Archive for the ‘Geografia’ Category

As ciências humanas e a guerra cultural no Brasil

POR UM PROJETO PARA AS CIDADES BRASILEIRAS

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Com a Rota da Seda, a China entra no vácuo aberto por Trump

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Pequim conecta 66 países em três continentes com o canteiro de obras global. O Brasil de Temer despreza os investimentos
DPA/FotoArena
Putin China

Na reunião de cúpula em Pequim, Xi Jinping, o anfitrião, Vladimir Putin, presidente de vários países e um funcionário brasileiro do 3º escalão

O Deutsche Bank, maior banco da Alemanha, anunciou em maio sua participação, com 3 bilhões de dólares, no financiamento do projeto chinês das novas Rotas da Seda, de conexão com países da Ásia, África e Europa por ferrovias e estradas, ao Norte, e por mar, ao Sul.

A decisão, que deverá ser acompanhada de iniciativas semelhantes de várias instituições financeiras, é uma resposta positiva ao chamamento do presidente Xi Jinping de unir aquele que é considerado o maior programa de infraestrutura do mundo ao plano europeu de investimento, conhecido como Plano Juncker. Além de vias de transporte, serão construídos portos, aeroportos, barragens, dutos de petróleo e gás, obras para geração e distribuição de eletricidade e telecomunicações, sistemas de água e esgoto e habitações.

A união dos projetos chinês e europeu de investimentos significa a ocupação de parte do espaço deixado com o abandono, pelos Estados Unidos, por iniciativa de Donald Trump, dos tratados Transatlântico e Transpacífico, propostos pelo ex-presidente Barack Obama para barrar a influência econômica do país oriental no mundo.

A decisão do Deutsche Bank foi anunciada duas semanas depois da realização do Belt and Road Forum, em Pequim, sobre as Rotas da Seda, convocado por Xi Jinping e prestigiado por 29 chefes de Estado, inclusive o presidente Vladimir Putin, da Rússia. A América Latina foi representada por dois presidentes, Mauricio Macri, da Argentina, e Michelle Bachelet, do Chile. O Brasil enviou só seu secretário da Presidência da República.

O pouco caso brasileiro para com o projeto chinês, considerado a maior oportunidade de investimentos e negócios internacionais das últimas décadas e de grande significado político e diplomático, ocorre no quarto ano de economia doméstica estagnada, sem que o governo consiga colocar em pé nem mesmo seu acanhado programa de infraestrutura.

Lançada em 2013, a iniciativa adota o mesmo nome da estrada construída entre 206 a.C. e 220 d.C., durante a dinastia Han, e tem potencial para ser a maior plataforma mundial de colaboração regional, segundo Kevin Sneader, presidente da consultoria McKinsey na Ásia. Abrange 66 países, com 65% da população do planeta, cerca de um terço do PIB e um quarto de todo o transporte de mercadorias e serviços.

Só no ano passado, os projetos e negócios realizados geraram 494 bilhões de dólares, contabiliza a consultoria PwC. Números preliminares da McKinsey indicam que os novos empreendimentos anunciados em 2016 somaram 400 bilhões de dólares, valor 2,1% acima do previsto, mas eles podem superar em mais de 10% as projeções, prevê a consultoria.

de Investimento em Infraestrutura, criado pela China, é um dos financiadores das obras (Foto: Li Xin/Xinhua via Zuma/FotoArena)

A PwC estima que a China gastou o equivalente a 3 trilhões de dólares em infraestrutura no ano passado, valor 10% acima de 2015 e 40% superior à média dos últimos cinco anos. Os investimentos fazem parte da estratégia definida por Pequim para enfrentar tanto as dificuldades econômicas internas quanto a Grande Recessão mundial e tem força suficiente para conduzir a uma nova etapa da globalização, avaliam vários economistas.Marcos Antonio Macedo Cintra, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Eduardo Costa Pinto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explicam a estratégia no artigo “China em Transformação: Transição e Estratégias de Desenvolvimento”. Apesar da desaceleração, dizem, a economia chinesa permanece uma das mais dinâmicas do mundo e continua a criar entre 12 milhões e 13 milhões de postos de trabalho urbanos ao ano.

