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O capitalismo no limite?


Por Toby Helm

Na época em que Ed Miliband era criticado por arrastar o Partido Trabalhista demasiadamente à esquerda, marginais políticos à procura de um guia para os novos tempos eram muitas vezes encaminhados para um volume intitulado Variedades do Capitalismo.

Muito manuseado pelo ex-líder trabalhista, essa inovadora coletânea de textos defende a tese de que o capitalismo anglo-americano, com sua ênfase para um Estado reduzido, impostos baixos e um mercado desregulamentado, não era a única maneira de conduzir uma sociedade capitalista. Na Alemanha, por exemplo, eles fizeram as coisas de modo diferente.

Foi apenas alguns anos atrás, mas parece muito mais. Enquanto os rugidos de uma tumultuosa e repleta conferência do Partido Trabalhista continuam soando nos ouvidos, os conservadores hoje se reúnem em Manchester em estado de alto nervosismo. Pois a pergunta “Que tipo de capitalismo?” parece ter sido substituída por uma opção muito mais rígida a ser dirigida aos eleitores: “Capitalismo ou socialismo?”.

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Na conferência trabalhista, Jeremy Corbyn declarou que o capitalismo hoje enfrenta uma “crise de legitimidade”. Foi algo que os políticos vergonhosamente deixaram de enfrentar, mesmo depois que as falhas do sistema foram expostas tão claramente pela crise financeira global de 2008.

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Theresa May, quem diria, sensibilizada com a necessidade de algumas mudanças. (Foto: Oli Scarff/AFP)

Em vez de criar mais prosperidade para todos, o compromisso com mercados absolutamente livres, a desregulamentação e o recuo do Estado haviam deixado uma enorme massa da população em empregos inseguros, com salários reais em declínio e sem moradias decentes, enquanto forrava os bolsos de uma elite pequena e cada vez mais rica.

“Está na hora de o governo assumir um papel mais ativo na reestruturação de nossa economia”, declarou Corbyn. “Está na hora de os conselhos administrativos se responsabilizarem por seus atos. E é hora de desenvolvermos um novo modelo de gestão econômica para substituir os dogmas fracassados do neoliberalismo. É por isso que os trabalhistas hoje procuram não apenas reparar os danos causados pela austeridade, mas transformar nossa economia com um papel novo e dinâmico do setor público, especialmente onde o setor privado evidentemente falhou.”

A indústria da água privatizada foi um exemplo em que os mercados livres falharam com os consumidores, segundo Corbyn.

“Das nove companhias de água da Inglaterra, seis hoje são propriedade de fundos de investimentos privados ou estrangeiros. Seus lucros são distribuídos em dividendos aos acionistas, enquanto a infraestrutura desmorona, as companhias pagam pouco ou nada em impostos e o pagamento aos executivos disparou enquanto o serviço se deteriora. É por isso que estamos comprometidos a restituir nossas empresas de serviços públicos ao setor público, para colocá-las a serviço de nossa população e nossa economia e impedir que o público seja lesado.”

Jeremy Corbyn
Corbyn acha que chegou a hora de o governo assumir um papel mais ativo na reestruturação da economia (Foto: Leon Neal/AFP)

O debate sobre se o capitalismo de livre-mercado é de modo geral para o bem de todos é algo que a maioria do establishment político acreditava ter resolvido além de qualquer dúvida, até muito recentemente.

Desde Margaret Thatcher e durante os mandatos de John Major, Tony Blair, Gordon Brown e David Cameron, a tese a favor do livre-mercado, a ideia de ampliar a concorrência nos serviços públicos, a desregulamentação e a redução dos impostos das empresas eram amplamente incontestes até alguns anos atrás.

Desde então, porém, Corbyn não foi o único a levantar dúvidas. Seu antecessor, Miliband, quis intervir no mercado para conter os preços da energia porque acreditava que os consumidores estavam sendo enganados. Ele estava preparado para contra-atacar e contestar o pensamento aceito.

No referendo sobre a União Europeia em junho passado, um eleitorado que muitos políticos sentiam estar nervoso, parecendo desiludido, usou o voto sobre a participação na UE para pedir mudanças.
Quando entrou em Downing Street em julho, Theresa May parecia sensível à mudança de clima e prometeu governar para os que se sentiam ignorados e esquecidos – uma aceitação tácita de que elementos do sistema estavam abandonando os mais pobres da sociedade.

O manifesto conservador na eleição geral em junho deste ano dizia que “nós (os Tories) não acreditamos nos mercados livres desenfreados” e declarava que a regulamentação era “necessária para a organização adequada de qualquer economia”.

Depois do discurso de Corbyn na quarta-feira 27, Theresa May, claramente em pânico com o apelo do líder trabalhista entre os jovens eleitores e evidências de que muitas políticas dele – incluindo a renacionalização das ferrovias e outros serviços – têm amplo apoio, fez um discurso próprio. Embora ela tivesse levantado algumas dúvidas anteriormente, achou necessário reafirmar o compromisso de seu partido com o livre-mercado.

Em uma conferência para comemorar o 20º aniversário da independência do Banco da Inglaterra, May disse que o capitalismo “é inquestionavelmente o melhor e de fato o único meio sustentável de aumentar os padrões de vida de todos em um país. E nunca devemos esquecer que aumentar os padrões de vida e proteger os empregos dos trabalhadores comuns é o objetivo central de toda política econômica”.

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A privatização do abastecimento de água é um exemplo do fracasso do livre-mercado para os consumidores

O fato de um primeiro-ministro conservador ter achado necessário fazer tal declaração mostrou uma coisa acima de tudo: que os conservadores agora se sentem em grande perigo diante de um líder trabalhista que afirma que sua rejeição ao capitalismo contemporâneo não é antiquada, mas moderna e a nova corrente dominante.

Segundo Marc Stears, diretor da New Economics Foundation, o sistema capitalista que conhecemos é dominado por enormes e inimputáveis bancos e corporações globais. Há séculos, o apelo do capitalismo repousou em sua promessa de controle.

Diferentemente das sociedades do passado, diz, no capitalismo ninguém está preso a uma categoria ao nascer. Ao contrário, fazemos nossas próprias opções – o quanto trabalhar, em que trabalhar, como equilibrar nossa vida profissional com a vida privada – e moldamos nosso futuro.

O problema do capitalismo é que ele não se parece mais com isso. O sistema capitalista que conhecemos é dominado por enormes, inimputáveis bancos e corporações globais. Acrescente-se uma desigualdade de riqueza cada vez maior, e a sugestão de que o capitalismo nos empodera, em vez de nos escravizar, torna-se uma piada sem graça.

