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O ódio como ameaça ao pacto civilizatório

leia no original:    https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-odio-como-ameaca-ao-pacto-civilizatorio

por Pedro Estevam Serrano

O debate político, não é de hoje, perdeu o freio e chegou a um nível de racionalidade próximo de zero
Militantes pró e contra impeachment

Urros da barbárie

No livro Is democracy possible here?, de Ronald Dworking, que me foi indicado pelo brilhante professor de Direito Constitucional e Processo Civil Georges Abboud, há uma ideia central que, de certa maneira, traduz uma preocupação que pessoalmente me assoma há algum tempo. O livro é de 2006 e não tem tradução em português. Dworking, grande jurista e teórico político, analisa a conjuntura política norte-americana daquele momento, fazendo pontuações que, como ele próprio afirma na apresentação, não cabem só aos Estados Unidos, mas a todo o Ocidente, em alguma medida.

Dworking trata especificamente da relação entre os “vermelhos” e os “azuis”, ou republicanos e democratas, e de como a disputa entre os adeptos desses dois grupos, à época, se refletia em um debate cada vez mais raivoso, emocional, desprovido de qualquer racionalidade. Segundo relata o autor ao longo da obra, a animosidade entre conservadores e liberais era tanta que praticamente inviabilizava a convivência.

De lá pra cá, ao que parece, não mudou muita coisa. O ódio foi o ingrediente principal da recente disputa eleitoral entre Donald Trump e Hillary Clinton pela presidência dos Estados Unidos. Os candidatos, seus partidos e apoiadores elevaram o tom a decibéis impensáveis, trocaram acusações graves e abriram espaço para grupos de ódio racistas e xenófobos mostrarem que estão mais ativos do que nunca.

No Brasil, também não é de hoje que o debate político perdeu o freio, chegando a um nível de racionalidade próximo de zero. A raiva, a deselegância e insensatez estão na boca e nos dedos ávidos daqueles que não perdem a oportunidade de manifestar supostas divergências em relação a quase tudo, seja nas redes sociais e nos portais de notícias, seja na mesa do almoço ou do bar. Assim, creio não ser preciso tomar o precioso tempo do leitor com exemplos e demonstrações. O mais importante, me parece, é procurar entender por que o ódio que hoje permeia quase todo tipo de discussão chegou a níveis estratosféricos. A identificação desse problema é fundamental para entender o que está havendo e reconstruir um caminho democrático.

Como diz Norberto Bobbio, democracia é um procedimento, um processo de disputa, que visa preservar a paz. É por meio da disputa política, da disputa do voto e, depois, de um processo de deliberação entre os legisladores e representantes da sociedade civil, por exemplo, que os conflitos de interesse entre os distintos grupos são resolvidos por decisão majoritária. Luigi Ferrajoli destaca que após as Constituições do pós-guerra, rígidas, a definição de Bobbio, e de Hans Kelsen, também precisa ser acrescida de dimensões materiais relativas à proteção das liberdades públicas e à efetivação dos direitos sociais, limitando, portanto, o conteúdo da decisão política majoritária.

Como tenho reiterado em alguns artigos, a democracia não pode, no entanto, ser entendida apenas como um regime político do Estado. Democracia é muito mais do que isso e para que se efetive depende de como se comporta a sociedade. Não se pode manter um Estado democrático com uma sociedade autoritária. Há uma inter-relação evidente entre Estado e sociedade que leva o grau de democracia que de fato existe nessa sociedade a se refletir nas condutas concretas do Estado.

É comum ouvirmos de debatedores de parte a parte que democracia é divergir e que, portanto, conflitar é a atitude verdadeiramente democrática. Há, obviamente, alguma verdade nesse argumento. Não se deve jamais discutir o direito do indivíduo a divergir. A democracia só se sustenta se for garantida a qualquer cidadão a possibilidade de discordar, inclusive quando se opõe às estruturas de poder ou a qualquer decisão estatal, jurisdicional, legislativa ou administrativa.

Por outro lado, é verdade que esse debate não deve funcionar como ato de guerra. Numa sociedade que tem o mínimo de maturidade democrática, o debate, por mais competitivo, deve ter a funcionalidade argumentativa.

Se um diálogo argumentativo e minimamente racional produz divergência – aliás, é da natureza do debate gerar divergências –, ao mesmo tempo produz consenso entre seus debatedores, mesmo que não explícito, como pressupostos valorativos gerais. Todo debate racional produz consenso e dissenso.  O dissenso acaba por gerar um consenso que, por sua vez, produz novo dissenso e, assim, sucessivamente.

Uma sociedade não consegue ser democrática se, a par das divergências existentes, não atingir um patamar valorativo mínimo em comum. Quando o debate público perde a racionalidade e ganha o território da emoção, passa-se a produzir certas visões de mundo mais pautadas em afeto e menos em lógica e coerência. E só será possível superar esse tipo de posição afetiva, normalmente mais autoritária, desarticulando-se esses afetos e criando-se um mínimo de predisposição à convergência e à formação daquilo que Dworking chama de common ground, ou seja, de padrões mínimos de consenso, o que fortalece a democracia.

