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China mira América Latina em seu maior projeto de influência exterior

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China mira América Latina em seu maior projeto de influência exterior

Carolina Vila-Nova

Depois de ganhar impulso a partir de 2017, o maior projeto da Presidência Xi Jinping para ter acesso a mercados internacionais e atrair países para sua esfera de influência vai mirar a América Latina –e naturalmente seu maior mercado, o Brasil.

A chamada Belt and Road Initiative (BRI ou, informalmente, Nova Rota da Seda) liga Ásia, Oriente Médio, Europa e África por meio de ferrovias, portos e outras obras de infraestrutura.

O projeto já soma 22 países e 180 memorandos assinados, segundo o governo chinês; eram 46 memorandos até o fim de 2016, quando já estavam funcionando 39 ferrovias ligando a China à Europa.
Devido à sua posição geográfica, voltada para o Pacífico, o Chile tradicionalmente negocia com países asiáticos. Assim, foi o primeiro latino-americano a aderir à BRI por meio de um memorando assinado no fim de 2018.

É na cúpula dos Brics (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em novembro, em Brasília, que Pequim deve propor adesão dos países da região ao que Xi chama de “projeto do século”, dizem analistas e a mídia local.

Trata-se de uma decisão política relevante a expansão da BRI tão amplamente em termos geográficos e para além da concepção original.

O governo de Jair Bolsonaro tem emitido sinais dúbios em relação à China. A ala mais ideológica quer reduzir a exposição brasileira ao gigante asiático, que vê como uma ameaça estratégica.

Em aula magna a alunos do Instituto Rio Branco, academia do Itamaraty que forma diplomatas, o chanceler Ernesto Araújo disse que o Brasil “não vai vender sua alma para exportar minério de ferro e soja”. A China é a maior compradora de soja e minério de ferro do Brasil.

O setor reclamou, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, mais pragmático, afirmou que não haveria redução do comércio com a China.

Antes de embarcar para os EUA para se encontrar com o presidente Donald Trump, Bolsonaro anunciou uma visita a Pequim –uma vitória dos moderados, segundo Oliver Stuenkel, professor da FGV.

“Existe na China uma preocupação com a intensidade da retórica de Bolsonaro. Isso pode ter implicações para a relação com a China, mas a expansão da Belt and Road para a América Latina continua sendo uma prioridade para Pequim. A reunião entre Bolsonaro e Trump não muda essa lógica”, afirmou.

A preocupação dos Estados Unidos com o avanço chinês é justificada. Ao financiar obras para o porto de Pireus, na Grécia –quando o país estava estrangulado pela crise financeira–, Pequim fincou os pés em Bruxelas.

Vai fincar um pouco mais, já que no sábado (23) Pequim assinou com a Itália um memorando da BRI para investir em portos, logística e transporte marítimo –o primeiro acordo com um país do G7.

“Isso dá uma legitimidade muito grande ao projeto. Na Europa há um debate muito interessante sobre como a competição interna entre países europeus por investimentos chineses acaba reduzindo a capacidade europeia de agir com uma voz só e articular uma estratégia mais coerente em relação à China”, afirmou Stuenkel. “A adesão italiana dificulta essa estratégia.”

Para atuar em território afegão, a China conversou com o Taleban e grupos locais. Obteve voz no governo em Islamabad ao fazer do Corredor Econômico China-Paquistão (CEPC) peça central da BRI. Vai fixar presença militar na África ao construir uma base em Djibuti que será a única instalação militar chinesa fora da China.

Mas o fato é que os Estados Unidos têm pouca capacidade de competir com o avanço chinês, que se dá em áreas em que a China tem superioridade estratégica. “Os EUA não têm uma empresa para construir trem de alta velocidade na África nem têm trens de alta velocidade em seu território”, exemplifica Stuenkel.

Endividamento por projetos preocupa analistas

Para além da questão da influência política, analistas se preocupam com a falta de transparência dos projetos relativos à Belt and Road Initiative e o alto endividamento que geram.

Segundo algumas avaliações, isso torna uma série de países –especialmente nações pequenas, sem acesso ao sistema internacional de crédito– praticamente reféns de dívidas milionárias com a China.
Isso porque os projetos são geralmente financiados por empréstimos junto ao Estado chinês ou a instituições semiestatais chinesas.

Relatório do Centro para Desenvolvimento Global aponta oito países para quem a BRI já cria problemas de sustentabilidade da dívida, com impacto negativo sobre os gastos dos governos e sobre o crescimento econômico em geral.

“Não há dúvidas de que podemos identificar benefícios nos projetos sob a BRI, seja uma maior eficiência no comércio ou uma atividade econômica mais alta”, disse Scott Morris, um dos autores.
“Mas não podemos deixar de olhar para os custos. Para muitos países isso tem a ver com uma avaliação do endividamento e da sustentabilidade dessas dívidas. E aí não fica tão claro se há um benefício líquido para alguns países.”

“Praticamente todo o financiamento da BRI é feito por empréstimos e não por ajuda financeira, e não está claro no caso de muitos países se eles têm a capacidade para assumir tais dívidas”, explicou.

Djibuti, por exemplo, viu sua dívida externa pública aumentar de 50% para 85% do PIB em dois anos, segundo o FMI. A maior parte dessa dívida é com o China Exim Bank.

A China ainda pretende construir no país africano um porto, um terminal petrolífero e uma estrada ligando Djibuti a Addis Abeba, na Etiópia.

Uma das nações mais pobres da Ásia, apesar do crescimento de em média 8% por ano na última década, o Laos tem quase metade do seu PIB –US$ 6 bi– empenhada numa ferrovia que o liga à China.
No Paquistão, 80% dos US$ 62 bilhões do custo estimado para o CEPC são financiados pela China. Devido ao alto endividamento, o país já cancelou projetos ligados ao BRI e pediu créditos ao FMI.