Portanto, o capitalismo está, sim, em uma encruzilhada, destaca Stears. Seus defensores devem encontrar um argumento totalmente novo para defendê-lo ou elucidar o que há no sistema que precisa mudar para que a promessa de controle real seja cumprida.

“Quando alguém refletir adequadamente sobre essa opção, acredito que perceberá que uma economia que dê às pessoas a sensação de que elas realmente importam no mundo ainda é a ambição correta. Mas ela também perceberá que construir essa economia exige uma ação radical e abrangente. Tal ação deveria começar pela limitação do poder de inúmeros interesses escusos, de bancos a companhias tecnológicas, reforçando a posição dos que trabalham para criar a riqueza, e a proteção de nosso meio ambiente cada vez mais frágil. Isso pode ser feito – o capitalismo já se adaptou antes –, mas o tempo está se esgotando”, adverte Stears.

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Sistema tributário brasileiro reforça a desigualdade, diz Oxfam — CartaCapita

cartacapital.com.br

Sistema tributário brasileiro reforça a desigualdade, diz Oxfam — CartaCapital


A configuração do sistema tributário brasileiro reforça desigualdades, pois contribui para a concentração da renda nas mãos de poucos. A conclusão é do relatório A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras, divulgado nesta semana pela Oxfam.

Apesar da carga tributária bruta girar em 33% do PIB – nível similar ao dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) – ela é mal distribuída. Os 10% mais pobres no Brasil gastam 32% de sua renda em tributos, enquanto os 10% mais ricos gastam apenas 21%.

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A distorção é óbvia quando se olha de perto os dados do imposto de renda. Como ressalta o relatório, sistemas justos de tributação da renda se apoiam em uma lógica simples: quem tem mais paga mais, quem tem menos, paga menos, e quem tem muito pouco não paga nada. Mas, no Brasil, essa lógica não vale para o topo da pirâmide.

Os dados do relatório mostram que pessoas que ganham 320 salários mínimos mensais pagam uma alíquota efetiva de imposto similar à de quem ganha cinco salários mínimos mensais, e quatro vezes menor em comparação com declarantes de rendimentos mensais de 15 a 40 salários mínimos. “Enfrentar as desigualdades passa necessariamente por uma reforma tributária. No Brasil dizemos que pagamos muito imposto. A gente paga muito imposto, mas não todos nós pagamos muito imposto”, ressalta a diretora executiva da Oxfam, Kátia Maia.

A progressividade das alíquotas efetivas cresce até a faixa dos 20 a 40 salários mínimos de rendimentos, passando a partir daí a cair vertiginosamente, justamente nos grupos mais ricos do País. Esta inversão é produto de duas distorções no imposto de renda: a isenção de impostos sobre lucros e dividendos e a limitação de alíquotas no Imposto de Renda para a as pessoa físicas.

Para Kátia Maia, dentro do tema da reforma tributária, o primeiro item que merece atenção é o imposto de renda. “Temos poucas faixas. O Brasil já chegou a ter 13 alíquotas, mas são somente quatro”, lembra. “E quanto mais no topo se está,a alíquota final é paga será menor. A tabela está congelada há 8 anos”, reforça.

Além da distorção causada pelo número reduzido de faixas do IR, lucros e dividendos são isentos de tributos desde 1996. “Lucros e dividendos são justamente os “salários” dos super-ricos”, compara o relatório.

Com a isenção, donos ou acionistas de empresas não pagam qualquer imposto sobre os dividendos recebidos na distribuição de lucros das empresas, política de isenção que existe somente em dois países da lista de membros e parceiros da OCDE: Brasil e Estônia.

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A medida beneficia justamente os mais ricos do Brasil, que têm aí suas principais fontes de rendimento. Dados da Receita Federal de 2016 apontam que as pessoas com rendimentos mensais superiores a 80 salários mínimos, pouco mais de 63 mil reais, têm isenção média de 66% de impostos, podendo chegar a 70% para rendimentos superiores a 320 salários mínimos mensais, ou 252 mil reais.

Por outro lado, a isenção para a classe média (considerando as faixas de 3 a 20 salários mínimos, é de 17%, baixando para 9% no caso de quem ganha 1 a 3 salários mínimos mensais. Em resumo, as menores rendas e a classe média pagam proporcionalmente muito mais imposto de renda que os super-ricos.

O que deixa de ser pago

Além dos desequilíbrios do sistema tributário, existe uma grande quantidade de impostos que simplesmente não são pagos. Isto ocorre tanto por elisão quanto por evasão fiscal – ou seja, legal e ilegalmente. A estimativa mais conservadora da entidade aponta para uma sonegação tributária da ordem de 275 bilhões de reais em 2016.

Há também uma enorme quantidade de recursos que deixaram de ser arrecadados pelo Estado como instrumento de incentivo econômico, as renúncias fiscais. Trata-se de exceções que viraram regras ao longo dos últimos anos, alcançando 271 bilhões de reais em 2016.

“Eliminar esses benefícios e ser rígido no controle da sonegação é super importante, é urgente. Nossas contas indicam que teríamos arrecadados em 2016, se tudo isso funcionasse bem, senão houvesse evasão fiscal, se não houvesse benefícios, esses incentivos, e se não houvesse essas formas de não recolher todos os impostos, seriam 600 bilhões de reais“, conclui Kátia.

Integração lavoura, pecuária e floresta, artigo de Roberto Naime

ecodebate.com.br

Integração lavoura, pecuária e floresta, artigo de Roberto Naime


ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) . Foto: Embrapa

[EcoDebate] Numa primeira abordagem se conceitua atividades que integram lavoura, pecuária e florestamento como uma integração fundamental para a recuperação de áreas degradadas, pastagens enfraquecidas e solos empobrecidos. Mas é muito mais que isso. A sinergia propiciada pela integração dos diferentes ambientes produtivos, permite reestabelecer o equilíbrio homeostático natural, além de propiciar a produção de grãos, fibras, carne, leite e até a geração de agroenergia.

De imediato ocorre a melhoria dos solos, recuperados fisicamente e novamente enriquecidos com nutrientes fundamentais para a composição vegetal. A criação conta com melhores pastagens e o florestamento permite harmonizar as atividades. Sem falar que a produção diversificada, minimiza os riscos com eventos climáticos ou determinações de preço por fatores de mercado não previsíveis.

