistema, se o comportamento não mudar, colapse.

"Pálido Ponto Azul, livro de Carl Sagan, de 1994. Alerta para a limitação dos recursos naturais que nos mantém e a necessidade de um novo olhar sobre nossa relação com o Planeta". Ah, talvez seja importante saber: Sagan é cientista, não achista.
“Pálido Ponto Azul, livro de Carl Sagan, de 1994. Alerta para a limitação dos recursos naturais que nos mantém e a necessidade de um novo olhar sobre nossa relação com o Planeta”. Ah, talvez seja importante saber: Sagan é cientista, não achista.

Nessa hora, não há imprensa especializada que não sucumba à enxurrada de (des)informações que recebemos todos os dias. Este texto aqui, por exemplo: provavelmente perderá para um texto de alguém sobre a Anitta, ou o último capítulo da novela, e o mais paradoxal: perderá para programa de TV que atende pela irônica expressão reality show. Como se o show da realidade não estivesse aqui fora, passando na nossa frente, sem sequer conseguirmos enxergar…

Muitas perguntas ainda restam em aberto por aqui. Por exemplo: nossa ancestralidade já enxergava que temos, como Humanidade, uma relação muito estreita e umbilical com a natureza. Ainda que não usassem a expressão “Resiliência”, sabiam exatamente que o impacto derivado de uma ação humana precisa ocorrer em intensidade e frequência menores do que a capacidade de aquele ambiente se recompor, até que um novo impacto (ação) pudesse então ocorrer. O que aconteceu no meio do caminho que nos separou dessa lógica? Onde foi que nos rebelamos contra o sentido mais elementar da existência, que é sermos todos partes de um único sistema vivo? Onde foi que deixamos de perceber que uma das Leis Físicas (Ação e Reação) é também verdade na relação Homem-Ambiente?

A fala clássica do Cacique Seattle, em 1855, expressa em Carta ao então Presidente dos Estados Unidos, representa bem essa compreensão:

– “O homem não tece a teia da vida: É antes um dos seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio”;

– “Onde está o matagal? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. É o fim do viver e o início do sobreviver“.

Não faltam alertas à nossa consciência e ao senso de urgência, que até aqui segue gritando mais baixo que o poder avassalador do Grande Capital, que tudo compra, com exceção do equilíbrio ambiental.

Fazer o exercício de enxergar a existência de tudo como um grande Sistema Vivo é um caminho sensato, na contramão da “Era da Insensatez” em que vivemos, porque sobretudo essa visão nos aproxima do que mais nos falta: senso de coletividade.

Meio Ambiente não pode ser reduzido a uma discussão cheia de romantismos utópicos, alegorias e um sem-fim de idealismos.

É preciso o olhar prático! Discutir-se o ambiental pelo Humano! Pôr na mesa (e nas políticas públicas) as soluções que a Ciência Aplicada já nos mostra.

Quer seja para o lixo na porta da sua casa, quer seja para a alteração da temperatura média do planeta.

É para chamar a atenção ao real!

Vai do saco de lixo cujo conteúdo, além de não reciclarmos, lançamos em local inadequado, até decisões de Nações sobre questões de política econômica que impactarão no esgarçamento ainda maior da relação homem-ambiente.

O alastramento do novo Coronavírus e a consequente pandemia de COVID-19 que enfrentamos nos revela quão mal nós – Humanidade – nos gerimos enquanto Sistema. Desconsideramos o impacto que 8 bilhões de pessoas podem causar num sistema de partes muitas vezes sensíveis, que existe orquestrado por dezenas de milhares de variáveis, cujas quais insistimos em perturbar e desregular, sem o menor pudor, em uma escala que sequer se sustenta.

Uma hora, os “boletos” iriam chegar. E notícia ruim: eles não pararão de chegar.

Até quando vamos viver desconsiderando as bases científicas que demonstram “por A mais B” que vivemos numa grande teia, onde tudo o que um faz, importa (e muito!) na vida do outro?

O Coronavírus reflete apenas o “cenário” do momento nesse filme em que o ser humano, muitas vezes sem perceber, já atua há pelo menos um século e meio como vilão. Vilão de si próprio.

Caminhões militares transportam mortos, na Itália. Março de 2020. Ao que consta, não somente não há leitos suficientes para cuidar dos infectados, como também não há cemitérios em escala para dar conta do momento crítico.
Caminhões militares transportam mortos, na Itália. Março de 2020. Ao que consta, não somente não há leitos suficientes para cuidar dos infectados, como também não há cemitérios em escala para dar conta do momento crítico.

Essa semana, no Brasil, tivemos movimentos perigosos de autoridades, que ligaram um sinal preocupante: propuseram redirecionar recursos voltados à recuperação e à conservação ambiental para a aplicação imediata em Saúde. A exemplo de Wilson Witzel, no RJ, que encaminhou projeto de Lei à ALERJ para reconfigurar o Fundo Mata Atlântica.

 Trecho da mensagem do Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, à Assembleia Legislativa. Sangrar primeiro de "onde menos importa" parece ser a lógica. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Parte II, 26-mar-2020. Disponível em: www.ioerj.com.br. 
Trecho da mensagem do Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, à Assembleia Legislativa. Sangrar primeiro de “onde menos importa” parece ser a lógica. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Parte II, 26-mar-2020. Disponível em: http://www.ioerj.com.br. 

Muito embora se compreenda a emergência que a situação impõe, movimentos políticos dessa natureza revelam desapreço à visão sistêmica, de olhar o todo, obrigação primária de qualquer governo. Por que “sangrar” primeiro dos fundos ambientais? Não há realmente outras possibilidades antes destas? Cadê movimentação quanto ao Fundo Partidário? E o Grande Capital, com o que vai arcar para se manter de pé?

É o sintoma mais claro de que Meio Ambiente continua sendo visto desatrelado de Saúde Pública. E também de Economia. É a admissão tácita – e absolutamente equivocada – de que são temas desconectados.

Desinvestir em Meio Ambiente é automaticamente desinvestir em Saúde Pública.

Enquanto isso, no Brasil, o filme/série do(a) qual participamos segue com seus protagonistas “Saúde” e “Economia” em máxima evidência, a despeito de toda a importância de “certos personagens”…

Não há e não haverá Saúde Pública sem patrimônio ambiental, que precisa estar em condições mínimas de oferecer os serviços ecossistêmicos (alimento, ar, água, chuvas, ciclagem de nutrientes, conforto térmico, beleza cênica) de que precisamos, todos, pra seguir em frente.

Não há e não haverá prosperidade econômica sem percepção de que recursos naturais são finitos, uma vez que são a base produtiva de todo o sistema econômico atual. Em se mantendo o atual rumo, muito menos haverá gente para fazer girar a “Grande Roda” da Economia.

Mais do que hora de olharmos com atenção para os “meros figurantes”.

plot-twist virá.