Em 2011, a China concordou em perdoar uma parte da dívida do Tadjiquistão em troca de uma área de 1.158 km² em território disputado. Autoridades do país asiático dizem que cederam apenas 5,5% das terras que Pequim queria.

O Sri Lanka contraiu uma dívida de US$ 8 bilhões a uma taxa de juros de 6% para a construção do porto de Hambantota. Em julho de 2017, Pequim concordou em fazer um swap (troca) da dívida com um contrato de arrendamento de 99 anos para administrar o porto.

No Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro, uma mesa com presença de representantes da China e de países participantes do evento, como o Azerbaijão, discutiu a BRI.

Na ocasião, o presidente azeri, Ilham Aliyev, lembrou que por anos o país buscou e não obteve financiamento para construção de uma ferrovia. “Instituições financeiras deveriam prestar mais atenção e ajudar países a investirem em infraestrutura que terá impacto”, afirmou.

O Laos volta a ser citado como exemplo: o pequeno país tem um papel central em projetos ferroviários que são centrais para a agenda da BRI, mas tem capacidade muito limitada de financiá-los.

“O Banco Mundial ou Banco de Desenvolvimento da Ásia simplesmente não financiaria projetos nessa escala em um país como o Laos porque o risco é muito alto. Então o país fica num dilema”, concorda Morris. “Isso não significa que o investimento em tais projetos seja a resposta certa.”

Uma das ambições chinesas é usar a BRI como uma marca para atores financeiros –no caso da América Latina, por exemplo, com um banco de desenvolvimento regional investindo no projeto ao lado de alguma participação chinesa.

5 principais pontos do encontro entre Bolsonaro e Trump

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5 principais pontos do encontro entre Bolsonaro e Trump


Bolsonaro e Trump Direito de imagem Reuters
Image caption Bolsonaro e Trump participam de cerimônia no jardim da Casa Branca, onde discursaram e concederam entrevistas

O encontro entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, que encerrou nesta terça-feira (19) a primeira visita do líder brasileiro aos EUA como chefe de Estado, foi marcado por cinco pontos estratégicos na relação entre os dois países.

Em cerimônia no jardim da Casa Branca, onde discursaram e concederam entrevistas, eles trataram do apoio americano à entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), de uma eventual invasão militar da Venezuela, do avanço do socialismo no continente americano, do acordo bilateral em torno da base de Alcântara e do comércio com a China.

“Este nosso encontro retoma uma antiga tradição de parceria e, ao mesmo tempo, abre um capítulo inédito da relação do Brasil com os Estados Unidos. Hoje, destravamos assuntos que já estavam na pauta há décadas e abrimos novas frentes de cooperação”, disse Bolsonaro.

“Sei que teremos um ótimo relacionamento de trabalho, com muitas visões parecidas, e certamente a relação do Brasil com os EUA, por causa de nossa amizade, será provavelmente melhor que jamais foi”, afirmou Trump em seu discurso.

Após o encontro, Bolsonaro seguiria para o cemitério de Arlington, que fica bem próximo à capital americana, onde Bolsonaro deve homenagear militares americanos mortos em combate. O presidente retornará na noite de hoje ao Brasil.

Veja abaixo os cinco principais pontos do encontro.

Entrada na OCDE

Um comunicado conjunto do presidente Jair Bolsonaro e do líder americano Donald Trump divulgado na noite desta terça-feira informou que o Brasil começará a abrir mão do tratamento especial que recebe nas negociações da Organização Mundial do Comércio.

Na segunda-feira, o ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, declarou a jornalistas nos EUA que o representante de Comércio dos Estados Unidos, Robert Lighthizer, prometeu dar apoio ao pleito brasileiro na OCDE caso o Brasil abrisse mão de pertencer à lista de países com tratamento diferenciado.

A lista inclui nações autodenominadas em desenvolvimento e que, por isso, têm vantagens nas negociações, como maiores prazos para cumprir acordos.

“Vamos apoiar. Vamos pedir algumas coisas, mas queremos um relacionamento muito justo”, disse Trump sobre o pedido de Bolsonaro por apoio à entrada do Brasil na OCDE.

No entanto, nos discursos e nas entrevistas desta terça-feira, os presidentes do Brasil e dos EUA não haviam abordado especificamente os termos dessa negociação.

“Seguimos firmemente dedicados a equilibrar as contas públicas e transformar o ambiente de negócios. O apoio americano ao ingresso do Brasil na OCDE será entendido com um gesto de reconhecimento que marcará ainda mais a união que buscamos”, afirmou Bolsonaro.

Defensores de uma eventual entrada do Brasil na OCDE avaliam que o ingresso atrairia investimentos ao país – a entrada na organização funciona como uma espécie de selo de qualidade. Mas críticos dessa estratégia afirmam que o país ganharia pouco com a entrada na OCDE se precisasse abrir mão de muita coisa na OMC, sem deixar de ser efetivamente um país em desenvolvimento.

Um dos principais empecilhos passa também pela posição do governo americano acerca da expansão da OCDE – os EUA relutaram em permitir a entrada simultânea de vários novos postulantes. Hoje, a OCDE tem 36 países-membros. Além do Brasil, cinco países aguardam uma decisão sobre pedidos de adesão: Argentina, Peru, Croácia, Bulgária e Romênia. O Brasil foi o último a solicitar o ingresso.

Trump já havia manifestado apoio à candidatura da Argentina e gostaria que fosse dada preferência ao país, que fez o pedido de adesão um ano antes do Brasil.

Crise na Venezuela

Tanto Bolsonaro quanto Trump evitaram falar diretamente da possibilidade de invasão militar da Venezuela, mas ambos defenderam a saída do presidente Nicolás Maduro do poder.

Questionado pela imprensa no jardim da Casa Branca após os discursos dos dois presidentes, o americano afirmou que “todas as opções” estão abertas.