A integração entre estes vários elementos, tende a reduzir as necessidades de aplicação de agroquímicos, pois as fezes de animais recompõe os nutrientes que os solos necessitam, evitando a necessidade de abertura de novas áreas para extração pecuária de qualquer natureza, pois espaços para criação de animais de médio e grande porte são garantidos. As técnicas e sistemas de integração são extremamente variados (MACEDO, 2.009), mas sempre tendem a possibilitar melhor manejo da propriedade rural pela integração e complementariedade das atividades e aumento da biodiversidade.

Também os controles erosivos são beneficiados pela adoção de técnicas de plantio direto que protegem os solos da ação erosiva da água da chuva agindo diretamente sobre as partículas do terreno. Em sistemas que associam práticas conservacionistas com plantio direto, os sistemas de integração entre lavoura, pecuária e floresta são uma alternativa muito viável tanto em termos econômicos como sociais e ambientais, cumprindo as determinantes vetoriais da sustentabilidade.

Inegavelmente sustentabilidade é um tema atual e que veio para ficar. O Brasil tem passado por um grande ciclo de evolução no agronegócio e na agricultura familiar também, de forma que os produtos gerados no chamado “campo” tem grande importância hoje em todos os tipos de indicadores que se considere.

O agronegócio provê também atividades do mercado interno, mas hoje é grandemente associado a atividades de exportação, enquanto a agricultura familiar é mais relacionada com abastecimento interno. Mas independentemente da fonte geradora, ocorre no país além de elevação das exportações de grãos e proteínas animais, o aumento na oferta de alimentos com melhor qualidade e menor preço. Embora a segurança alimentar ainda esteja muito associada a renda da população.

No entanto, conforme assevera MACEDO (2.009), os gastos com excessivo preparo do solo e a prática de monoculturas e a degradação das áreas de pastagens são caracterizados. Já se falou que a resistência dos ecossistemas equivale ao somatório da resistência de suas espécies componentes, vegetais e animais. Ou seja, a reprodução do meio natural original. É como se fossem os elos constituintes de uma corrente. Não adianta todos serem de material resistente, se um elo é formado de material vulnerável. Neste elo arrebenta a corrente. Assim são os frágeis e muito vulneráveis, ecossistemas naturais.

Fazendo uma aliteração quase poética, os bons sistemas naturais são constituídos por todos os elementos vegetais e animais adaptados. Cachorro, gato, avenca, samambaia, boi, galinha, papagaio e mais tudo que se imaginar. A resistência de um elemento se transfere ao sistema e protege o conjunto. Os primitivos indígenas já sabiam isto. Por isso cultivavam pequenas hortas com todas as espécies misturadas. E por isto também, como destaca MACEDO (2.009), sistemas contínuos com monoculturas, aumentam a ocorrência de pragas e doenças, tais como percevejo castanho, nematoides ou ferrugem da soja. O mesmo autor destaca que a reversão deste cenário pode ser obtida pela implantação de técnicas de plantio direto associadas à rotação de culturas em sistemas de integração de lavoura com pecuária e porque não dizer, também com florestas.

As adequadas abordagens técnicas, como a realizada por MACEDO (2.009) que argumenta corretamente que as condições climáticas e edáficas tem que serem compatibilizadas com os tipos de palhadas remanescentes nos solos para obtenção da plenitude das condições de produção, não invalidam o fato de que está se tornando cada vez mais urgente a preocupação com a necessária reconstituição dos “habitats” naturais e a manutenção plena das condições de biodiversidade para a própria recomposição do equilíbrio dos biomas.

Várias culturas tem sido utilizadas dentro da integração e inúmeros sistemas são detalhadamente descritos (MACEDO, 2.009) sendo referidas a soja, o milho, o milheto, o sorgo, o nabo forrageiro, o girassol e também algodão e diversas espécies de gramíneas forrageiras tropicais, se destacando as braquiárias, consorciadas ou não.

Os sistemas de integração possibilitam em muito a melhoria das condições ecossistêmicas, além de produção integrada. Os sistemas integrados possibilitam também a plena recuperação e manutenção das condições dos solos, tanto em termos físicos, quanto químicos e biológicos. Todo este conjunto melhora as condições de equilíbrio, a ocupação das populações e por consequência, melhora as condições de renda.

Se tem consciência que estas modificações de grande alcance não ocorrem da noite para o dia. Mas é preciso planejar e ir alterando esta realidade, para que se possa no futuro ter melhor qualidade ambiental e possibilitar melhor qualidade de vida para todos os agentes populacionais envolvidos.

MACEDO, M. C. M. Integração lavoura e pecuária: o estado da arte e inovações tecnológicas R. Bras. Zootec., v.38, p.133-146, 2009

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 13/08/2015

* Saiba mais sobre Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF) clicando aqui


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Amazônia Independente: movimento propõe a emancipação da região norte