Com o aumento da taxa de investimento, de 40% do PIB para 47%, entretanto, o crescimento ficou desequilibrado, pois gera capacidade ociosa em inúmeros setores produtivos e passa a depender da construção de obras gigantescas, da expansão do mercado imobiliário, do endividamento das províncias e dos governos locais, bem como da elevada alavancagem de alguns segmentos dos setores bancário e não bancário.

Busca-se, assim, um novo regime de crescimento sustentável, ancorado em um dinamismo menos intensivo em capital e em energia, e ainda um novo contrato social (um Estado de Bem-Estar Social com características chinesas) para a redução das desigualdades sociais e regionais e a implementação de maior cobertura no sistema de saúde pública e de previdência, sublinham os economistas.

A provisão de bens públicos universais, o desenvolvimento de uma urbanização e uma industrialização com menor impacto sobre o meio ambiente, a ampliação da renda e do consumo da população são os pilares do planejamento estratégico que visa reformar o regime de crescimento nos próximos anos.

“Esse caminho de desenvolvimento, ainda em construção, pressupõe um processo de aprendizado contínuo com avanços e recuos. Articula uma estratégia nacional, inserida regional e globalmente, que visa tornar a China um país moderno, rico e poderoso. As políticas macroeconômica, industrial, de ciência e tecnologia, externa e de segurança são direcionadas pelo Estado para a construção de uma estabilidade política, a melhora das condições de vida do povo chinês e a reconquista de uma posição internacional autônoma.”

Os megaprojetos internacionais de infraestrutura são, conforme destacado acima, um dos eixos da transição interna e, ao mesmo tempo, da redefinição das relações com o restante do mundo, por desencadearem um processo de reconfiguração da ordem global. Não se trata, entretanto, de uma opção tirada da cartola, como provavelmente imaginam aqueles analistas incansáveis na elaboração reiterada de previsões furadas de derrocada do país asiático por insubmissão ao livre-mercado.

“A construção de infraestrutura para fomentar o comércio e a estabilidade social foi uma pedra fundamental da própria prosperidade de longo prazo da China durante mais de 2 mil anos. A política recentemente enunciada baseia-se na história de antigas redes de comércio e transmissão de cultura entre esse país, a Ásia Central e o Sudeste Asiático. A Europa está no longínquo terminal Oeste dessas redes”, explica o economista Peter Nolan, professor da Universidade de Cambrige e consultor do governo chinês, no livro Understanding China: The Silk Road and the Communist Manifesto.

O trem Golden Eagle percorre trecho recém-construído da nova Estrada da Seda, entre a Ásia e a Europa

O governo não abre mão da estratégia político-econômica nem da sua permanente revisão e reformulação, em sintonia com a dinâmica da realidade. A planificação estratégica visa à harmonia, ou seja, o equilíbrio de forças, destacam Cintra e Pinto. Nesse sentido, os interesses privados ou capitalistas não devem ser poderosos o suficiente para ameaçar a supremacia incontestável do Estado, que mantém amplo conjunto de empresas e bancos públicos e regula rigorosamente diversas esferas econômicas e as relações com o exterior.“Os mecanismos de mercado – a taxa de juros, a taxa de câmbio, a tributação, os preços – são considerados um instrumento e não um fim em si mesmos e a abertura assume a condição de eficácia que conduz a uma diretriz operacional, qual seja, alcançar e ultrapassar os concorrentes estrangeiros”, esclarecem os autores do artigo.

As adequações da estratégia ocorrem por meio de reformas, que consistem em mudanças feitas de modo integrado, como detalham os economistas Michel Aglietta e Guo Bai, no livro China’s Development: Capitalism and Empire: “A reforma é a transformação conjunta de estruturas e instituições econômicas. É pluralista e alimenta-se das contradições que gera, em um processo interminável. Não tem qualquer referência em relação a qualquer modelo ideal.

O seu significado não é teleológico; é imanente à prática histórica. Graças à continuidade da liderança política, a reforma pode ser gradual, informada por uma visão de longo prazo e testada no experimento pragmático. O planejamento estratégico visa à harmonia, que é o equilíbrio de forças que contribui para reforçar a soberania do Estado. Consequentemente, interesses capitalistas nunca serão tão poderosos a ponto de ameaçar a supremacia primordial do Estado. É por isso que o Estado mantém um grande domínio de propriedade soberana e regula firmemente as finanças”.