“Não baixamos as sanções mais duras [contra o governo Maduro]. Poderíamos ser muito mais duros, mas é muito triste porque não queremos nada além de cuidar de muita gente que está passando fome nas ruas. Estamos falando de um dos países mais ricos do mundo e estamos vendo muita pobreza, tristeza, falta de comida e de água. É muito triste.”

Trump elogiou o apoio brasileiro a Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino da Venezuela e foi reconhecido como chefe de Estado por mais de 60 países, e pediu que os militares abandonem o governo de Maduro.

“Pedimos aos integrantes dos setores militares da Venezuela que suspendam esse apoio a Maduro, que não é nada além do que uma marionete de Cuba, e que libertem seu povo. O Brasil e os EUA também estão unidos no apoio ao povo cubano e também ao povo da Nicarágua. Chegou a hora final do socialismo em nosso hemisfério”, afirmou Trump.

Questionado sobre o assunto, Bolsonaro evitou tratar da posição brasileira em caso de invasão americana na Venezuela. Segundo ele, o Brasil e os EUA farão juntos o que for possível para “solucionar o problema da ditadura venezuelana” e que há certas questões que, caso sejam divulgadas, “deixam de ser estratégicas”.

“É uma questão de estratégia. Tudo que tratarmos aqui será honrado, mas infelizmente certas informações se por ventura vierem à mesa não podem ser discutidas de forma pública”, disse o brasileiro.

Base de Alcântara

Trump e Bolsonaro exaltaram o acordo assinado pelos dois países em torno da base de Alcântara, no Maranhão. As salvaguardas tecnológicas (AST) permitirão o uso comercial da base de lançamento espacial. Pelos termos discutidos, os EUA poderão lançar satélites e foguetes da base maranhense, mas o território continuará sob jurisdição brasileira.

Segundo o presidente brasileiro, o acordo viabilizará o centro de lançamento de Alcântara.

“Depois de 20 anos, estamos finalizando um acordo de salvaguardas tecnológicas para permitir que empresas americanas façam lançamentos a partir do Brasil. É realmente uma localização privilegiada, graças a essa localização economizaremos muito dinheiro”, disse Trump. Segundo ele, seu governo está “determinado a reviver o legado americano no espaço”.

O uso comercial pelos EUA da base em Alcântara passou por negociações no início dos anos 2000, mas elas não prosperaram. Em 2013, as tratativas foram retomadas, mas somente agora tiveram avanços significativos.

Avanço do socialismo

Durante a entrevista a jornalistas brasileiros e estrangeiros, Bolsonaro foi questionado sobre o impacto na relação bilateral de uma eventual vitória de um candidato do Partido Democrata em 2020 na disputa à Casa Branca.

“É um assunto interno, respeitaremos o resultado das urnas em 2020, mas acredito piamente na reeleição de Donald Trump. O povo repetirá esse voto com toda certeza”, afirmou Bolsonaro, arrancando risos do colega americano.

Segundo presidente brasileiro, a “cada dia que passa essas pessoas voltadas ao socialismo e comunismo vão abrindo sua mente para a realidade”.

No discurso que antecedeu a entrevista, Bolsonaro faz duras críticas ao governo Maduro. “O reestabelecimento da democracia na Venezuela é de interesse comum entre nossos governos. O regime ditatorial venezuelano faz parte de uma coligação internacional conhecida como Foro de São Paulo, que esteve próximo de conquistar o poder em toda a América Latina. Pela via democrática, nos livramos desse projeto no Brasil.”

O Foro de São Paulo é uma organização formada por partidos e movimentos políticos de esquerda em 1990. Criada a partir de um seminário organizado pelo PT, a entidade se propõe a unir a esquerda latino-americana – e é alvo constante de críticas de setores ligados à direita.

Comércio com a China

As críticas frequentes do governo Bolsonaro ao comércio com a China também foram tratadas durante o evento na Casa Branca. Em Washington, Paulo Guedes, criticou a dependência do Brasil em relação aos chineses e defendeu a diversificação dos parceiros comerciais.

Questionado sobre eventuais mudanças na relação com a China, Bolsonaro afirmou: “O Brasil vai continuar fazendo negócio com o maior número de países possíveis. Apenas esse comércio não mais será direcionado pelo viés ideológico como era feito há pouco tempo. Então, estamos também irmanados nesse objetivo para o bem de nossos povos”.

O presidente brasileiro faz referência à guerra comercial entre Estados Unidos e China iniciada por Washington por causa do déficit comercial no lado americano (equivalente a quase R$ 3,4 trilhões).

Trump se resumiu a declarar, logo após o fim da entrevista, que “as coisas estão indo bem com a China”.

Os líderes de EUA e China devem se reunir em breve nos Estados Unidos para discutir as tarifas impostas a importações por ambos em meio à disputa comercial.

Mas há entraves de difícil solução entre Washington e Pequim, a exemplo da legislação em torno da transferência de tecnologia e do acesso livre ao mercado chinês.

 

Enchentes urbanas: a criminosa insistência em um modelo fracassado

Enchentes urbanas: a criminosa insistência em um modelo fracassado, artigo de Álvaro Rodrigues dos Santos

 

enchente
Foto: EBC

 

[EcoDebate] Apesar dos grandes recursos financeiros já investidos em obras e serviços de infraestrutura hidráulica, como ampliação das calhas de seus grandes rios, a dura realidade vem mostrando que um enorme número de médias e grandes cidades brasileiras estão cada vez mais vulneráveis a episódios de enchentes.

Há uma explicação elementar para tanto: resistindo a admitir o total fracasso do modelo adotado para o enfrentamento do problema, todas essas cidades continuam a cometer os mesmos erros básicos que estão na origem causal das enchentes urbanas.

Relembremos a equação básica das enchentes urbanas: “volumes crescentemente maiores de águas pluviais, em tempos sucessivamente menores, sendo escoados para drenagens naturais e construídas progressivamente incapazes de lhes dar vazão”.