Um dos líderes do movimento propõe a criação do país Amazônia, agregando todos os Estados da Região Norte.
No último domingo (1), a região da Catalunha, na Espanha, realizou referendo para saber se há viabilidade de emancipação e se tornar um novo país. Após a consulta, em que 42% da população foram às urnas, cerca de 90% dos eleitores se declararam favoráveis à divisão.
Embalados pela votação espanhola, o movimento O Sul é Meu País promoverá no próximo sábado (7), um plebiscito informal para saber se os eleitores do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul aprovam também a possibilidade de se tornarem um novo país.
Aqui na Amazônia, há movimentos que se articulam e propõem uma ruptura do Norte com o restante do país, e um deles é o Movimento Amazônia Independente. Um dos líderes do movimento, Axel Julyan, propõe a criação do país Amazônia, agregando todos os Estados da Região Norte.
“Nosso movimento surgiu com a união de um grupo amazonense e um grupo paraense há cerca de um atrás, tínhamos o mesmo ideal emancipacionista. Mas o movimento ainda está em processo de formação e consolidação, ou seja, tem funcionado de forma improvisada”.
Segundo Julyan, o grupo formado, em sua maioria, por pessoas dos Estados do Amazonas e Pará, pretende articular não apenas a ação de emancipação, mas também atividades e outras discussões.
“Pretendemos fazer sua legalização como associação cultural no próximo ano, para desenvolvermos inúmeras atividades, não somente de cunho separatista. Hoje nós temos um grupo com cerca de 50 integrantes, com pessoas de todos os estados da região norte, embora a maioria seja do Pará e Amazonas. Nós estamos buscando a adesão de mais pessoas nos demais estados. De vez em quando aparece nas redes sociais alguma página que promove o separatismo de algum estado, mas nós apenas ignoramos, pois não se tratam de movimentos sérios,” disse.
Ainda questionado sobre a viabilidade do movimento e a projeção caso a separação aconteça, Julyan afirma que é preciso combater mitos sobre a criação do amazônida e da Amazônia.
“ Mitos como os que dizem que a Amazônia é desabitada, que é dependente e incapaz de se sustentar – o que legitima o domínio brasileiro sobre nós. Somente com o que temos hoje, nós seríamos maiores que 70% dos países do mundo em relação à economia e população. Além disso, sem as amarras do estado brasileiro, com uma verdadeira emancipação, nós poderíamos partir para um verdadeiro desenvolvimento econômico com a construção de uma indústria nacional amazônida, e etc. Nós temos um potencial enorme pra nos desenvolver de forma humana e sustentável, mas na situação em que estamos, nós desperdiçamos todas essas oportunidades e aceitamos resignados situações absurdas promovidas tanto pelo Brasil quanto por outros países. Se nações menores podem, por que nós não podemos?” concluiu.
O que diz a Constituição?
Para o cientista político Helso Ribeiro, é inviável a emancipação da Amazônia e a criação de um novo país. Ele explica que qualquer proposta neste sentido é inconstitucional.
“Existe em nossa constituição uma cláusula pétrea que não pode ser superada, nem mesmo através de consulta popular. Com isso é inconstitucional qualquer divisão do território brasileiro. Ainda que tenham as divergências e as diferenças regionais, o país é uma nação, tem uma língua unificada, é miscigenado, diferente, por exemplo, da Catalunha, que busca consolidar sua divisão, mas é uma região com identidade e idiomas próprios,” disse.
Fonte: William Costa / Portal Amazônia.

Mapa da morte em SP vai da Suécia até o México; locais dos crimes se repetem

Quando o som das balas começam, a manicure Adriana de Mesquita, 31, esconde a filha de quatro anos no quarto e diz a ele que estão soltando bombinhas na rua. É o jeito que encontrou para que a menina fique mais calma nos dias em que acontecem troca de tiros em frente à sua casa.

Desde que a menina nasceu, o barulho dos disparos é frequente –já foram dois casos de homicídio. O último em maio, quando um homem de 36 anos foi baleado no início da madrugada. Dois anos antes, houve uma chacina com três mortos no mesmo lugar.

A estratégia lembra um pouco o filme “A Vida é Bela”, com Roberto Benigni, no qual o protagonista criava brincadeiras para fazer com que o filho não percebesse os horrores do holocausto.

Adriana tenta proteger a filha da realidade de seu bairro, o Jardim São Luís, zona sul de SP, que tem o maior número absoluto de mortes na cidade. Nos 12 meses entre entre julho de 2016 e junho deste ano, foram 43 casos.

Levantamento inédito feito pela Folha revela, bairro a bairro e rua a rua, o raio-X das mortes violentas na cidade. Hoje, a compilação de dados do governo Geraldo Alckmin (PSDB) só permite saber os crimes por distritos policial.

O recorte adotado pela reportagem foi feito a partir da base de dados bruta do governo estadual, com milhares de mortes. O critério para escolher os casos –similar ao usado internacionalmente– contabiliza homicídios, lesões corporais seguidas de mortes e latrocínios (assaltos seguidos de morte), mas exclui mortes praticadas por policiais em confrontos.

O Jardim São Luís teve uma taxa de 16 mortes por 100 mil habitantes no período, o dobro da média da cidade. Para efeitos de comparação, o índice é superior ao de países como República Democrática do Congo, na África, e Porto Rico, na América Central, ainda que sejam inferiores à média brasileira de 27 assassinatos por 100 mil, uma das maiores do mundo.

LADO EUROPEU

Ao mesmo tempo, São Paulo também tem seu lado lado europeu. Outro jardim, o Paulista, bairro nobre da zona oeste, por exemplo, tem índice de 1 morte a cada 100 mil habitantes, similar ao da Suécia.

Quando focados esses crimes com mortes, 33 dos 96 distritos da cidade têm índices menores que os dos EUA (4,8) e 28 com taxas maiores que a Nigéria (9,7). Já bairros centrais como a Sé atingem taxas que ultrapassam 70 casos por 100 mil habitantes, mas elas não refletem a violência real na região, uma vez que ali há poucos moradores, e o índice não contabiliza a grande população flutuante.

À frente dos violentos bairros do extremo sul, ainda aparece o Jaçanã (zona norte), com 23 mortes por 100 mil –índice superior ao do México, país assolado por guerras entre narcotraficantes.

Duas chacinas a 500 metros uma da outra deixaram 10 vítimas, alavancando a violência no bairro, que registrou um total de 22 mortes.

A suspeita da polícia é que a onda de mortes possa estar relacionada a uma disputa por pontos de caça-níqueis e também de jogo do bicho.

LUGAR MARCADO

A repetição de crimes nos mesmos lugares faz parte da dinâmica da violência da cidade, onde predomina a desigualdade, segundo o pesquisador Marcelo Nery, do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Ele dividiu a cidade em 20 mil partes para medir o índice de mortes em cada uma delas. A conclusão: até nos bairros violentos a violência é concentrada.

“O Jardim Angela é violento, mas se você quiser ser mais correto percebe que, mesmo lá, há lugares pacíficos e outros muito mais violentos”, diz Nery.

A região que compreende os bairros Jardim São Luís, Capão Redondo, Jardim Angela, Campo Limpo e Grajaú concentra uma a cada cinco mortes violentas na cidade. Não à toa, a estrada de Itapecerica, que corta a área, é a via com mais mortes na capital –um total de 11 em 12 meses.

A reportagem ouviu histórias como a de um açougueiro morto atrás do balcão do trabalho num acerto de contas, no Capão Redondo; ou a do rapaz alcoolizado que irritou homens numa praça e foi linchado, no Jardim Angela. Mas o relato que mais se repete é o dos motoqueiros encapuzados, que matam e desaparecem sem deixar rastros.

Eles cruzaram com o jardineiro Edivaldo dos Santos, 41, quando voltava para casa, em dezembro. “Me contaram que o Edivaldo falou: ‘Não me mate por favor, sou trabalhador, pai de família’. Não tiveram dó. Ele tomou tiros na cabeça, na barriga e no braço”, diz a mulher da vítima, Fabiana de Souza, 37.