O avanço chinês foi muito além das elucubrações ocidentais. Transcorrido um quarto de século desde as reformas iniciadas entre 1989 e 1990, chama atenção Nolan, o cenário parece muito diferente daquele amplamente previsto e desejado no Ocidente. “O colapso do ‘Império do Mal’ na União Soviética não foi seguido pelo colapso do regime do Partido Comunista na China.

A ‘mudança de regime’, que muitas pessoas ainda esperam e trabalham para acontecer, não ocorreu. O PCC tem 87 milhões de integrantes e em 2021 celebrará o centenário da sua fundação. Sob seu comando o país experimenta a era mais notável de crescimento e desenvolvimento da história moderna. Sob o guarda-chuva protetor da estabilidade política e social, conquistou três décadas de crescimento em alta velocidade.”

Com o controle absoluto sobre o sistema político, o Partido Comunista Chinês restaurou a legitimidade anteriormente personificada no imperador, acrescentam Cintra e Pinto. Ele prolongou e radicalizou uma tradição milenar ao criar uma espécie de “dinastia mandarim”, que segue governando a China segundo os mesmos preceitos morais confucianos do período imperial.

A CIDADE-MERCADORIA E OS LIMITES DA REFORMA URBANA BRASILEIRA

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A cidade-mercadoria e os limites da reforma urbana brasileira

OCIDENTE NÃO SABE NEM DO CHEIRO DO QUE A EURÁSIA ESTÁ COZINHANDO

Terra de ninguém (INVESTIMENTO ESTRANGEIRO)

INVESTIMENTO ESTRANGEIRO O governo escancara a economia, mas os países cujo exemplo diz seguir fazem o oposto

 

Por Carlos Drummond

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Rejeitados. Os Estados Unidos vetaram a compra do porto de Nova York pela Dubai Ports World e da Unocal por uma companhia chinesa, em benefício do interesse nacional

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Depois de reforçar o protagonismo do Ministério da Fazenda e do Banco Central, pressionar pelas reformas trabalhista e previdenciária e reduzir as metas de inflação, o governo pretende agora filiar o Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A proposta foi encaminhada na segunda-feira 3 à entidade, que reúne 35 países adeptos da assim chamada economia livre de mercado.
As iniciativas são apresentadas como urgentes e indispensáveis para tornar o País mais atraente ao investidor estrangeiro. O Brasil seria uma das economias mais fechadas do mundo, reverbera o mantra refutado pelos estudos sérios sobre o assunto. Dessa falsa premissa conclui-se que seria necessário ampliar a abertura comercial, adotar regras ainda mais favoráveis aos investimentos estrangeiros e não discriminar as empresas de outros países nas compras governamentais para se desenvolver.

A realidade no mundo industrializado é, entretanto, o inverso do que se sustenta, conforme mostram dados eloquentes do próprio governo. Segundo levantamento do Ministério das Relações Exteriores, feito por solicitação do deputado Carlos Zarattini, do PT, os países avançados, enfáticos defensores da abertura contínua e indiscriminada dos emergentes e dos subdesenvolvidos, são altamente seletivos na aceitação de recursos externos. “Os dados mostram claramente a existência, nas economias centrais, de um protecionismo muito grande. Toda a argumentação de que eles são abertos e nós fechados não tem substância alguma. Apesar disso, o Brasil praticamente iguala a empresa estrangeira à nacional e o governo quer ainda alterar a lei do espaço aéreo, derrubar o limite à participação externa em empresas aéreas e abolir a proibição da venda de terras para não brasileiros.”


O argumento de que a economia brasileira é uma das mais fechadas do mundo não se sustenta


Entre os mais seletivos estão os Estados Unidos, que restringem o ingresso de recursos externos destinados à aquisição de terras, mineração, energia, telecomunicações, transporte marítimo e aeronáutico, serviços financeiros e segurança. As empresas estrangeiras que quiserem atuar na exploração de petróleo têm de criar filial nos EUA controlada por cidadãos de países que estendam tratamento recíproco às firmas estadunidenses. O “Buy American Act”, de 1933, manda dar preferência a produtos e materiais de construção doméstica nas compras governamentais.
O Canadá controla o investimento externo em geração e distribuição de energia elétrica, mineração, imóveis, serviços financeiros e construção civil. O Estado tem forte presença em diversos setores e há elevado grau de regulação. Há restrições nas licitações realizadas por empresas estatais e a participação estrangeira só é admitida excepcionalmente.
Todo investimento externo na Alemanha é precedido de avaliações quanto ao seu risco para a economia e a segurança do país, e é monitorado.