Ou seja, a cidade, por força de sua impermeabilização, perde a capacidade de reter as águas de chuva, lançando-as em grande volume e rapidamente sobre um sistema de drenagem – valetas, galerias, canais, bueiros, córregos, rios – não dimensionado para tal desempenho. E aí, as enchentes. Ao menos em seu tipo mais comum.

Excessiva canalização de córregos e o enorme assoreamento de todo o sistema de drenagem por sedimentos oriundos de processos erosivos e por toda ordem de entulhos de construção civil e lixo urbano compõem fatores adicionais que contribuem para lançar as cidades a níveis críticos de dramaticidade no que ser refere aos danos humanos e materiais associados aos fenômenos de enchentes. E, lamentável e inexplicavelmente, as cidades continuam a cometer todos esses erros.

Da equação hidráulica enunciada decorrem duas linhas básicas de ação para a redução das enchentes urbanas: a primeira, voltada a aumentar a capacidade de vazão de toda a rede de drenagem, a segunda, voltada a recuperar a capacidade da cidade reter uma boa parte de suas águas pluviais, reduzindo assim o volume dessas águas que é lançado sobre as drenagens.

Muitas cidades, a exemplo de São Paulo, tem quase exclusivamente atuado na primeira linha básica de ação, ou seja, procurado aumentar a capacidade de vazão de córregos e rios principais através de obras e serviços de engenharia, a um custo extraordinário e com resultados altamente comprometidos pelo violento processo de assoreamento a que todo esse sistema de drenagem continua sendo submetido. Infelizmente, ainda dentro dessa primeira linha de ação, praticamente nada se faz no que conta à indispensabilidade de atualização/readequação hidráulica da velha rede de drenagem já instalada, ou seja, canais, galerias, bueiros, etc.

Quanto à segunda linha de ação, ou seja, a recuperação da capacidade do espaço urbano em reter águas de chuva, priorizou-se a construção dos malfadados e dispendiosos piscinões, uma obra que por suas terríveis contra-indicações urbanísticas, pois que na prática constitui um verdadeiro atentado urbanístico, financeiro, sanitário e ambiental, deveria ser a última das últimas alternativas a serem pensadas.

No entanto, com esse mesmo objetivo de retenção máxima de águas de chuva, e sem as contra-indicações dos piscinões, há um enorme elenco de medidas, virtuosamente utilizadas em vários países, que sequer foram consideradas, apesar das insistentes cobranças do meio técnico: reservatórios domésticos e empresariais para acumulação e infiltração de águas de chuva, calçadas e sarjetas drenantes, pátios e estacionamentos drenantes, valetas, trincheiras e poços drenantes, multiplicação dos bosques florestados por todo o espaço urbano, etc. São as chamadas medidas não estruturais, que uma vez aliadas a um vigoroso combate aos processos erosivos e a uma radical coibição do lançamento irregular de lixo urbano e entulho da construção civil, constituem providência indispensável para o sucesso de qualquer programa de combate às enchentes. E mesmo que isoladamente não suficientes para a eliminação total do problema, terão a propriedade de reduzir drasticamente a quantidade, as dimensões e os custos das medidas estruturais de aumento de vazão que ainda se façam necessárias.

Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)

  • Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas

  • Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”, “Cidades e Geologia”

  • Consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia

  • Articulista e colaborador do EcoDebate.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/03/2019

“Enchentes urbanas: a criminosa insistência em um modelo fracassado, artigo de Álvaro Rodrigues dos Santos,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/03/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/03/12/enchentes-urbanas-a-criminosa-insistencia-em-um-modelo-fracassado-artigo-de-alvaro-rodrigues-dos-santos/.

 

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Rússia deixa tratado nuclear que foi marco do fim da Guerra Fria

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Rússia deixa tratado nuclear que foi marco do fim da Guerra Fria


O presidente russo, Vladimir Putin, assinou um decreto que suspende a participação da Rússia no INF (sigla inglesa para Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário), um dos principais acordos de desarmamento nuclear da história, anunciou o Kremlin nesta segunda-feira (4).

Firmado entre os Estados Unidos e a União Soviética em 1987, o acordo foi um marco do fim da Guerra Fria.

A Rússia já havia anunciado, no mês passado, que iria suspender sua participação no tratado depois que os Estados Unidos disseram que iriam se retirar do pacto sob o pretexto de violações russas ao acordo.

A Rússia nega ter descumprido o tratado e tem afirmado que Washington quer romper sozinho com o acordo. Washington anunciou na sexta que sairia do INF (sigla em inglês para Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário) em seis meses, a menos que Moscou encerre o que considera violações do acordo.

​Putin ordenou a suspensão da Rússia até que os EUA parem de violar o tratado e instruiu o Ministério de Relações Exteriores russo a informar os signatários sobre a decisão, segundo o texto do decreto.

O INF levou à eliminação de 1.846 ogivas soviéticas e 846 americanas até 1991. Na prática, contudo, os dois países seguiram desenvolvendo armas com capacidades análogas às dos mísseis proibidos. Não só eles: vários países, incluindo a potência nuclear China, operam tais foguetes. ​

No dia 31 de janeiro, Washington anunciou que sairia do INF em seis meses, a menos que Moscou encerre o que considera violações do acordo.

Para os americanos, os russos violaram o combinado após testar o míssil de cruzeiro 9M729, de alcance estimado em 2.000 km, em 2015, e de tê-lo instalado perto de fronteiras europeias em 2017. O INF veta qualquer míssil com alcance entre 500 km e 5.500 km na região.