A desconfiança dela é que a ação possa ter envolvimento de algum grupo de extermínio. “O pessoal aqui às vezes se revolta com a abordagem da polícia, e tem policial que retruca. Não demora muito, depois de certos tipos de abordagem, acontecem essas coisas [ataques a tiros por motoqueiros]”, diz.

Em 2015, dois jovens foram mortos por pessoas de moto na mesma rua. Uma das vítimas era um adolescente, Ewerton Silva, 16, que havia acabado de conseguir um emprego na rede McDonald’s.

A rua Pedro da Costa Faleiros, cenário das mortes de Edivaldo e Ewerton, tem apenas 650 metros de extensão e acumula ao menos cinco assassinatos desde 2012.

POBREZA

Apesar de não ser o único fator, a pobreza também influencia nos crimes de uma região, dizem especialistas.

As duas prefeituras regionais que abrangem o extremo sul, Campo Limpo e M’Boi Mirim, estão entre os primeiros lugares no índice de famílias em situação de extrema pobreza (que recebem até um quarto de salário mínimo).

“Pessoas com maior vulnerabilidade social –baixa escolarização, desempregados ou com menor renda– acabam sendo muito mais expostas ao risco da violência letal”, afirma o sociólogo Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Lima diz que, apesar da queda geral nos homicídios, os locais com maiores taxas continuam sendo os mesmos. Muitos deles já eram citados nas letras de rap dos anos 1990, como “Fim de Semana no Parque”, dos Racionais MC’s. “Você começa a pensar: faz mais de 20 anos que é assim no mesmo lugar. Por que não faz uma ação para resolver?”, questiona.

Para ele, apesar de esforços individuais, ainda falta ação articulada do poder público nesses pontos.

Para especialistas, a violência tem uma lógica própria em cada lugar. Muitas vezes, um homicídio pode gerar outros, em uma reação em cadeia. “Às vezes encontramos crimes que são reação a crimes ocorridos na década de 90”, diz o delegado Rodrigo Petrilli, do DHPP (Departamento de Homicídios) da Polícia Civil, que atua na zona sul.

Em outros casos, apenas um assassino pode estar agindo para elevar os índices criminais de toda uma região.

Foi o caso do PM Eduardo Alexandre Miquelino, conhecido como Tartaruga, que no horário de folga percorria o Capão Redondo cometendo assassinatos. Ele foi preso em 2015 e é suspeito de ter matado pelo menos 12 pessoas.

EM BUSCA DE PAZ

“Quando vi, a arma estava apontada na minha direção, a uma distância de três ou quatro metros. O cara mirou e deu. Eu só senti o impacto. Caí desacordado. Me surpreendi quando acordei e percebi que ainda estava vivo.”

O comerciante Marinaldo Santos de Santana, 33, autor do relato, é uma das vítimas da violência no Jardim São Luís, no extremo sul de São Paulo. O caso aconteceu em agosto de 2016, em um bar que tinha em sociedade com o irmão, que morreu naquele dia.

Do episódio, sobraram a cicatriz no peito e os sonhos constantes com o caçula, Rosivaldo Santos de Jesus, 30.

“Pior dor do mundo perder um irmão. O que precisasse dele eu podia contar. Ajudava muita gente, morreu ajudando os outros”, diz ele, que decidiu deixar o Estado de São Paulo após a tragédia.

Rosivaldo tentava proteger uma conhecida de seu ex-namorado, contra quem já havia feito várias queixas à polícia por ameaça, o que gerou uma rixa entre os dois. A moça postou uma foto nas redes sociais no bar dos dois irmãos, que estava lotado durante uma apresentação de um grupo de samba.

O ex-namorado ciumento apareceu armado. Acertou um amigo dos donos do bar logo na chegada –mesmo baleado na cabeça, o homem sobreviveria. “Do nada, ouvimos sete, oito tiros. Estávamos eu e meu irmão no balcão do bar. Falei: ‘É tiro, é tiro’. Ele falou: ‘Abaixa a porta’. Havia pessoas correndo pra dentro do bar, pessoas correndo pra fora, cadeira voando”, relata Marinaldo.

Após os disparos, ele acordou com o corpo do irmão sobre o seu. “Eu abro o olho e vejo meu irmão cheio de sangue, com o olho esbugalhado. Aí as pessoas começaram a voltar, eu pedindo ajuda, porque não conseguia levantar. Ele estava em cima de mim.”

Marinaldo ficou internado por quatro dias e perdeu o enterro do irmão. “Minha mulher veio dar a notícia da morte dele, eu não acreditava. Ela teve que mostrar a foto para mim já dentro do caixão.”

A família de Marinaldo se mudou para o Jardim São Luís quando ele tinha sete anos. A mãe separada e com quatro filhos resolveu deixar a Bahia para tentar a sorte em São Paulo. Marinaldo diz que perdeu vários amigos ainda adolescentes, durante a década de 1990, quando SP enfrentava o ápice de homicídios.

Alto e forte, Marinaldo diz que sempre fugiu de confusão. Mesmo depois da morte do irmão, não cogitou vingança, modo como muitos no bairro costumam compensar a sensação de impunidade.

O atirador até hoje está foragido. “Deve estar vivendo em outro Estado, pode ter trocado de identidade. E nós ficamos com o sofrimento.”

Marinaldo faz tratamento psicológico. Quando conversou com a reportagem, preparava a mudança. Buscaria paz e uma nova vida com a mulher e o filho em Florianópolis.

O governo Geraldo Alckmin (PSDB) afirma que as mortes violentas tiveram “queda expressiva”, incluindo nas regiões periféricas.

“Os casos de homicídios dolosos caíram 17,74% e chegaram ao menor total para a série histórica iniciada em 2001: 51 registros no mês, 11 a menos que os 62 contabilizados em agosto do ano passado”, afirma nota da Secretaria da Segurança Pública.

Utilizando critério diferente da reportagem, em que exclui roubos seguidos de morte, a pasta afirma que os homicídios caíram 82% desde 2001 na região que abrange o Jardim São Luís, Campo Limpo, Capão Redondo e Jardim Angela. Nas contas do governo, o índice de mortos por 100 mil habitantes naquela área caiu de 88,71 para 13,26.

Em relação ao bairro do Jaçanã (zona norte), a secretaria afirma que as mortes caíram 75% no período no mesmo período. A respeito das duas chacinas recentes no bairro, a Polícia Civil afirmou que a última delas, ocorrida em abril e que deixou seis mortos, foi solucionada.