Wendell Andrade* | MSc. Gestão de Rec. Naturais e Desenv. Local na Amazônia (UFPA)

*Artigo enviado pelo Autor e originalmente publicado no Blog do Dell Andrade

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/04/2020Coronavírus, Meio Ambiente e Humanidade: O que temos a (re)aprender? artigo de Wendell Andrade, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 2/04/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/04/02/coronavirus-meio-ambiente-e-humanidade-o-que-temos-a-reaprender-artigo-de-wendell-andrade/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate com link e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Pandemia COVID-19 na Era do Capitaloceno: Racismo ambiental disfarçado de consciência ecológica

Artigo de Victor Pinto

[EcoDebate] Estou vendo várias pessoas compartilhando notícias sobre a “recuperação ambiental do planeta” com essa pandemia de Corona vírus e alguns comentários me chamaram atenção e me preocuparam enquanto biólogo e progressista. Então escrevi esse texto baseado nas minhas leituras e espero ajudar na construção de uma reflexão mais adequada dentro do cenário político-econômico-ambiental atual no meio de uma pandemia. Para isso vou trazer à luz alguns conceitos complexos, mas importantes nesse contexto: Racismo Ambiental e Capitaloceno.

Recentemente, notícias sobre como o planeta tem se “recuperado” após a quarentena do corona vírus tomaram conta das redes sociais, e essas notícias quase sempre, vieram acompanhadas de comentários como: “nós somos o vírus do planeta”, “o planeta precisa descansar dos humanos”, “o mal do mundo é o ser humano”, etc. Essas reações de culpabilidade da humanidade sobre a destruição do planeta Terra me fez lembrar do conceito de Antropoceno (1), formulado pelo biólogo Eugene F. Stoermer e conceituado pelo químico e vencedor do prêmio nobel, Paul Crutzen. Na ideia do Antropoceno, as atividades humanas sobre a biosfera, desde o final do século XVIII com a Revolução Industrial até a atualidade, tem impactado de forma negativa o clima, a saúde e o funcionamento dos ecossistemas na Terra. Portanto, a humanidade como um todo seria uma grande forma capaz de causar drásticas alterações no planeta.

No primeiro momento, os comentários no Facebook, o conceito de Crutzen e os efeitos preliminares da quarentena do corona vírus em alguns países parecem convergir em um ponto: as populações humanas causam danos significativos ao ambiente. Mas quando colocamos em perspectiva que a sugestão dada nas redes sociais é a redução da população para combater a degradação do planeta, temos que pensar em quem são de fato os grandes poluidores ou destruidores dos ecossistemas.

Nesse contexto, o conceito de Capitaloceno me parece mais assertivo e é um contra ponto ao Antropoceno. Segundo Jason Moore, na verdade nós estamos vivendo na Era do Capital, onde grandes capitalistas com suas corporações são os maiores responsáveis pelas alterações no clima, nos ecossistemas e nos ciclos biogeoquímicos do planeta (2). De fato, se analisarmos o relatório publicado pela Oxfam na 21ª Conferência das Partes (COP21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) veremos que o conjunto de 10% das pessoas mais ricas do mundo é responsável por quase 50% da produção dos gases poluentes lançados na atmosfera do planeta, enquanto que a metade mais pobre da população mundial é responsável apenas por 10% da emissão dos mesmos gases (3). O mesmo relatório aponta que o 1% mais rico da população gera 175 vezes mais carbono do que os 10% mais pobres. Portanto, é necessário pontuar que o “vírus do planeta” ou que “o mal do mundo” não é a humanidade como um todo, mas que na realidade, os grandes problemas climáticos e ambientais são causados pela acumulação infinita de capital protagonizada por um pequeno grupo de bilionários.

Nessa lógica, num cenário de pandemia de uma doença com capacidade de letalidade, temos que tomar cuidado quando colocamos em discussão que “o planeta precisa descansar dos humanos” porque aí caímos no Racismo Ambiental. Esse termo foi cunhado por Benjamin Franklin na década de 80 para descrever a injustiça ambiental sofrida por pessoas racializadas e pertencentes a minorias étnicas expostas mais acentuadamente a poluentes ou impactos ambientais de forma desproporcional ao restante da população (4). Atualmente o termo adquiriu um contexto internacional incluindo também as relações ecológicas desbalanceadas entre países do Norte Global industrializado e o Sul Global, e está associado ao colonialismo e ao neoliberalismo (5). Mas por que estou falando de racismo ambiental numa crise de Corona vírus?

Primeiro porque podemos considerar esse vírus como uma variável ambiental que está causando um desequilíbrio nas populações humanas. Segundo porque as pessoas mais vulneráveis à pandemia são moradores de rua, residentes das periferias e a população carcerária, todos esses grupos compostos majoritariamente de pessoas racializadas e minorias étnicas.

Vale lembrar que no Brasil tivemos o caso chocante da doméstica que morreu por corona vírus após ser infectada pela patroa que voltou contaminada após uma viagem pela Itália. Portanto, quando sugerimos, mesmo que de forma suave, que “o planeta precisa descansar” precisamos refletir sobre: Descansar de quem? Quem são as pessoas com maiores chances de mortalidade num país e num mundo marcado pela desigualdade social?

Precisamos ter em mente que os desastres ambientais atingem prioritariamente as populações mais pobres e que em um mundo governado pelo capital, tempos de crise sempre serão prosseguidos da corrida pela retomada do lucro, com mais exploração, mais morte e mais desigualdade para as classes pobres e consequentemente mais impactos ambientais para o planeta.

Victor Diniz Pinto
Biólogo, Mestre em Ecologia e Doutorando em Ecologia – UFV – Currículo Lattes

REFERÊNCIAS:

1. Crutzen, P. J., and E. F. Stoermer (2000). The Anthropocene. Global Change Newsletter, 41: 17–18.

2. Jason, W. Moore (2017): The Capitalocene, Part I: on the nature and origins of our ecological crisis, The Journal of Peasant Studies

3. Oxfam (2015). Extreme carbon inequality. Why the Paris climate deal must put the poorest, lowest emitting and most vulnerable people first. United Nations Climate Change Conference, COP 21, Paris.

