Archive for the ‘Geografia Física’ Category

O que o iceberg gigante tem a ver com você?

Um pedaço de gelo mais de três vezes maior que a cidade de São Paulo está para se soltar de uma plataforma glacial na distante Antártida. Saiba por que você deveria se preocupar com isso

Um iceberg três vezes maior do que a cidade de São Paulo pode estar para se desprender de uma plataforma de gelo na Antártida. Cientistas britânicos que monitoram o local desde 2014 afirmam que tudo o que separa uma parte da plataforma Larsen C de sair flutuando pelo oceano é uma pontinha de gelo de 20 quilômetros de extensão. A rachadura que se abriu na plataforma tem 80 quilômetros hoje – a distância entre São Paulo e Campinas – e quase 500 metros de largura. Apenas em dezembro do ano passado ela cresceu 18 quilômetros.

Ninguém sabe quando a quebra ocorrerá. Os galeses do projeto Midas, da Universidade de Swansea, afirmam que ela é iminente. O engenheiro John Sonntag, da Nasa, que sobrevoou o local em novembro, se diz mais cético. Segundo ele, o rompimento pode levar vários meses para acontecer.

“Tudo o que sabemos é que o iceberg mais hora, menos hora, vai se soltar, e quando isso acontecer, reduzirá em cerca de 10% o tamanho da plataforma Larsen C”, disse Sonntag ao OC. “Por qualquer métrica, é um evento imenso.”

De fato, imenso é a palavra: o iceberg de 5.000 quilômetros quadrados seria o quinto ou sexto maior já registrado, e o maior na região da Península Antártica, a porção do continente gelado mais próxima da América do Sul.

Mas por que você deveria prestar atenção nisso? O que um bloco de gelo colossal quebrando no fim do mundo tem a ver com você?

Neste momento, não muita coisa. (A menos, claro, que você tenha planos de navegar pelo mar de Weddell em 2017.) O efeito mais temido de episódios de perda de gelo, o aumento do nível do mar, não ocorrerá neste caso. Isso porque a plataforma Larsen C, assim como todas as plataformas de gelo da Antártida, é feita de gelo que já está flutuando no mar. Pense num copo de refrigerante com gelo: quando ele derrete, o nível do líquido não muda.

O que deixa os cientistas de cabelo em pé com a Larsen C é que este episódio parece ser a realização sombria de uma antiga profecia sobre a mudança climática: a de que, num mundo em aquecimento perigoso, as primeiras vítimas seriam as plataformas de gelo da Antártida, e elas se esfacelariam de norte para sul, a partir da ponta da Península.

Essa previsão foi feita pelo glaciologista americano John Mercer em 1978. E encontrou sua realização justamente nas plataformas de gelo Larsen. Em 1978 elas eram três. Hoje resta apenas uma.

A Larsen A, a menor das três (veja o mapa), se rompeu em 1995. Na época pouca gente deu bola, já que não havia monitoramento frequente por satélites e a influência da humanidade no aquecimento da Terra apenas começava a mostrar sinais evidentes.

Em 2002 foi a vez da Larsen B, e a história foi outra: a desintegração da plataforma, que pareceu explodir em milhares de icebergs, foi acompanhada em tempo real pelos cientistas. O evento durou pouco mais de um mês, levando embora uma área de 3.275 quilômetros quadrados de gelo que hoje é mar aberto. O verão de 2002 foi um dos mais quentes da história na Península Antártica, que por sua vez é uma das regiões do planeta que mais aqueceram: cerca de 3oC desde 1950. Aquele foi um dos alertas mais poderosos já dados sobre a realidade – e o perigo – da mudança do clima.

O problema das plataformas de gelo é o efeito colateral de seu rompimento. Essas imensas línguas de gelo flutuantes funcionam como rolhas ou barragens, freando o escoamento das geleiras que nelas desembocam. Essas geleiras, caso escorram mais rápido para o oceano, podem, sim, elevar o oceano. A Península Antártica tem armazenado em seus glaciares o equivalente a meio metro de nível do mar. Confie em mim: você não vai querer todo esse gelo despejado na água.

Segundo Sonntag, a preocupação é que o rompimento do iceberg seja um sinal de enfraquecimento da plataforma, que deixe a Larsen C – a quarta maior plataforma de gelo do mundo, com 48 mil quilômetros quadrados, um pouco maior que o Espírito Santo – suscetível a uma desintegração.

“Esses eventos de desintegração podem acontecer em poucos dias. É quase como bater com um martelo num painel de vidro”, compara o pesquisador da Nasa. “Se a plataforma for embora, todas as geleiras que a alimentam perderão seu freio e começarão a fluir muito mais rápido e a aumentar o nível do mar.” Foi exatamente o que aconteceu com a Larsen B. “Mas a Larsen B era muito menor e freava muito menos geleiras que a Larsen C.”

Um estudo publicado em 2015 pelos pesquisadores do Midas sugere que o rompimento do iceberg deixaria a plataforma numa configuração geométrica instável, favorecendo o colapso. Sonntag diz que não há como saber. “Mas certamente este evento não é um bom sinal.”

Observatório do Clima

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Tipos de Nuvens

Tipos de Nuvens

– Cirrus(CI): aspecto delicado, sedoso ou fibroso, cor branca brilhante.

– Cirrocumulus(CC): delgadas, compostas de elementos muito pequenos em forma de grânulos e rugas. Indicam base de corrente de jato e turbulência.
– Cirrostratus(CS): véu transparente, fino e esbranquiçado, sem ocultar o sol ou a lua, apresentam o fenômeno de halo (fotometeoro).
– Altostratus (AS): camadas cinzentas ou azuladas, muitas vezes associadas a altocumulus; compostas de gotículas superesfriadas e cristais de gelo; não formam halo, encbrem o sol; precipitação leve e contínua.
– Altocumulus (AC): banco, lençol ou camada de nuvens brancas ou cinzentas, tendo geralmente sombras próprias. Constituem o chamado “céu encarneirado”.
– Stratus (St): muito baixas, em camadas uniformes e suaves, cor cinza; coladas à superfície é o nevoeiro; apresenta topo uniforme (ar estável) e produz chuvisco (garoa). Quando se apresentam fracionadas são chamadas fractostratus (FS).
– Stratocumulus (SC): lençol contínuo ou descontínuo, de cor cinza ou esbranquiçada, tendo sempre partes escuras. Quando em vôo, há turbulência dentro da nuvem.
– Nimbostratus (NS): aspecto amorfo, base difusa e baixa, muito espessa, escura ou cinzenta; produz precipitação intermitente e mais ou menos intensa.
– Cumulus (Cu): contornos bem definidos, assemelham-se a couve -flor; máxima freqüencia sobre a terra de dia e sobre a água de noite. Podem ser orográficas ou térmicas (convectivas); apresentam precipitação em forma de pancadas; correntes convectivas. Quando se apresentam fraccionadas são chamadas fractocumulus (FC). As muito desenvolvidas são chamadas cumulus congestus.
– Cumulonimbus (CB): nuvem de trovoada; base entre 700 e 1.500 m, com topos chegando a 24 e 35 km de altura, sendo a média entre 9 e 12 km; são formadas por gotas d’água, cristais de gelo, gotas superesfriadas, flocos de neve e granizo. Caracterizadas pela “bigorna”: o topo apresenta expansão horizontal devido aos ventos superiores, lembrando a forma de uma bigorna de ferreiro, e é formado por cristais de gelo, sendo nuvens do tipo Cirrostratos (CS).

