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Por que as universidades particulares estão demitindo professores?

cartacapital.com.br

por Ana Luiza Basilio — publicado 19/12/2017 16h57, última modificação 19/12/2017

“Os sentimentos se misturam. O Brasil está vivendo um momento de pessoas pequenas que transformam o pensamento numa atividade grosseira, que operam a negação da alteridade. É difícil ser afastado por configurar uma ameaça”. O professor José Salvador Faro, que atuou por 21 anos na Universidade Metodista de São Paulo, é um dos 60 demitidos pela instituição este semestre.

Longe de ser isolado, seu caso é compartilhado por milhares de professores no País que foram desligados de suas instituições de ensino de julho para cá. A Estácio de Sá, instituição privada presente em todo o território nacional, anunciou a demissão de 1,2 mil professores. Em agosto, a Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), demitiu pelo menos 200 professores. A Anhembi Morumbi, que integra o mesmo grupo da FMU, deve demitir ao menos 150. Na Universidade Uniritter, que atua na região sul do Brasil, são 100 demitidos.As instituições se ancoram no que chamam de reestruturação para justificar as mudanças que impactam não só a vida dos professores desligados, mas também aquela dos contratados, que têm de encarar redução de carga horária e, portanto, salarial, e consequente queda na qualidade da educação. Para os especialistas, o cenário de demissões em massa se ancora na Reforma Trabalhista em vigor desde novembro.

Na Universidade Metodista, os desligamentos, que atingiram principalmente os cursos de pós-graduação, mas também chegaram à graduação e ao Colégio Metodista, foram justificados como corte de custos. Os professores afastados, no entanto, alegam se tratar de uma reação contra aqueles que se opuseram à reforma de natureza administrativa, financeira e pedagógica praticada pela atual gestão. Em março deste ano, a Universidade nomeou para o cargo de reitor o economista e doutor em Ciências Ambientais, Paulo Borges Campos Júnior.

Uma professora demitida que preferiu não se identificar afirmou que, desde julho, a Universidade convive com a descontinuidade de cursos tradicionais, como o da Pós-Graduação em Administração, com a criação de mais cursos à distância em detrimento dos presenciais e corte de carga horária de vários docentes e coordenadores de cursos.

Ela também contou que, ao questionarem “a forma truculenta e arbitrária das decisões, que não passaram pelo crivo das instâncias colegiadas da Universidade”, muitos professores passaram a sofrer assédio moral.

Ao aparente cenário de desmonte soma-se a fragilidade econômica da Universidade que vem penalizando seus funcionários. Faro afirma que os professores estão com os salários irregulares há quatro meses e há pelo menos 15 sem depósito do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).As informações são confirmadas pelo Sindicato dos Professores do ABC (Sinpro-ABC) que divulgou uma nota de repúdio contra as demissões na sexta-feira 15. Em trecho, o sindicato afirma que “tem prestado total apoio à categoria, penalizada com atraso nos salários, 13º, férias e irregularidades nos depósitos do FGTS”.

Em outra passagem da publicação, atesta que a “direção, em diversas oportunidades, se reuniu com os representantes da Universidade para um entendimento, sobre a melhor forma de manter em dia o pagamento dos trabalhadores, e discutir alternativas na conservação e manutenção dos empregos da categoria na Instituição”

Na sexta-feira 15, o Colégio Episcopal, responsável pela supervisão da ação missionária e pastoral da Igreja Metodista, divulgou um pronunciamento no qual confirmam que, diante da crise econômica nacional, a Rede Metodista de Educação tem buscado realizar uma reorganização estrutural para zerar as dívidas bancárias e promover melhorias nos resultados das atividades educacionais. As demissões, segundo a nota, estão dentro desse contexto.

Outra passagem do comunicado diz que “A Igreja Metodista não apoia e nem respalda processos que gerem um sentimento de humilhação e perseguição política como divulgado pela mídia secular”

A Universidade Metodista é mantida pela Igreja Metodista e integra uma rede de educação formada por duas universidades, dois centros universitários e duas faculdades, além de 14 colégios.