O governo francês pode controlar todo o movimento de capitais com o exterior, para garantir a defesa dos interesses nacionais. Limita a participação na exploração de recursos naturais – incluídas as fontes energéticas –, no fornecimento de água e de energia elétrica e nas áreas digital, de transporte público, comunicação, saúde e segurança. O Código Monetário e Financeiro prevê a possibilidade de repatriação de ativos de estrangeiros na França.
Na Itália, o princípio da reciprocidade é o parâmetro para a determinação do acesso do investimento estrangeiro aos diversos setores. O ingresso de recursos vincula-se, assim, à receptividade dos outros países à participação italiana nas suas economias. A aprovação está subordinada ainda a requisitos de segurança nacional, idoneidade e impacto doméstico.

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Interdição. O governo quer liberar a venda de terras para estrangeiros, mas em vários países essa possibilidade não existe, por contrariar interesses estratégicos

O Japão controla o fluxo de recursos externos direcionados à propriedade de terras, agricultura, floresta e pesca, petróleo, mineração, telecomunicações, transporte aéreo e marítimo. A mesma diretriz é adotada nas áreas de segurança nacional, serviços de eletricidade, gás e água, radiodifusão, transportes e produtos biológicos.>
A Austrália, para citar um exemplo de país fora do grupo das economias centrais, controla o capital externo nos setores de mídia, telecomunicações, transportes, defesa, alimentos e infraestrutura. Em 2015, o governo vetou a compra, por duas empresas chinesas, de metade da empresa Ausgrid, de geração de energia elétrica. O contraste com a postura brasileira não poderia ser maior. Nos últimos dois anos, aceitou-se passivamente, sem determinar condições nem exigir contrapartida, a aquisição da maior parte do setor elétrico local por empresas chinesas, com a gigante estatal State Grid à frente.

Economias emergentes bem-sucedidas mostram que o melhor caminho é o oposto àquele seguido pelo Brasil. A China controla de perto os investimentos estrangeiros na agricultura, em alta tecnologia e inovação, na manufatura avançada, em conservação e novas fontes de energia, proteção ambiental e modernização do setor de serviços. As participações externas nessas áreas são encorajadas, mas subordinadas a regras de transferência de tecnologia e o acesso ao mercado obedece a um conceito amplo de segurança nacional.
A situação do Brasil diante dos 28 países de todos os continentes abrangidos pelo levantamento é humilhante. Segundo o professor de Direito Econômico e Economia Política da Faculdade de Direito da USP, Gilberto Bercovici, especialista em direito de mineração, “pode ser que ainda exista alguma barreira em um setor específico, mas, desde os anos 1990, a política é não fixar restrições. O que é muito ruim, pois o mundo todo controla o investimento externo, menos o nosso país”. Um exemplo gritante está na área de petróleo e gás, justamente uma das mais protegidas no exterior. “A Statoil, estatal norueguesa, comprou recentemente um dos principais campos do pré-sal, o de Carcará. Será que a Petrobras pode comprar algum campo de petróleo na Noruega?”


Outros países restringem o investimento externo porque, ao contrário do Brasil, têm projeto nacional


Outro exemplo é o acordo de acionistas da Vale para pulverização do controle do seu capital, o que eliminará qualquer possibilidade de ascendência do governo sobre a empresa. Hoje, a mineradora é controlada por fundos de pensão, Bradespar, Mitsui e BNDESpar, reunidos na empresa Valepar. Por se tratar de um investimento estratégico, aquela decisão é inaceitável. “Nos Estados Unidos, na Europa, na Austrália e na África do Sul, uma mineradora proprietária da maior mina de ferro do mundo, que é Carajás, jamais poderia fazer o mesmo. O pior é que o BNDES e os fundos de pensão concordam. Agora, a empresa toda poderá ser comprada por uma Anglo American, uma Rio Tinto”, alerta o professor.
“Nenhum país trata seus ativos estratégicos como o Brasil. Prevalece a visão de que, se é público, é de ninguém”, sublinha Bercovici. Entre vários casos de recusa de investimento externo em defesa de interesses nacionais, cita a proibição, pelo governo dos Estados Unidos, da compra da petrolífera Unocal pela China National Offshore Oil Corporation, em 2005, e da aquisição de seis portos, incluído o de Nova York, pela Dubai Ports World, em 2006.