Na sociedade contemporânea ocidental, a democracia foi concebida por um processo histórico e surgiu como alternativa concreta a partir das revoluções gloriosa, francesa e americana. Foi a partir do século XVIII e, marcadamente nos séculos XIX e XX, que um pacto humanista entre conservadores céticos, liberais e a esquerda democrática se firmou. Por maiores que tenham sido as divergências entre esses segmentos – e foram muitas e substanciais –, como havia uma pauta humanista mínima comum a todos, ao menos no campo dos direitos negativos, ou seja, dos direitos do indivíduo e/ou das comunidades face ao poder do Estado, e de valores morais mínimos relativos a dignidade humana, formou-se um certo consenso civilizatório.

As consequências desse consenso transcenderam o âmbito do Direito e passaram a gerar uma moralidade própria, ou seja, um conjunto mínimo de valores morais compartilhados por todos. Os mecanismos de sublimação ou de autorrepressão humana, imprescindíveis para se garantir a convivência, se estabeleceram a partir dessa visão humanista comum. É graças à moralidade advinda desse consenso civilizatório mínimo que qualquer indivíduo de bom senso entende, ou deveria entender, que diante da enfermidade ou da morte de um desafeto ou de seu familiar o momento de dor deve ser respeitado. Seria desumano aproveitar-se da fraqueza extrema do adversário para querer fustigá-lo. Essa honorabilidade na disputa e o reconhecimento da condição humana do adversário é algo inerente a esse pacto.

Quando observamos o ódio do discurso, o debate raivoso, o despudor no ataque ao oponente em momentos de vulnerabilidade e a ausência de formação de consensos mínimos, dá-se justamente o “common ground” humanista de civilização. Isso se traduz no comportamento dos indivíduos, que deixam de ter freios de sublimação e passam a expressar o lado mais primitivo das emoções humanas. Isso não só dificulta a vida em comum, num processo que se quer democrático, mas também abre amplo espaço para o surgimento de propostas políticas e modelos de comportamento autoritários.

Vale dizer que, com todas as guerras, processos de repressão e exploração, genocídios e tudo de ruim que a civilização ocidental experimentou do século XIX até hoje, não se pode descartar inteiramente suas conquistas. A civilização ocidental produziu na modernidade imensos avanços, do campo tecnológico e científico ao político, ético, moral e jurídico. Trata-se do único modelo civilizatório capaz de fazer a autocrítica de seus processos de violência, como o nazismo e o fascismo, os genocídios etc.

Aparentemente, também têm contribuído para o aniquilamento do nosso common ground humanista certos aspectos fundamentais desse processo que, como todo engenho humano, têm características negativas, como é o caso da comunicação por internet. Esse ambiente, que permite enorme facilidade na pesquisa, no acesso a documentos, estudos e informações que favorecem o desenvolvimento cultural, também é o espaço – as redes sociais, em especial – da produção de dois fenômenos interessantes e ao mesmo tempo assustadores: o conhecimento superficial e a expressão das emoções sem qualquer tipo de pudor, de freio civilizatório.

Se a internet propicia algum nível de informação, o principal problema daqueles que se digladiam, ao contrário do que se costuma dizer, não é a ignorância, mas o conhecimento raso e fragmentado acerca dos fenômenos. Basta um conhecimento superficial de um determinado tema ou acontecimento para fazer com que se sintam aptos a avalizar um determinado ponto de vista.

Acontece que, como bem pontuou Hannah Arendt, o mal sobrevive na banalidade, na superficialidade, nunca é radical, pois não desce à raiz, não tem profundidade. Mas pode ser extremo. Agentes policiais torturam prisioneiros por acreditarem de forma irrefletida que isso faz parte do seu papel profissional. É a ausência de reflexão – ética, moral, política – a origem do mal que pode se tornar extremo e levar a um genocídio.

Essa mesma falta de reflexão, conjugada à ausência de qualquer freio civilizatório, tem pautado diariamente o debate público e, principalmente, as discussões que se estabelecem nas redes sociais.

Não se pode interpretar democracia apenas como um espaço onde é possível divergir, assim como não se pode imaginar o ambiente da política, numa democracia, como o ambiente das emoções mais primitivas. Democracia pressupõe consensos formados pelo debates dotados de um mínimo de profundidade analítica e reflexiva, onde a racionalidade e a moral humanista sirvam de freio sublimatório dos afetos mais primitivos.

A vida pública – seja no Congresso, nos sites de notícias e nas redes sociais – precisa voltar a ser pautada pelo debate racional que possibilite a formação de alguma convergência. Caso contrário, estará sob risco de extinção não só a possibilidade de uma sociedade e de um Estado verdadeiramente democráticos, mas também aquilo que chamamos de civilização.