A Metodista, no entanto, não é a única entre os casos de demissões expressivas de professores. Em agosto, também ganhou repercussão o caso da FMU, mantida pelo grupo americano Laureate, que, segundo informações da imprensa, demitiu 200 professores após anunciar um “novo modelo acadêmico, mais moderno e flexível”, que tem como objetivo preparar melhor os alunos para as oportunidades do mundo profissional. Desligamentos na Anhembi Morumbi, outra universidade do grupo, também estariam sendo discutidos, e devem atingir pelo menos 150 professores.

A Universidade Uniritter, com campus no Rio Grande do Sul, Porto Alegre e Canoas, também demitiu cerca de 100 professores na última semana, segundo informações do Sindicato dos Professores do Ensino Privado. Em reportagem veiculada pelo G1, além dos desligamentos, a universidade passa por um momento de reestruturação de seus cursos e redução de cargas horárias.

O mais expressivo numericamente foi o anúncio feito pela Estácio de Sá, instituição presente em todo o território nacional. Uma reorganização na base de docentes levou à demissão de 1,2 mil professores e o anúncio de um cadastro reserva, que configuraria o trabalho intermitente, também previsto na nova legislação trabalhista.

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A Estácio de Sá conseguiu derrubar a liminar que impedia a demissão dos professores

A decisão gerou uma reação da Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro que, inicialmente suspendeu 400 demissões no Estado; posteriormente, o Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro, via liminar, conseguiu suspender a demissão de professores em suas unidades em todo o país.

No entanto, a liminar foi suspensa na segunda-feira 11, pelo desembargador José Geraldo da Fonseca, como noticiou a coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo.

Para a diretora do Sinpro- SP, Silvia Barbara, o cenário é modificado pela Reforma Trabalhista. “Ela atua nesse ambiente antropofágico, de retirada de direitos dos trabalhadores, e certamente induz as demissões em grande escala”, atesta. Com o advento da Reforma, as despensas individuais e coletivas não precisam mais de autorização prévia de uma entidade sindical ou de celebração de convenção ou acordo coletivo para sua validação. A alteração figura no artigo 477-A da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Também incide sobre os casos, segundo a especialista, as mudanças ocorridas no Programa de Financiamento Estudantil (Fies) ao longo do tempo. “No início, as faculdades viveram um momento de expansão porque o dinheiro público chegava muito fácil. Depois, com as mudanças no financiamento, essa entrada começou a ficar mais restrita e, com menos dinheiro entrando e para manter a margem de lucro, começaram a praticar cortes”, avalia.Silvia entende que estão colocadas aí não só as demissões, mas como o enxugamento das cargas horárias dos professores que permanecem nas instituições, a superlotação de algumas salas e a maior adesão ao ensino a distância. “Temos lutado no âmbito dos sindicatos contra o que chamamos de mercantilização do ensino. O regramento pedagógico dessas instituições vem sendo feito no sentido de flexibilizar as regras de funcionamento, precarizar o trabalho docente e facilitar a acumulação de capital, de lucro”, explica.

Para ela, trata-se de uma luta de natureza política que pede um olhar do Ministério da Educação. “O papel do MEC de coibir essa mercantilização extrema é central, mas hoje vemos que atuam no sentido de facilitar isso”. Silvia entende que um dos caminhos para reverter essa lógica é garantir a autonomia universitária, “que não deve ser decidida pela mantenedora, por ter deliberação acadêmica”.

Concorda com a especialista o professor José Salvador Faro, “resgatar a autonomia e se desvincular do estilo empresarial que adquiriu é a única forma da faculdade resgatar seus fundamentos e a sua natureza”.

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As ciências humanas e a guerra cultural no Brasil

‘Pais-helicóptero’ estão criando filhos simplesmente ‘inempregáveis’

Cotas na USP: o desafio agora é garantir a permanência dos alunos

Leia no original:  https://www.cartacapital.com.br/sociedade/cotas-na-usp-o-desafio-agora-e-garantir-a-permanencia-dos-alunos
A aprovação da ação afirmativa pelo Conselho Universitário representa uma importante conquista, mas ainda não é suficiente, diz professor
Victória Damasceno
Ato por cotas

Núcleo de Consciência Negra foi o responsável por colocar a reivindicação em pauta

 

Ao contrário do que previa o texto enviado para votação no Conselho Universitário da USP (CO), instância máxima de deliberação da universidade, foi aprovado na terça-feira 4 a reserva das vagas para alunos de escolas públicas e autodeclarados pretos, pardos ou indígenas. Pela primeira vez na história, a universidade adota a política de cotas no seu vestibular tradicional, a Fuvest.

