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Dificuldades da conscientização

Artigo de Roberto Naime

Ainda mais hoje em dia, quando marketing verde facilmente se transforma em “greenwashing” e boa parte dos procedimentos e atitudes sempre carregam muito simbolismo e representatividade, utilizados em formulações e polimentos de imagens institucionais.

William Gates é um ícone. Para além de gênio ou visionário. Não é intenção desta rápida dissertação, contestar qualquer fato quanto a isto. Todas as outras fundações que tem representatividade social extensiva pertencem a figuras quase mitologias. As fundações Rockfeller, Soros, Buffen e outras apresentam procedimentos análogos e similares aos da fundação Gates, então as observações são genéricas para todas as instituições.

Todas as fundações, tem retórica muito incisiva e de acordo com as visões do primeiro mundo, clamando pela realização de economia de baixo carbono. Mas parece que se materializam práticas e atitudes polêmicas. Parece mais fácil para estes agentes pensar que artifícios de geoengenharia podem, de forma isolada e fragmentada, impulsionar resoluções para a questão climática sem necessitar resolver as graves questões de equidade entre as nações.

Todas estas grandes fundações parecem estar envolvidas em cenários relativamente confusos, para não classificar como promíscuos. Interesses políticos se mesclam com interesses financeiros e imposições de imagens. Discernimentos ambientais prevalecem em determinados momentos, e conjunturas negociais parecem se impor em outras oportunidades.

Se é difícil para personagens do maior relevo intelectual praticarem atitudes que se possa atribuir a mais pura conscientização, imagine para as populações mais comuns. Por isto se fala nas dificuldades apresentadas pela conscientização.

Por isso, se compreende bem as contradições das práticas cotidianas. Mesmo com o posicionamento da Fundação de Bill e Melinda Gates de que o aquecimento global representa uma ameaça imediata séria e relevante, a instituição de caridade detém ao menos U$1.4 bilhão de investimentos nas companhias de combustível fóssil ou de hidrocarbonetos, que encabeçam a crise climática, estimulando acusações de caracterizar comportamentos hipócritas.

Não se acredita que sejam caracterizações de hipocrisias e sim emaranhados de redes e intrincadas relações como já comentado, e em molduras onde certamente faltam transparência e translucidez. Em tradução de Isabela Palhares, matérias jornalísticas registram grandes contradições entre os discursos e as práticas cotidianas. Isto ocorre em todas as instituições, e notadamente na fundação Gates, que atrai a atenção por ser a maior fundação de caridade e responsabilidade social do planeta.

O jornal Guardian, assim como o Welcome Trust, lançou uma campanha chamando a Fundação Bill e Melinda Gates, para “remover seus investimentos das 200 maiores companhias de combustível fóssil, e de quaisquer fundos agregados que incluam títulos públicos de combustível fóssil e também laços corporativos, no intervalo de cinco anos.”

A campanha é parte de uma iniciativa global pelo desinvestimento em combustível fóssil, estratégia para deslegitimar o financiamento das indústrias, que se acredita que encabeçam o aquecimento global. Em resposta a tais esforços, mais de 200 instituições já se comprometeram com o desinvestimento, desde faculdades e universidades até o Conselho Mundial de Igrejas e a Associação Médica Britânica. Universidades da África do Sul à Nova Zelândia também já aderiram à campanha.

“Esse desinvestimento significa alinhar nossas finanças com nossos valores e desafiar o poder político de uma indústria que ameaça indígenas, poluem nossa política e nos direcionam a uma catástrofe climática,” disse Adam Zuckerman, ativista ambiental e de direitos humanos do Amazon Watch.

Um estudo publicado ainda esse ano no jornal “Nature’, descobriu que, para combater o desastre climático, a maioria dos depósitos de combustíveis fóssil no planeta incluindo 92% do carvão dos EUA, todo gás e petróleo do Ártico, e a maioria das areias asfálticas do Canadá, devem continuar enterrados nas profundezas dos terrenos.

Mas o que seria principal e mais relevante é que as fundações já citadas pudessem buscar redefinições funcionais e se posicionarem em cenários mais transparentes e bem definidos.

Conciliando discursos com práticas e deixando de terem a pretensão de solucionar os desafios por conta própria, usando artifícios fragmentados para interferir em questões de profunda veiculação ecossistêmica.

E parando de conceber que sua bem sustentada operação financeira possa substituir as necessárias inter-relações políticas e possibilitar suplantar a cada vez mais evidente necessidade de equidade entre os povos e as nações, na busca permanente de equilíbrio ecossistêmico e homeostase planetária.