Deriva dos continentes e paleogeografia

http://www.comunitexto.com.br/deriva-dos-continentes-e-paleogeografia/#.Vp46nfkrLDc

Deriva dos continentes e paleogeografia

A teoria tectônica das placas (surgida na década de 1960) agrupa duas noções fundamentais: a deriva dos continentes e a expansão do assoalho oceânico. Assim, a comunidade de ciências da Terra passou de uma visão “fixa” do globo a um sistema litosférico em perpétuo movimento.

Os argumentos

Muitas observações e dados embasaram a ideia da deriva dos continentes:

  • a similitude da forma das bordas continentais;
  • a fauna e flora fósseis similares antes do período Mesozoico nos continentes atualmente separados;
  • sedimentos carboníferos (glaciais e hulhíferos) encontrados atualmente nos continentes, em posição incoerente com os meios a sua volta;
  • cadeias de montanhas que se tornam contínuas quando os continentes atravessados por elas são “reaproximados”;
  • dados do paleomagnetismo mostram que os continentes deslocaram-se e seguiram caminhos diferentes;
  • inversões registradas do campo magnético pela crosta oceânica mostram uma expansão contínua do assoalho oceânico.

As condições

Para que todos os dados tenham uma realidade na teoria tectônica das placas, é preciso considerar determinadas pressões, tais como:

  • a existência de uma litosfera rígida sobre a astenosfera dúctil, que permite o decuplamento mecânico do manto profundo;
  • a composição da litosfera deve ser um número finito de placas, cujos limites (zonas de subducção, falhas transformantes e dorsais) correspondem a zonas sísmicas;
  • os deslocamentos horizontais das placas devem-se aos movimentos convectivos no manto.

As grandes etapas da deriva dos continentes

No limite entre os períodos Paleozoico e o Mesozoico (há aproximadamente 250 Ma), distingue-se uma única massa continental, a Pangeia (resultante de um agrupamento continental durante o Paleozoico), rodeada de um oceano (Panthalassa). Em seguida, essa massa continental se dividiu e formou dois subconjuntos (Laurásia e Gonduana), com um novo oceano nas bordas a Oeste (Tétis). Esses blocos continentais continuaram a se fragmentar (e, eventualmente, convergir), para originar as placas e os atuais oceanos. Alguns pesquisadores extrapolam os deslocamentos atuais no futuro e preveem uma nova convergência continental “total” em 250 Ma, terminando um ciclo de aproximadamente 500 Ma.

geo

Tudo a ver

82-Resumos-Geologicos-CAPA-webEste texto foi retirado do livro “82 Resumos Geológicos“. A obra explica de forma didática e ilustrada os principais conceitos da geologia, além disso inclui problemas e questões de múltipla escolha para consolidar os conceitos apresentados, mapas e gráficos didáticos e palavras-chaves sobre cada tema apresentado. Aquele trabalhão de resumir a matéria em fichas está feito!

Funções eco-hidrológicas das florestas nativas e o Código Florestal

Estudos Avançados
versão On-line ISSN 1806-9592
Estud. av. vol.29 no.84 São Paulo maio/ago. 2015
http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142015000200010

Funções eco-hidrológicas das florestas nativas e o Código Florestal

Leandro Reverberi Tambosi I  , Mariana Morais Vidal II  , Silvio Frosini de Barros Ferraz III  , Jean Paul Metzger IV  

A existência de uma relação entre cobertura florestal e provisão de água é foco de estudos há décadas, especialmente no que diz respeito às funções eco-hidrológicas da vegetação situada em diferentes posições do relevo. Neste artigo, fazemos uma síntese da literatura sobre essas funções e analisamos como as mudanças recentes no Código Florestal Brasileiro podem afetar essas relações. Mostramos que a posição no relevo da vegetação nativa altera as funções eco-hidrológicas que elas exercem, sendo mais voltadas para a recarga de aquíferos, ou para a redução do escoamento superficial e contenção de processos erosivos, ou para a proteção de corpos d’água, ou ainda como elementos auxiliares em todas essas funções. Assim, é necessário haver cobertura vegetal em cada posição do relevo, para garantir a provisão das funções eco-hidrológicas no conjunto de uma bacia. O novo Código Florestal, ao promover uma redução da proteção da vegetação em todas as posições do relevo, deverá reduzir a capacidade de provisão de água em qualidade e regularidade compatíveis com as demandas futuras. Para reverter essa situação, é necessário estabelecer novas políticas públicas que promovam a manutenção ou a restauração da vegetação natural em todas as posições do relevo.

Palavras-Chave: Florestas nativas; Funções eco-hidrológicas; Código Florestal Brasileiro; Recursos hídricos

ABSTRACT

The relationship between forest cover and water supply has been studied for decades, especially in regard to the ecohydrological functions provided by native vegetation. In this study, we present a literature synthesis of the different ecohydrological functions provided by the forests and how the provision of these functions may be affected by recent changes in the Brazilian Forest Code. Depending on the location in the watershed, the functions provided by the forests can be more associated to aquifer recharge, to the reduction of runoff and erosion, to the protection of water bodies, or complementing all these functions. Thus, forest cover is needed in different regions of the watersheds to ensure the provision of all ecohydrological functions. The new Brazilian Forest Code reduced the legal protection of vegetation in all the different regions of the watersheds, and may reduce provision of water resources in adequate quality and regularity needed to supply future demands. To mitigate this situation, it is necessary to establish new public policies to maintain or restore native vegetation in different regions of the watersheds.

Key words: Native forests; Ecohydrological functions; Forest Code; Water resources

INTRODUÇÃO

A CRISE HÍDRICA que atinge a região Sudeste do Brasil tem proporções sem precedentes. Suas causas são múltiplas, em geral creditadas ao aumento da demanda por água em razão de crescimento populacional, ampliação do consumo per capita, falta de investimento em infraestrutura ou mesmo pelas mudanças climáticas. As consequências também são diversas, em particular sobre o saneamento básico, a saúde pública e sobre diferentes setores da economia, como a geração de energia e a produção de alimentos. Para lidar com essa crise no longo prazo, há basicamente duas ações que podem ser empreendidas: investimentos na infraestrutura de captação e distribuição de água; e investimentos na infraestrutura do “capital natural”. Dentro desse capital, definido como o “estoque de recursos naturais que gera, a longo prazo, o suprimento de bens e serviços” (Costanza; Daly, 1992), estão as florestas nativas, cuja proteção em geral está associada com a regulação hidrológica e a manutenção da qualidade da água (Neary et al., 2009).

A presença de florestas nativas pode desempenhar diversas funções eco-hidrológicas, como a regulação da quantidade de água, o controle da erosão e aporte de sedimentos e, consequentemente, influenciando os parâmetros físico-químicos dos cursos d’água (Lima et al., 2013). Ainda mais relevante é que o papel das florestas no desempenho dessas funções depende da posição que elas ocupam no relevo, em particular se elas se encontram no topo de morro, nas encostas, ao longo dos cursos e reservatórios d’água, ou nos intervales (Falkenmark et al., 1999).

A proteção desse capital natural em propriedades privadas tem sido garantida no Brasil pelo Código Florestal Brasileiro (Lei Federal n.12.561/12), o qual define duas principais áreas de conservação: as Áreas de Preservação Permanente (APP), que protegem, entre outros, as florestas em topos de morro, encostas íngremes e ao longo de cursos d’água, e as Reservas Legais (RL), que legislam sobre a proteção de florestas nos intervales. Esse Código foi recentemente modificado, levando à redução na extensão de vegetação nativa a ser conservada em propriedades privadas, e para alguns autores essas modificações enfraqueceram seu papel na proteção das florestas, e logo na proteção dos recursos hídricos (Tundisi, 2014; Casatti, 2010).