A cultura do estupro

Não podemos perder tempo disputando a realidade. Um ato sexual que acontece sem o consentimento de uma das partes envolvidas é um estupro. Sempre

por Joanna Burigopublicado 02/06/2016 11h29
Tomaz Silva/Agência Brasil

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É machismo duvidar das mulheres por partir do pressuposto que uma declaração sobre estupro é falsa

“Uma rosa, por qualquer outro nome, teria o aroma igualmente doce”. Este trecho deRomeu e Julieta, a peça famosa de William Shakespeare, é frequentemente referenciado em artigos e debates sobre o peso e a volatilidade da linguagem.

Na cena em que esta fala se dá, Julieta – uma Capuleto – argumenta que não importa que Romeu seja um Montéquio, pois o amor que sente é pelo rapaz, e não por seu nome. A beleza da citação é o que ela implica: os nomes que damos às coisas não necessariamente afetam o que as coisas realmente são.

“Estupro, por qualquer outro nome, seria uma ação igualmente violenta.” Seria. Mas, ao contrário das rosas – que reconhecemos como rosas, por isso chamamos de rosas –, relutamos em reconhecer quando um estupro é estupro para poder então chamá-lo de estupro.

Estupro é a prática não consensual do sexo, imposta por violência ou ameaça de qualquer natureza. Qualquer forma de prática sexual sem consentimento de uma das partes, envolvendo ou não penetração, configura estupro.

Se aceitarmos que esta é a definição de estupro, quantas já sofremos um, e quantos já cometeram um? Garanto que muita gente.

Consentimento é um conceito-chave para compreendermos e admitirmos que existe uma diferença entre sexo e estupro. Sexo é consensual, e se for adiante sem consentimento, deixa de ser sexo e passa a ser estupro.

A pessoa pode estar embriagada, vestida de forma sensual, pode já ter indicado querer sexo, pode estar nua e na cama e até mesmo já ter iniciado o sexo. No momento que ela declara não querer sexo, ou querer interromper o sexo, a ação deve parar. (E vale ressaltar que a ação não deve nem começar se a pessoa não estiver em condições de dizer sim…).

Precisamos levar a sério a asserção de que qualquer ato sexual que ocorre sem o consentimento de uma das partes envolvidas é um estupro. Apenas o sexo praticado com o consentimento das partes envolvidas pode ser chamado de sexo.

O ato sexual praticado sem consentimento não é sexo: é violência. É estupro. Não pode ser tão difícil que concordemos a este respeito. Se quando um não quer dois não brigam, quando um não quer dois não transam. Isso não é complicado de entender.

Ainda que a prática vitime homens e mulheres, historicamente as mulheres são as mais atingidas. A permanência deste padrão é garantida pelo que chamamos de cultura do estupro.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A violência contra a mulher é concreta, sistemática e balizada por números reais e dados científicos que são publicados por organizações competentes e sérias. O feminismo se ocupa, dentre outras coisas, de revelar esta violência com o intuito de reduzi-la – de extingui-la.

Que gastemos tempo disputando quais narrativas que articulam como a luta feminista contra a violência são mais ou menos eficazes é compreensível. Mas é uma perda total de tempo e energia disputar a realidade que fomenta estas narrativas.

Nossa realidade é a inequidade, e tornar visível a ameaça constante da violência que mantém essa desigualdade (violência cujas manifestações mais agudas são o estupro e o feminicídio), é o que faz o feminismo.

Não deveríamos desperdiçar nenhum segundo evidenciando o que já está provado, mas, infelizmente, ainda precisamos fazer isso. É preciso que a sociedade passe a acreditar no que dizem as mulheres, e é urgente pararmos de disputar se estupro é ou não estupro. É sexo sem consentimento? É estupro.

A cultura do estupro é a cultura que normaliza a violência sexual. As pessoas não são ensinadas a não estuprar, mas sim ensinadas a não serem estupradas.

Cultura do estupro é duvidar da vítima quando ela relata uma violência sexual. É relativizar a violência por causa do passado da vítima ou de sua vida sexual. É ser mais fácil acreditarmos em narrativas de uma suposta malícia inerente das mulheres do que lidarmos com o fato de que homens cometem um estupro.

A cultura do estupro é visível nas imagens publicitárias que objetificam o corpo da mulher. Nos livros, filmes, novelas e seriados que romantizam o perseguidor. No momento que acatamos como normal recomendar às meninas e mulheres que não saiam de casa à noite, ou sozinhas, ou que usem roupas recatadas.

Todas essas ações revelam o que chamamos de cultura de estupro porque todas normalizam que a responsabilidade pelo estupro é da vítima. Não é. O protagonista do estupro é o estuprador.

A cultura do estupro é machista, e o machismo cria e mantém a cultura do estupro. É machismo partir do pressuposto de que o que uma mulher revela sobre estupro é invenção. É machismo duvidar das mulheres por partir do pressuposto que uma declaração sobre estupro é falsa.