“Foi uma briga interna de domínio de jogo de bicho e máquinas caça-níqueis”, disse o delegado divisionário do DHPP (Departamento de Homicídios), Arlindo Negrão. Segundo ele, uma mulher suspeita de ser a mandante foi presa e o executor foi indiciado, mas está foragido.

De acordo com o capitão da Polícia Militar, Rodrigo Fernandes Cabral, da comunicação social, a corporação tem feito apreensões de armas com objetivo de diminuir os homicídios na cidade. “Em 2016, 2.700 armas foram apreendidas na cidade de São Paulo. Este ano já foram 1.541.”

Ele afirma que, além de apreender armas, a PM busca demonstrar o máximo de presença possível, com objetivo de inibir atos violentos.

O PM afirma que o índice de homicídios também está relacionado a questões que não são policiais, como educação, saneamento básico e lazer. “A PM, a grosso modo, lida com a ponta final”, diz.

O governo paulista também foi questionado sobre o estágio de investigação da morte de Edivaldo dos Santos, mas não envio resposta sobre o assunto.

Números da violência na cidade de são paulo - Por distrito - Taxa de mortes por 100 mil habitantes, de jul.2016 a jun.2017 - Página Gráfica

Como foi feito o levantamento
Foram utilizados os endereços dos boletins de ocorrência disponíveis no site da Secretaria Estadual da Segurança Pública de SP. A reportagem retirou duplicidades de crimes, mas, devido a imprecisões no preenchimento por parte da pasta, pode haver uma ligeira margem de casos repetidos ou omitidos -o número global, porém, é similar ao divulgado pela SSP nos últimos anos

Taxas por 100 mil habitantes
A população usada para o cálculo da taxa de mortes dos distritos é a do censo do IBGE de 2010. Segundo o órgão, não há estimativas recentes com esse nível de regionalização

 

 

Números da violência na cidade de são paulo - Termômetros da violência- Taxa de mortes violentas por 100 mil habitantes - Considerando homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte - Página Gráfica

O rombo nas contas públicas no governo Michel Temer

O rombo nas contas públicas no governo Michel Temer, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

déficit primário e nominal, Brasil: 2010-2017

 

[EcoDebate] A situação fiscal do Brasil é dramática e o presidente Michel Temer – para se sustentar no cargo durante 2 anos e meio – está comprometendo totalmente as finanças públicas e colocando o país na rota da falência e da inadimplência. O ex-vice-presidente que contribuiu para a deterioração fiscal, agora, como presidente, está batendo todos os recordes e gerando o maior rombo fiscal da história brasileira.

O gráfico acima mostra as contas públicas brasileiras conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), WEO de abril de 2017. O superávit/déficit primário é o resultado do balanço da arrecadação, menos os gastos do governo, mas sem contabilizar os juros da dívida. Corresponde à geração de caixa do governo. O superávit ajuda a reduzir o endividamento. O déficit nominal acelera o crescimento da dívida pública. O conceito de déficit nominal inclui o déficit/superávit primário mais os gastos com o pagamento de juros. Quanto maior o déficit nominal mais rápido cresce a dívida pública.

Os dados são claros. O Brasil possuía superávit primário até 2013, sendo que o superávit foi de R$ 129 bilhões em 2011 e de R$ 91 bilhões em 2013. Mas em 2014, ano eleitoral, o superávit virou déficit primário de R$ 33 bilhões. Em consequência do aumento das despesas e dos juros, o déficit nominal cresceu assustadoramente de R$ 158 bilhões, em 2013, para R$ 344 bilhões em 2014.

Mas o que estava ruim ficou pior. Em 2015, primeiro ano do segundo mandato da gestão Dilma-Temer, o déficit primário foi para R$ 114 bilhões e o déficit nominal foi para R$ 616 bilhões (representando mais de 10% do PIB). Portanto, é falsa a alegação que o ministro Joaquim Levy provocou um austericídio. Na verdade, o ano de 2015 foi de grande recessão, grandes déficits e grande crescimento da dívida pública. 2015 foi um ano terrível.

Em 2016, o déficit primário cresceu mais ainda e o déficit nominal só não cresceu mais devido à queda da taxa de juros nominal (embora tenha tido crescimento da taxa de juro real). Depois de três anos muito ruins (2014-2016) – que marcaram a mais profunda e prolongada recessão da história do Brasil – esperava-se uma certa recuperação em 2017. Mas, se a variação do PIB não será tão negativa, as finanças públicas estão mostrando que a coisa continua feia.

O FMI estimava um déficit primário de R$ 159 bilhões e um déficit nominal de R$ 616 bilhões (conforme mostrado no gráfico). Mas a equipe econômica que prometia seriedade na gestão macroeconômica, está sendo vencida pelas ambições políticas da base aliada que está promovendo um verdadeiro “assalto” ao patrimônio público.

Como escreveu o jornalista Vinicius T. Freire, no jornal Folha de São Paulo (FSP): “Nesta terça (15/08), a equipe econômica anunciou um pacote desesperado a fim de corrigir a besteira e conter outras à espreita: a coalizão temeriana rasgou de vez a fantasia responsável depois da folia que manteve o presidente no poder. A casta burocrática e o estamento empresarial com amigos e representantes no Congresso hastearam as bandeiras piratas e planejam saquear o Estado quase falido. Parlamentares temerianos inventam gastos e rejeitam tanto aumentar impostos como votar remendos na Previdência. Planejam assim um colapso à moda do Rio de Janeiro, um modo de dizer apenas, pois o desastre teria outro feitio”.

Também na FSP, o ex-ministro da ditadura e ex-deputado, de linha conservadora, Delfim Neto, escreveu: “A semana passada foi triste. Revelou que boa parte da Câmara dos Deputados se recusa a entender a gravidade da situação nacional. Isso está gerando uma repugnância da sociedade para com a sua atividade, o que é prejudicial à democracia. Primeiro tivemos a reação intempestiva da Comissão Mista de Orçamento (CMO) aos vetos opostos à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2018. Logo depois, o resultado absolutamente indecente foi somado a um dispositivo de infantilidade estudantil apresentado pela Comissão de Reforma Política (CRP). Com relação à LDO, foi sancionada com 47 vetos. Atingiram dispositivos que aumentavam gastos. Por exemplo, permitir, nessa penúria, reajustes do Legislativo acima da inflação, que, combinados com o limite da despesa, consumiriam recursos de outras atividades mais necessárias, além de sugestões ”ad gustum” do populismo do qual o Brasil tenta se livrar. Alguns deputados acreditam que é o Orçamento que cria recursos. Infelizmente, o mundo físico é mais cruel: são os recursos que limitam o orçamento! ”.