4. Cutter, S. L. (1995). Race, class and environmental justice. Progress in Human Geography, 19: 111 – 122.

5. Bullard, Robert D. (2001). “Environmental Justice in the 21st Century: Race Still Matters”. Phylon. 49: 151–171.

MAIS INFORMAÇÕES:

Capitaloceno: https://pt.unesco.org/courier/2018-2/perspectiva-da-dominica-antropoceno-ou-capitaloceno

Racismo Ambiental: https://www.geledes.org.br/racismo-ambiental-o-que-e-importante-saber-sobre-o-assunto/?gclid=Cj0KCQjw9tbzBRDVARIsAMBplx-gsD0Jjk3Qbiv-IGvr7PksaEpRMXZxOZN-Fp-JqArEJjChPSG7NgMaAuUwEALw_wcB

Relatório da OXFAM: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-12/10-dos-habitantes-mais-ricos-do-planeta-geram-mais-de-50-das-emissoes

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/03/2020Pandemia COVID-19 na Era do Capitaloceno: Racismo ambiental disfarçado de consciência ecológica, artigo de Victor Pinto, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/03/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/03/27/pandemia-covid-19-na-era-do-capitaloceno-racismo-ambiental-disfarcado-de-consciencia-ecologica-artigo-de-victor-pinto/.

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[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate com link e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate, ISSN 2446-9394,

Calor na Antártida aumenta temor sobre mudanças climáticas

Região vive aquecimento, degelo acelerado e elevação do nível dos mares e é a origem das frentes frias no Brasil

Cláudia Collucci SÃO PAULO

Leia no original: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2020/02/calor-na-antartida-aumenta-temor-sobre-mudancas-climaticas.shtml

Nos últimos dias, a Antártida apresentou temperaturas recordes, com máxima histórica de 20,75°C, na ilha Seymour.

O registro elevou a preocupação sobre mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global.

Diversos estudos têm revelado os impactos dessas variações na região. Um deles, publicado ano passado na revista científica Pnas (Proceedings of the National Academy of Sciences), mostrou que está ocorrendo degelo mais acelerado na Antártida, a uma velocidade seis vezes superior à registrada há 40 anos. Entre 1979 e 2017, houve uma elevação de 1,4 centímetros no nível dos mares. É a avaliação mais longa da história sobre as massas de gelo da Antártida, que envolveu análises de 18 regiões geográficas do continente.

Também no ano passado, um relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima) apontou que, além do aquecimento e do aumento dos dois oceanos polares (Ártico e Austral), eles estão se tornando mais ácidos nas camadas superficiais.

Segundo Jefferson Cardia Simões, vice-presidente do Comitê Científico Internacional sobre Pesquisas Antárticas, a  extensão do gelo marinho no Ártico muito provavelmente continuará a diminuir em todos os meses do ano.

“Desde o início das observações por satélites, as menores extensões de mar congelado ártico ocorreram em 2012 e em setembro de 2019. Isso provavelmente não tem precedentes, pelo menos nos últimos 1.000 anos.” O derretimento das calotas polares promove a elevação do nível dos mares, que põe em risco o futuro de zonas costeiras.

As mudanças também impactam o clima. É da região que se originam as frentes frias que atingem o Brasil no outono e no inverno.

Em janeiro, a Folha participou de uma expedição no continente gelado para a inauguração da nova base científica brasileira e levantou as descobertas mais recentes no continente gelado, muitas relacionadas ao aquecimento global. Conheça algumas delas:

1. Redução de pinguins
As colônias de pinguins-de-barbicha na Antártida foram reduzidas em até 77% nas últimas cinco décadas. E o principal culpado desse fenômeno é, provavelmente, o aquecimento global.

Com mais de 7 milhões de representantes, esses pinguins habitam as ilhas e costas do Pacífico Sul e os oceanos antárticos.

A espécie se alimenta de krill, animal invertebrado semelhante ao camarão. Uma das hipóteses é que as mudanças climáticas estão levando a uma menor oferta desses alimentos, fazendo com que as populações de pinguins diminuam, segundo Heather Lynch, professora-associada de ecologia e evolução da Universidade Stony Brook, em Nova York. 

2. Caverna de gelo
Uma caverna de gelo, com dois terços da área de Manhattan e quase 300 metros de altura, está sob a geleira Thwaites, na Antártida Ocidental.

A brecha entre a geleira e a rocha abaixo foi descoberta pelos cientistas da Nasa, que afirmam que grande parte do vazio foi formada pelo derretimento ocorrido nos últimos anos.

Usando radares guiados por satélite e penetração no gelo, eles encontraram um vazio que antes continha 15 bilhões de toneladas (13,6 bilhões de toneladas métricas) de gelo.

A diferença pode estar contribuindo para o movimento e o derretimento da geleira, relataram pesquisadores à revista Science Advances.

Caverna gigante de gelo está sob a geleira Thwaites; o vazio foi formado pelo derretimento do gelo
Caverna gigante de gelo está sob a geleira Thwaites; o vazio foi formado pelo derretimento do gelo – 09.jul.2019/Nasa


3. Furos nas represas 
O aquecimento global tem provocado rachaduras nas prateleiras de gelo (espécie de represas naturais) ao redor das bordas da Antártida, o que pode ter impacto direto na elevação do nível do mar.

Pesquisadores observaram rachaduras no gelo nos mesmos pontos ano após ano.

O gelo mostrava sinais claros de flacidez, sugerindo que algo estava corroendo a parte de baixo. Ou seja, as prateleiras de gelo da Antártida estão sendo escavadas lentamente pelas correntes subaquáticas em seus pontos mais vulneráveis.

Segundo o coautor do estudo, Ted Scambos, da Universidade do Colorado em Boulder, a água morna enfraquece a prateleira.

Imagem do furo de sonda 1.700 m abaixo do gelo; amostra era rica em bactérias
Imagem do furo de sonda 1.700 m abaixo do gelo; amostra era rica em bactérias – Kathy Kasic – 14.fev.2020/salsa-antarctica.org

4. Som antártico
Há um zumbido sísmico constante embalando a maior plataforma de gelo da Antártida, a Ross, uma placa glacial um pouco maior que o estado de Minas Gerais. 

Os humanos não conseguem ouvir a frequência de 5 hertz, mas pesquisadores captaram o zumbido em sensores.

A “música” é causada pelo movimento do vento contra o gelo e muda sutilmente quando o gelo derrete ou quando o vento muda as dunas de neve, o que pode se tornar uma ferramenta para rastrear mudanças climáticas em tempo real no local, segundo estudo publicado pela American Geophysical Union.

Cientista utiliza sismógrafo na Antártida para captar zumbido sísmico na plataforma de gelo Ross
Cientista utiliza sismógrafo na Antártida para captar zumbido sísmico na plataforma de gelo Ross – Rick Aster


5. Avô dos dinossauros
Uma criatura de 250 milhões de anos, precursora da linhagem que se ramificaria em dinossauros, pterossauros e crocodilos, já viveu na Antártida, num período em que o lugar era uma floresta.

O arquossauro tinha de 1,2 metro a 1,5 metro de comprimento, e características sutis nos ossos da coluna e nos pés indicam que ele vivia no chão e correu ao redor do que era o então chão da floresta antártica.

A descoberta de um esqueleto parcial do réptil foi publicada em 2019, mesmo ano em pesquisadores brasileiros identificaram pela primeira vez na região ossos de pterossauros.