Na cultura machista que sustenta a cultura do estupro, a voz das mulheres é tomada como dissimulação. Na cultura machista as mulheres são malignas (olá Eva, bruxas e súcubos do imaginário coletivo), e os homens são eternas vítimas de nossas calúnias.

Mas os números não mentem, e se a manutenção da lógica machista depende da fantasia, o feminismo aponta para a realidade.

Você conhece um estuprador? Eu conheço pelo menos três. Moços “de bem”, de família, que chegaram a frequentar a minha casa e que, por causa da cultura do estupro, acharam que fazer sexo em (não “com”, “em”) três amigas minhas enquanto elas dormiam porque estavam embriagadas era aceitável.

Elas estavam bêbadas. Elas estavam de roupas curtas. Mas elas definitivamente não estavam pedindo. Acreditar que elas estavam pedindo sexo por estarem alcoolizadas ou vestidas de um ou outro jeito é sucumbir à cultura do estupro.

Cultura de estupro é assunto de todos. Estupro é uma violência, e uma violação grave dos direitos humanos que atinge mulheres desproporcionalmente. Precisamos falar sobre cultura de estupro. Precisamos falar sobre machismo. Precisamos falar sobre misoginia. Precisamos falar sobre cultura patriarcal. Estas coisas estão conectadas. E precisamos falar sobre elas.

O feminismo existe bastante porque a voz das mulheres e as nossas falas são tão desvalorizadas socialmente que é preciso um movimento – militante e teórico – para dar conta de articular a realidade de forma convincente para uma sociedade propensa a não acreditar em nós.

Precisar explicar que qualquer ato sexual que acontece sem consentimento é estupro, ad infinitum, é evidência da permanência da cultura do estupro.

É exaustivo disputar a realidade com quem não quer enxergá-la porque não é diretamente afetado por ela. Por isso precisamos revelar que existe, sim, uma cultura que normaliza o estupro e a violência contra as mulheres. Falar é uma ação, denunciar o machismo é uma ação, revelar a misoginia é uma ação.

Pois falemos, então, com a linguagem adequada. A cultura do estupro existe e é visível, e sexo sem consentimento é estupro, ainda que alguns relutem em admitir isso. Mas uma rosa, por qualquer outro nome…

Sobre a banalidade do mal, artigo de Felipe Tessarolo

http://www.ecodebate.com.br/2016/01/28/sobre-a-banalidade-do-mal-artigo-de-felipe-tessarolo/

 [Observatório da Imprensa]  Hannah Arendt (1906-1975) foi uma teórica política alemã, de origem judaica, que atuou também como jornalista e professora universitária. Escreveu livros comoAs origens do totalitarismo(1951), A condição humana (1958), Homens em tempos sombrios(1968) e Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal (1963) e é considerada uma das pessoas mais influentes do século 20.

Este artigo pretende fazer uma analogia entre as ideias expressas por Hannah Arendt emEichmann em Jerusalém, o conceito sobre a banalidade do mal e o comportamento dos indivíduos nas redes sociais, que de certa forma replicam as análises desenvolvidas pela autora.

Adolf Eichmann foi um oficial da Gestapo nazista responsabilizado pela logística de extermínio de milhões de pessoas. Foi capturado na Argentina e julgado em Jerusalém no ano de 1961. Hannah Arendt foi enviada como correspondente pela revista The New Yorker para cobrir as sessões do julgamento tornadas públicas pelo governo israelense. Em 1963, com base nos artigos publicados pela The New Yorker, a autora publicou um livro sobre o julgamento e nele desenvolveu uma análise sobre Eichmann.

Um dos pontos polêmicos do livro é a maneira como a autora interpreta o comportamento de Eichmann, pois além de cobrir todo o processo do julgamento, ela ainda entrevistou pessoalmente o acusado. Segundo Hannah Arendt, Adolf Eichmann não era um monstro, alguém com um espírito demoníaco e antissemita. Ela o identificou como um burocrata, um sujeito medíocre, que de certa forma renunciou a pensar nas consequências que os seus atos poderiam ter. “Embora as atrocidades por ele conduzidas tivessem sido de uma crueldade inimaginável, ‘o executante era ordinário, comum, nem demoníaco, nem monstruoso’. Eichmann revelou-se, durante todo o processo, até os dias que antecederam sua morte por enforcamento, como uma pessoa incapaz de exercer a atividade de pensar e elaborar um juízo critico e reflexivo” (SIQUEIRA, 2011).

Uma analogia com o cotidiano

Segundo Hannah Arendt, Adolf Eichmann era um indivíduo comum, pertencente ao cidadão médio, que não possuía um histórico de violência e muito menos aparentava características de um caráter distorcido ou doentio. O oficial da Gestapo agia segundo o que acreditava ser o seu dever, executando suas ordens sem nenhum tipo de questionamento (seja para o bem ou para o mal), com o intuito de desenvolver a sua carreira profissional da melhor forma possível.