Referência:
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/Apesar-da-retorica-por-mudanca-climatica-Fundacao-Gates-investe-U$-1-4-bilhao-em-combustivel-fossil-/3/33122

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/05/2017

“Dificuldades da conscientização, artigo de Roberto Naime,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/05/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/05/11/dificuldades-da-conscientizacao-artigo-de-roberto-naime/.

 

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Professor brasileiro ganha mal e sofre mais violência, diz OCDE

Estudos da organização apontam Brasil como um dos países mais hostis a professores de escolas públicas.


O vídeo de um professor surpreendido com um “corredor de aplausos” em seu último dia numa escola pública de São Paulo levou muitos leitores da BBC Brasil a compartilhar histórias de educadores que marcaram suas vidas.

Mas a homenagem a Luiz Antônio Jarcovis, que dava aula de Ciências na Escola Estadual Almirante Custódio José de Mello, também motivou comentários sobre as dificuldades vivenciadas por professores brasileiros.

Para que se destaquem, muitos deles têm de enfrentar uma série de obstáculos, como baixos salários, longas jornadas de trabalho e até o risco de agressões frequentes.

Em estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo que agrega 34 economias avançadas ou emergentes, o Brasil desponta como um dos países mais hostis para professores de escolas públicas.

Segundo a pesquisa Um Olhar sobre a Educação 2016, que compara a situação da educação em 45 países, professores brasileiros dos ensinos médio e fundamental recebem menos da metade do que a média dos países membros da OCDE.

O salário médio da categoria no Brasil é de US$ 12,3 mil ao ano (R$ 38,6 mil), valor também inferior ao de outras nações latino-americanas como Chile, Colômbia e México.

Além disso, professores brasileiros são, entre todos os países do estudo, os que trabalham mais semanas ao ano.

No Brasil, eles lecionam em média 42 semanas anuais, enquanto a média da OCDE são 40 semanas no pré-primário e 37 nos cursos técnicos.

Padrões escandinavos

Em compensação, professores universitários em instituições federais públicas no Brasil recebem entre US$ 40 mil e US$ 76 mil ao ano (de R$ 125,5 mil a R$ 238,6 mil), valor mais elevado do que em vários países da OCDE e equivalente ao de países escandinavos, como Finlândia, Suécia e Noruega.

O Brasil gasta US$ 13,5 mil (cerca de R$ 42,4 mil) por aluno universitário ao ano, índice próximo à média da OCDE (US$ 15,8 mil).

Por outro lado, o gasto do Brasil com cada aluno do ensino fundamental ou médio, US$ 3,8 mil ao ano (cerca de R$ 11,9 mil), é menos da metade da média da OCDE (US$ 8,5 mil no fundamental e US$ 9,8 mil no médio).

Agressões e intimidações

Outra pesquisa da OCDE pôs o Brasil na liderança de um ranking sobre violência nas escolas.

Em 2014, a organização entrevistou mais de 100 mil professores e diretores de escola em 34 países. No Brasil, 12,5% dos educadores ouvidos disseram sofrer agressões verbais ou intimidações de alunos ao menos uma vez por semana.

A média entre todos os países foi de 3,4%.

Em alguns deles, como Coreia do Sul, Malásia e Romênia, o índice foi zero.

O estudo revelou ainda que 12,6% dos professores no Brasil acreditam que sua profissão é valorizada. A média geral foi de de 31%.

Nesse indicador, o Brasil ficou à frente de países tidos como mais avançados em educação, como França e Suécia. Nas duas nações, apenas 4,9% dos professores disseram que são devidamente valorizados.

Os líderes da lista foram Malásia (83,8%), Cingapura (67,3%) e Coreia do Sul (66,5%).

O que perde a juventude sem Filosofia em sala de aula

leia no original:

http://revistacult.uol.com.br/home/2017/02/o-que-perde-a-juventude-sem-filosofia-em-sala-de-aula/

Tornar opcional o ensino de Filosofia corresponde a tirar dos estudantes a disciplina mais adequada para ajudá-los a pensar sobre o que os torna verdadeiramente humanos

Obra do artista surrealista belga René Magritte (Foto: Reprodução)

Juvenal Savian Filho
Colaboração para a CULT

Na próxima semana o Senado tratará da Medida Provisória referente à reforma do Ensino Médio. Na MP está em questão tornar opcional o ensino de Filosofia (bem como de outras disciplinas) e, como o Senado tem a prerrogativa de propor emendas à MP, ainda vale tentar obter alguma clareza no debate, apostando na capacidade de lucidez e ponderação dos senhores senadores.