Nesse contexto, este artigo procura analisar o papel das florestas e do Código Florestal na proteção dos recursos hídricos no Brasil. Mais especificamente, faremos uma síntese do conhecimento sobre a relação entre florestas e água, focando em particular sobre como as funções eco-hidrológicas das florestas se modificam em razão de sua posição no relevo, e uma análise crítica de como as mudanças recentes do Código Florestal podem impactar a efetividade desse capital natural em prover água em quantidade e qualidade no futuro.

Funções eco-hidrológicas das florestas em topo de morro

Nas bacias hidrográficas, a água que precipita nas áreas mais elevadas é transferida para as regiões mais baixas da bacia, contribuindo para a disponibilidade hídrica a jusante, onde a demanda por água e as fontes potenciais de poluição são geralmente mais pronunciadas, em razão da maior densidade populacional e da presença de atividades agrícolas e industriais (Falkenmark et al., 1999). Assim, as áreas mais baixas dependem muito da quantidade e da qualidade da água transferida das áreas mais elevadas da bacia hidrográfica, que podem ser consideradas como o reservatório natural do sistema (Falkenmark et al., 1999).

Dada a importância das regiões mais elevadas para o aporte hídrico de toda a bacia, as florestas localizadas nessas regiões desempenham um papel crítico, influenciando a quantidade, a forma e a qualidade da água que será transportada para o restante da bacia. As florestas localizadas nas regiões mais elevadas são particularmente importantes ao garantirem condições de infiltração da água no solo e consequente recarga dos aquíferos (Lima et al., 2013). Essas florestas nos topos de morros interceptam a água da chuva, ao mesmo tempo que a presença de serapilheira protege o solo do impacto direto das gotas de água, impedindo a erosão, a lixiviação e a compactação do solo (Giambelluca, 2002; Lima et al., 2013; Sayer, 2006). Assim, a presença de florestas nativas nos topos de morros é importante para a recarga dos aquíferos, diminuindo o volume de escoamento superficial pelas encostas, o que significa maior estabilidade e menores riscos de deslizamentos ou escorregamentos de massa (Silva et al., 2011).

Não apenas a presença, mas também as condições das florestas são determinantes para que haja maior interceptação de chuva e infiltração efetiva de águas pluviais no solo (Ferraz et al., 2014). A existência de um dossel denso, a presença de sub-bosque e o alto teor de matéria orgânica no solo são exemplos de características de florestas que aumentam a sua capacidade em promover a infiltração da água no solo (Lima et al., 2013). Por outro lado, florestas degradadas, que não possuem dossel ou apresentam várias clareiras, e que têm pouca estratificação da vegetação e baixo conteúdo de serapilheira e matéria orgânica no solo, acabam tendo menor capacidade de interceptação de água da chuva e de infiltração, aumentando o escoamento superficial e o potencial erosivo das chuvas.

O novo Código Florestal alterou os parâmetros de amplitude altimétrica, declividade e linha de base que delimitam as APP em topo de morro. Em síntese, houve uma restrição nas áreas que devem ser definidas como topo de morro, considerando agora apenas morros com mais de 100 m de amplitude altimétrica (ante 50 m na legislação anterior) a contar do fundo de vale, com inclinação média superior a 25° (17° antes). Anteriormente, a delimitação da cota de APP de topo de morro era realizada considerando dois terços da altura com relação ao pico mais baixo da linha de cumeada e, atualmente, é delimitada a partir do pico mais alto da linha de cumeada. A redução nas APP em topo de morro está estimada em 87% no conjunto do território brasileiro (Soares-Filho et al., 2014), indicando uma perda generalizada de proteção deste tipo de ambiente (Silva et al., 2012), o que pode representar grandes modificações no ciclo hidrológico, interferindo em processos como infiltração e escoamento superficial das águas (Varjabedian; Mechi, 2013).

Além da efetiva diminuição das áreas consideradas APP em topo de morro, o novo Código Florestal admite que nas áreas rurais consolidadas sejam mantidas “atividades florestais, culturas de espécies lenhosas, perenes ou de ciclo longo, bem como da infraestrutura física associada ao desenvolvimento de atividades agrossilvipastoris”. Segundo a lei, as áreas rurais consolidadas correspondem a “imóveis rurais com ocupação antrópica preexistente a 22 de julho de 2008, com edificações, benfeitorias ou atividades agrossilvipastoris”. Dessa maneira, a nova legislação exime diversos proprietários rurais da necessidade de restaurar as áreas em topos de morros quando essas já apresentarem uso agrícola anterior a julho de 2008. Ademais, permite-se que atividades agrossilvipastoris, que compactam o solo e favorecem a erosão e assoreamento dos rios, sejam estabelecidas nessas áreas (Silva et al., 2012).

Tanto as alterações na delimitação das APP em topo de morro, reduzindo a área protegida, quanto a anistia concedida aos proprietários que desmataram essas áreas, retirando a exigência de restauração das mesmas, são medidas que prejudicam o funcionamento e a integridade das bacias hidrográficas, na medida em que comprometem as funções hidrológicas da vegetação nativa em topos de morros, relacionadas principalmente à infiltração de águas pluviais e consequente recarga de aquíferos. Além das consequências sobre os recursos hídricos, a redução das APP em topos de morros afeta a preservação dos solos e constitui uma ameaça à manutenção da biodiversidade (Silva et al., 2011).

Funções eco-hidrológicas das florestas em encostas

As encostas de morros e montanhas são mais sujeitas à força da gravidade, cujo efeito acelera o movimento da água de percolação ou da água em escoamento superficial, sendo regiões com maior tendência a movimentos de massas de solos e de fragmentos de rocha (Silva et al., 2011). A presença de vegetação nas encostas tem papel importante na interceptação das chuvas, proteção e estruturação do solo. A vegetação nas encostas também atua como barreira para o fluxo hídrico, promovendo a redução da velocidade do escoamento superficial, e consequentemente da erosão. Os deslizamentos nessas áreas são causados por fatores naturais, mas podem ser agravados pela remoção da cobertura e desestruturação do solo, tanto em ambientes urbanos quanto em rurais (Marston, 2010). Assim, a presença da vegetação aumenta a estabilidade das encostas.

As APP de encosta são definidas no Código Florestal como as áreas com declividade superior a 45°. Essa definição manteve-se inalterada no novo Código Florestal. Apesar das APP de encosta estarem voltadas para as áreas com maior risco de erosão e deslizamentos, elas se restringem a regiões muito íngremes. Áreas com declividades inferiores já apresentam alto risco de movimentos de massa e erosão. De modo geral, terrenos com declividade superior a 25°, que tiveram sua vegetação natural retirada por atividade humana, têm risco alto de repetidos processos de deslizamentos e escorregamentos de massa, como os observados em áreas de declividade entre 18° e 37° no Rio de Janeiro (Fernandes et al., 2001) e entre 20° e 40° em Cubatão (Lopes et al., 2007).

Em razão do alto risco de erosão em declividades inferiores a 45°, o antigo Código Florestal determinava, em seu artigo 10, que não seria “permitida a derrubada de florestas situadas em áreas de inclinação entre 25 a 45 graus, só sendo nelas tolerada a extração de toros, quando em regime de utilização racional, que vise a rendimentos permanentes”. No entanto, o novo Código Florestal estabelece, em seu artigo 11, que “em áreas de inclinação entre 25° e 45°, serão permitidos o manejo florestal sustentável e o exercício de atividades agrossilvipastoris, bem como a manutenção da infraestrutura física associada ao desenvolvimento das atividades, observadas boas práticas agronômicas, sendo vedada a conversão de novas áreas, excetuadas as hipóteses de utilidade pública e interesse social”. Assim, essa mudança na legislação deixa desprotegidas áreas especialmente susceptíveis a escorregamentos de solo, que é o caso das encostas entre 25° e 45°, pois permite o estabelecimento de atividades que podem provocar a erosão e aumentar os riscos de deslizamentos, como o pastoreio (Silva et al., 2012).