Na época, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, também acusou os Estados Unidos de violarem os termos do INF e de outros acordos armamentistas, como o tratado de não proliferação. ​

Países que apagaram o passado colonial de seu nome, como as Filipinas querem fazer

Países que apagaram o passado colonial de seu nome, como as Filipinas querem fazer

Jaime Rubio Hancock

À direita, retrato de Felipe II, de Ticiano (Museu do Prado). © Proporcionado por Prisa Noticias À direita, retrato de Felipe II, de Ticiano (Museu do Prado). Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, manifestou a intenção de mudar o nome do país, com a meta de eliminar o rastro espanhol. O arquipélago foi batizado em 1543 com o nome de Filipinas em homenagem ao então príncipe e futuro rei da Espanha Felipe II. As ilhas foram colônia espanhola até 1898.

Não é a primeira vez que essa possibilidade é mencionada. Como noticiado pela agência Europa Press, houve propostas na época de Ferdinand Marcos, ditador que governou o país entre 1965 e 1986. Algumas semanas atrás, o próprio Duterte mencionou a ideia de chamar o país de Maharlika, um termo malaio que era usado nas referências às civilizações pré-hispânicas da ilha de Luzón, a maior do arquipélago. A atual Constituição prevê a possibilidade de mudar o nome depois de um referendo.

Não é comum um país mudar de nome, mas existem antecedentes. Às vezes, isso ocorre por conflitos históricos: recentemente, por exemplo, a Antiga República Iugoslava da Macedônia passou a ser chamada Macedônia do Norte, depois de um acordo com a Grécia, onde está a região da Macedônia. E, muitas vezes, também quando se quer apagar o legado do colonialismo. Especialmente considerando que as metrópoles, frequentemente, optavam por nomes que não tinham nada a ver com a história da região. Estes são alguns exemplos:

Burkina Fasso. Em 1984, o Governo de Alto Volta mudou o nome do país africano para Burkina Fasso. Essa antiga colônia francesa na África declarou independência em 1966, mantendo o nome colonial que fazia referência ao rio Volta. O novo nome significa “terra do povo incorruptível”.

As Cataratas de Vitória no rio Zambeze, no Zimbábue. As Cataratas de Vitória no rio Zambeze, no Zimbábue. eSwatini. É a mudança mais recente: em abril de 2018, coincidindo com o 50º aniversário da Suazilândia, o rei Mswati III mudou o nome desse país sul-africano para eSwatini. Como Suazilândia, esse nome também significa “a terra dos suázis”. A mudança ocorreu, principalmente, por causa do passado colonial do nome, visível no sufixo inglês land. O monarca também justificou a decisão devido à semelhança da pronúncia de Suíça em inglês (Switzerland).

Outras colônias também eliminaram o sufixo “land” quando se tornaram independentes, como Togoland (Togo) e Bechuanaland (Botsuana).

Gana. Esse era o nome do império comercial que, até o século XIII, estava localizado no noroeste do atual território do país. Foi colônia britânica no século XIX com o nome de Costa do Ouro, sendo uma importante fonte desse mineral. Em 1957, adotou o nome de Gana, quando se tornou domínio da Commonwealth. Tornou-se totalmente independente em 1960.

Indonésia. A partir do século XVI, o país tornou-se colônia dos Países Baixos com o nome de Índias Orientais Holandesas, cujo território abrangia Sumatra e as ilhas adjacentes, como Java e Madura. O nome Indonésia foi sugerido por etnólogos e geógrafos em meados do século XIX, e adotado pelos nacionalistas do país a partir do século XX. A Indonésia declarou independência com esse nome em 1949.

Mali. Esse país foi colônia francesa no século XIX com o nome de Sudão Francês. Tornou-se independente em 1960 e, após uma breve união com o Senegal, adotou o nome do antigo império de Mali. Esse império, como o de Gana, teve um grande peso no comércio internacional da Idade Média.

Myanmar. A junta militar que deu um golpe de Estado na Birmânia em 1989 mudou o nome do país para República da União de Myanmar. Essa mudança de nome é atualmente reconhecida pelas Nações Unidas e pela União Europeia, embora outros países ainda a rejeitem, como os Estados Unidos.

Quando os ingleses colonizaram o país no século XIX, escolheram o nome Burma, embora no mesmo território também fosse usado o termo mais formal, Myanmar. Alguns independentistas reivindicaram essa segunda fórmula a partir dos anos vinte, como forma de lembrar a história de seu reino antes da chegada dos ingleses.

República Democrática do Congo. A colônia do Congo Belga declarou independência da Bélgica em 1960. Entre 1971 e 1997, o nome oficial do país era Zaire. O ditador Mobutu Sese Seko escolheu para o país o que considerava um nome mais africano: Zaire é uma variação do termo que significa “grande rio” em vários idiomas locais.

Quando Laurent-Désiré Kabila assumiu o poder em 1997, instituiu o nome anterior, Congo, tanto para o país quanto para o rio. Esse nome, na verdade, tem sua origem na época colonial, pois os europeus identificaram o rio com o Reino do Congo, cuja população habitava a região próxima à nascente do rio.

Esse Congo, com capital em Kinshasa, não deve ser confundido com a República do Congo, com capital em Brazzaville. No final do século XIX era uma colônia francesa, com o nome de Congo Francês. O país tornou-se independente em 1960 e é muito menor que seu vizinho, com 4,6 milhões de habitantes, comparado com os mais de 80 milhões da República Democrática do Congo.

O boxeador Muhammad Ali com o ditador Joseph Mobutu. Em 1974, Ali ganhou o campeonato dos pesos pesados em uma luta realizada em Kinshasa, a capital do país então chamado Zaire. O boxeador Muhammad Ali com o ditador Joseph Mobutu. Em 1974, Ali ganhou o campeonato dos pesos pesados em uma luta realizada em Kinshasa, a capital do país então chamado Zaire. Sri Lanka. O país manteve o nome de Ceilão durante a ocupação portuguesa (a partir do início do século XVI) e a ocupação britânica (1802-1948). Só mudou o nome para Sri Lanka em 1972, após 24 anos de independência, embora já fosse usado em movimentos nacionalistas da primeira metade do século XX. Lanka era o antigo nome da ilha.