Certamente uma das razões para desobrigar do ensino de Filosofia é uma razão econômica, embora seja irrisória a quantidade de dinheiro público que será poupada com o corte de professores e de aulas dessa disciplina (maior será o dano social à vida dos profissionais e dos estudantes). Outra razão é burocrática e refere-se à menção explícita de nomes de disciplinas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Outra razão, enfim, é mais séria e, vistos os debates que têm ocorrido em nosso país durante os últimos dois anos, ela parece ser o principal motor para desobrigar do ensino de Filosofia: trata-se de uma razão sócio-ideológica que diz respeito à preocupação de setores da sociedade brasileira com a “doutrinação comunista e ateia” que seria praticada nas aulas de Filosofia.

Dito dessa maneira, tudo parece uma caricatura. Na realidade, porém, não há nada de caricatural. Essa razão foi levantada por vários deputados e senadores, além de representantes da sociedade civil. Professores de Filosofia seriam marxistas, militantes petistas, anticristãos, adeptos do casamento homossexual, abortistas, anticapitalistas, contrários à meritocracia e outras coisas mais.

Assim, para além das simpatias e dos ódios, é necessário e urgente perguntar: esse diagnóstico corresponde à realidade? Seriam todos os professores de Filosofia comunistas e ateus? Seria realmente um ganho para a história mental de nosso país tornar opcional o ensino de Filosofia?

Num momento histórico em que muitas pessoas redescobrem a importância do pensamento filosófico (quando mesmo grandes empresas têm valorizado profissionais dotados de conhecimentos filosóficos, porque são capazes de análises mais globais e de pensamentos mais complexos), urge perguntar por que o Brasil pretende frear a ampliação da cultura filosófica em vez de acelerá-la? Aliás, outros países da América Latina também têm puxado o mesmo freio, o que faz pensar que a verdadeira razão para desobrigar do ensino de Filosofia talvez venha do medo de velhos fantasmas como o comunismo, a destruição do cristianismo, o ataque contra os valores da família etc.

Um parêntese histórico curioso: os partidos de direita e de centro-direita fazem hoje o que setores da esquerda fizeram no passado e fazem também atualmente. Refiro-me a todos aqueles de esquerda que são contra o ensino de Filosofia  porque, como dizem, “diante da falta de professores em alguns locais, quem dará as aulas serão padres, pastores, historiadores e gente com qualquer diploma universitário”. Hoje os membros da direita dizem que quem dá as aulas são “marxistas, comunistas, petistas, ateus, gays, lésbicas e assim por diante”.

Indo ao núcleo dessa preocupação, é urgente perguntar se esse diagnóstico corresponde à realidade. E a resposta para essa questão é redondamente negativa.

Tenho conhecimento de causa, não apenas pelo trabalho na universidade em que leciono, mas também pela observação in loco em vários pontos do Brasil. Atendo-me apenas ao ponto talvez mais sensível, o aspecto religioso, posso afirmar que o maior número de professores de Filosofia do Ensino Médio é de pessoas religiosas ou agnósticas (pessoas que não se dedicam nem a afirmar nem a negar a existência de Deus e têm grande respeito pelas pessoas religiosas). Talvez por motivos sociais (o crescimento das religiões cristãs evangélicas e de setores do cristianismo católico, do budismo, das religiões africanas e outras religiões), o fato é que a maioria dos professores nos vários pontos que tenho visitado de norte a sul é uma maioria religiosa ou respeitosa da religião. Do ponto de vista político, muitas delas são inclusive de direita ou de centro-direita, muito longe de serem petistas.

Obviamente, quando faz parte do programa curricular o estudo de pensadores ateus, todos são obrigados a lê-los, inclusive os professores religiosos. Nesse aspecto, o que conta é a importância desses filósofos para a história do pensamento; não se pode querer evitá-los como se tivéssemos o direito de “proteger” os estudantes ocultando deles a verdade histórica. Ademais, a prática de ler pensadores ateus pode converter-se em um excelente exercício de reflexão que pode ajudar os estudantes a amadurecer sua fé religiosa, pondo-a em teste, e mesmo a intensificá-la.

Queremos ou não queremos formar cidadãos livres, responsáveis e construtores de uma sociedade respeitosa e democrática? Se esse é um dos objetivos centrais da educação, filtrar aquilo que chegará aos estudantes, deixando a Filosofia em segundo plano e ao gosto das possibilidades “opcionais”, significa atacar a única disciplina que, no contexto atual, levanta a pergunta pelo sentido dos saberes, das práticas, das artes, da religião, enfim, dos vários aspectos da existência.