A proposta foi apresentada pelo Núcleo de Consciência Negra da USP e protocolada pelo Conselho de Graduação no dia 18 de maio. O documento original enviado pelo núcleo seguia a lei de cotas de 2012, que reserva 50% das vagas para alunos de escolas públicas e destas, 37,5% para candidatos autodeclarados pretos pardos e indígenas (PPI), índice equivalente a proporção deste grupo no estado de São Paulo segundo o IBGE.

Negada pelo CoG, foi protocolada e enviada para votação apenas as cotas sociais, que não levavam em consideração o perfil étnico-racial e socioeconômico dos candidatos.

Em resposta, cerca de 300 professores da USP realizaram um abaixo assinado pedindo que as cotas raciais também fossem votadas durante a reunião. Os docentes consideravam a proposta insuficiente. “As cotas somente para escolas públicas não bastam para garantir que a Universidade alcance a meta da composição étnico-racial da população”, afirma os signatários do abaixo-assinado.

Após pressão dos professores e representantes discentes presentes no Conselho e do cientista político André Singer, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), para a inclusão das cotas raciais no pleito, o reitor Marco Antonio Zago adicionou à proposta a reserva de vagas para os candidatos PPI, que foi aprovada ao término da reunião com 75 votos a favor, oito contrários e nove abstenções.

Dennis de Oliveira
Segundo professor, a medida é apenas um ‘tapa buracos’ que não leva em conta as reivindicações dos movimentos sociais

O professor da Dennis Oliveira, da Escola de Comunicações e Artes (ECA), uma das primeiras a aprovar as cotas raciais por meio do Sisu, considera a medida sem o recorte racial serviria apenas como um “tapa buraco de pouco impacto” inspirado em “demagogia”.

Surpreso com as mudanças no rumo da votação, Oliveira afirma que a conquista é uma vitória no movimento negro e não uma flexibilização dos membros do conselho, que possuem “perfil conservador”. “A condição vergonhosa de ser a única estadual sem cotas e o crescente movimento dentro das congregações dos institutos da universidade criou muita pressão.”

A medida, no entanto, não é suficiente, diz o professor. Ele afirma que as cotas raciais são apenas o começo, pois serão necessários investimentos em políticas de permanência. “As cotas possuem o aspecto principal de democratização do acesso à universidade, mas também de transformação do ambiente. A medida que recebe esse novo perfil de alunos agora terá de investir em políticas de permanência para que eles possam concluir o ensino superior.”

Outra aspecto relevante para a confirmação da política de acesso destes estudantes é, segundo Oliveira, a abertura de cotas para outras etapas do acesso à USP, como nos concursos para docentes, funcionários e os cursos de pós graduação, como o mestrado e o doutorado. “A USP forma mas não contrata e não dá continuidade no processo de aprendizagem”, denuncia.

Em nota, o reitor Marco Antonio Zago considerou a decisão algo “histórico”. Para ele, a liderança e a visibilidade que a USP tem torna o momento emblemático. “Representa uma universidade assumir que a inclusão social é uma questão importantes do ponto de vista da nossa sociedade”, diz.

As mudanças no sistema de ingresso serão escalonadas. No processo seletivo que ocorrerá no fim deste ano serão reservadas 37% das vagas em cada unidade de ensino e pesquisa. No ano seguinte seriam 40%, seguido de 45% em 2020. Somente em 2021 a metade das vagas de graduação oferecidas pelo vestibular comum serão preenchidas por cotistas.

Até então, a USP era a única estadual paulista a não adotar cotas no seu principal sistema de ingresso. A pioneira foi a Universidade Estadual Paulista (UNESP), que adotou o sistema em 2013.

Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aprovou no dia 30 de maio a adoção 50% de cotas para alunos oriundos da rede pública e 37,5% destes são reservados a candidatos autodeclarados pretos, pardos e indígenas. A nova política passa a valer a partir do processo seletivo para 2019.