A propósito, o nome persa da ilha é Serendip, do qual vem o termo serendipidade (do inglês serendipity, que significa acaso ou coincidência). Essa palavra foi popularizada graças a Horace Walpole, que a cunhou em 1754 fazendo referência ao tradicional conto persa Os Três Príncipes de Serendip.

Djibouti. Durante a ocupação francesa do século XIX, esse território africano onde estiveram os sultanatos de Ifat e Adal era chamado de Somália Francesa e, a partir de 1967, de Território Francês dos Afares e Issas. O país conseguiu a independência em 1977, já com o nome de Djibouti, de origem obscura: poderia estar relacionada a uma besta mitológica dos Issas ou ao nome das terras dos Afares, que os marinheiros árabes também deram ao porto da capital. Os Afares e Issas são os dois grupos étnicos mais numerosos do país.

Zâmbia e Zimbábue. A colônia de Rodésia, no sul da África, recebeu esse nome em homenagem ao empresário e colonizador britânico Cecil Rhodes. Essa colônia foi dividida em duas regiões, Rodésia do Norte e Rodésia do Sul que, quando se tornaram independentes, passaram a ser chamadas, respectivamente, de Zâmbia (1964) e República da Rodésia (1965). Em 1980 e após uma década de conflitos, essa segunda república passou a se chamar Zimbábue. O nome Zâmbia vem do rio Zambeze, enquanto o do Zimbábue tem origem, provavelmente, em uma antiga cidade do sul do país.

Embora seja comum, nem todos os países apagam esse passado colonial. Por exemplo, a Costa do Marfim mantém o nome dado por portugueses e franceses que comercializavam essa matéria-prima, e o Gabão conserva o nome dado pelos portugueses, que tem origem na palavra gabão, um tipo de casaco usado em Portugal, pela semelhança do formato com o do estuário do rio Komo, em Libreville, a capital.

Por que o polo norte magnético está em movimento e como isso nos afeta

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Por que o polo norte magnético está em movimento e como isso nos afeta

Shannon Hall

O polo norte magnético está inquieto.

Diferentemente do Polo Norte geográfico, onde as linhas de longitude se encontram no topo do mundo, o polo magnético é o ponto que a bússola reconhece como norte. No momento, está 4 graus ao sul do Polo Norte geográfico, que fica no oceano Ártico a 90 graus norte.

Mas não foi sempre assim.

Em meados do século 19, o polo norte magnético flutuava até bem mais ao sul, pairando na altura do Canadá. No entanto, nos últimos 150 anos, o polo vem se distanciando do Canadá em direção à Sibéria.

Não se pode ignorar a mudança de endereço, uma vez que as bússolas magnéticas ainda apoiam a navegação moderna, desde os sistemas usados pela aviação civil e militar até os que orientam nossos iPhones.

Em 1965, os cientistas iniciaram uma base de dados para representar o campo magnético da Terra, a fim de conseguir acompanhar as constantes mudanças de endereço do polo. A atualização do Modelo Magnético Global é realizada a cada cinco anos – a mais recente em 2015 -, pois o campo magnético está sempre em movimento.

No início de 2018, ficou óbvio que a edição de 2015 tinha problemas, porque o polo havia acelerado seu passeio para a Sibéria, tornando sem efeito o modelo e, consequentemente, alguns sistemas de navegação.

Assim, pela primeira vez, os cientistas atualizaram o modelo antes do previsto e o lançaram na manhã da última segunda-feira (11). Como o trabalho foi concluído após a paralisação parcial do governo norte-americano (atrasando sua publicação), os pesquisadores ainda tentam descobrir os mistérios do interior da Terra que devem estar provocando o imprevisível comportamento do polo.

Uma transformação contínua

A frenética dança do polo norte magnético foi descoberta quase 400 anos atrás, quando o matemático inglês Henry Gellibrand percebeu que o polo havia se aproximado centenas de milhas do polo geográfico num período de 50 anos.

“Foi uma descoberta monumental de que o campo não era estático, mas dinâmico”, comenta Andrew Jackson, um geofísico na ETH de Zurique.

Não demorou muito, no entanto, para que o norte magnético mudasse de direção e começasse a se afastar do polo geográfico – demonstrando que o campo não era apenas dinâmico, mas imprevisível.

“O problema que ainda hoje enfrentamos é que não temos um bom esquema que preveja a variação de movimentos do campo”, informou Jackson.

Em vista disso, os cientistas começaram a rastrear o inquieto campo magnético. Os primeiros mapas foram desenhados a mão por navegantes exploradores e revelaram que, nos duzentos anos seguintes, o polo magnético rodopiou entre as várias ilhas e canais do Arquipélago Ártico.

Em 1860, fez uma curva acentuada em direção à Sibéria. Desde então, o polo já viajou quase 2.500 km e sua posição mais recente foi no meio do Oceano Ártico, ainda em direção à Rússia.

Os cientistas atribuem esse gosto por viajar ao ferro líquido que sacode dentro do núcleo externo de nosso planeta. Esse ferro flutua: sobe, esfria e afunda. E esse movimento lá embaixo carrega o campo magnético da Terra, produzindo mudanças cá em cima.

Para mapear com mais precisão essas mudanças, cientistas lançaram, há quase 55 anos, o precursor do Modelo Magnético Mundial, que começou como uma parceria entre os EUA e a Grã-Bretanha.

O mapa que hoje conhecemos existe em sua forma atual desde 1990 e é criado por um órgão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e pelo Centro Britânico de Mapeamento Geológico (BGS). É encomendado por agências militares dos EUA e da Grã-Bretanha e usado por muitas outras forças armadas em todo o mundo.

Assim como com o GPS, os sistemas de navegação usados por satélites, aeronaves, navios e outros veículos dependem de bússolas para garantir que estão indo na direção certa. Boa prova disso são os grandes números brancos no fim das pistas de pouso dos aeroportos, que indicam a direção magnética da pista.