De forma similar às APP de topos de morro, as áreas ocupadas antes de 22 de julho de 2008 em APP de encosta também foram anistiadas, e assim não precisam ser restauradas. Dessa forma, áreas com alto risco de deslizamentos e com grande potencial de erosão poderão manter suas atividades agrossilvipastoris e as estruturas associadas a elas, aumentando os riscos de desastres naturais com vítimas (Coutinho et al., 2013), além de aumentar a erosão e o carreamento de sedimentos, promovendo o assoreamento e a contaminação dos corpos d’água por insumos agrícolas (Tundisi; Tundisi, 2010; Tundisi, 2014).

Funções eco-hidrológicas das florestas em áreas ripárias

A região localizada nas margens dos corpos d’água é considerada uma zona de transição ou ecótono entre os ecossistemas terrestres e aquáticos que influencia diretamente os parâmetros físico-químicos e biológicos dos corpos d’água.

A presença de vegetação, e em particular de florestas, nessas áreas ribeirinhas ou ripárias, provê uma série de funções eco-hidrológicas. Primeiro, essa vegetação propicia o microclima adequado para o funcionamento do ambiente aquático, especialmente em riachos ou corpos d’água menores, reduzindo a incidência de raios solares e aumentando a estabilidade térmica do ambiente aquático. Além disso, a interação da vegetação com o riacho propicia a entrada de materiais alóctones, fundamentais para a manutenção da cadeia alimentar e formação de habitats aquáticos (Casatti, 2010; Paula et al., 2013). Essas funções da vegetação ripária garantem uma maior estabilidade em diferentes parâmetros físicoquímicos da água e reduzem o risco de eutrofização, favorecendo a manutenção da qualidade da água e reduzindo possíveis gastos com tratamento para uso humano (Casatti, 2010; Tundisi; Tundisi, 2010; Tundisi, 2014).

Segundo, a vegetação ripária também possibilita uma maior estabilidade dos canais pela proteção dos solos nas margens dos rios, reduzindo a erosão dos canais e diminuindo o assoreamento dos corpos d’água (Naiman et al., 2000). Além de aumentar a estabilidade do canal, a presença de vegetação ripária, aliada à presença de vegetação em outras áreas da bacia, equilibra o fluxo superficial e subsuperficial de água, reduzindo a variação do fluxo hídrico em razão de eventos climáticos, regulando melhor a vazão em épocas de seca e eventos de cheias (Walter et al., 2000; Lima et al., 2012). A função reguladora da região ripária é explicada pela sua dinâmica de saturação do solo e que a torna muito sensível à ocorrência de contaminação direta do corpo hídrico se manejada inadequadamente pela atividade agrícola ou qualquer uso intensivo (Walter et al, 2000).

Terceiro, a vegetação ripária pode atuar como uma barreira para nutrientes e contaminantes que são carreados desde as áreas mais altas da bacia em direção aos leitos dos corpos d’água (Falkenmark et al., 1999; Allan, 2004). No entanto, é importante salientar que apesar de a vegetação ripária reduzir a entrada desse material nos corpos d’água, o uso de técnicas de conservação dos solos em toda a bacia e a presença de florestas em áreas de intervales (ver adiante) também são necessários para tornar esse processo mais efetivo, reduzindo assim de forma mais substancial o aporte de poluentes aos rios e controlando os processos erosivos.

Finalmente, a presença de florestas nas margens dos rios também atua na manutenção da biodiversidade terrestre, pois essas áreas funcionam como corredores ou áreas de hábitat para diversas espécies de animais e plantas (Metzger et al., 1997; Keuroghlian; Eaton, 2008; Martensen et al., 2008; Metzger, 2010).

A efetividade dessas faixas de vegetação ripária para prover todas essas funções eco-hidrológicas depende de vários fatores, entre eles o estado de conservação e o tipo de vegetação presente, bem como a largura da faixa preservada (Silva et al., 2011), e a largura ideal da faixa de vegetação ripária vai variar em razão das características geomorfológicas das microbacias (Lima et al., 2012).

A delimitação das APP ao longo dos cursos d’água sofreu importantes alterações com a nova versão do Código Florestal. A principal mudança ocorrida, que atinge todos os corpos d’água, refere-se ao ponto inicial para delimitação da faixa marginal aos cursos d’água. Na versão do Código Florestal de 1965, a APP deveria ser delimitada a partir do maior leito sazonal dos rios, incluindo as áreas de inundação nas épocas de cheias, mas na versão do Código Florestal de 2012, a APP é delimitada a partir do leito regular do rio. Essa mudança tem um duplo efeito: i) ela reduz a extensão da largura do rio (que antigamente incluía a planície de inundação anual), fazendo que a largura da faixa de proteção possa ser reduzida; e ii) ela reduz a proteção das áreas de várzea, principalmente em rios com amplas planícies de inundação (como no caso de muitos rios no Pantanal e na Amazônia), pois com o novo Código as APP ripárias irão proteger apenas uma parte dessas áreas de várzea. Isso é particularmente grave, pois as várzeas desempenham importantes funções ecossistêmicas e hidrológicas. Elas dissipam as forças erosivas do escoamento superficial de águas pluviais, controlam as enchentes, facilitam a deposição de sedimentos suspensos na água, além de constituírem sítios de alimentação e abrigo para muitas espécies (Silva et al., 2012).

Outra diferença importante entre as versões do Código Florestal diz respeito à proteção das nascentes. O texto do novo Código Florestal exclui a proteção de nascentes e olhos d’água intermitentes, contemplando apenas as nascentes perenes, e exclui as faixas marginais de cursos d’água efêmeros, o que ameaça diversas nascentes e cursos d’água, e por consequência coloca em risco a proteção dos recursos hídricos, em particular em áreas mais susceptíveis, que têm clima mais seco.

Outra importante modificação com relação às APP ripárias está relacionada à necessidade de restauração de APP ocupadas por atividades antrópicas. Anteriormente, toda APP ocupada deveria ser restaurada com vegetação nativa. Entretanto, no novo Código Florestal, as APP com uso consolidado antes de 22 de julho de 2008 terão que ser restauradas, porém não em toda a sua extensão. A extensão a ser restaurada varia de acordo com o tamanho da propriedade, o tipo de APP (ao redor de nascente, vereda, lagos e lagoas ou rios), e a largura do rio. Segundo essa regra, a extensão a ser restaurada no entorno de rios, lagoas, lagos e veredas é reduzida à medida que diminui o tamanho das propriedades, havendo ainda um teto máximo de restauração de 10% em propriedades inferiores a dois módulos fiscais e de 20% em propriedades entre dois e quatro módulos fiscais (Lei Federal n.12.561/12).

Dessa maneira, a recuperação das funções das APP por estratégias de restauração ao longo dos corpos d’água pode ficar comprometida em razão da redução das áreas a serem restauradas. Essa redução, aliada à não exigência de restauração das APP de topo de morro e encosta, diminui o potencial dessas áreas em prover todos os serviços eco-hidrológicos aqui mencionados, que são essenciais tanto para a provisão quanto para a qualidade de água para uso humano.