Fósseis do arquossauro, que viveu há 250 milhões de anos na Antártida, quando a região era de floresta
Fósseis do arquossauro, que viveu há 250 milhões de anos na Antártida, quando a região era de floresta – Brandon Peecook/Field Museum


6. Monstro do lago antártico
A Antártida abrigava uma criatura marinha de pescoço longo, um plesiossauro do gênero Aristonectes.

Os paleontologistas descobriram a criatura na Ilha Seymour, na Antártida, em 1989, mas não conseguiram terminar de escavar o enorme fóssil até 2017, quando finalmente recolheram 800 kg de osso fossilizado. 

Depois de examinar o espécime, os pesquisadores descreveram o animal em 2019 pela primeira vez. Em vida, o monstro do lago na Antártida teria 11 metros de comprimento e pesaria cerca de 15 toneladas.

Estima-se que a criatura tenha vivido há mais de 66 milhões de anos, quando um asteroide colidiu com a Terra e varreu os dinossauros não aviários.


7. Lago de lava 
Pesquisadores da University College London (UCL) e da British Antarctic Survey (BAS) descobriram um raro lago de lava na Ilha Saunders, na Antártida.

Ao observar imagens de satélite de alta resolução da ilha entre 2003 e 2018, os pesquisadores observaram que o vulcão coberto de neve no Monte Michael, geralmente encoberto por densas nuvens, continha um lago de lava dentro de sua cratera. 

Diferentemente da maioria das lavas expostas na superfície da Terra, o lago permanece derretido. Sua temperatura atinge entre 989°C e 1.279°C. É o oitavo lago do gênero já descoberto no mundo.

Lago de larva na Ilha Saunders, na Antártida
Lago de larva na Ilha Saunders, na Antártida – Landsat 8/British Antarctic Survey

8. Gelo colorido
A Antártida hospeda gelos coloridos. Um cachoeira glacial vermelha já tinha sido reportada na geleira de Taylor, nos vales secos de McMurdo (ou vales da morte da Antártida). A água salgada é cheia de ferro, que oxida e fica vermelha quando atinge o ar. 

No ano passado, foi esclarecido o mistério dos icebergs verdes: o tom pode vir da poeira de dióxido de ferro, transportada pelo gelo glacial para o mar.

Esse ferro vem das rochas sob a camada de gelo, que são moídas em pó fino à medida que as geleiras se movem sobre elas.

O ferro ligado ao gelo oxida quando entra em contato com a água do mar. As partículas de óxido de ferro assumem uma tonalidade verde quando a luz se espalha através delas.


9. Caçadores de meteoritos
Uma minúscula partícula de poeira estelar, escondida dentro de um meteorito da Antártida, é provavelmente mais antiga que o nosso Sol.

Usando vários tipos de microscópios, pesquisadores examinaram a poeira estelar e descobriram que ela era composta de uma combinação de grafite (uma forma de carbono) e silicato (um sal composto de silício e oxigênio).

É possível que ela tenha vindo de um tipo específico de explosão estelar chamada nova.

Esse grão antigo mede apenas 1/25.000 de polegada, possui uma forma de croissant e pode conter pistas sobre a composição do nosso sistema solar inicial.


10. Vida bacteriana
Há vida nas profundezas da camada de gelo da Antártica Ocidental, um dos locais mais extremos do planeta.

Estudos iniciais de amostras de água colhidas no lago Mercer, enterrado sob uma geleira, mostraram que elas continham cerca de 10 mil células bacterianas por mililitro.

Apesar de representar apenas 1% do 1 milhão de células microbianas por mililitro normalmente encontradas em mar aberto, o nível é alto para um corpo de água sem sol, enterrado nas profundezas de uma geleira antártica.

A descoberta tem implicações para a busca de vida em outros planetas, em particular em Marte, onde há sinais de um lago enterrado de água salgada líquida.

Bolsonaro ajuda a aproximar Relógio do Juízo Final do apocalipse

Cientistas apontam risco recorde de aniquilação, e política ambiental brasileira é citada

Igor Gielow SÃO PAULO

Leia no original: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/01/bolsonaro-ajuda-a-aproximar-relogio-do-juizo-final-do-apocalipse.shtml

A humanidade está mais próxima da aniquilação em 2020 do que em qualquer outro momento desde 1947, quando um grupo de cientistas americanos criou o famoso Relógio do Juízo Final.

Pela primeira vez, o Brasil é citado como colaborador da situação, devido à política ambiental do governo Jair Bolsonaro.

O dispositivo teve seu horário acertado nesta quinta (23), passando de dois minutos para a meia-noite para apenas 100 segundos da hora fatal —as 12 badaladas indicariam o apocalipse, na metáfora criada pelo prestigioso Boletim dos Cientistas Atômicos.

Queimada na floresta amazônica próximo a Porto Velho, capital de Rondônia, no ano passado
Queimada na floresta amazônica próximo a Porto Velho, capital de Rondônia, no ano passado – Bruno Rocha – 9.set.2019/Fotoarena/Folhapress

Historicamente, o Relógio mede o risco de uma guerra nuclear, mas desde 2007 ele também contempla a mudança climática e seus efeitos. Avanços tecnológicos perigosos também entram na conta, como neste ano.

Os dois minutos para a meia-noite, ​em vigor desde 2018, eram o pior nível histórico, só registrado antes em 1953, após Estados Unidos e União Soviética testarem suas bombas de hidrogênio.

“A humanidade continua a enfrentar dois riscos existenciais simultâneos —guerra nuclear e mudança climática—, que são ampliados por um multiplicador de ameaças, a guerra cibernética de informação, que mina a habilidade da sociedade em responder”, diz o comunicado.

Ao listar os problemas na área ambiental, o Boletim citou nominalmente o Brasil. “No ano passado, alguns países agiram para combater a mudança climática, mas outros, incluindo os Estados Unidos, que deixaram o Acordo de Paris, e o Brasil, que desmantelou políticas que protegiam a floresta amazônica, deram vários passos para trás.”

A questão ambiental é um nó para a imagem externa do Brasil desde que Bolsonaro assumiu, prometendo acabar com reservas indígenas e facilitar a exploração promovida pelo agronegócio. Na conferência das Nações Unidas sobre o clima, em Madri, o governo trabalhou para o fracasso de iniciativas conservacionistas.

Além disso, incêndios de grandes proporções na temporada de seca na Amazônia acabaram sendo usados como munição por países como a França para acusar o Brasil de ser o grande vilão no setor no mundo. A despeito de exageros de lado a lado, a imagem colou.

Investidores têm questionado a política de Bolsonaro para a área, e o ministro Paulo Guedes (Economia) acabou sendo obrigado a falar sobre ambiente durante um debate econômico no fórum de Davos (Suíça), nesta semana.