O fato é que a política está vencendo a economia e o governo Michel Temer se mostra incapaz de cumprir a sua autodeclarada missão de recuperar as contas públicas e reativar a economia para diminuir o desemprego. Na realidade, aumentou o preço dos combustíveis, aumentou os déficits (primário e nominal), manteve as desonerações e subsídios, aumentou as benesses das emendas parlamentares e projetos de interesses partidários num ano eleitoral, propôs o novo Refis, pretende reduzir o ajuste do salário-mínimo, congelar o salário dos funcionários públicos, cortar gastos sociais, enquanto a previdência apresenta déficits insustentáveis. O povo e o meio ambiente estão sofrendo como nunca.

E além de tudo a Câmara Federal quer instituir um fundo eleitoral de R$ 3,6 bilhões, com dinheiro público, para os parlamentares fazerem campanha eleitoral e mentir descaradamente para o eleitorado que é refém do sistema partidário e eleitoral e ainda tem que pagar a conta deste despautério. Michel Temer está comprometendo ainda mais as finanças para conseguir uma base mínima de apoio no Congresso e a sua base parlamentar está espoliando tudo que pode, enquanto o país agoniza. A oposição, enfraquecida e sem propostas para tirar o país da crise, só pensa nas eleições de 2018. O Brasil está no limbo, como no último ano do governo Sarney. A história se repete, como uma tragédia.

O IBGE informou que a taxa composta de subutilização da força de trabalho caiu de 24,1%, no 1º trimestre para 23,8% no 2º trimestre de 2017, mas ainda representava 26,3 milhões de trabalhadores desempregados ou subutilizados. A taxa de desocupação entre os jovens de 14 a 17 anos de idade ficou em 43% e entre os jovens de 18 a 24 anos ficou em 27,3%. Uma tragédia social que atinge a juventude, criando uma geração perdida e sem futuro. A “criança esperança” vai receber uma herança maldita.

O alto desemprego e a alta capacidade ociosa (fábricas paradas, lojas fechando, consumo em queda em relação a 2010, etc.) fizeram a inflação cair para nível abaixo da meta do Banco Central e possibilitaram um grande superávit na balança comercial. Isto tem evitado um choque externo e uma maior desvalorização do real. Mas as exportações brasileiras (fortemente dependentes de produtos primários e commodities) pode sofrer um baque com a crise internacional que se avizinha.

O eclipse do dia 21/08 nos Estados Unidos parece ser um sinal de um eclipse econômico, provocado por um eclipse político da democracia americana e agravado pelas atitudes absurdas do governo Donald Trump. Uma crise internacional nesse momento agravaria ainda mais a crise brasileira.

Mas uma coisa parece certa, independentemente das variações da conjuntura, o fato estrutural é que a dívida pública brasileira cresce de maneira exponencial e se aproxima de 100% do PIB, conforme mostra o gráfico, com dados do FMI. O atual governo (que começou em 2014) está comprometendo totalmente o futuro da economia brasileira. E o mais grave é que Michel Temer e o Congresso estão fazendo políticas que prejudicam a maioria da população, favorecem uma minoria, e estão reduzindo os investimentos que poderiam reduzir o desemprego. Assim, Temer (e sua base no Congresso) está colocando o Brasil no caminho dos piores dias da tragédia grega.

 

dívida pública brasileira - % do PIB

 

Devido ao crescimento da dívida pública e ao desequilíbrio entre receitas e despesas o próximo governo (2019-2022) vai conviver com déficits primários e baixo crescimento da economia. A agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) colocou a nota de risco soberano do Brasil em observação negativa. O chamado “creditwatch”, com viés negativo, é um alerta de curto prazo para um possível rebaixamento rating e reflete o aumento da incerteza relacionada aos eventos políticos recentes e aos constantes casos de corrupção.

Desde que Michel Temer assumiu a vice-presidência no início da atual década (01/01/2011), o Brasil começou uma trajetória de declínio e sofrimento. Mas o que estava ruim no primeiro mandato, piorou muito no segundo e, principalmente, após o maior estelionato eleitoral da história republicana (em 2014). O país entrou num círculo vicioso de longo prazo, com alto desemprego, baixas taxas de poupança e investimento e estagnação do PIB e da renda per capita. É o pacto da mediocridade.

Considerando os últimos 4 anos, o Brasil vive o seu pior momento econômico de todos os tempos. O país já está na sua segunda década perdida e virou uma nação submergente. O “Gigante pela própria natureza” vai chegar aos duzentos anos da Independência, em 2022, como uma nação totalmente enfraquecida e dependente das finanças nacionais e internacionais.

Se não houver uma virada total de página urgentemente, o Brasil pode entrar em uma fase de regressão permanente e de des-desenvolvimento. O lema positivista do governo Temer é o mesmo da bandeira nacional: “Ordem e Progresso”. Mas a dura realidade está mostrando que, sem brilho, o “Florão da América” está mais para “Desordem e Regresso”.

Referências:

ALVES, JED. A explosão dos déficits primário e nominal e a mudança de governo, Ecodebate, 13/05/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/05/13/a-explosao-dos-deficits-primario-e-nominal-e-a-mudanca-de-governo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. O descontrole da dívida pública e o futuro do Brasil, Ecodebate, 16/05/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/05/16/o-descontrole-da-divida-publica-e-o-futuro-do-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/08/2017

“O rombo nas contas públicas no governo Michel Temer, artigo de José Eustáquio Diniz Alves,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/08/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/08/21/o-rombo-nas-contas-publicas-no-governo-michel-temer-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Os invisíveis geram medo

diplomatique.org.br

Os invisíveis geram medo – Le Monde Diplomatique


EDITORIAL

Os invisíveis geram medo

São mais de 160 pessoas assassinadas por dia. Na Síria, por exemplo, em quatro anos de guerra morreram 256 mil pessoas. No Brasil, no mesmo período, quase 279 mil.2 Não é uma guerra civil declarada, mas este é o país em que os policiais mais matam e mais morrem no mundo. Se de um lado estão os policiais e o Estado, do outro lado quem é o inimigo?

por: Silvio Caccia Bava

2 de agosto de 2017

Crédito da Imagem: Claudius

claudius 121-POBRES NA TV

A situação ainda não está fora de controle, mas há riscos de entrarmos em um período de confrontos e violência muito mais agudos do que vivemos atualmente. O que acontece hoje no Rio de Janeiro é sinal do que vem por aí. Já assusta todo mundo o fato de que o Brasil atingiu a marca recorde de 59.627 homicídios por armas de fogo em 2014, uma alta de 21,9% em comparação aos 48.909 óbitos registrados em 2003, segundo o Mapa da violência divulgado em 2016.1

São mais de 160 pessoas assassinadas por dia. Na Síria, por exemplo, em quatro anos de guerra morreram 256 mil pessoas. No Brasil, no mesmo período, quase 279 mil.2 Não é uma guerra civil declarada, mas este é o país em que os policiais mais matam e mais morrem no mundo. Se de um lado estão os policiais e o Estado, do outro lado quem é o inimigo?