Funções eco-hidrológicas das florestas nos intervales

Apesar de as áreas situadas fora das APP, aqui chamadas de intervales, não serem tão sensíveis à ausência da cobertura florestal nativa, elas também têm funções eco-hidrológicas relevantes e complementares àquelas das APP. Em particular, a cobertura florestal nessas áreas contribui para a interceptação da água da chuva, infiltração das águas pluviais no solo, reduzindo assim o volume de escoamento superficial e a consequente erosão dos solos, e funciona também como barreira auxiliar para nutrientes e contaminantes. Pode ainda atuar como zonas-tampão de proteção das APP. Ademais, as florestas de intervales constituem áreas de hábitat para diversas espécies, e por estarem em condições abióticas distintas das APP, em termos de posição no relevo, tipo de solo, influência de cheias, susceptibilidade a deslizamentos, dentre outros, elas têm potencialmente uma estrutura e composição florística e faunística distintas daquelas encontradas nas APP (Metzger, 2010). Assim como ocorre nas APP, a efetividade da vegetação de intervales em prover as diversas funções eco-hidrológicas vai depender do tipo e da qualidade desta vegetação e das características da bacia.

A vegetação de intervales é basicamente protegida no Código Florestal por meio das Reservas Legais (RL). Apesar de a definição de RL não ter sido alterada no novo Código Florestal, duas mudanças importantes fizeram que na prática houvesse uma redução na área efetiva de RL dentro das propriedades. Na versão atual do código, é possível computar as APP no cálculo da área a ser destinada como RL, definida como porcentagens da propriedade de acordo com o bioma e fisionomia em que ela se encontra (na Amazônia Legal, 80% em área de cobertura florestal, 35% em cerrado e 20% em campos gerais, e nas demais regiões do país, 20%). Essa porcentagem refere-se agora à área total da propriedade e não à área útil (área da propriedade descontada a área de APP). Além disso, em propriedades de até quatro módulos fiscais, a RL será representada pela vegetação existente até 22 de julho de 2008. Como as RL apresentam o maior passivo ambiental do setor agropecuário brasileiro (Soares-Filho, 2013), isso significa uma redução substancial nas exigências de conservação de vegetação de intervales. Com essas mudanças, a porcentagem total de vegetação requerida pela nova lei nas propriedades particulares é expressivamente inferior à exigida pelo Código Florestal antigo.

Essa redução na área de vegetação de intervales exigida por lei tem por consequência uma menor flexibilidade no uso dessa cobertura para auxiliar na otimização das funções eco-hidrológicas das microbacias. Em particular, nas microbacias de relevo mais acidentado, as RL poderiam ser alocadas em posições que apresentam alta susceptibilidade a erosão, devido à maior declividade (por exemplo, entre 25 e 45 graus), e ajudar assim na redução do potencial de erosão. No caso de microbacias em regiões mais planas, com áreas de várzeas mais extensas, que não são plenamente protegidas pela nova delimitação de APP ripária, a RL poderia ser alocada com o objetivo de complementar o papel da vegetação de APP ripária, aumentando a quantidade de vegetação em áreas de várzea ou de planícies de inundação, e assegurando assim uma maior proteção aos cursos e corpos d’água.

Outra alteração importante refere-se à forma de compensação ou restauração da RL. No Código Florestal anterior, caso um proprietário não possuísse a quantidade de RL necessária no interior de sua propriedade, ele poderia compensar em uma área de vegetação nativa existente ou restaurar uma área fora de sua propriedade, desde que localizada na mesma microbacia. Porém, com a alteração do Código, a compensação das RL agora pode ser realizada em um mesmo bioma, permitindo que as áreas sejam compensadas em regiões a quilômetros de distância das propriedades, em terrenos mais baratos, onde ainda podem existir áreas com vegetação contínua. Assim a compensação das RL deixa de exercer as funções eco-hidrológicas na mesma microbacia em que está a propriedade. Ademais, a nova legislação permite que até 50% da área da RL seja composta por espécies exóticas, desde que intercaladas com espécies nativas. Porém, o uso de espécies exóticas pode comprometer sua função de conservação da biodiversidade (Metzger, 2010), além de não assegurar a plena restauração de suas funções eco-hidrológicas que dependem de uma estrutura florestal preservada complexa para garantir a proteção e estruturação dos solos (Lima et al., 2013) e servir como fonte de recursos para a biota aquática (Casatti, 2010).

Finalmente, vale ressaltar que a restauração das áreas florestais é atualmente viável graças ao avanço do conhecimento cientifico e tecnológico (Rodrigues et al., 2009). Novas técnicas de restauração da RL podem ser alternativas viáveis de diversificação da produção, com retorno econômico significativo. É possível, por exemplo, usar as áreas de menor aptidão agrícola e incorporar o conceito de manejo sustentável de espécies nativas para a produção de madeiras e fibras, de compostos medicinais, ou mesmo para a exploração de espécies frutíferas nativas e outras permitidas pela legislação.

Em suma, as alterações que resultaram na redução da área de RL e na possibilidade de deslocamento das RL para outras microbacias reduziram a efetividade da vegetação de intervales em prover funções eco-hidrológicas e a possibilidade de utilização dessa vegetação para aprimorar a gestão hídrica e proteger as regiões mais sensíveis da microbacia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cobertura florestal ou de vegetação nativa situada em diferentes posições de relevo tem diferentes funções eco-hidrológicas, ora mais voltadas para a recarga de aquíferos (topos de morro), ora para a redução do escoamento superficial e contenção de processos erosivos (nas encostas), ou ainda para a proteção de corpos d’água (áreas ripárias), ou então como elementos auxiliares em todas essas funções (nos intervales). Como essas funções são complementares, para que uma paisagem ou uma bacia tenha uma estrutura adequada para a provisão de água em quantidade e qualidade, não basta estabelecer uma quantidade mínima de vegetação nativa para o conjunto da área considerada – é necessário haver cobertura vegetal adequada em cada posição do relevo, para que todas as funções eco-hidrológicas sejam devidamente prestadas. Nesse sentido, não é aconselhado compensar indiscriminadamente áreas florestais situadas em diferentes posições do relevo.

As alterações do Código Florestal promoveram uma redução da vegetação protegida em todas as posições do relevo, ora por mudanças nos critérios de delimitação (como no caso dos topos de morro e das áreas ripárias, ou pela flexibilização do cômputo de RL), ora por terem reduzido o passivo ambiental, consolidando a maior parte dos desmatamentos ilegais realizados antes de 22 de julho de 2008. No âmbito de todo o país, as alterações provocaram uma redução de 58% no passivo ambiental, sendo 22 milhões de hectares para adequação de RL e oito milhões de hectares para adequação de APP (Soares-Filho, 2013). A extensão das implicações dessas mudanças ainda é incerta e irá variar de uma região para a outra.

Diante do atual cenário de aumento da demanda por recursos hídricos e de maior frequência de eventos climáticos extremos, que levam a importantes oscilações temporais na pluviosidade, é necessário não apenas manter o potencial de nossas paisagens em prover recursos hídricos, mas é fundamental aumentar esse potencial e assegurar uma regularidade nessa oferta. Infelizmente, as mudanças do Código Florestal vêm na contramão do que seria necessário para uma adequada gestão desses recursos.

Para reverter, em longo prazo, esse quadro desfavorável, será necessário o estabelecimento de novas políticas públicas que valorizem o capital natural e incentivem a restauração de áreas degradadas. Essas ações devem contemplar a cobertura florestal em todas as posições de relevo, para favorecer todo o rol de funções eco-hidrológicas, propiciando assim as condições necessárias para a oferta de água em quantidade e qualidade, com a devida regularidade, o que é essencial para garantir uma maior segurança hídrica para a população brasileira.