O Boletim citou o fracasso em Madri, a elevação da emissão de gases do efeito estufa e uma série de eventos extremos, como incêndios de grandes proporções “do Ártico à Austrália”, como evidências de que o mundo está, simbolicamente, mais perto de seu fim do que nunca.

Mas essa é só parte da história. Em 2019, houve um aumento significativo no risco de um embate com armas nucleares com a decisão norte-americana de deixar um dos principais acordos de limitação de mísseis do fim da Guerra Fria com a Rússia.

Foguete iraniano é lançado contra base americana no Iraque, no começo deste mês
Foguete iraniano é lançado contra base americana no Iraque, no começo deste mês – 8.jan.2020/Iran Press/AFP

“Nos últimos dois anos nós vimos líderes influentes descartar os mais efetivos métodos para lidar com ameaças complexas, acordos internacionais”, afirma o texto. 

Moscou, por sua vez, acelerou o programa de mísseis hipersônicos, armas que prometem trazer destruição muito mais rapidamente ao adversário caso sejam usadas.

A disputa entre Irã e EUA, que chegou quase ao paroxismo de uma guerra no começo deste ano, viu o regime dos aiatolás abandonar na prática as limitações do acordo nuclear que visava impedi-lo de obter a bomba. E a Coreia do Norte continua sendo uma interrogação quando o assunto é desarmamento atômico.

Hoje, Rússia e EUA têm os maiores arsenais nucleares do mundo, herança da corrida que disputaram durante a Guerra Fria encerrada em 1991 —ano em que o Relógio teve seus ponteiros na posição mais distante da meia-noite apocalíptica, 17 minutos para meia-noite. Cada país tem cerca de 1.700 ogivas operacionais.

Os franceses e os chineses vêm atrás, com cerca de 300 armas nucleares cada um. “Se a China decidir aumentar seu arsenal para o nível da Rússia ou dos EUA, um desenvolvimento que antes era considerado improvável, mas agora está sendo debatido, o cálculo de dissuasão ficará mais complicado, deixando a situação mais perigosa”, afirmam os cientistas.

Temperando tudo, há a revolução tecnológica das novas formas de comunicação, que foi acompanhada por um esforço renovado de governos em espalhar mentiras. Inteligência artificial, fake news, a introdução dos deepfakes e outras táticas são vistas com preocupação. “As campanhas de desinformação semeiam desconfiança nas instituições e entre as nações”, afirma o Boletim.

O grupo faz uma série de sugestões para reverter o curso atual:

– Área nuclear: retomada das negociações e acordos entre EUA e Rússia, volta do Tratado de Forças Nucleares Intermediárias, ampliação dos limites do acordo Novo Start, discussão sobre a militarização do espaço, debate sobre armas avançadas e restrição às intenções bélicas do Irã.

– Ambiente: países precisam aderir de fato aos parâmetros do Acordo de Paris, cidadãos americanos precisam cobrar mudança de posição do governo Trump e exigir a volta aos pactos.

– Tecnologia: é preciso criar normas internacionais que penalizem e disciplinem o uso da ciência e da informação, sob risco de erosão das democracias.

O Boletim foi formado em 1945 por pesquisadores da Universidade de Chicago que haviam participado do Projeto Manhattan, a criação da bomba atômica americana.

Dois anos depois, alarmados com as possibilidade de o novo armamento ser utilizado em um conflito entre Estados Unidos e União Soviética, eles criaram o Relógio como forma de alertar a comunidade internacional de riscos. Hoje, 20 cientistas fazem parte do quadro que ajusta o horário.

Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirma 2019 como o segundo ano mais quente já registrado

 [CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

aumento da temperatura desde 1850

O ano de 2019 foi o segundo ano mais quente já registrado após 2016, de acordo com a análise consolidada da Organização Meteorológica Mundial dos principais conjuntos de dados internacionais.

As temperaturas médias para os períodos de cinco anos (2015-2019) e de dez anos (2010-2019) foram as mais altas já registradas. Desde os anos 80, cada década é mais quente que a anterior. Espera-se que essa tendência continue devido aos níveis recordes de gases de efeito estufa que retêm o calor na atmosfera.

Média dos cinco conjuntos de dados usados ​​na análise consolidada, a temperatura global anual em 2019 foi 1,1 ° C mais quente que a média de 1850-1900, usada para representar condições pré-industriais. 2016 continua sendo o ano mais quente já registrado por causa da combinação de um evento El Niño muito forte, com impacto de aquecimento e mudanças climáticas de longo prazo.

“A temperatura média global aumentou cerca de 1,1 ° C desde a era pré-industrial e o conteúdo de calor do oceano está em um nível recorde”, disse o secretário-geral da OMM Petteri Taalas. “No caminho atual das emissões de dióxido de carbono, estamos caminhando para um aumento de temperatura de 3 a 5 graus Celsius até o final do século.”

Estado do clima 2019

As temperaturas são apenas parte da história. O ano e a década passados ​​foram caracterizados pela retirada de gelo, níveis recordes do mar, aumento do calor e da acidificação dos oceanos e condições climáticas extremas. Eles combinaram-se para ter grandes impactos na saúde e no bem-estar dos seres humanos e do meio ambiente, conforme destacado pela  Declaração Provisória da OMM sobre o Estado do Clima Global em 2019 , apresentada na Conferência de Mudança Climática da ONU, COP25, em Madrid. A declaração completa será emitida em março de 2020.

“O ano de 2020 começou de onde parou 2019 – com clima de alto impacto e eventos relacionados ao clima. A Austrália teve o ano mais quente e seco já registrado em 2019, estabelecendo o cenário para os enormes incêndios florestais que foram tão devastadores para pessoas e propriedades, vida selvagem, ecossistemas e meio ambiente ”, disse Taalas.

“Infelizmente, esperamos ver muito clima extremo ao longo de 2020 e nas próximas décadas, alimentado por níveis recordes de gases de efeito estufa na atmosfera”, disse Taalas.

Mais de 90% do excesso de calor é armazenado no oceano do mundo e, portanto, o conteúdo de calor do oceano é uma boa maneira de quantificar a taxa de aquecimento global. Um novo estudo publicado em 13 de janeiro em Avanços em ciências atmosféricas, com dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica / Centro Nacional de Informações Ambientais e do Instituto de Física Atmosférica, mostrou que o conteúdo de calor do oceano atingiu um nível recorde em 2019. Os últimos cinco anos são os cinco anos mais quentes do oceano historicamente com instrumentos modernos, e os últimos dez anos também são os dez anos já registrados.

Os registros modernos de temperatura começaram em 1850. A OMM usa conjuntos de dados (com base em dados climatológicos mensais da Global Observing Systems) da  Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos ,  Goddard Institute for Space Studies da NASA e Met Office Hadley Centre do Reino Unido  e Universidade de Unidade de Pesquisa Climática de East Anglia, no Reino Unido.  