O caso do falso debate entre criacionismo eciência

Para dar um exemplo mais concreto do bem que a formação filosófica pode fazer mesmo a pessoas religiosas, evoco aqui uma experiência que vivi quando lecionei no Ensino Médio (e que constantemente se repete na universidade): um grupo de estudantes estava muito angustiado depois de algumas aulas de Biologia, pois haviam estudado a teoria do Big Bang ou do que se chama em geral de “a grande explosão” que teria ocorrido nos inícios do Universo, e o professor de Biologia teria afirmado que a teoria do Big Bang provava a inexistência de Deus.

A ocasião não podia ser melhor para que eu atuasse como professor de Filosofia. A primeira coisa que propus em aula foi estudar o modo como se constrói o conhecimento em Biologia e nas ciências em geral, avaliando sobretudo a base que permite construir conceitos como início, causa, fim, finito, infinito, além de debater o que significa uma teoria e mesmo a verdade em ciência. Alguns estudantes quiseram logo tirar a conclusão de que o professor de Biologia estava errado, porque perceberam não apenas que nenhum cientista pode ter a pretensão de dizer que “viu” ou experimentou a infinitude do Universo (mesmo que ele seja infinito), mas também que não há a menor condição de provar cientificamente a inexistência nem a existência de um ser criador. Mesmo que haja evidências em um sentido ou outro, nunca haverá provas propriamente ditas. Outros estudantes, porém, estavam realmente abalados, porque percebiam que o discurso científico é extremamente bem construído e baseia-se em dados que podem ser debatidos e testados por todos os que se instruem nas regras desse discurso.

Depois de várias aulas de reflexão, de leitura de textos de Filosofia da Ciência, de Teoria do Conhecimento e de Filosofia da Religião, o ganho foi enorme, principalmente porque a conclusão mais adequada e mais lúcida era a de que a teoria do Big Bang não anula a fé na criação e que tampouco a fé na criação impede de adotar a teoria do Big Bang.

O dado comum percebido por todos era o de que o debate “criacionismo versus eternidade ou infinitude do Universo” é um falso debate, fundamentado no erro de tomar o criador do Universo por uma “parte” do mesmo Universo (e, por conseguinte, passível de ser provado ou não). Tanto os estudantes religiosos se apegavam a uma visão demasiado infantil do criador, como o professor de Biologia também era imaturo ao achar que sua briga era com aquele criador infantil. O erro conceitual do professor era explícito: ele tratava o ser divino como uma parte do mundo, querendo submetê-lo às leis da Física, da Química e da Biologia, em vez de entender que o ser divino, para ser tratado adequadamente, deve ser visto como transcendente ao mundo e suas leis.O mesmo erro era cometido pelos estudantes, pois, ao defendê-lo, o reduziam a uma parte do mundo e traíam sua transcendência.

Trocando em miúdos, o Universo pode ter surgido de uma explosão inicial, pode ter sempre existido, pode caminhar para um fim ou para a eternidade. Nenhuma dessas teorias impede pensar que um ser divino criador está no fundamento do Universo. Nunca será irracional crer que há um porquê para o dinamismo cósmico, pois provar a irracionalidade dessa crença exigiria provar o absurdo de seu fundamento mesmo, o ser divino, que, por definição, não é parte do mundo, não estando, portanto, sujeito a nenhum tipo de prova. Crer ou não crer são atitudes que envolvem não apenas o pensamento, mas também o sentimento (especificamente o sentimento religioso, na linha do que diziam Friedrich Schleiermacher e Rudolf Otto) e a vontade.

Relegar o ensino de Filosofia à categoria de “opcional” é diminuir ou anular a possibilidade de os estudantes desenvolverem exercícios desse tipo. É construir uma visão formativa em que os saberes técnicos têm prioridade, caindo-se na ilusão de que mais aulas de Português e Matemática vão realmente fazer os estudantes pensar e exprimir-se com correção.

Nós, brasileiros de hoje, temos uma grave responsabilidade pelo tipo de mente que desejamos formar nas crianças e jovens. São eles que continuarão a construção do Brasil. Queremos um futuro com pessoas de mente aberta, respeitosa e madura ou de mente fechada, medrosa, imatura e agressiva? Caso o estudo de Filosofia se torne opcional, é óbvio que alguns estudantes continuarão a ter acesso a ela, porque frequentarão as melhores escolas; mas a imensa maioria sequer ouvirá falar dela. O que sentimos diante desse quadro? Vamos dar de ombros e deixar acontecer a construção de um país desigual, autoritário, exclusivista, violento e mentiroso?