“Outros países restringem o investimento externo porque têm um projeto nacional, que nos falta há pelo menos três décadas. É preciso definir o papel desses recursos a partir do que se deseja para o Brasil. Deve-se estimular seu ingresso nas áreas em que temos carências tecnológicas, a exemplo dos setores de ponta. É fundamental garantir a influência nas decisões das empresas transnacionais quanto à localização e inovação, entre outros aspectos”, reforça Antonio Corrêa de Lacerda, professor de Economia da PUC de São Paulo e sócio-diretor da ACLacerda Consultores.
É necessário ter cautela, diz, para não nos tornarmos excessivamente dependentes. “Todo capital externo, inclusive o investimento direto, gera passivos permanentes na forma de remessas de royalties, lucros e dividendos. Isso exige planejamento para gerar receitas em dólares e fazer frente a tais compromissos. Não é a soja, ou o minério de ferro, que vai pagar isso. É indispensável termos exportação de elevado valor agregado e é importante que as empresas que aqui atuam também exportem.”•

Os desafios da África Subsaariana em sete figuras

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

população da África Subsaariana, Europa, ALC, China e Índia

 

[EcoDebate] A ONU alerta para a situação dramática de cerca de 13 milhões de pessoas que estão ameaçadas pela fome na região do Sahel e, também, de 26 milhões de pessoas ameaçadas na África Subsaariana. O Sahel abarca uma faixa de 500 a 700 km de largura e 5 400 km de extensão, tendo o deserto do Saara, ao norte, e a savana do Sudão, ao sul; o oceano Atlântico, a oeste, e o mar Vermelho, a leste. O Sahel perpassa áreas de 16 países: Gâmbia, Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Argélia, Níger, Nigéria, Camarões, Chade, Sudão, Sudão do Sul, Eritreia, Etiópia, Djibouti e a Somália.

Se o quadro já é dramático hoje em dia – como também mostram as notícias de milhares de migrantes e refugiados que tentam atravessar o mar Mediterrâneo para chegar à Europa – a situação tende a se agravar com o crescimento populacional e a degradação do meio ambiente.

O gráfico acima, com dados da Divisão de População da ONU, mostra que, em 1950, a população da Europa era de 549 milhões de habitantes, de 544 milhões na China, de 376 milhões na Índia, 179 milhões na África Subsaariana e 169 milhões na América Latina e Caribe (ALC). A população somada de Europa, China, Índia e ALC era de 1,6 bilhão de habitantes, sendo que a população da África Subsaariana naquela época representava cerca de 10% deste total. Mas como o ritmo da transição demográfica foi diferente em termos nacionais e regionais a distribuição espacial e o ritmo de crescimento populacional mudou a configuração. Em 2016, a Europa já apresentava o segundo menor contingente de habitantes (641 milhões) a China e a Índia ficavam com primeiro e segundo lugar e a África Subsaariana, com 1 bilhão de habitantes ficava em terceiro lugar.

O grande destaque das próximas décadas será o rápido crescimento demográfico da África. Em 2046, a população da África Subsaariana deve atingir 2 bilhões de habitantes, ficando em primeiro lugar na comparação acima. Em seguida viria a Índia com 1,7 bilhão de habitantes, superando a China (com 1,36 bilhão), a ALC com 779 milhões de habitantes, superando a Europa com 711 milhões de habitantes.

Na segunda metade do século XXI, a população deve decrescer na maior parte do mundo, mas vai continuar aumentando na África Subsaariana e deve atingir 3 bilhões de habitantes em 2072 e 4 bilhões de habitantes em 2100. Ou seja, no final do século, a população da África Subsaariana será equivalente à soma da população de Índia, China, Europa e ALC também com 4 bilhões de habitantes. Portanto, entre 2016 e 2100 a população da África Subsaariana vai passar de 1 bilhão para 4 bilhões de habitantes, colocando um grande desafio para a redução da pobreza, a melhoria da qualidade de vida e a sustentabilidade ambiental. Há que destacar que o Norte da África já está em uma fase mais adiantada da transição demográfica e deve apresentar estabilidade do crescimento até o final do século.