REFERÊNCIAS

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Autores

Leandro Reverberi Tambosi é doutor em Ecologia pela Universidade de São Paulo e atualmente é pós-doutorando no departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo. @ – letambosi@yahoo.com.br

Mariana Morais Vidal é doutora em Ecologia pela Universidade de São Paulo. @ – marimvidal@yahoo.com.br

Silvio Frosini de Barros Ferraz é doutor em Recursos Florestais pela Universidade de São Paulo. É professor do Departamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo, Piracicaba.@ – silvio.ferraz@usp.br

Jean Paul Metzger é doutor em Ecologia de Paisagens pela Universidade Paul Sabatier de Toulouse, França. É professor titular do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. @ –jpm@ib.usp.br

in EcoDebate, 24/09/2015


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11 fatos que você precisa saber sobre a crise hídrica no Brasil

Há um ano quase não se falava em crise hídrica e hoje não passa um dia sem que o assunto seja pauta em pelo menos um veículo da mídia brasileira. Mas, o que aconteceu de lá para cá para essa mudança radical? Será que a problemática não deu sinais de que estava chegando? Para entender melhor esse contexto, especialistas da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, instituição que atua há 25 anos pela proteção da biodiversidade brasileira, elencaram 11 fatores que influenciam a questão da crise da água no Brasil. De rios voadores à água virtual!

1. A crise da água é apenas em São Paulo #sqn

Não, a escassez de recursos hídricos não é um problema exclusivo da maior cidade brasileira. Tanto que, enquanto só se falava em São Paulo, os níveis dos reservatórios do Rio de Janeiro estavam ainda piores. Agora, Belo Horizonte também já sinalizou que, se a seca continuar, precisará racionar água. Como essas três capitais estão no Sudeste, pode parecer que a crise está restrita a essa região, o que também não é verdade. O Sul do país está sendo considerado como ‘livre da crise’, mas já passou por situação parecida em 2006, quando uma estiagem atingiu o Paraná, ocasionando falta de água para milhares de pessoas. A seca chegou até mesmo a Curitiba, cidade reconhecida como capital ecológica do país. Isso nos leva a refletir se estamos tratando o problema atual de forma isolada, quando deveríamos agir e pensar em âmbito nacional. E na sua cidade, que tal verificar como a situação está?

2. #fato Sem floresta não vai ter água, mas o poder público talvez pense que sim

A proteção das florestas nativas nas regiões de mananciais, nas margens dos rios ereservatórios é essencial para a produção de água. Sem cobertura florestal, a água não consegue penetrar corretamente nos lençóis freáticos, causando diminuição na quantidade de água. Mais do mesmo? Todos sabem disso? Em 2012, grande discussão foi levantada quando o Código Florestal foi revisto. As alterações aprovadas implicaram na redução das Áreas de Proteção Permanente previstas em lei para as margens de rio dentro das propriedades rurais: as matas ciliares (aquelas que protegem as margens dos rios) agora devem ter 15 metros, metade do que era obrigatório antes. Especialistas da área ambiental foram veementemente contra, pois apontavam para a importância da conservação dessas áreas que influenciam a produção de água. Mas, mesmo assim o projeto foi aprovado.

Durante as discussões para aprovação do novo código, processo que durou 13 anos, instituições de proteção ao meio ambiente como a Fundação Grupo Boticário, a SOS Mata Atlântica e a The Nature Conservancy investiram em ações na ordem inversa, garantindo a conservação de áreas-chave para a produção de água em diversas regiões. Elas investiram no Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), iniciativa que premia financeiramente proprietários de terra que conservam a mata nativa em suas propriedades, protegendo suas nascentes, além do exigido por lei.

3. Falta de infraestrutura e investimento #desdesempre

Às vezes, costumamos deixar algumas atitudes para a última hora, quando está ‘com a corda no pescoço’. Nesse caso, não foi diferente. Obras importantes como a construção do Sistema São Lourenço, previsto para 2011, traria água do interior até a Grande São Paulo. As obras começaram apenas em 2014 e têm previsão de ficar prontas em 2017. Isso quer dizer que, se elas tivessem começado em 2011, provavelmente teriam sido entregues em 2014, quando a crise estava se intensificando. Outro ponto importante é que, segundo o Plano Metropolitano de Água III da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), a empresa não investiu nem 37% do previsto em obras.

4. Um mar de desperdício

Presente na cadeia produtiva de qualquer insumo, o desperdício é dura realidade também na distribuição e no consumo de água. Estima-se hoje que em torno de um quarto da água tratada é perdida no trajeto entre as represas e as torneiras.

A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que 110 litros por dia é suficiente para atender às necessidades de uma pessoa. Parece bastante, mas não é tanto assim. A cada dois minutos no banho, consumimos em média 12 litros de água. Se você é daquelas pessoas que gosta de refletir sobre os problemas do mundo num longo banho, saiba que se demorar 16 minutos terá consumido em torno de 96 litros. Isso sem contar o que usamos para escovar os dentes, dar descarga, lavarmos as mãos, cozinhar, lavar a roupa, além de matar a sede. Quando colocamos na ponta do lápis, percebemos a importância de cada um economizar ao máximo na sua rotina diária.

5. Racionar por quê? #cadeaáguaqueestavaaqui?

Mesmo sem muita cobertura da mídia em anos anteriores, em 2014 muito já se falava em falta de água e em uma possível crise hídrica bastante grave. Apesar disso, o racionamento oficial pelos órgãos competentes não aconteceu, por quê? Será que interesses políticos influenciaram as tomadas de decisão relacionadas à crise hídrica? Mais uma dúvida sem resposta exata para os tantos questionamentos que envolvem a situação. Independente das razões, o fato é que essa atitude piorou ainda mais um cenário já bastante complicado.

6. Com a palavra, São Pedro: falta chuva, sim, mas não é de hoje

Claramente a falta de chuva é um fator importante na equação da crise. Mas ela não veio tão de repente assim. Desde 2012, e principalmente no ano seguinte, a quantidade de chuvas foi caindo vertiginosamente. E muitas pessoas sabiam disso. O relatório 20–F da Sabesp, de 2012, afirmava que há anos observava-se a redução nos níveis pluviométricos. Diversas instituições ambientalistas também alertavam sobre a falta das chuvas, fruto de mudanças climáticas e desmatamentos que prejudicam o ciclo da água. Mesmo assim, quase nada foi feito. Por isso, não podemos apenas culpar São Pedro por ter sido econômico demais nas chuvas; ou por errar na pontaria.

7. O clima muda sem pedir permissão #otempotodo

A poluição e os Gases do Efeito Estufa (GEEs) que jogamos na atmosfera diariamente, têm alterado o clima e, consequentemente, as chuvas. Ainda não temos condições de saber exatamente os reais efeitos das mudanças climáticas, mas já estamos sentido os eventos extremos, com grandes secas em algumas regiões e fortes tempestades em outras, bem como os seus resultados para nossas vidas.

As mudanças climáticas, que comprovadamente foram aceleradas pela ação do homem, tornam o clima irregular. Dessa forma, mesmo os especialistas acabam tendo dificuldade em prever quando, onde e quanto vai chover.

8. A água virtual que vai embora do país

Você já ouviu falar em água virtual? É um conceito muito interessante criado pelo professor britânico John Anthony Allan, que calcula a quantidade de água utilizada na produção de bens de consumo. Ele leva em consideração não apenas a água contida no produto, mas a que foi usada em todas as etapas do seu processo de fabricação. Por exemplo, na produção de uma xícara de café são utilizados cerca de 140 litros de água.