O que as classes dominantes nos querem passar – e para isso se utilizam da TV – é que o confronto se dá entre criminosos, malfeitores, bandidos, vagabundos, narcotraficantes, corruptos e os que defendem a ordem e a lei. Usam para isso programas como Cidade Alerta.

Ao produzir no imaginário dos brasileiros esse tipo de confronto, a TV oculta a pobreza, o desemprego, a falta de oportunidades para os jovens, a precariedade de nosso sistema educacional, a falta de moradia, os reais problemas da grande maioria dos brasileiros e brasileiras. Essa ocultação falseia o diagnóstico. Já que o que aparece na TV sobre os pobres é a perseguição aos bandidos, o imaginário do brasileiro acabou aceitando a percepção do pobre como um ser perigoso, que necessita ser controlado.

Na verdade, trata-se de repressão e controle policial sobre as grandes maiorias empobrecidas, controle que tem como imagem emblemática as Unidades de Polícia Pacificadora – as UPPs – instaladas em favelas do Rio de Janeiro e que, a pretexto de combater o narcotráfico, chegam a impor toque de recolher em certas áreas da cidade. Isso para não falar na política de encarceramento maciço sustentada pelo nosso Judiciário, hoje com mais de 200 mil presos “para averiguação”, em sua maioria jovens e negros, sem nenhuma acusação pesando sobre eles.

Numa sociedade organizada para facilitar os negócios e atender aos interesses das grandes empresas, a imagem construída da sociedade é a de um grande mercado onde se oferecem produtos e serviços para quem tem recursos para comprá-los. Consumismo e produtivismo são as molas do que se entende como progresso. A TV aberta é a vitrine desse mercado e se orienta para seduzir as classes médias e impor um padrão de consumo. O pobre, isto é, a grande maioria dos brasileiros, não existe na TV. E se é pela TV que a grande maioria se informa, então os pobres não existem para a sociedade em que vivem. Não se sabe como é a vida nas favelas, como funcionam as escolas públicas, como são as relações de rua e de bairro, o que fazem os jovens da periferia etc.

Ignorar os pobres tem como duplo propósito ignorar suas demandas, suas necessidades, e mantê-los sob controle, de preferência alimentando uma situação de apatia.     

“A representação de si, neste contexto, é decisiva. Aqueles que não têm nome não podem se nomear, não podem existir enquanto pessoas e não podem agir coletivamente. Se tivermos essa preocupação no espírito, compreenderemos melhor o interesse dos dominantes de fazer desaparecer do campo das representações certas categorias sociais e de querer que outras ocupem todo o espaço, pois aqueles que se tornaram invisíveis aos olhos dos outros se tornaram também invisíveis para si mesmos. Ao contrário, as categorias sociais superexpostas, supervisíveis, podem fazer crer que a representação de si mesmas é a única realidade social efetiva. Assim se constrói o imaginário social coletivo e a ideia que cada um faz de si mesmo.”3

Não basta dizer que a solução para a violência presente na sociedade não é o encarceramento maciço nem o assassinato em massa, como vem sendo feito com os jovens negros da periferia. Soa quase impossível nesse cenário polarizado identificar as causas da violência com a falta de políticas públicas que ofereçam às maiorias as mínimas condições de vida, especialmente nas grandes cidades. A juventude que tem perspectivas de futuro (de emprego, moradia, mobilidade, saúde, educação) não adere à violência, à criminalidade.

As políticas do atual governo cerceiam o futuro de nossa juventude ao impor profundos cortes nas políticas sociais. É um ataque aos direitos humanos, aos direitos sociais, uma violência deliberada sobre a vida das maiorias.

Nessas condições, a única maneira de essas maiorias se tornarem visíveis para o conjunto da sociedade e verem suas necessidades e demandas inscritas na agenda política nacional é por meio da mobilização social, do protesto, da pressão sobre o sistema político.

Se essa pressão vai se radicalizar e assumir formas violentas ninguém sabe, mas parece que somente dessa forma, somando as demandas de diferentes grupos sociais em um movimento amplo de protesto e questionamento da ordem estabelecida, é que o povo sai do anonimato, pode se reconhecer na sua existência, nas suas demandas, tornar-se ator político, apresentar-se para o conjunto da sociedade em toda sua potência. E é disso que as classes dominantes têm medo.

*Silvio C. Bava é diretor do Le Monde Diplomatique Brasil


1 Julio Jacobo Waiselfisz, Mapa da violência 2016, Flacso Brasil.

2 G1, Jornal Nacional, 28 out. 2016.

3 Jean-Luc Mélenchon, L’Ère du peuple [A era do povo], Fayard/Pluriel, Paris, 2017, p.89.

ERRATA

As notas do editorial da edição anterior (n. 120) não foram publicadas. Seguem abaixo.

1 Ernesto Laclau, entrevista ao Le Monde, 9 fev. 2012.

2 Larry Diamond, cientista político e professor da Stanford University. Entrevista à Folha de S.Paulo, 17 maio 2017.

3 Francisco Panizza (org.), El populismo como espejo de la democracia, FCE, Buenos Aires, 2009.

4 Ibidem.

5 José Murilo de Carvalho, “Ecos do passado”, Folha de S.Paulo, 28 maio 2017.

6 Boaventura de Sousa Santos, A difícil democracia, Boitempo, São Paulo, 2016, p.160.

7 Evelyne Pieller, “Patologias da democracia”, Le Monde Diplomatique Brasil, jun. 2017.

8 Chantal Mouffe e Iñigo Errejón, Construir um povo. Por uma radicalização da democracia, Éditions du Cerf, Paris, 2017.