“Será que a natureza da atividade de pensar, o hábito de examinar, refletir sobre qualquer acontecimento, poderia condicionar as pessoas a não fazer o mal? Estará entre os atributos da atividade do pensar, em sua natureza intrínseca, a possibilidade de evitar que se faça o mal? Ou será que podemos detectar uma das expressões do mal, qual seja, o mal banal, como fruto do não-exercício do pensar?” (ARENDT, 2008).

Dessa forma, a autora defende que a massificação da sociedade e o totalitarismo permitiram o desenvolvimento de uma multidão que cumpria ordens sem questionar, uma massa incapaz de fazer julgamentos morais. Sob essa perspectiva, Eichmann não era tachado como um monstro, mas um funcionário zeloso que apenas cumpria com as ordens que recebia.

“O que tornava Eichmann uma aberração era o fato de ele nunca haver experimentado as exigências do pensamento diante dos acontecimentos. A questão que a filósofa se propõe a aprofundar, então, é a ausência do pensamento e sua possível relação com os atos maus” (Duarte, 2000, apud Andrade, 2010).

Mas qual o intuito de toda essa descrição, muito simples perante a complexidade da obra e do tema desenvolvido pela autora, do conceito de banalidade do mal? Gostaria de fazer uma analogia com o nosso cotidiano e as práticas desenvolvidas nos canais de comunicação, principalmente nas redes sociais.

Comportamentos camuflados

Começo com um simples exemplo: quantas vezes, no seu cotidiano, você compartilha uma mensagem/informação, sem saber se ela é verdadeira ou não, com os seus colegas de trabalho ou com amigos e familiares? Pense no constrangimento que você passaria caso alguém desacreditasse essa informação no momento em que você está falando. Agora compare com o que você tem feito nas redes sociais virtuais.

Alguma vez você pegou uma foto íntima de um conhecido e saiu por aí mostrando essa foto para todas as pessoas que você encontra no seu dia-a-dia – no ambiente de trabalho, na fila do supermercado ou num encontro com amigos mais próximos? Agora compare com o que você tem feito nas redes sociais virtuais.

Hoje em dia, para disseminar uma informação basta apertar o botão de enviar e/ou compartilhar. Mas a facilidade desse ato pode ser inversamente proporcional às repercussões e os efeitos que causamos na sociedade como um todo. A popularização da internet permitiu que tivéssemos acesso a uma quantidade inimaginável de informações. Da mesma forma, ela possibilitou que adotássemos determinados comportamentos sem o questionamento moral dessas ações, camuflados por nossos avatares e/ou perfis nas redes sociais ou “escondidos” dentro de um grupo de Whatsapp.

Comportamentos sem questionamento

Repito aqui uma citação para enfatizar o meu ponto de vista:

“O que tornava Eichmann uma aberração era o fato de ele nunca haver experimentado as exigências do pensamento diante dos acontecimentos. A questão que a filósofa se propõe a aprofundar, então, é a ausência do pensamento e sua possível relação com os atos maus” (Duarte, 2000, apud Andrade, 2010).

Até que ponto nós estamos sustentando padrões estéticos e comportamentos deploráveis simplesmente porque não analisamos as repercussões dos nossos atos? Assim, quais são os acontecimentos, as notícias e as mensagens compartilhadas, sem uma análise crítica da sua parte, que estão permitindo que você se torne uma pessoa ruim?

Lembre-se que, antes de pertencermos a um grupo de Whatsapp e ter um perfil numa rede social, somos seres humanos com a beleza da nossa individualidade e livre arbítrio. Utilize essas ferramentas para engrandecimento desses dois pontos que compõem o seu ser: fazer parte da humanidade e ser um indivíduo de características únicas.

Devemos sempre lembrar que o universo virtual não é um ambiente “separado” da nossa realidade, muito pelo contrário. Nesse sentido, qual a fronteira que separa os seus atos daqueles praticados por Eichmann? Quantos indivíduos tem a imagem manchada (quando muitas vezes arruinada) por falsas informações e momentos íntimos compartilhados por “todos” no ambiente digital. Hanna Arendt afirma que “o maior mal perpetrado é o mal cometido por Ninguém, isto é, por um ser humano que se recusa a ser pessoa”.

Reflita se suas ações são fruto de suas opiniões e pensamentos ou se você anda seguindo o fluxo de uma multidão que simplesmente replica comportamentos sem nenhum tipo de questionamento ou de análise das consequências.

Fontes:

André Duarte. O pensamento à sombra da ruptura: política e filosofia em Hannah Arendt. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

Hannah Arendt. Compreender: formação, exílio e totalitarismo. Belo Horizonte (BH): Companhia das Letras/Editora UFMG; 2008;

José Eduardo de Siqueira. “Irreflexão e a banalidade do mal no pensamento de Hannah Arendt”. Revista – Centro Universitário São Camilo – 2011; 5(4):392-400;

Marcelo Andrade. “A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral: contribuições arendtianas”. Revista Brasileira de Educação v. 15 nº 43, jan./abr. 2010.