Para a produção de um quilo de carne de gado, esse número chega a 15 mil litros de água. Essa quantidade astronômica de água, na maioria das vezes, nem fica para o consumo do brasileiro, pois o país é o maior exportador de carne bovina do mundo. De acordo com dados da Unesco, se somarmos todas as commodities que o Brasil exporta, enviamos ao exterior aproximadamente 112 trilhões de litros de água doce por ano, o equivalente a 45 milhões de piscinas olímpicas.

9. Rios Voadores regulam chuva em todo o país

Na natureza, tudo está interligado buscando um equilíbrio. Apesar de não parecer, mas um ecossistema que está a cerca de três mil quilômetros de distância pode ser fundamental para garantir a produção de água em outro. No caso do Brasil, existe o fenômeno chamado ‘rios voadores’: grandes massas de vapor de água se formam no Oceano Atlântico – na altura do litoral nordestino – e ao chegarem na região amazônica aumentam de volume ao incorporar a umidade evaporada pela floresta. Levados pelas correntes de ar em direção ao Sul do país, elas são importantes para a formação de chuvas em diversas regiões, como a Sudeste. Portanto, o aumento no desmatamento da Amazônia, que após quatro anos em queda voltou a subir em 2013, pode reduzir os índices pluviométricos em outras regiões.

10. O Brasil tem uma imensa caixa d’água #cerrado

Da mesma forma que temos a caixa d’água em nossas casas para garantir que ela não falte, o Brasil também possui uma região que é essencial para que o recurso continue sendo produzido. É o Cerrado, que ocupa 22% do território nacional e concentra oito das 12 bacias hidrográficas do país (67%), além de possuir alta concentração de nascentes de rios que abastecem outras regiões brasileiras.

Apesar da sua importância, ele é o segundo bioma mais ameaçado do país e sofre com as pressões da agricultura e principalmente da pecuária e das queimadas não naturais. Além disso, o Cerrado é o que possui menor porcentagem de unidades de conservação de proteção integral, tendo apenas 8,21% do seu território legalmente protegido, sendo apenas 2,85% de proteção integral. Vale lembrar que não estamos fazendo nossa tarefa de casa: esse índice é muito abaixo da meta com a qual o Brasil se comprometeu com a ONU, em 2010, ao se tornar signatário das Metas de Aichi. O compromisso diz que, até 2020, o país deve ter 17% de áreas terrestres de grande importância ecológica protegidas por meio de sistemas estruturados de unidades de conservação.

11. “Águas, são muitas, infindas”. #realidadebrasileira

Esse é um pequeno trecho da carta de Pero Vaz de Caminha, relatando à corte portuguesa sobre a incrível quantidade de água que o recém-descoberto Brasil tinha. Realmente somos um país privilegiado, com a maior reserva de água doce do mundo. Possuímos a maior bacia hidrográfica do planeta (Amazônica), bem como a maior planície alagável do mundo (Pantanal), entre outros recordes de água doce. O Brasil é referência em água no mundo. Porém, é preciso conservação, tecnologia e interesse político para que esse recurso seja revertido em benefício para os brasileiros.

É necessário que aprendamos com a natureza a busca pelo equilíbrio. Nenhum desses onze fatos deve ser encarado de modo isolado ou como se fosse mais importante que os demais. Todos estão interligados e fazem parte de um contexto que nos trouxe até a maior crise hídrica de nossa história, porque descuidamos de nosso patrimônio natural. O problema da água existe, mas a realidade sobre o que o casou e sobre como revertê-lo também estão aí.

Colaboração de Maria Luiza Campos, NQM, para o Portal EcoDebate, 25/03/2015

Águas Emendadas. (Brasil)

 

Recorte de imagem do satélite Landsat demonstrando os efeitos da interferência humana no entorno da Estação Ecológica de Águas Emendadas.

[EcoDebate] O Brasil é um país continente e nada mais representativo do que a unidade de conservação ambiental de Águas Emendadas para simbolizar esta realidade. A estação ecológica de “Águas Emendadas”, localizada no planalto central do país registra bem esta dimensão. Lá estão rios que se dirigem para norte e para sul e integram duas das maiores bacias hidrográficas continentais, a Bacia do Rio da Prata e a Bacia Amazônica.

Situada próximo a cidade-satélite de Planaltina no Distrito Federal, há cerca de 50km da cidade de Brasília, esta unidade se encontra sob gestão do Instituto Brasília Ambiental (IBRAM), sendo submetida a um regime de visitação controlada. A unidade tem área de 10.547 hectares, sendo destinada a proteção do ambiente natural, realização de pesquisas básicas e aplicadas no campo da ecologia e à educação ambiental com ênfase nos aspectos conservacionistas.

Data do século XIX, dos registros realizados pela então comissão Cruls, as primeiras menções as características da área. Luis Cruls comandou missão exploradora do planalto central e as manifestações datam do ano de 1.892. Um século depois, a UNESCO registra e declara a gleba como área nuclear da Reserva da Biosfera do Cerrado.

A própria denominação da unidade de conservação tem seu nome inspirado no fenômeno hidrográfico de dispersão das águas, que fluem de nascentes em veredas comuns, se dirigindo para lados opostos. Nos chapadões com pouca declividade que caracterizam a região centro-oeste do país, o escoamento das águas em algumas regiões não são claramente determinados pelo relevo ou a geomorfologia local.

Por isto as águas são “emendadas”. Na grande chapada que se instalam as vertentes criadoras dos cursos de água determinam que os fluidos que se dirigem para norte, em direção ao córrego Vereda grande, alimentem posteriormente ao rio Maranhão, que após desaguar na lagoa da barragem de Serra da Mesa, alimenta o rio Tocantins, que após se unir ao rio Araguaia deságua no oceano Atlântico na baía de Marajó, constituindo tributário da margem direita da bacia hidrográfica do rio Amazonas.

As águas que descem na direção sul das “Águas Emendadas”, constituem o córrego Brejinho, que se adiciona ao córrego Fumal, desaguando no denominado rio Pipiripau que conflui na direção da bacia hidrográfica do rio Mestre d’Armas. Depois chega no rio denominado São Bartolomeu, que integra a bacia hidrográfica do Rio Corumbá. As águas seguem deste curso de água em direção ao rio Parnaíba e este forma o rio Paraná, que deságua na bacia definida pelo estuário do rio da Prata, no extremo sul do continente sul-americano.

Não deixa de ser uma sensação indescritível estar pisando sobre uma área que abriga um fenômeno hidrológico tão espetacular que traz a sensação de englobar toda a geografia sul-americana a partir de uma gleba tão específica e tão singular e espetaculosa. Além das maravilhas e do colorido tão peculiar apresentado pelo bioma representativo dos cerrados brasileiros, com suas árvores de troncos retorcidos e raízes profundas, que se estendem também para espécies cactáceas próprias deste ecossistema. Também tão rico em espécies frutíferas e flores de colorido tão intenso e exuberante.

Neste local mais do que em qualquer outro, é sentida a sensação de habitar um país-continente, tamanha é a grandeza transmitida pela estação ecológica das “Águas Emendadas”, mesmo através de um simples fenômeno geográfico de natureza hidrológica, que resgata uma grande sensação de integridade e visão holística. Mais do que um resgate da idéia de preservação ambiental, a unidade ecológica transmite várias sensações integradoras que dominam o imaginário dos visitantes e trazem longos e prolongados efeitos.