Juvenal Savian Filho é filósofo e teólogo, doutor pela Universidade de São Paulo e docente da Universidade Federal de São Paulo

Contra a servidão do espírito: sobre política, ética e educação

leia no original:
http://revistacult.uol.com.br/home/2017/01/contra-a-servidao-do-espirito-sobre-politica-etica-e-educacao-por-nadja-hermann/

por Nadja Hermann

A convidada do blog dessa semana é Nadja Hermann, Professora de Filosofia da educação, pesquisadora do CNPq, autora de diversos livros, entre eles Ética e estética: a relação quase esquecida (EDIPUCRS, 2005); “Autocriação e horizonte comum: ensaios sobre educação ético-estética” (Editora UNIJUÍ, 2010) e “Ética e educação: outra sensibilidade” (Autêntica, 2014) e “Diálogo/Educação” em co-autoria com Márcia Tiburi (Editora Senac, 2014)

 

 

A política e a ética, enquanto importantes experiências da vida humana, foram e continuam sendo iluminadas por potentes conceitos de muitos pensadores. A clássica definição aristotélica do homem como animal racional e político teve tal força que o mundo ainda não conseguiu exorcizá-la. Ela evidencia a relação entre logos e polis (entre racional e político), pois o logos habilita o homem a diferenciar o útil do prejudicial e também o justo do injusto (Política I,1253 a10). Pensar e falar sobre essa diferença só é possível na polis, com os outros. Nesse processo nos humanizamos e nos tornamos sensíveis para perceber aquilo que violenta o ethos e assim preservamos a vida. Uma força dessa natureza se expressou nos movimentos das ruas do Brasil, desde 2013, mostrando uma vontade que reivindica, que protesta.  A ordem social violada pelas persistentes denúncias de corrupção, de violência política e ética foi levada ao espaço público. A educação entra nesse cenário porque é ela quem forja a formação da vontade política e ética. Responsabilizar e punir os políticos e todos os envolvidos na corrupção faz parte da uma ordem institucional e moral. Mas não basta. É preciso de cidadãos vigilantes para denunciar o imediatismo do cálculo político e as tentativas frequentes de tirar vantagem em tudo, seja na vida pública ou privada. Além dos prejuízos concretos, isso corrói nossa compreensão   moral e nossa capacidade de julgar, porque fragiliza os costumes e esgarça o tecido social. É a educação que prepara os homens para a capacidade racional de distinguir o justo do injusto. Ela permaneceu, na maioria das vezes, obscurecida pela confusão entre obter conhecimento e formar o homem, obliterada por uma miopia que esvaneceu as diferenças entre treinamento de habilidades e formação do eu. É preciso romper com nossa histórica incapacidade em perceber que anos de contínuo descuido com a educação e de lesões na infraestrutruta normativa teriam profundas consequências sociais.

 

Escher, Relatividade, 1953.

 

 

O vínculo entre política, ética e educação depende de um longo processo formativo, não evidente de modo imediato; ao contrário, depende de uma multiplicidade de mediações, de experiências, pelas quais cada um de nós afasta-se de si e de seus interesses para se apropriar do mundo e de seus ordenamentos simbólicos. Com esse movimento pode-se reconhecer a verdadeira grandeza das produções culturais e da ética que abrem um novo horizonte e, com isso, enriquecem a própria interioridade. Ou seja, há uma socialização e uma autocriação, que permitem inclusive a revolta contra todo esse processo. A formação é uma abertura para o reconhecimento da alteridade, fazendo com que sejamos capazes de dar sentido àquilo que é exterior a nós, o que significa compreender o outro e compartilhar simbolizações, lealdades e expectativas comuns. É um antídoto à intolerância e à violência.

A preocupação com esse tema não constitui novidade, pois acompanha os homens desde seus primeiros esforços para interpretar o mundo. Afinal Platão já nos tinha alertado, no século IV a. C. que “as cidades para serem felizes, não precisam de muralhas, navios, arsenais, tropas, nem grandeza. Só precisam de virtude”. Rousseau, em outro tempo também questionou se o nosso maior problema não é ainda a educação dos homens e mostrou a importância da educabilidade para superar sentimentos irascíveis e egoísmos e realizar de algum modo a sociabilidade. De lá para cá a complexidade dos problemas aumentou e a nossa responsabilidade também. As reivindicações das ruas mostraram que algo aprendemos, mas há ainda muito por fazer. É preciso questionar nossa educação e, sobretudo, o abandono social a que foi submetida. Sem um profundo processo reflexivo que nos convoque a avaliarmos sem restrições nossas atitudes, corremos o risco de manter a servidão do espírito e da imaginação, incapazes de distinguir o justo do injusto. A filosofia continua sendo convocada para trazer luz a essa experiência.