Mas, como o campo magnético se move, essa posição muda e as pistas têm de ser repintadas. Este ano, por exemplo, as pistas de pouso do Aeroporto Nacional Dwight D. Eisenhower em Wichita, Kansas, receberão novos nomes que indicarão as novas direções. Serão gastos centenas de milhares de dólares nesse processo – que inclui repintar os enormes números do fim de cada pista e substituir sinalizações.

E tudo isso depende do Modelo Magnético Global, que não é nada fácil de construir. Ao contrário do quilograma ou do segundo, o campo magnético não pode ser definido uma vez e depois usado durante décadas.

“O campo magnético muda constantemente”, afirma Susan MacLean, diretora aposentada da divisão de ciências geofísicas da NOAA, que já ajudou a montar o modelo magnético. “Ele muda com o tempo, muda de lugar; e muda até a forma como muda.” O rastreamento do campo magnético do planeta, ela acrescentou, é parecido com a meteorologia.

E, assim como o clima, prever exatamente onde o polo estará é simplesmente impossível. Mas os cientistas conseguem chegar perto se têm uma boa quantidade de dados coletados por satélites e observatórios terrestres. Essas informações permitem deduzir como o campo magnético mudou nos últimos anos e a extrapolar o futuro com um modelo que – assim esperamos – se manterá preciso pelos próximos cinco anos.

A peregrinação do polo

Depois do lançamento do Modelo Magnético Global em 2015, os cientistas checaram periodicamente as medições decampo para garantir que estivessem prevendo com precisão as variações do campo magnético da Terra. Quando fizeram essa checagem no início de 2018, descobriram que o modelo estava desalinhado com a realidade.

“Notamos que o desvio no Ártico estava aumentando mais rápido do que esperávamos”, conta Arnaud Chulliat, geofísico da Universidade do Colorado, em Boulder, e da NOAA.

Embora o polo norte magnético esteja se distanciando há muito tempo do Canadá em direção à Sibéria, a velocidade do movimento muda drasticamente. Durante a maior parte do século 20, o polo se moveu quase 10 km por ano. Na década de 1980, acelerou, e no ano 2000 já estava viajando a mais de 56 km por ano, quase saindo do Canadá.

Então, em 2015, o polo desacelerou até 48 km por ano. Portanto, quando a equipe publicou o mapeamento magnético mais recente, previa-se que a velocidade continuaria a cair – só que isso não aconteceu.

Pouco depois da publicação do modelo, o polo norte magnético acelerou novamente, e agora a velocidade flutua em torno de 56 km por ano. No fim de 2017, o polo cruzou a linha internacional de mudança de data e entrou no Hemisfério Oriental.

“O problema não é que o polo está em movimento; é o fato de que está acelerando a essa taxa”, comenta William Brown, geofísico do BGS. “Quanto mais aceleração ou desaceleração houver, tanto mais difícil fica prever o que acontecerá a seguir.”

A consequência disso é que o modelo atual está incorreto, pelo menos no Ártico.

A maioria de nós nunca passará muito tempo – ou qualquer tempo – no topo do mundo; mas alguns voos internacionais passam bem perto do Polo Norte geográfico. O modelo magnético tem de ser preciso por uma questão de segurança.

Alguém que fosse usar o modelo atual para viajar ao polo norte magnético acabaria a 40 km de distância da localização correta do polo.

Assim, os cientistas correram para consertar o modelo, alimentando-o com vários anos de dados recentes. A nova versão disponível é um trabalho conjunto do BGS e da NOAA.

Mas a paralisação parcial do governo dos EUA atrasou o esforço de terminar a revisão dos sistemas disponíveis on-line ao público mantidos pela NOAA. Os pesquisadores conseguiram terminar a atualização na segunda-feira.

Os mapas abertos ao público têm muitos usos, desde o recálculo dos nomes de pistas de pouso até a garantia de que os sistemas do Departamento de Defesa estão devidamente instalados. Engenheiros incorporam o modelo nos sistemas de navegação de smartphones e carros.

Mas, para a maioria da população em baixas e médias latitudes, o modelo atual está apto para uso.

“Abaixo de 65° norte, longe do Canadá, o usuário médio notará muito pouca diferença em sua vida diária”, informa Ciaran Beggan, geofísico do BGS.

Apocalipse geomagnético? Provavelmente não.

Com as atualizações finalizadas, os cientistas estão ansiosos por compreender as causas da escapulida do polo em direção à Sibéria. “É óbvio que está acontecendo alguma coisa estranha”, comenta Phil Livermore, geofísico da Universidade de Leeds, na Inglaterra.

Durante a longa vida da Terra, o campo magnético enfraqueceu várias vezes. O polo norte magnético escorregou até a “base” do planeta e o polo sul magnético pulou em direção ao topo. O processo levou alguns milhares de anos, mas, quando a força total do campo voltar, terá se invertido.

A viagem recente do polo, juntamente com outras mudanças – como o enfraquecimento do campo magnético da Terra -, tem levando alguns cientistas a se perguntar se uma inversão dessas está prestes a acontecer, na escala de tempo geológico.

“Alguns requisitos da inversão magnética conferem”, explica Courtney Sprain, geofísica da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, acrescentando que não é possível ter certeza em definitivo.

A maioria dos cientistas, incluindo Sprain, têm dúvidas de que haverá uma inversão geomagnética; em primeiro lugar porque, embora o polo norte magnético esteja mesmo em movimento, o fenômeno não é global, mas regional.

Para Livermore, há duas grandes estruturas magnéticas no núcleo externo: uma sob o Canadá e outra sob a Sibéria. O polo magnético resulta da interação entre os dois.

A estrutura sob o Canadá está enfraquecendo. Como consequência, está perdendo um cabo de guerra com a Sibéria, que vai trazendo para si o polo norte magnético. Enquanto isso, o polo sul magnético permanece relativamente imóvel.