As vagas reservadas levarão em consideração os dois processos de ingresso da universidade, a Fuvest e o Sisu. Em 2018, o primeiro ano em que medida estará vigente, serão oferecidas 11.147 vagas de graduação. Deste total, serão 8402 destinadas a Fuvest e 2745 para os alunos aprovados por meio do Sisu, um aumento de 407 vagas em relação a 2017.

A adição reserva de vagas por meio da cotas raciais e sociais coloca USP como a universidade com uma das principais políticas de inclusão do País por possuir, além das cotas, sistemas de bonificação para os candidatos do vestibular.

As ações afirmativas dentro da universidade começaram em 2006 quando foi implementado o Programa de Inclusão Social da USP (Inclusp), que consiste em um sistema de bônus no vestibular destinado a alunos oriundos de escolas públicas.

GráficoA medida começou a valer no processo seletivo de 2007, quando os alunos que haviam estudado integralmente em escolas públicas tinham o acréscimo de 3% de pontos em todas as fases do vestibular. Em 2017, o cenário se modificou. Os alunos que estudaram o ensino médio e fundamental em escolas públicas obtém aumento de 15% na pontuação, enquanto aqueles que prestaram somente o ensino médio possuem um bônus de 12%.

A segunda ação afirmativa ocorre apenas em 2012, quando a reitoria institui também o Programa de Avaliação Seriada da USP (Pasusp), que é voltado para alunos da rede pública ainda matriculados no ensino médio.

Nesta modalidade, o alunos que cursaram o ensino fundamental e médio em escolas da rede pública ganham um aumento de 15% na nota das duas fases do vestibular, com a possibilidade de acréscimo de 5% para aqueles que prestaram o vestibular como treineiros no ano anterior e foram aprovados na primeira fase.

Tanto no Inclusp como no Pasusp, os candidatos PPI recebem ainda mais 5% em cima dessas bonificações. Hoje, o acréscimo na pontuação dos candidatos pode chegar até 25%.

Em 2006, antes do início da aplicação do bônus, o número de ingressantes pretos, pardos ou indígenas somava 12,4%, enquanto aqueles vindos da rede pública era de 24,7%.  Em 2017, o número de ingressantes PPI aumentou em 55%, e dos estudantes das escolas públicas em 49%.

Gráfico 2Além dos sistemas de bonificação, o Conselho Universitário (CO) aprovou também em junho de 2015 a adesão experimental do Sisu, juntamente com suas propostas de cotas raciais e sociais como uma forma de ingresso na USP. Por meio da congregação da faculdade, os institutos deliberam se aceitam ou não o ingresso de alunos por meio da nota do Enem, utilizada no Sisu.

Do total direcionado, as unidades também podem escolher qual o tipo de concorrência. Em 2017, das 2338 vagas oferecidas via Sisu, 597 foram para ampla concorrência, 1155 para estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escola públicas e 586 para alunos oriundos de escolas públicas que se autodeclaram pretos, pardos e indígenas.

No primeiro ano, 85 dos 143 cursos de graduação decidiram aderir ao Enem. Depois disso, o número de vagas destinadas ao Sisu cresceu em 57%. No vestibular 2018, 42 unidades de ensino e pesquisa participarão do sistema.

A adesão mais recente é a da Faculdade de Medicina (FMUSP), localizada no campus das Clínicas, em São Paulo. No último dia 30, a Congregação da faculdade reservou 50 (28,6%) vagas para o Sisu. Destas, 15 (8,6%) serão destinadas aos candidatos PPI.

Os alunos que serão contemplados com cotas sociais ou raciais por meio da Fuvest ou do Sisu que possuem os pré-requisitos para participarem dos sistemas de bonificação Inclusp e Pasusp manterão os bônus independente da reservas de vagas.

USP aprova cotas sociais e raciais para 2018

leia no original:  http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/usp-aprova-cotas-sociais-e-raciais-para-2018/

As reservas serão feitas de maneira escalonada, a partir de 2018, até atingir 50% da oferta

Com informações da Agência Brasil

O Conselho Universitário da Universidade de São Paulo (USP) aprovou na terça 4 a reserva de vagas para alunos de escolas públicas e autodeclarados pretos, pardos e indígenas (PPI) nos cursos de graduação da instituição a partir do próximo ano. É a primeira vez que a USP vai adotar um sistema de cotas sociais e raciais.