Estudo retrata intolerância religiosa e entidades cobram plano de combate à violência

tolerância religiosa

 

ABr

Há mais de um ano, uma menina de 11 anos, praticante do candomblé, no Rio de Janeiro, ficou conhecida após ter sido apedrejada na cabeça e insultada por homens que portavam Bíblias e que, supostamente, pertencem a seitas cristãs evangélicas ou neopentecostais. Mais recentemente, no último sábado (14), um homem foi detido por depredar santos da Catedral São João Batista, em Niterói.

Casos de intolerância religiosa como esses que culminaram em ofensas, agressões e depredações crescem ano a ano e exigem uma ação coordenada do Poder Público. Essa é a conclusão da publicação Intolerância Religiosa no Brasil – Relatório e Balanço, lançado esta semana, às vésperas do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, lembrado no sábado (21).

O estudo foi coordenado pelo Laboratório de História das Experiências Religiosas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com o Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (Ceap) e a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) — formada por representantes de várias crenças, do Ministério Público, do Tribunal de Justiça do Rio e da Polícia Civil.

Em mais de 160 páginas, a publicação reúne números de denúncias compilados por serviços de governo como o Disque 100 Direitos Humanos, artigos científicos com diagnóstico do problema no país e uma proposta de plano nacional para enfrentar o problema. No início de 2016, um documento com esse teor começou a ser articulado pela Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), hoje vinculada ao Ministério da Justiça, mas não foi concluído.

Entre 2001 e 2015, o país registrou 697 casos de intolerância religiosa. Depois de atingir um pico em 2013, com 201 episódios, o número quase dobrou de 2014 para 2015, passando de 149 casos para 223. Alguns relatos, como o da menina de 11 anos agredida no Rio, de crianças judias ofendidas em um clube na zona sul carioca e de uma mulher muçulmana apedrejada na perna, na periferia de São Paulo, são analisados na publicação. O documento também aponta que vizinhos, professores e familiares estão entre os agressores mais comuns.

De acordo com um dos organizadores da publicação, o babalawô Ivanir dos Santos, doutorando em história comparada pela UFRJ e interlocutor da CCIR, o enfrentamento à discriminação exige respostas do Executivo federal, estadual e municipal, legislativos e do Judiciário, como determinam acordos internacionais ratificados pelo Brasil e o Estatuto da Desigualdade Racial, de 2010.

“Primeiro, tem que tipificar a intolerância religiosa como crime, depois, ampliar medidas educativas”, afirmou.

Ivanir defende a aplicação universal da Lei 10.639, que obriga o ensino da história e culturas africanas e afro-brasileiras nas escolas. “Essa é a única saída para entender as outras culturas e respeitar o próximo. Porém, essa lei tem dificuldade de andar porque sofre grande perseguição de neopentecostais e de racistas”, afirmou.

Para fomentar a discussão do plano nacional, o livro Intolerância Religiosa no Brasil – Relatório e Balanço resgata uma proposta apresentada pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, em 2013, com ações nas áreas de segurança, trabalho e educação, por exemplo.

Escola perpetua intolerância

A discussão do tema na escola —que foi tema de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2016— é uma das recomendações da publicação.

A hipótese é de que a educação tem falhado na formação de profissionais e que o atual modelo de ensino, material didático e currículos escolares deixam a violência passar despercebida, na análise da pesquisadora do Laboratório de Experiências Religiosas da UFRJ Juliana Cavalcanti. Os dados, diz, “têm demonstrado que nossas unidades de ensino, além de apresentarem um silêncio no quesito religiosidade, são também ambientes onde se manifesta o desrespeito”.

Programas de TV

Para combater a intolerância, o estudo também cobra que o Ministério Público denuncie programas de televisão e de rádio que incentivem o ódio ou a discriminação a religiões. Outra reivindicação é que o Ministério das Comunicações puna com multa emissoras e retire programas do ar e que proíba patrocínio de órgãos e estatais a veículos com esse tipo de conteúdo.

“Quando uma pessoa tem a atitude de jogar uma pedra em uma menina ou de quebrar um santo da Igreja Católica, aquela não é uma atitude individual. A pessoa ouviu aquilo na igreja [que frequenta] e ouviu sua liderança falar nos meios de comunicação, demonizando alguns setores. Em algum momento, a emoção disparou e a pessoa fez o que fez”, avaliou Ivanir. Ele lembrou que concessões de rádio e TV são públicas e devem ser fiscalizadas. “O Poder Público tem sido omisso.”