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Felipe Tessarolo é professor universitário

 

Rico é “sonegador”. Pobre é “caloteiro”, “vagabundo”, “aproveitador”

Leonardo Sakamoto

 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/

Uma milícia branca armada até os dentes que toma um prédio público no Oregon e promete resistir contra a opressão do governo federal é composta de “ativistas armados”. Grupos por direitos civis que fecham vias públicas para protestar contra a violência policial contra negros por lá adotam práticas “terroristas”. A discussão sobre esse caso tomou a mídia dos Estados Unidos e Europa e há bons textos mostrando como um “dois pesos, duas medidas” tem sido adotado para aborda-lo. Conhecemos bem essa prática:

Ricos que cometem um crime são “jovens”. Pobres que cometem crimes são “menores infratores”.

“Manifestantes” são aqueles que fecham avenidas para lutar por algo com o qual concordamos. “Baderneiros” são aqueles que fazem o mesmo por algo sobre o que discordamos.

Empresas que grilam terras públicas são “ocupantes irregulares”. Grupos de sem-terra que permanecem em fazendas griladas e pedem sua destinação à reforma agrária são “invasores”.

Da mesma forma, proprietários de imóveis mantidos vazios para a especulação imobiliária que devem o seu preço em IPTU atrasado são “devedores do poder público”, enquanto os sem-teto que ocupam esses imóveis pedindo sua destinação à moradia popular são “invasores”.

Árabe que se mata com bombas pelo corpo é um “fanático” que prova a irracionalidade das culturas não-ocidentais. Um ocidental que sai matando todo mundo em protesto contra política de diversidade social é um “louco”.

Rico que deixa de pagar milhões em impostos não é “ladrão”. Ele está apenas exercendo seu protesto contra a pesada carga tributária. “Ladrão” é pobre que rouba xampu. De um lado, “sonegador”, do outro, o “caloteiro”, o “vagabundo”, o “aproveitador” que não pagou a mensalidade do carnê da geladeira.

A discussão de qualquer política para regulação de rádio e TV, que são concessões públicas, é “censura e ataque à democracia”. Mas quando o novo presidente da Argentina desmonta a agência pública que trata do assunto por decreto, sem passar a discussão pelo Congresso, escutamos um estrondoso silêncio.

A escolha de uma palavra para nomear um fato ou qualificar um fenômeno, parece aleatória, é consequência de uma série de processos na nossa cabeça que evocam experiências vividas, traumas, aprendizados, doutrinações, medos, bloqueios.

Da mesma forma, aquilo que não dizemos, o interditado, fala tanto sobre nós quanto os termos que escolhemos para explicar o mundo. Porque algo não dito tem tanto significado quanto aquilo que é dito pela razões acima.

É possível e desejável ficar atento e frear uma palavra que vem não sei de onde antes que seja dita ou escrita e refletir sobre ela, tentando entender o porquê de você a estar usando e se não haveria um termo melhor, que não fizesse outra pessoa sofrer ou que fosse mais justo com a realidade. Dessa forma, evitamos perpetuar discursos de opressão – que não foram produzidos por nós, mas que nos aprendemos muito bem, transmitidos pela escola, a família, a igreja, a mídia, o trabalho, e para os quais somos instrumentos muito competentes de difusão.

Isso resolve o caso de quem usa essas palavras sem pensar. O problema é que muita gente faz essas opções conscientemente.

Parabéns, atingimos a burrice máxima

controversia.com.br

Por Ricardo Alvarez,

ELIANE BRUM – A “baranga” Simone de Beauvoir e a importância de um livro que ensina a conversar com fascistas

Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir

A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da questão do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se não for enfrentada, não há chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espaços institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro público, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados, atacaram a filósofa francesa porque o Exame Nacional de Ensino Médio colocou na prova um trecho de uma de suas obras, O Segundo Sexo, começando pela frase célebre: “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignorância em volumes constrangedores. Debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida, a privada e a pública. Dia após dia.

Recapitulando alguns espasmos do mais recente surto de burrice. O verbete de Simone de Beauvoir (1908-1986) na Wikipedia, conforme mostrou uma reportagem da BBC, foi invadido para tachar a escritora de “pedófila” e “nazista”. A Câmara de Vereadores de Campinas, no estado de São Paulo, aprovou uma “moção de repúdio” à filósofa. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), da Bancada da Bíblia, descobriu na frase “uma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens”. Em sua página no Facebook, o promotor de justiça do município paulista de Sorocaba, Jorge Alberto de Oliveira Marum, chamou Beauvoir de “baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”. Como o tema da redação do ENEM era “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, houve gente que estudou em colégios caros afirmando que este era um tema de esquerda, e portanto um sinal inequívoco de uma conspiração ideológica por parte do governo federal. Como sugeriu o crítico de cinema Inácio Araújo em seu blog, se defender que a mulher tenha o direito de andar sem ser perturbada, agredida e chutada é tema de esquerda, isso só pode significar que a direita vai muito mal.