Não é necessário utilizar figuras hiperbólicas de grande amplitude para expressar que este conjunto de propriedades físicas, aliado à condições biológicas de flora e fauna tão peculiares, transmite uma enorme sensação de responsabilidade manifestada pela sensação de união e de destinos interligados.

Evidentemente que cada indivíduo determinará expressão diferenciada deste contato peculiar, mas é inegável a grandiloquência emocional, que transcende realidades físicas demonstradas por estéticas inigualáveis no âmbito de expressões florísticas e nichos de representação faunística.

Além da promoção informativa sobre esta unidade de conservação, fica aqui expressa e manifestada a grandiosidade da inclusão deste sítio em todo e qualquer roteiro de visitação ou de viagens de turismo ou na porção de lazer de viagens profissionais.

Cada indivíduo deve experimentar e refletir com extrema autonomia sobre as sensações que seu íntimo desperta sobre as realidades cuidadosamente descritas, porque a opinião individual e as sensações causadas sempre serão únicas, permanentes e indescritíveis por mais que se busque conciliar e harmonizar as palavras.

O mais fácil e o mais verdadeiro seria intitular esta pequena dissertação como fenômeno indescritível de manifestação de grandeza e harmonia. Para perceber e vivenciar a questão socioambiental de forma positiva, era necessário que todas as pessoas vivenciassem este momento de grandeza, neste ou em outros lugares, conforme as características e as impressões próprias de cada indivíduo.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 17/09/2015


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Tornado causou destruição no sudoeste do Paraná, diz Inmet

Ventos chegaram a 115 km/h na noite de segunda-feira (13), diz Somar.
Segundo a Defesa Civil, 51 pessoas ficaram feridas em várias cidades.

 http://g1.globo.com/pr/oeste-sudoeste/noticia/2015/07/frente-fria-causa-tempestade-e-tornado-no-parana-afirma-somar.html

Adriana Justi e Fabiula Wurmeister Do G1 PR

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmou, na manhã desta terça-feira (14), que a destruição que deixou mais de 50 pessoas feridas em cidades do sudoeste do Paraná na segunda-feira (13) foi causada por um tornado.

Um tornado é uma coluna de ar que gira em redemoinho em uma velocidade que pode ultrapassar os 400 km/h. A Escala Fujita, de classificação dos ventos, começa em 65 km/h e chega a mais de 500 km/h. O F0 é o mais fraco e o F5 é considerado o mais forte.

Por meio de análise de imagens, o Sistema Tecnológico Simepar, que atua em parceria com o Governo do Estado, e a Somar Meteorologia já haviam classificado o evento meteorológico como tornado. Porém, ainda não é possível comprovar a intensidade do fenômeno.

Um boletim divulgado pela Defesa Civil Estadual, às 12h30, indica que o número de pessoas atingidas pela chuva em todo o estado passa de 13 mil em 36 municípios do estado.

“O tornado é uma das fases de uma tempestade forte”, explica a técnica em meteorologia da Somar, Patrícia Vieira.

“O fenômeno surge da formação de uma grande nuvem de tempestade, chamada de supercélula, provocada por um grande contraste de massas de ar diferentes, uma quente e uma fria, se chocando e forçando ventos fortes saírem da nuvem, em formato de funil, que toca o solo, funcionando como um aspirador gigante e que vai sugando tudo o que encontra. Mas, diferente de uma tempestade, os estragos são concentrados em pequenas áreas”, completa a especialista.

Internauta registrou nuvem funil no município de Pranchita (Foto: Josiane Regina / VC no G1 )Internauta também registrou nuvem funil no município de Pranchita (Foto: Josiane Regina / VC no G1 )

O meteorologista do Simepar Tarcízio Valentin da Costa destacou que o fenômeno não é comum no Paraná. “Isso é raro. O que acontece é que a tecnologia vem facilitando cada vez mais o registro destes eventos, fazendo a incidência parecer maior.”

“Analisando as imagens, principalmente a forma como as árvores foram arrancadas pelo vento, certamente se trata de um tornado. O que não é possível, por enquanto, é afirmar a intensidade dele”, observou o meteorologista do Inmet Mameds Luiz Melo.

Isso é raro. O que acontece é que a tecnologia vem facilitando cada vez mais o registro destes eventos, fazendo a incidência parecer maior”
Tarcízio Valentin da Costa, meteorologista do Simepar

Nuvem Funil
Ainda na segunda, um morador de Realeza, também no sudoeste, havia registrado a formação de uma nuvem funil. A nuvem tem o formato semelhante ao de um furacão, mas não toca o solo.

De acordo com o meteorologista do Instituto Simepar Samuel Braun, esse tipo de fenômeno é esperado na região por causa das condições climáticas. “Ela [a nuvem] é um estágio inicial de um tornando, mas, além de tocar o solo, ela tem que provocar destruição para se caracterizar um tornado. Porém, a condição meteorológica é favorável para esse tipo de evento”, explicou.

A internauta Josiane Regina Cagol, que mora em Pranchita, na mesma região, também fez o registro de uma nuvem funil que quase encostou no chão. O registro foi feito por volta das 16h de segunda. “Eu estava no meu trabalho, e todos aqui ficaram com medo porque o tempo estava muito feio. Graças a Deus, não causou muitos estragos aqui na região”, disse.

Estragos
Do total de feridos, 19 estavam em Francisco Beltrão e 30 em Mariópolis. A cidade de Vitorino também foi atingida pelo vendaval, mas não registrou feridos. Quinze das vítimas em Francisco Beltrão estavam em uma festa de aniversário em uma casa que foi arrancada pelos ventos que chegaram a 115 km/h, conforme a Somar.

O vento forte também causou estragos no distrito de Agrocafeeira, no município de Matelândia, no fim da tarde de segunda.

De acordo com um dos moradores, Fernando Machado, as rajadas duraram poucos minutos e destelharam algumas casas e barracões. Parte do telhado do Colégio Estadual do Campo Rui Barbosa, da igreja e do ginásio de esportes foi destruída. O vendaval ainda arrancou uma árvore que acabou caindo sobre um carro.

Nuvem funil em Francisco Beltrão (Foto: Vanin Aparecido / Arquivo pessoal)Nuvem funil se dissipou com a chegada da chuva
(Foto: Vanin Aparecido / Arquivo pessoal)

Cidades atingidas
Os municípios atingidos são: Alto Paraíso, Amaporã, Ampére, Apucarana, Araruna, Barracão, Bom Jesus do Sul, Cafelândia, Congonhinhas, Floresta, Francisco Beltrão, Indianópolis, Iporã, Itaperuçu, Jandaia do Sul, Janiópolis, Loanda, Londrina, Lunardelli, Marialva, Mariópolis, Mauá da Serra, Nova Londrina, Ponta Grossa, Pranchita, Roncador, Rondon, Santa Cruz de Monte Castello, Santana do Itararé, Santo Antônio do Sudoeste, São Jorge do Ivaí, São Jorge do Patrocínio, São José dos Pinhais, São Pedro do Paraná e Umuarama.

Chuva continua
Para esta terça, o Simepar prevê mais temporais para várias regiões do Paraná, em especial para o oeste, sudoeste, centro e sul, além da divisa com Santa Catarina. Do centro para o norte e no leste, o sol aparece entre nuvens, e as chuvas – provocadas por uma frente fria que se desloca pelo Sul do país – ocorrem a partir da tarde.

Acredita-se que o acumulado de chuvas que deve cair em algumas cidades possa passar de 100 milímetros. No caso de Francisco Beltrão, a média para todo o mês de julho é de 135 milímetros de chuva.

Tornado - entenda como funciona (VALE ESTE) (Foto: Arte/G1)