A Agência Brasil procurou a Seppir, atualmente vinculada ao Ministério da Justiça, sobre a elaboração do plano de combate à intolerância que estava em gestão, no ano passado, mas não foi atendida. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações respondeu que “não tem nenhuma informação sobre o assunto [plano de combate à intolerância religiosa]”.

Por Isabela Vieira, da Agência Brasil, in EcoDebate, 23/01/2017

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Teorias sobre a morte de Teori mostram em qual bolha da rede você está

Leia no original:
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/01/21/teorias-sobre-a-morte-de-teori-mostram-em-qual-bolha-da-rede-voce-esta/

Leonardo Sakamoto

Há muitas dúvidas envolvendo a queda do avião que levou à morte de Teori Zavascki, relator da operação Lava Jato no STF, e mais quatro pessoas, no mar de Paraty (RJ).

Como já disse aqui na própria quinta (19) da tragédia, apenas uma investigação séria e transparente, monitorada pela imprensa e pela sociedade, talvez seja capaz de dizer o que aconteceu, ou seja, se foi falha humana ou mecânica, condições metereológicas ou sabotagem da grossa.

Até lá, qualquer tentativa de cravar uma resposta é mimimi.

Mas tem um lado bom das teorias conspiratórias que surgiram no rastro do ocorrido. De certa forma, elas funcionam como um indicador que mostra em qual bolha você está inserido (OK, estou simplificando, porque não há apenas duas).

Se em suas timelines de redes sociais e mensagens de WhatsApp aparece apenas que Lula, Dilma e PT derrubaram o avião, você está em uma bolha.

Se aparece apenas que Temer, Jucá, PMDB e PSDB foram os responsáveis por sabotar, você está em outra bolha.

Se você é da minoria em que as duas teorias aparecem mais ou menos por igual, meus pêsames. Sua vida deve ser um inferno.

O mais interessante é que as pessoas não percebem que há um mundo de gente defendendo algo totalmente oposto à sua timeline porque não consegue ver além da bolha. Isso, é claro, é culpa do algoritmo das redes sociais, que garante que você veja coisas de pessoas com a qual interage mais, com a qual concorda mais. Dessa forma, você fica mais tempo na rede, gerando conteúdo de graça e clicando em links patrocinados.

O susto por conta de alguns resultados nas eleições de 2014 (muitos achavam que Aécio ia levar, por exemplo) e de 2016 (outros tantos ficaram de queixo caído com a eleição de Dória no primeiro turno) são provas disso. Ou mesmo todo o processo de impeachment.

Alguns veículos de comunicação de grande alcance, como o próprio UOL, têm se esforçado em trazer textos que separam o que é fato do que é especulação na queda do avião. Mas esses textos não chegam a quem deveria ou, lá chegando, são recebidos com desconfiança. Nem tanto pela perda de credibilidade da imprensa nesse momento de polarização estúpida em que vivemos, mas porque as pessoas estão sendo guiadas pela emoção e não pela razão.

A impressão é de que realmente querem uma conspiração para o caso por ajudar, como já escrevi aqui, a preencher um vazio deixado pela aparente falta de sentido de uma realidade política e econômica que transforma em estagiários os roteiristas de House of Cards e Game of Thrones.

Neste momento, muita gente divulga informação de sites que claramente estão alimentando teorias de conspiração ao invés de promover investigação séria. Porque esses sites não fazem jornalismo, não contam com profissionais analisando dados e entrevistando pessoas, mas caçam-cliques para ganhar dinheiro através de views em anúncios ou foram construídos como armas na guerra digital – que se fortaleceu no Brasil após a pancadaria promovida por Dilma e Aécio em 2014.

São sites que não informam os seus responsáveis, que não têm endereço, anônimos e apócrifos, produzidos para formarem opinião e manipularem as diferentes bolhas que se estabelecem na sociedade.

Até entendo as pessoas que nunca refletiram sobre isso e não veem diferença entre uma Folha de S.Paulo, um O Globo, uma Carta Capital, um Nexo, uma Ponte Jornalismo de sites que não contam com assinatura, redação, fotos de colunistas, enfim.

O primeiro grupo, independente do que acha deles, dá a cara a tapa para bater. Podem ser processados diante de informações equivocadas por um motivo: as pessoas existem e podem ser encontradas. O segundo grupo, vive no submundo, buscando gente que torce para ser enganada, sendo armas de certas organizações e políticos. Usam nomes que parecem de veículos antigos, mas dificilmente conseguem ser rastreados por um oficial de Justiça, com uma liminar de direito de resposta.