Ele também usa conjuntos de dados de reanálise do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo e seu Serviço de Mudança Climática Copernicus e a Agência Meteorológica do Japão. Este método combina milhões de observações meteorológicas e marinhas, inclusive de satélites, com modelos para produzir uma análise completa da atmosfera. A combinação de observações com modelos torna possível estimar temperaturas a qualquer momento e em qualquer lugar do mundo, mesmo em áreas com poucos dados, como as regiões polares.

A dispersão entre os cinco conjuntos de dados foi de 0,15 ° C, sendo que o mais baixo (1,05 ° C) e o mais alto (1,20 ° C) foram mais de 1 ° C mais quentes que a linha de base pré-industrial.

* Da World Meteorological Organization (WMO), com tradução e edição de Henrique Cortez

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/01/2020Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirma 2019 como o segundo ano mais quente já registrado, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/01/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/01/16/organizacao-meteorologica-mundial-omm-confirma-2019-como-o-segundo-ano-mais-quente-ja-registrado/.

Desmatamento na Amazônia cresce 183% em dezembro em relação ao mesmo mês de 2018

Dados são do Deter, do Inpe, que auxilia combate ao desmate e aponta tendências de destruição

Phillippe Watanabe SÃO PAULO

leia no original: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2020/01/desmatamento-na-amazonia-cresce-183-em-dezembro-em-relacao-ao-mesmo-mes-de-2018.shtml

O desmatamento na Amazônia cresceu 183% em dezembro, em comparação ao mesmo mês de 2018, segundo dados do Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real), do Inpe.

O Deter tem a função de auxiliar as ações do Ibama no combate ao desmatamento, mas também pode ser usado para analisar as tendências de desmate. Ou seja, pode-se visualizar se a destruição da floresta está aumentando ou diminuindo. Além disso, os dados do Deter costumam subestimar os dados anuais consolidados de desmate (Prodes).

Área de floresta desmatada, ao lado de área ainda com floresta
Todo mês, novos dados mostra crescimento de desmatamento na Amazônia – Reuters

Segundo os dados do Inpe, o crescimento do desmatamento (sempre em comparação com os mesmos meses de anos anteriores) tem sido constante. Desde maio de 2019, os aumentos têm sido acentuados, com exceção de outubro, que apresentou crescimento menor, de cerca de 5%.

Em julho e agosto foram registrados os maiores aumentos do período, de 278% e 222% respectivamente. Os números de outros meses, mesmo menores, também foram expressivos, com novembro com 104% de crescimento, setembro, 96% e junho com 92%.

Em novembro, foram divulgados os dados anuais de desmatamento, o Prodes, também do Inpe, que conta com maior precisão. Entre agosto de 2018 e julho de 2019 foram devastados 9.762 km² de Amazônia, o maior valor da última década.

Site do Inpe com visualização do desmatamento acumulado (em amarelo) na Amazônia
A origem das imagens: O Inpe usa imagens de satélite para verificar as áreas com mudança da cobertura de vegetação 
Na imagem, Deter destaca em vermelho áreas com cicatrizes de queimadas
Olhar rápido: O Deter é um sistema de alertas, que são enviados ao Ibama, que, a partir disso, pode tomar ações contra o desmate). Esse sistema usa imagens de sensores WFI, do Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS-4) e AWiFS, do satélite Indian Remote Sensing Satellite (IRS). 
Monitoramento do Deter, pelo Inpe, mostra alertas para diferentes tipos de alteração de solo em áreas próximas à cidade de Boa Vista, em Roraima. Recentemente o presidente Bolsonaro disse que convidou o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, para voar de Boa Vista a Manaus desafiando-os a achar destruição pelo caminho
Exemplos de evolução dos alertas do Deter, em 2016, em áreas próximas ao rio Jamanxim e Novo Progresso, no Pará
Exemplos de evolução dos alertas do Deter, em 2019, em áreas próximas ao rio Jamanxim e Novo Progresso, no Pará; as áreas destacadas em verde correspondem a desmatamento de corte raso; as em laranja, corte seletivo desordenado; as em amarelo claro, degradação; e as em vermelho, cicatriz de queimada
Consolidado: Imagens feitas pelo projeto Prodes, responsável pelos dados anuais consolidados de desmatamento; o sistema usa combinações de imagens dos satélites LANDSAT 8/OLI, CBERS 4 e IRS-2. Com as imagens combinadas, a precisão é maior e evita-se interferências de nuvens. 
Na imagem, área ao redor de Flona (Floresta Nacional) do Jamanxim, no Pará, em 2013
Comparação: Para saber se houve desmatamento, o sistema compara as imagens novas com as anteriores;
Na imagem, área ao redor de Flona (Floresta Nacional) do Jamanxim em 2018, com áreas coloridas mostrando o desmatamento agregado ao longo dos anos

O crescimento em relação ao ano anterior (2017/2018) foi de 29,5%, o maior crescimento percentual em mais de 20 anos.

No anúncio dos dados, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles afirmou que o crescimento ocorreu devido à “economia ilegal” na Amazônia.

Quando questionado sobre o assunto, Salles disse, em entrevista recente à Folha e ao UOL, que o desmatamento ilegal zero não deve ser alcançado e que se o aumento do desmate no próximo ano for menor do que 29,5% “será uma conquista”.

Na última semana, ministro afirmou, sem apresentar detalhes, que criaria uma Secretaria da Amazônia, em Manaus. Segundo a pasta, a ideia é “materializar a presença do Ministério do Meio Ambiente [MMA] na região”.

Antropoceno: a Era do colapso ambiental.

Antropoceno: a Era do colapso ambiental, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Estamos em um carro gigante, acelerando na direção de uma parede de tijolos e

todo mundo fica discutindo sobre onde cada um vai sentar”

David Suzuki

antropoceno

[EcoDebate] O Homo sapiens surgiu e se espalhou pelo mundo no período geológico do Pleistoceno, mas foi no Holoceno que floresceu a civilização e a espécie humana se tornou uma força onipresente no território global. A população mundial era de cerca de 5 milhões de habitantes no início do período Holoceno, há cerca de 12 mil anos. A estabilidade climática do Holoceno propiciou o florescimento do desenvolvimento econômico e social e o ser humano expandiu as atividades agrícolas, a domesticação dos animais, construiu cidades e montou uma máquina de produção e consumo de bens e serviços jamais vista nos 4,5 bilhões de anos da Terra.

O crescimento da população e da produção foi de tal ordem que prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, avaliando o grau do impacto destruidor das atividades humanas sobre a natureza afirmou que o mundo entrou em uma nova era geológica, a do ANTROPOCENO, que significa “época da dominação humana”. Representa um novo período da história do Planeta, em que o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vetor de ações que são catalisadoras de uma provável catástrofe ecológica.