O aumento da população da África Subsaariana vai provocar um grande aumento do número de habitantes por km2. A densidade demográfica de um país não é um bom indicador de desenvolvimento humano e econômico. Podemos encontrar países altamente desenvolvidos com baixa e alta densidade e países muito pobres com baixa e alta densidade demográfica. Alguns países com alta densidade demográfica (como Japão, Coréia do Sul, Singapura, Holanda, etc.) possuem alto índice de desenvolvimento humano (IDH). Mas também há aqueles com alto nível de IDH e baixíssima densidade demográfica (como Canadá, Austrália, etc.). De outro lado, existem países com baixa densidade demográfica e baixo IDH (como Angola, Gabão, Mauritânia, etc.), assim como países com alta densidade demográfica e baixo IDH (Bangladesh, Índia, Ruanda, etc.). O gráfico abaixo mostra que a densidade demográfica do mundo era de 57 habitantes por km2, em 2015.

 

densidade demográfica da África Subsaariana, mundo, regiões e China

 

Abaixo deste valor estavam a África Subsaariana (44 hab/km2), Europa (33 hab/km2) e ALC – América Latina e Caribe (32 hab/km2). Acima da média, estavam a Ásia (142 hab/km2), e a China (147 hab/km2). No final do século, a África Subsaariana poderá ter uma densidade de 180 hab/km2. A Europa (29 hab/km2) e a ALC (36 hab/km2) terão poucas modificações. A China terá uma grande queda da densidade (107 hab/km2) até 2100. A Ásia terá aumento da densidade até meados do século e depois queda até 2100, com 156 hab/km2. A alta densidade demográfica da África Subsaariana na segunda metade do século XXI vai trazer grandes desafios o bem-estar humano e ambiental.

Nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) está expresso uma meta de crescimento econômico de 7% ao ano para os países pobres, como os da África Subsaariana. Porém, o que se tem visto na atual década é uma redução das taxas de crescimento econômico, como mostram os dados do FMI. Na média da região, o crescimento ficou em torno de 3% em 2016, o que representa quase uma estagnação da renda per capita.

 

crescimento anual do PIB da África Subsaariana

 

O gráfico abaixo, do Banco Mundial, mostra que houve uma redução da pobreza no mundo em desenvolvimento, entre 1990 e 2012, em especial no leste asiático (que inclui a China). A pobreza foi reduzida também na África Subsaariana, mas em ritmo bem menor do que nas outras regiões e, atualmente, concentra a maior quantidade de pobres do mundo.

 

poverty reduction in Africa lags other regions

 

Portanto, a África é o continente que apresenta as maiores taxas de pobreza e de pessoas passando fome no mundo e a produção per capita de alimentos ficou abaixo de outras regiões do mundo. O mais grave é que o futuro pode estar comprometido em decorrência da degradação ambiental, da perda de biodiversidade e dos danos às terras aráveis e à produção de comida. A grave situação da África é retratada no relatório “No ordinary matter: conserving, restoring and enhancing Africa’s soils” (2014), que mostra que o continente sofre com uma tripla ameaça: a) degradação do solo; b) colheitas fracas e c) uma população crescendo em ritmo acelerado.

O relatório diz que a estabilidade política, a qualidade ambiental, a fome, a pobreza tem a mesma raiz e, no longo prazo, uma solução fundamental, passa pela restauração do mais básico de todos os recursos, o solo. A recomendação básica é que os governos africanos e os doadores internacionais invistam na gestão da terra e do solo, criando incentivos sobre os direitos à terra seguros para incentivar o cuidado e a gestão adequada dos terrenos agrícolas. Além disso, o relatório recomenda aumentar o apoio financeiro para melhorar a gestão sustentável da terra.

 

o declínio da produtividade dos solos africanos

 

O declínio da produtividade dos solos acontece no contexto de uma crise hídrica. 40% dos africanos (mais de 330 milhões de pessoas) não têm acesso à água potável, e metade das pessoas que vivem em áreas rurais não tem acesso. O problema mais grave é na África subsaariana, onde mais de 320 milhões de pessoas não têm acesso. Neste momento, a África subsaariana é a única região do mundo que não acompanha os objetivos de desenvolvimento do milênio da ONU de 2015.