Em segundo lugar, embora o campo magnético da Terra esteja enfraquecendo, muitos peritos afirmam que ainda está bem acima da média geológica de longo prazo.

Peter Olson, geofísico da Universidade Johns Hopkins, acredita que as mudanças em curso representam uma flutuação transitória, e não uma reversão.

Mesmo que o campo magnético esteja à beira de uma inversão, os cientistas garantem que não há perspectiva apocalíptica. Embora o campo desempenhe um papel fundamental de proteção contra a poderosa radiação solar, os registros fósseis não revelam nenhuma extinção em massa durante as reversões passadas.

E, embora também haja riscos para as redes de energia e comunicações, a humanidade terá muito tempo para se preparar.

“De todos os problemas que temos, esse não está entre os dez maiores”, esclarece Olson.

Cada brasileiro joga mais de 40 quilos de comida no lixo por ano

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Cada brasileiro joga mais de 40 quilos de comida no lixo por ano – CartaCapital

Escrito por Deutsche Welle

Quantidade total descartada é suficiente para alimentar 13 milhões de pessoas

A cultura do “é melhor sobrar do que faltar” impulsiona o desperdício de alimentos no Brasil, aponta uma pesquisa recente realizada pela Embrapa com apoio da Fundação Getúlio Vargas. O gosto pela fartura, desde a ida ao supermercado até o preparo das refeições, e a preferência por comida fresca à mesa faz com que cada brasileiro jogue mais de 40 quilos de comida no lixo por ano.

Além de ser associada à hospitalidade e ao cuidado com a família, a abundância está ligada ao status, aponta o estudo. “O Brasil é um país muito desigual, e a comida sinaliza riqueza. Famílias que enfrentaram pobreza no passado, por exemplo, tendem a gostar de preparar uma mesa farta, como forma de mostrar que vivem tempos melhores”, afirma Gustavo Porpino, analista da Embrapa e líder da pesquisa sobre desperdício, realizada no âmbito dos Diálogos Setoriais União Europeia-Brasil.

Cada família brasileira joga fora quase 130 quilos de comida por ano, uma média de 41,6 quilos por pessoa

Ter a despensa sempre abastecida também traz tranquilidade para quem tem baixo poder aquisitivo. Por ser prioridade no orçamento, a comida é comprada e estocada em grandes quantidades para garantir que será suficiente para todo o mês. Contudo, o preparo de porções exageradas e o não reaproveitamento das sobras fazem com que parte da comida vá diretamente para o lixo.

A classe social não é o que determina o desperdício, aponta a pesquisa da Embrapa. “As famílias que desperdiçam pouco não são necessariamente as mais pobres, mas as que adotam hábitos de consumo mais sustentáveis”, explica Porpino.

Na prática, são as pessoas que fazem compras menores, preparam lista de compras e reutilizam as sobras em novas refeições. A pesquisa, que ouviu 1.764 pessoas de toas as classes sociais e regiões do país, aponta que quem tem maior consciência sobre o impacto do desperdício no orçamento tende a descartar menos comida.

Segundo o estudo, a família brasileira joga fora quase 130 quilos de comida por ano, uma média de 41,6 quilos por pessoa. Os alimentos que mais vão para o lixo, por percentual do total desperdiçado, são: arroz (22%), carne bovina (20%), feijão (16%) e frango (15%).

Cálculos do Instituto Akatu, ONG voltada ao consumo consciente, indicam que se uma família brasileira que gasta em média 650 reais por mês com alimentos reduzisse pela metade o desperdício com comida e depositasse o valor equivalente (cerca de 90 reais por mês) numa poupança, acumularia cerca de 1 milhão de reais em 70 anos, considerando o rendimento anual.

Além de pesar no bolso, o desperdício prejudica o meio ambiente, pois os recursos utilizados na agricultura para a produção de alimentos, como água, acabam sendo em vão.

“A Fao [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura] estima que se o desperdício de alimentos fosse concentrado em um único país, ele seria o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, depois dos EUA e da China, representando 8% das emissões globais, e o maior usuário de água, ultrapassando a Índia e a China”, compara Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu.

Além da renda familiar e de recursos naturais, com o desperdício de alimentos aptos ao consumo vai para o lixo também a oportunidade de alimentar quem sofre com a fome.

“No Brasil, o elevado desperdício de alimentos convive com a insegurança alimentar, uma combinação infeliz para um país onde 22,6% da população enfrenta algum nível de insegurança alimentar e com 54,8 milhões de pessoas vivendo com até 5,5 dólares por dia, linha de pobreza proposta pelo Banco Mundial”, comenta Porpino.

A pesquisa sugere que os brasileiros não estão alheios aos malefícios do desperdício. A grande maioria dos entrevistados (94%) tem consciência de que devem evitá-lo. Segundo Porpino, as sobras até são guardadas na geladeira, como forma de aliviar a culpa, mas não são de fato reaproveitadas. Assim, o descarte é apenas procrastinado.

No âmbito internacional, um terço da produção total de alimentos, ou 1,3 bilhão de toneladas, vai para o lixo, o que seria suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas, de acordo com cálculos da Fao. Com base nesse cálculo, é possível estimar que 8,7 milhões de toneladas de comida são desperdiçadas no Brasil, o suficiente para alimentar mais de 13 milhões de pessoas.

Ainda de acordo com o estudo, os números do Brasil o posicionam à frente da maioria dos países europeus. Uma pesquisa da União Europeia publicada em 2017, por exemplo, revelou que na Alemanha, Espanha, Holanda e Hungria são desperdiçados, em média, 439 gramas de comida por domicílio por semana, enquanto no Brasil são 353 gramas por domicílio por dia.

Uma das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas é reduzir pela metade o desperdício per capita de alimentos no mundo até 2030. Segundo Mattar, quantificar o desperdício de alimentos e fortalecer os sistemas de informação sobre a geração e coleta de resíduos em cada país é fundamental para que tal objetivo seja alcançado.