Segundo a universidade, a reserva será feita de forma escalonada: em 2018, serão reservadas 37% das vagas de cada unidade de ensino e pesquisa; em 2019, a porcentagem deverá ser de 40% de vagas reservadas de cada curso de graduação; para 2020, a reserva das vagas em cada curso e turno deverá ser de 45%; e no ingresso de 2021 e nos anos subsequentes, a reserva de vagas deverá atingir os 50% por curso e turno.

Além das vagas reservadas, para os alunos de escolas públicas incidirá ainda o porcentual de 37% de cotas para estudantes autodeclarados PPI. Este índice equivale à proporção desses grupos no estado de São Paulo, de acordo com o IBGE. As reservas de vagas vão considerar conjuntamente os dois processos de seleção da universidade: a Fuvest e o Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

Em 2017, a USP registrou recorde no número de ingressantes oriundos de escolas públicas em seus cursos de graduação, que passou de 3.763 (34,6%), no ano passado, para 4.036 estudantes (36,9%) neste ano, conforme dados divulgados pela universidade.

Sisu

O Conselho Universitário também aprovou a ampliação do número de vagas do próximo concurso vestibular que serão destinadas ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu). “Ao todo, em 2018, serão oferecidas 11.147 vagas. Desse total, 8.402 serão reservadas para candidatos aprovados pela seleção da Fuvest e 2.745 para o Sisu”, divulgou a USP. Em relação ao vestibular de 2017, houve aumento de 407 vagas destinadas ao Sisu.

As 2.745 vagas reservadas para o Sisu serão distribuídas em três modalidades: 423 serão para ampla concorrência; 1.312 para estudantes que tenham cursado o ensino médio integralmente em escolas públicas; e 1.010 para alunos de escolas públicas e autodeclarados pretos, pardos e indígenas (PPI).

Livro ‘Amazônias em tempos contemporâneos: entre diversidades e adversidades’

Livro ‘Amazônias em tempos contemporâneos: entre diversidades e adversidades’ para acesso e/ou download

Amazônias em tempos contemporâneos: entre diversidades e adversidades”, é título do livro lançado na segunda-feira (12/6), organizado pelas pesquisadoras Jane Felipe Beltrão e Paula Mendes Lacerda. O lançamento ocorreu no Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazonas), em Manaus (AM), durante a cerimônia de recondução de Sérgio Luz, ao cargo de diretor do Instituto.

Livro 'Amazônias em tempos contemporâneos: entre diversidades e adversidades'

Pesquisadores da Fiocruz fazem parte dos autores, que possuem formação diversificada e têm em comum a luta por um Brasil plural e democrático (foto: Fiocruz Amazonas) 

 

Segundo a organizadora, Jane Beltrão, a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) vem há algum tempo tentando iniciar uma coleção de paradidáticos, pois a produção antropológica no Brasil, ainda fica muito restrita às universidades, especialmente pela necessidade de formação de novos antropólogos na graduação e de complementação em nível de pós-graduação.

“Esse foi o primeiro paradidático da ABA. A ideia era que a gente pudesse congregar pessoas de várias áreas: da saúde, da educação, do direito… para que pudéssemos discutir temas que são fundamentais para a Amazônia, como a consulta dos povos indígenas em função de grandes empreendimentos, o direito das mulheres indígenas em função das grandes obras e das dificuldades que elas enfrentam com a violência, assim como a possibilidade de discussão sobre o que é uma escola indígena na Amazônia, e também sobre a formação de pessoal para trabalhar na área da saúde”, destacou Beltrão.