A Terra entrou em uma espiral da morte. A 6ª extinção em massa das espécies e a crise climática são as ameaças mais urgentes do nosso tempo. E o tempo para reverter esta espiral da morte está se esgotando. Será necessária uma ação radical para salvar a vida no Planeta. O progresso demoeconômico tem gerado externalidades negativas para o meio ambiente.

O Antropoceno é uma Era sincrônica à modernidade urbano-industrial. A Revolução Industrial e Energética que teve início na Europa no último quartel do século XVIII deu início ao uso generalizado de combustíveis fósseis e à produção em massa de mercadorias e meios de subsistência, possibilitando uma expansão exponencial das atividades antrópicas.

Em 250 anos, a economia global cresceu 135 vezes, a população mundial cresceu 9,2 vezes e a renda per capita cresceu 15 vezes. Este crescimento demoeconômico foi maior do que o de todo o período dos 200 mil anos anteriores, desde o surgimento do Homo sapiens. Mas todo o crescimento e enriquecimento humano ocorreu às custas do encolhimento e empobrecimento do meio ambiente. O conjunto das atividades antrópicas ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a Pegada Ecológica da humanidade extrapolou a Biocapacidade do Planeta. A dívida do ser humano com a natureza cresce a cada dia e a degradação ambiental pode, no limite, destruir a base ecológica que sustenta a economia e a sobrevivência humana.

crescimento da economia, da população e da renda per capita mundial: 1770-2020

No Antropoceno, a humanidade danificou o equilíbrio homeostático existente em todas as áreas naturais. Alterou a química da atmosfera, promoveu a acidificação dos solos e das águas, poluiu rios, lagos e os oceanos, reduziu a disponibilidade de água potável, ultrapassou a capacidade de carga da Terra e está promovendo uma grande extinção em massa das espécies. O egoísmo, a gula e a ganância humana provoca danos irreparáveis e um ecocídio generalizado, que pode se transformar em suicídio.

As emissões de gases de efeito estufa (GEE) romperam com o nível de concentração de CO2 na atmosfera, de no máximo 280 partes por milhão (ppm) prevalecente durante todo o Holoceno, e, em 2019, já está acima de 410 ppm e subindo cerca de 2,5 ppm ao ano, na atual década.

Com mais GEE na atmosfera, a temperatura média tem subido e a Terra está acima de um grau mais quente do que o período pré-industrial, podendo iniciar um período de descontrole climático. Esta possibilidade foi aventada em estudo de Steffen e colegas (2018) que indicou que a Terra pode entrar em uma situação com clima tão quente que pode elevar as temperaturas médias globais a até cinco graus Celsius acima das temperaturas pré-industriais. Isto teria várias implicações, como acidificação dos solos e das águas e aumentos no nível dos oceanos entre 10 e 60 metros.

O estudo mostra que o aquecimento global causado pelas atividades antrópicas de 2º Celsius pode desencadear outros processos de retroalimentação, podendo desencadear a liberação incontrolável na atmosfera do carbono armazenado no permafrost, nas calotas polares, etc. Em função do efeito dominó, as “esponjas” que absorviam carbono podem se tornar fontes de emissão de CO2 e piorar significativamente os problemas do aquecimento global. Isto provocaria o fenômeno “Terra Estufa”, o que levaria à temperatura ao recorde dos últimos 1,2 milhão de anos. Os seja, caso este cenário se torne realidade, seria algo parecido com o apocalipse para a vida humana e não humana no Planeta.

Para avaliar os piores cenários do aquecimento global, o jornalista David Wallace-Wells publicou, o livro “The Uninhabitable Earth: Life After Warming” (fevereiro de 2019), mostrando que o aquecimento global vai ser abrangente, terá um impacto muito rápido e vai durar muito tempo. Isto quer dizer que os efeitos danosos das mudanças climáticas vão se agravar com o tempo e, embora todas as gerações já estejam sendo atingidas, são as crianças e jovens que nasceram no século XXI que vão sentir as maiores consequências do colapso ambiental. As ondas de calor vão deixar diversas áreas da Terra inabitáveis.

Artigo de Camilo Mora et. al., “Broad threat to humanity from cumulative climate hazards intensified by greenhouse gas emissions”, publicado na prestigiosa revista Nature Climate Change (19/11/2018), mostra que as mudanças climáticas trarão múltiplos desastres de uma só vez. “Enfrentar essas mudanças climáticas será como entrar em uma briga com Mike Tyson, Schwarzenegger, Stallone e Jackie Chan – tudo ao mesmo tempo”, disse o principal autor do estudo, que descreve os inúmeros impactos que devem atingir a civilização nos próximos anos.

impactos dos riscos climáticos sobre a humanidade

No total, os pesquisadores identificaram 467 maneiras distintas em que a sociedade já está sendo impactada pelo aumento dos extremos climáticos e, em seguida, expuseram como essas ameaças provavelmente se acumularão umas nas outras nas próximas décadas (ver gráfico abaixo). Se algo não for feito para reduzir drasticamente as emissões de gases do efeito estufa, em vez de lidar com um único grande risco de cada vez, as pessoas em todo o mundo podem ser forçadas a lidar com três a seis ao mesmo tempo.

A solução mais simples e barata para evitar o aquecimento global seria o aumento da cobertura vegetal do mundo para funcionar como absorvedores de carbono. Mas está acontecendo o contrário. Existiam 6 trilhões de árvores no mundo e este número cai pela metade. A humanidade já destruiu a metade de todas as árvores do planeta desde o avanço exponencial da pegada ecológica da civilização, segundo um estudo da Universidade de Yale, publicado pela revista científica Nature, conforme estudo de Crowther et al (Nature, 2015). Mas o pior é que os seres humanos estão destruindo 15 bilhões de árvores por ano, enquanto o aparecimento de novas árvores e o reflorestamento é de somente 5 bilhões de unidades. Ou seja, o Planeta está perdendo 10 bilhões de árvores por ano e pode eliminar todo o estoque de 3 trilhões de árvores em 300 anos. O Brasil é o país que mais desmata e menos refloresta, além de bater todos os recordes de desmatamento em 2019.

Além do aquecimento global e da perda de cobertura florestal, a humanidade está degradando os solos e as fontes de água potável. O relatório “Climate Change and Land”, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, publicado dia 08 de agosto de 2019, mostra que existe um efeito perverso de retroalimentação entre a produção de alimentos e o aquecimento global. O relatório mostrou que o crescimento da população mundial e o aumento do consumo per capita de alimentos (ração, fibra, madeira e energia) têm causado taxas sem precedentes de uso de terra e água doce, com a agricultura atualmente respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce.

O relatório diz que, se o aquecimento global ultrapassar o limite de 2ºC estabelecido pelo Acordo de Paris, provavelmente as terras férteis se transformarão em desertos, as infraestruturas vão se desmoronar com o degelo do permafrost, e a seca e os fenômenos meteorológicos extremos colocarão em risco o sistema alimentar. Já estão aumentando as queimadas, os incêndios florestais e a frequência e a intensidade dos furacões, tufões e ciclones.