 

percentagem da população com acesso à agua tratada

 

O maior rio da África, o Nilo, não consegue mais atender a demanda populacional. A bacia hidrográfica do rio Nilo, abrange uma área de 3.349.000 km² e não dá conta de abastecer as populações dos 10 países que, em maior ou menor proporção, dependem de suas águas. A população conjunta de Uganda, Tanzânia, Ruanda, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi, Sudão, Sudão do Sul, Etiópia e Egito era de 84,7 milhões de habitantes em 1950, passou para 411,4 milhões em 2010, devendo chegar a 877,2 milhões em 2050 e 1,3 bilhão de habitantes em 2100, segundo dados da divisão de população das Nações Unidas. Os problemas de fome, perda de biodiversidade e pobreza humana e ambiental são, cada vez mais, graves na região. A capacidade de carga da bacia hidrográfica do rio Nilo já não suporta o consumo da população atual e suas necessidades econômicas. Já existem diversos conflitos pela disputa da água entre os povos e os países.

Segundo a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), até 2025, daqui a 8 anos, 1,8 bilhão de pessoas sofrerão escassez absoluta de água e dois terços do mundo viverão sob condições de estresse hídrico. O avanço da seca e dos desertos, o aumento da escassez de água e a diminuição da segurança alimentar podem provocar um enorme “tsunami” de refugiados climáticos e migrantes.

Para resumir todos estes problemas, a Footprint Network apresenta duas medidas que são muito úteis para se avaliar o impacto humano sobre o meio ambiente e a disponibilidade de “capital natural” do mundo. A Pegada Ecológica serve para avaliar o impacto que o ser humano exerce sobre a biosfera. A Biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecossistema à demanda humana por consumo, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza. A unidade de medida é o hectare global (gha).

A Pegada Ecológica per capita da África sempre foi baixa e se manteve praticamente estável, pois estava em 1,3 gha em 1961 e passou para 1,4 gha em 2013. Porém, a biocapacidade sofreu uma grande queda devido ao crescimento populacional. A biocapacidade per capita estava em 3,7 gha em 1961 e caiu para 1,2 gha em 2013. Assim, o continente africano que tinha um superávit ambiental até 2005, passou a uma situação de déficit nos últimos anos. E o pior é que este déficit deve aumentar com o crescimento da população e da economia. Na África Subsaariana não dá para falar em decrescer o consumo, pois o padrão de vida já é muito baixo. Todavia, a estabilização da população e o futuro decrescimento demográfico deveriam estar nos planos de ação das políticas públicas para evitar a perda acelerada da biocapacidade.

 

pegada ecológica e biocapacidade per capita: África

 

Todos os dados acima mostram que tanto a África como um todo, quanto a África Subsaariana já vivem em uma situação crítica em termos econômicos, sociais e ambientais, mas os desafios vão se avolumar nas próximas décadas. Sem dúvida, é preciso aprofundar a discussão sobre população, desenvolvimento e ambiente, pois o desequilíbrio é grande e pode jogar a África num cenário de colapso, com grande repercussão global.

Referências:
ALVES, JED. O crescimento demoeconômico da África, degradação do solo e insegurança alimentar, Ecodebate, 17/07/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/07/17/o-crescimento-demoeconomico-da-africa-degradacao-do-solo-e-inseguranca-alimentar-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A densidade demográfica na África Subsaariana, Ecodebate, 15/06/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/06/15/a-densidade-demografica-na-africa-subsaariana-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

IMF. Africa’s Rise—Interrupted?, 2016
http://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2016/06/index.htm

Ryan Andrews. All About Drinking Water, Precision Nutrition, 2012
http://www.precisionnutrition.com/all-about-drinking-water

Water Crisis In Africa, 2012
https://www.youtube.com/watch?v=cRTk7aSbyd0

Word Bank. POVERTY IN A RISING AFRICA, 2016
http://www.worldbank.org/en/region/afr/publication/poverty-rising-africa-poverty-report

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/06/2017

“Os desafios da África Subsaariana em sete figuras, artigo de José Eustáquio Diniz Alves,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/06/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/06/16/os-desafios-da-africa-subsaariana-em-sete-figuras-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]