A ABA reuniu autores que podem apresentar a Amazônia brasileira, a partir de seus trabalhos na Região, expondo as diversidades que integram politicamente o contexto. Os autores são de formação diversificada e têm em comum a luta por um Brasil plural e democrático. São eles: Ana Lúcia Pontes, Antonio Carlos de Souza Lima, Antonio Motta, Assis da Costa Oliveira, Bruno Pacheco de Oliveira, Camille Gouveia Castelo Branco Barata, Clarisse Callegari Jacques, Jane Felipe Beltrão, Katiane Silva, Laise Lopes Diniz, Luiza Garnelo, Mariah Torres Aleixo, Paula Mendes Lacerda, Rita de Cássia Melo Santos, Rodrigo de Magalhães Oliveira, Rosani de Fatima Fernandes, Rhuan Carlos dos Santos Lopes, Sully Sampaio, Thiago Lopes da Costa Oliveira, e William César Lopes Domingues.

“São temas importantíssimos para os povos indígenas, pela agenda do movimento indígena, com a possibilidade de que nós pudéssemos contribuir para isso, e como nós temos programas de políticas afirmativas na Amazônia que formam indígenas como mestres e doutores, vários desses indígenas estão escrevendo no livro também. Ele é uma obra conjunta de intelectuais indígenas e intelectuais não-indígenas”, explicou Beltrão.

A publicação foi viabilizada pelo projeto Patrimônio, Diversidade Sociocultural, Direitos Humanos e Políticas Públicas na Amazônia Contemporânea, realizado em cooperação entre o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) do Museu Nacional (MN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e o Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Jane Beltrão salienta que o livro é uma forma de prestação de contas, sobre o que fazem os antropólogos em universidades, institutos de pesquisa e demais instituições públicas a respeito da necessidade de tornar o Brasil respeitoso com a diversidade, especialmente quando se trata de Amazônias.

O livro é composto por 16 capítulos e é um dos resultados do projeto aprovado na chamada pública MCTI/CNPq/MEC/Capes-Casadinho/Procad, coordenado por Jane Felipe Beltrão (PPGA/UFPA) e vice-coordenado por Antonio Carlos de Souza Lima (PPGAS/MN/UFRJ). Iniciado em 2012, o projeto teve como objetivo analisar situações de confronto, conflitos e emergência de grupos étnicos que se transformam, rearticulam ou se consolidam no cenário de mudanças aceleradas que atravessam a Amazônia.

Participação de pesquisadores da Fiocruz Amazonas

O capítulo escrito por Laise Lopes Diniz, antropóloga e especialista em educação escolar, e Luiza Garnelo, médica, antropóloga e pesquisadora do Fiocruz Amazonas, Política indígena e política escolar: interfaces e negociações na implantação da Escola Indígena Pamáali – Alto Rio Negro, parte do caso concreto de uma escola indígena para apresentar os caminhos e os desafios em torno do qual uma escola indígena pode se constituir. As autoras descrevem o processo por meio do qual a escola conseguiu promover uma nova forma de organização, afastando-se do modelo ocidental, ao abrir espaço para que os mais velhos definam os parâmetros que devem orientar a formação dos estudantes.

Já o capítulo A experiência de formação de agentes comunitários indígenas de saúde, à luz das políticas públicas de saúde e da promoção da diversidade cultural, de autoria de Luiza Garnelo, do cientista social, fotógrafo e bolsista do Fiocruz Amazonas, Sully Sampaio e Ana Lúcia Pontes, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), traz o relato de experiência do curso técnico profissionalizante de Agentes Comunitários Indígenas de Saúde do Alto Rio Negro, no Amazonas, enfatizando as dificuldades vivenciadas durante o curso.

O livro pode ser acessado em formato digital. Clique aqui.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/06/2017

 

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Dificuldades da conscientização

Artigo de Roberto Naime

Ainda mais hoje em dia, quando marketing verde facilmente se transforma em “greenwashing” e boa parte dos procedimentos e atitudes sempre carregam muito simbolismo e representatividade, utilizados em formulações e polimentos de imagens institucionais.

William Gates é um ícone. Para além de gênio ou visionário. Não é intenção desta rápida dissertação, contestar qualquer fato quanto a isto. Todas as outras fundações que tem representatividade social extensiva pertencem a figuras quase mitologias. As fundações Rockfeller, Soros, Buffen e outras apresentam procedimentos análogos e similares aos da fundação Gates, então as observações são genéricas para todas as instituições.