A única arma capaz de derrotar a burrice é o pensamento

Está cada vez mais difícil fazer humor no Brasil. Como nada do que foi relatado acima é piada, somos submetidos cotidianamente a uma experiência de perversão. Também não tem sido fácil escrever quando não se é humorista, por que o que se pode dizer, seriamente, diante de uma moção de repúdio à Simone de Beauvoir? Mas é preciso tratar com seriedade, porque talvez não exista nada mais sério do que a boçalidade que atravessa o país. Torna-se urgente, prioritário, fazer um esforço coletivo e enfrentar a burrice com o único instrumento capaz de derrotá-la: o pensamento.

Esta é a potência e a generosidade de um livro lançado pela filósofa Marcia Tiburi, escritora e professora universitária. O título vai direto ao ponto, afinal os tempos são graves demais para papinhos de salão: Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record). Nas 194 páginas, Marcia enfrenta as várias faces do cotidiano atual com profundidade, mas de forma acessível a quem não está familiarizado com os conceitos. Faz o mais difícil: escrever simples sem simplificar. É um livro que se pretende para todos, e não para os seus pares. Quem acompanha a trajetória da filósofa conhece a sua coragem. E este é um livro de coragem, já que é tão difícil quanto arriscado escrever sobre o que está em movimento, sem a proteção assegurada pelo distanciamento histórico. Poucos são os intelectuais que se arriscam a sair do conforto de seus feudos para enfrentar o debate público com suas dúvidas. E por isso aqueles que se arriscam de forma honesta, sem ficar arrotando suas certezas e suas credenciais, ou usando-as para massacrar aqueles que já são massacrados, são tão preciosos.

O confronto atual não é entre direita e esquerda, mas entre os que pensam e os que não pensam

“Eu queria saber por que dialogar é impossível”, conta Marcia Tiburi, sobre a pergunta que a moveu nessa busca. Para enfrentar a ausência do pensamento, a filósofa propõe a resistência pelo diálogo. Este é um esforço de cada um –e de todos. Arriscar-se a deixar o “isolamento em comunidade”, a forma atual da vida social e política, para confrontar o que ela chama de “consumismo da linguagem”. Compreender o confronto atual como um confronto entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, machistas e feministas é, segundo ela, uma redução. O confronto atual seria mais profundo e também mais dramático: entre os que pensam e os que não pensam.

O exercício que faço, deste parágrafo em diante, é buscar compreender a fogueira em que Simone de Beauvoir foi jogada nos últimos dias, entre outros fatos recentes, a partir das ideias deste livro. Para começar, a seriedade do episódio do ENEM pode ser demonstrada neste trecho tão agudo: “Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem. O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência”.

Vale perguntar. Num país em que a preocupação com a educação é uma flatulência, em que a não educação é a regra, para onde vai o lixo e que tipo de impacto ele produz na tessitura do cotidiano, nos corações e mentes de quem o consome? O que acontece com a fogueira de Simone de Beauvoir num contexto em que aqueles que a jogaram no fogo possivelmente sequer a leram? Que restos dos discursos vazios sobre a filósofa permanecerão na memória de uma população que não tem seus livros na estante e que tipo de eco produzirão?

Como dimensionar a gravidade de um vereador eleito, pago com dinheiro público para legislar e, portanto, para decidir destinos coletivos, dizer que a escolha da frase de Simone de Beauvoir para uma prova do ENEM é algo “demoníaco”, como afirmou Campos Filho (DEM)? E como enfrentá-la com a seriedade necessária?

Com a palavra, o autor da “moção de repúdio”: “Foram buscar lá Simone de Beauvoir, lá pro ano de mil trocentos e pôco…. (…) A grande maioria é favorável à lei da natureza. Homem é homem. Mulher é mulher. (…) Cuidado com essa pulsão, essa pulsão pode levar à cadeia. O senhor pode passar na frente do caixa eletrônico e ter uma pulsão de vontade de roubar e vai preso. Pode ter uma pulsão de vontade de estuprar e vai preso. Então, tomem cuidado com essa pulsão, ah, hoje de manhã sou menina, agora à noite eu sou homem….”.

O vazio de pensamento não é silencioso, mas repleto de clichês, frases prontas e repetições

O vereador nem sequer sabe em que século Simone de Beauvoir nasceu, viveu e produziu pensamento – “miltrocentos e pôco”. Nem sequer tentou compreender o que a frase citada no ENEM significa. Não é engraçado. É a ruína causando mais ruína. O que interessa é fazer barulho, porque o barulho encobre o vazio de ideias. O que importa é perverter a palavra, usando o que sequer tentou entender para enclausurar o pensamento e reafirmar a certeza em nome de uma suposta “lei da natureza” que jamais existiu. A perversão do fascista é a de acusar o outro de manipulação ideológica quando é ele o manipulador. É acusar o outro de impor um pensamento quando é ele que empreende todo os esforços para barrar qualquer pensamento. É impedir o diálogo denunciando o outro pelo ato que ele próprio cometeu. É nessa repetição de boçalidades que seguem os discursos de outros vereadores, invocando clichês bíblicos, lembrando de Sodoma e Gomorra e Adão e Eva, abusando de Deus.