A tristeza é ver pessoas sérias, de um campo ideológico ou de outro, neste momento de extrema emoção, compartilhando esses sites e páginas abastecidas com notícias distorcidas.

Como há, pelo menos, duas bolhas defendendo que houve conspiração, está acontecendo um fato interessante: conteúdo produzido por esses sites e páginas para abastecer uma bolha, está sendo compartilhado pela outra.

Daí, sites que normalmente são criticados por um grupo como chorume estão sendo difundidos por pessoas desse grupo com comentários como ”Veja o link! Ele traz provas que comprovam que não foi acidente” ou ”Veja! Pelo menos isso dá o que pensar, não?”. Quando abrimos, vemos conteúdo não checado, com inferências vazias, apurações mal feitas, maquinações que não passam pelo crivo lógico ou um monte de wishful thinking.

Espero que o caso seja investigado de forma transparente e rápida, como já disse. E que imprensa e investigadores não se deixem levar pelo esgoto que está circulando loucamente.

A ideia de pós-verdade, quando a emoção ao transmitir um fato é mais importante para gerar credibilidade em torno dele do que provas de sua veracidade em si, nunca pareceu tão pertinente.

Não que uma conspiração não seja possível, claro que é. Mas temos que esperar para dizer isso.

O problema é que há tanta gente que já se decidiu por essa opção que elas só aceitarão uma investigação que levar a resultados que vão ao encontro de sua opinião. Ou seja, que foi A ou B que mandou matar.

Caso contrário, se apontar falha humana ou mecânica, chuva, vento ou sabotagem envolvendo outras pessoas (como J.Pinto Fernandes que, como lembra Carlos Drummond de Andrade, estava na quadrilha, mas não havia entrado na história), perderá um pouco mais de fé em nossas já desacreditadas instituições, rangendo os dentes para o caso por toda a vida.

Enem passará a ser exclusivo para acesso às universidades

A novidade foi anunciada nesta quarta-feira, 18, pelo ministro da Educação, Mendonça Filho, durante coletiva para a divulgação dos resultados do Enem de 2016 e anúncio de outras mudanças

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) será usado exclusivamente para o acesso à educação superior. A novidade foi anunciada nesta quarta-feira, 18, pelo ministro da Educação, Mendonça Filho, durante coletiva para a divulgação dos resultados do Enem de 2016 e anúncio de outras mudanças. A mudança valerá já para a próxima edição do exame.

Com a mudança, o exame deixa de ser instrumento de certificação de ensino médio para maiores de 18 anos. A partir de agora, essa atribuição será do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), que hoje é direcionado a estudantes do ensino fundamental em idade irregular (a partir de 16 anos). Dos 8,6 milhões de inscritos no último Enem, cerca de 1,2 milhão queriam somente a certificação do ensino médio e poucos mais de 7,7% deles conseguiram a nota mínima.

“Não dá mais para aplicar uma avaliação tão abrangente, que exige mais do que o necessário, àqueles que têm objetivos distintos, impondo um ônus para quem não pensa no ensino superior”, disse. “A gente vai buscar algo mais enquadrado na demanda e estender aos apenados nas penitenciárias, assunto que levei à presidente do STF [Supremo Tribunal Federal], ministra Carmem Lúcia.”

O Enem, assim como o Encceja, é aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). O resultado final do Enem de 2016 divulgado nesta quarta-feira, 18, aponta para um dos piores desempenhos na história do exame, especialmente em linguagens, com quase mil notas zero e um único candidato a atingir a nota máxima, acertando entre 800 e 900 questões.

“O desempenho em todas as áreas está absolutamente estagnado. Não estamos conseguindo que nossos alunos do ensino médio aprendam mais desde 2008”, informou a presidente do Inep, Maria Inês Fini. Segundo ela, o Enem não foi criado para certificar o ensino médio e usava o Encceja como matriz para uma dupla função, que incluía o acesso às universidades. O fim dessa duplicidade pode ajudar nos próximos resultados.

“Tudo isso reflete aquilo que a gente tem colhido nos principais mecanismos de avaliação, como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb)”, avaliou o ministro Mendonça Filho. Para ele, a educação básica no Brasil não apenas estagnou, mas piorou. “Precisamos de reformas estruturais rumo a uma educação de qualidade, valorizando o professor e o conteúdo oferecido aos alunos. O projeto do Novo Ensino Médio, em tramitação no Congresso Nacional, tem também esse objeto”, concluiu.

MEC