Todas as fundações, tem retórica muito incisiva e de acordo com as visões do primeiro mundo, clamando pela realização de economia de baixo carbono. Mas parece que se materializam práticas e atitudes polêmicas. Parece mais fácil para estes agentes pensar que artifícios de geoengenharia podem, de forma isolada e fragmentada, impulsionar resoluções para a questão climática sem necessitar resolver as graves questões de equidade entre as nações.

Todas estas grandes fundações parecem estar envolvidas em cenários relativamente confusos, para não classificar como promíscuos. Interesses políticos se mesclam com interesses financeiros e imposições de imagens. Discernimentos ambientais prevalecem em determinados momentos, e conjunturas negociais parecem se impor em outras oportunidades.

Se é difícil para personagens do maior relevo intelectual praticarem atitudes que se possa atribuir a mais pura conscientização, imagine para as populações mais comuns. Por isto se fala nas dificuldades apresentadas pela conscientização.

Por isso, se compreende bem as contradições das práticas cotidianas. Mesmo com o posicionamento da Fundação de Bill e Melinda Gates de que o aquecimento global representa uma ameaça imediata séria e relevante, a instituição de caridade detém ao menos U$1.4 bilhão de investimentos nas companhias de combustível fóssil ou de hidrocarbonetos, que encabeçam a crise climática, estimulando acusações de caracterizar comportamentos hipócritas.

Não se acredita que sejam caracterizações de hipocrisias e sim emaranhados de redes e intrincadas relações como já comentado, e em molduras onde certamente faltam transparência e translucidez. Em tradução de Isabela Palhares, matérias jornalísticas registram grandes contradições entre os discursos e as práticas cotidianas. Isto ocorre em todas as instituições, e notadamente na fundação Gates, que atrai a atenção por ser a maior fundação de caridade e responsabilidade social do planeta.

O jornal Guardian, assim como o Welcome Trust, lançou uma campanha chamando a Fundação Bill e Melinda Gates, para “remover seus investimentos das 200 maiores companhias de combustível fóssil, e de quaisquer fundos agregados que incluam títulos públicos de combustível fóssil e também laços corporativos, no intervalo de cinco anos.”

A campanha é parte de uma iniciativa global pelo desinvestimento em combustível fóssil, estratégia para deslegitimar o financiamento das indústrias, que se acredita que encabeçam o aquecimento global. Em resposta a tais esforços, mais de 200 instituições já se comprometeram com o desinvestimento, desde faculdades e universidades até o Conselho Mundial de Igrejas e a Associação Médica Britânica. Universidades da África do Sul à Nova Zelândia também já aderiram à campanha.

“Esse desinvestimento significa alinhar nossas finanças com nossos valores e desafiar o poder político de uma indústria que ameaça indígenas, poluem nossa política e nos direcionam a uma catástrofe climática,” disse Adam Zuckerman, ativista ambiental e de direitos humanos do Amazon Watch.

Um estudo publicado ainda esse ano no jornal “Nature’, descobriu que, para combater o desastre climático, a maioria dos depósitos de combustíveis fóssil no planeta incluindo 92% do carvão dos EUA, todo gás e petróleo do Ártico, e a maioria das areias asfálticas do Canadá, devem continuar enterrados nas profundezas dos terrenos.

Mas o que seria principal e mais relevante é que as fundações já citadas pudessem buscar redefinições funcionais e se posicionarem em cenários mais transparentes e bem definidos.

Conciliando discursos com práticas e deixando de terem a pretensão de solucionar os desafios por conta própria, usando artifícios fragmentados para interferir em questões de profunda veiculação ecossistêmica.

E parando de conceber que sua bem sustentada operação financeira possa substituir as necessárias inter-relações políticas e possibilitar suplantar a cada vez mais evidente necessidade de equidade entre os povos e as nações, na busca permanente de equilíbrio ecossistêmico e homeostase planetária.

Referência:
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/Apesar-da-retorica-por-mudanca-climatica-Fundacao-Gates-investe-U$-1-4-bilhao-em-combustivel-fossil-/3/33122

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/05/2017

“Dificuldades da conscientização, artigo de Roberto Naime,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/05/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/05/11/dificuldades-da-conscientizacao-artigo-de-roberto-naime/.

 

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