Enquanto cresce a população humana e seus efeitos negativos sobre o Sistema Terra, as populações não humanas definham e são arrasadas. A jornalista Elizabeth Kolbert, no livro The Sixth Extinctiondocumenta o processo de extinção das espécies que ocorre com o avanço da civilização. O Ecocídio é um crime que acontece contra as espécies animais e vegetais do Planeta. Esse crime se espalha no mundo em uma escala maciça e a cada dia fica pior. O desaparecimento ou grande redução dos insetos e, em especial, das abelhas ameaça a agricultura e a vida selvagem, pois não há reprodução da flora sem os polinizadores.

O último Relatório Planeta Vivo (2018) divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), mostra que o avanço da produção e consumo da humanidade tem provocado uma degradação generalizada dos ecossistemas globais e gerado uma aniquilação da vida selvagem: as populações de vertebrados silvestres, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis e anfíbios, sofreram uma redução de 60% entre 1970 e 2014. Confirmando o impacto devastador das atividades humanas sobre a natureza, a Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), da ONU, mostrou que há 1 milhão de espécies ameaçadas de extinção. O relatório elaborado nos últimos três anos, e divulgado em maio de 2019, fez uma avaliação do ecossistema mundial, com base na análise de 15 mil materiais de referência.

Estudo do Centro Nacional Breakthrough para a Restauração do Clima, um think-tank em Melbourne, Austrália (Barrie, 2019), descreve as mudanças climáticas como “uma ameaça existencial de médio prazo à civilização humana”. O documento argumenta que os “resultados extremamente sérios” das ameaças à segurança, relacionadas ao clima são, com frequência, muito mais prováveis do que o convencionalmente assumido, mas quase impossível de quantificar porque “estão fora da experiência humana dos últimos mil anos”. Na atual trajetória, adverte o relatório: “os sistemas planetário e humano devem atingir um ‘ponto de não retorno’ até meados do século, no qual a perspectiva de uma Terra praticamente inabitável leva ao colapso das nações e da ordem internacional.

Portanto, o avanço do progresso humano tem seus limites no processo de empobrecimento do meio ambiente. A ideia utópica de uma harmonia entre o crescimento da população e o desenvolvimento está se transformando em uma distopia, pois o desenvolvimento sustentável virou um oximoro.

A Divisão de População da ONU estima que até 2100 a população mundial deve atingir cerca de 11 bilhões de habitantes e além dos problemas ambientais, existem todos os problemas de desigualdades sociais que tornam o mundo um barril de pólvora. Toda a humanidade perderá, mas o apartheid social será reforçado pelo apartheid climático, pois os pobres pagarão um preço proporcionalmente maior pelos danos causados principalmente pelos ricos (Alves, 2015).

O fato é que vivemos numa sociedade de risco que gera negatividades crescentes. Assim como o desenvolvimento sustentável se tornou uma contradição em termos, o tripé da sustentabilidade virou um trilema, segundo Martine e Alves (2015). Uma “Terra estufa” e com menos biodiversidade será não só um lugar arriscado para se habitar, mas o Planeta pode ter maiores extensões territoriais cada vez mais inabitáveis.

O aquecimento global, a extinção das espécies a redução da biodiversidade, além da perda de fertilidade dos solos, numa situação de críse hídrica, pode ser prenúncio de um colapso ambiental e social. O professor Jem Bendell: “A mudança climática é agora uma emergência planetária que representa uma ameaça existencial para a humanidade”. Ele prevê um colapso ecológico acontecendo no curto prazo temporal de uma geração.

Segundo Kevin Casey (20/11/2019), o modelo de desenvolvimento e o crescimento demoeconômico são as verdadeiras causas da crise climática e ambiental atual. Ele diz: “O crescimento econômico precisa do crescimento populacional para se sustentar. Mas quando um planeta empobrecido não pode mais carregar o fardo de uma população inflada e suas infinitas demandas, o crescimento não passa de uma ilusão perigosa. A ‘economia saudável’ de hoje é a miséria distópica de amanhã”.

Na história e na natureza, não é incomum a plenitude e a morte coincidirem no tempo. Assim, também não é despropositado supor que o Antropoceno – época da dominação antrópica – possa ser também o começo do fim da Era humana.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A crise do capital no século XXI: choque ambiental e choque marxista. Salvador, Revista Dialética Edição 7, vol 6, ano 5, junho de 2015 http://revistadialetica.com.br/wp-content/uploads/2016/04/005-a-crise-do-capital-no-seculo-xxi.pdf

Camilo Mora et. al. Broad threat to humanity from cumulative climate hazards intensified by greenhouse gas emissions, Nature climate change, 19/11/2018

https://www.nature.com/articles/s41558-018-0315-6

Chris Barrie. Can we think in new ways about the existential human security risks driven by the climate crisis? Centro Nacional Breakthrough para a Restauração do Clima, Melbourne, 30/05/2019 http://www.climatecodered.org/2019/05/can-we-think-in-new-ways-about.html

Crowther, T.W., H.B. Glick, K.R. Covey, + 30 authors. Mapping tree density at a global scale. Nature 525, 201–205, 2015 https://www.nature.com/articles/nature14967?proof=true

IPCC. Climate Change and Land. An IPCC Special Report on climate change, desertification, land

degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems, 08/08/2019

Clique para acessar o 4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf

MARTINE, G. ALVES, JED. Economia, sociedade e meio ambiente no século 21: tripé ou trilema da sustentabilidade? R. bras. Est. Pop. Rebep, n. 32, v. 3, Rio de Janeiro, 2015 (em português e em inglês) http://www.scielo.br/pdf/rbepop/2015nahead/0102-3098-rbepop-S0102-3098201500000027P.pdf

MARTINE, G. ALVES, JED. “Disarray in Global Governance and Climate Change Chaos”, R. bras. Est. Pop., v.36, 1-30, e0075, 2019 https://www.rebep.org.br/revista/article/view/1317/1001

Steffen et. al. Trajectories of the Earth System in the Anthropocene, PNAS August 6, 2018. 06/08/2018 http://www.pnas.org/content/early/2018/07/31/1810141115

Jem Bendell. Deep Adaptation: A Map for Navigating Climate Tragedy, IFLAS Occasional Paper, 27 July 27th 20181 http://lifeworth.com/DeepAdaptation-pt.pdf

Kevin Casey. Why climate change is an irrelevance, economic growth is a myth and sustainability is forty years too late. Global Comment, 20/11/2019

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/01/2020Antropoceno: a Era do colapso ambiental, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/01/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/01/10/antropoceno-a-era-do-colapso-ambiental-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]