Para perverter a realidade, o fascista conta com o consumismo da linguagem. Trata-se, como aponta Marcia Tiburi, de um vazio repleto de falas prontas. Não é um vazio silencioso, espaço aberto para buscar o outro, o inusitado, o surpreendente. Mas sim um vazio barulhento, abarrotado de clichês, de frases repetidas e repetitivas, usadas para se proteger do pensamento. Os lugares-comuns, neste caso específico a constante invocação de Deus e de leis bíblicas, são usados como um escudo contra a reflexão. Todo o esforço é empreendido para não existir qualquer chance de pensamento, ainda que um bem pequenino.

Neste vazio, a filósofa acredita que os meios tecnológicos e a mídia desempenham um papel crucial. Repete-se o que é dito na TV, no rádio. Fala-se, muito, sem pensar no que se diz. No gesto do mero “compartilhar” sem ler, tão fácil quanto comprar com um clique pela internet, foge-se do pensamento analítico e crítico, trocando-o pelo vazio consumista da linguagem e da ação repetitiva. É assim que a burrice se multiplica em cliques, propagando-se em rede. O título deste artigo é esperançoso, mas não corresponde à realidade: a burrice não tem limites, ela sempre pode atingir patamares ainda mais extremos.

Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos

Episódios semelhantes à “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir ocorriam esporadicamente em rincões afastados, e logo eram ridicularizados. Hoje, acontecem na Câmara de Vereadores de uma das maiores e mais ricas cidades do estado de São Paulo, no sudeste do Brasil, uma cidade que abriga várias universidades, entre elas a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma das mais respeitadas do país. E cadê os intelectuais? Rindo dos burros nas cantinas universitárias? Será? Não era de se esperar mais iniciativas de busca do diálogo, de criação de oportunidades para explicar quem é Simone de Beauvoir e refletir sobre sua obra, ou mesmo a ocupação da Câmara, para produzir reação e movimento que permitisse o conhecimento e combatesse a ignorância?

Talvez o polêmico livro Submisssão (Alfaguara), do francês Michel Houellebecq, possa ter alguma ressonância maior por aqui. Nele, só para lembrar, o protagonista é um acadêmico desencantado que se depara com a vitória de um partido islâmico nas eleições da França. Depois de assistir ao desenrolar dos acontecimentos pela TV, já que não se sente motivado a participar de nenhum debate que não seja sobre a sua própria tese acadêmica (ou nem mesmo sobre ela), se choca com o resultado eleitoral. É o protagonista que não protagoniza –ou só protagoniza por omissão (ou submissão). Aos poucos, os novos donos do poder lhe acenam não só com a manutenção dos privilégios, mas com uma considerável ampliação dos privilégios. E ele, afinal, conclui que aderir pode não ser tão ruim assim.

Os burros estão por toda parte e muitos deles estudaram nas melhores escolas e, o pior, muitos ensinam nas melhores escolas. A “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir foi aprovada pela Câmara de Campinas por 25 votos a cinco. Assim, os burros são a maioria. É preciso enfrentá-los com pensamento, fazer a resistência pelo diálogo. Ou, como diz Marcia Tiburi: “Sem pensamento não há diálogo possível nem emancipação em nível algum. Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos”.

O promotor e professor universitário que reduziu Simone de Beauvoir a “uma baranga”, ao comentar a questão do ENEM em sua página no Facebook, fez o seguinte comentário: “Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila”. Depois da repercussão negativa, o que incluiu uma nota de repúdio por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Jorge Alberto de Oliveira Marum apagou os posts e defendeu-se, em outra postagem, alegando que pretendia ter sido irônico: “Ironia, para quem não sabe, é uma figura de linguagem que consiste em afirmar o contrário do que se pensa”. Interprete-se.

A burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu

“Distorcer é poder” é o título de um dos capítulos do livro em que a filósofa enfrenta a prática amplamente difundida de esvaziar as palavras pela distorção. Como transformar a vítima em culpada, como se faz rotineiramente com as mulheres no falso debate do aborto, por exemplo, ou no tratamento do estupro. Ou distorcer para que aquele que detém os privilégios pareça ser o que têm seus direitos ameaçados: o branco, por exemplo, quando se apresenta como prejudicado pelo sistema de cotas raciais que busca reparar injustiças históricas cometidas contra os negros, ocultando assim que sempre foi o privilegiado; ou quando se invoca um suposto “orgulho heterossexual” na tentativa de mascarar a violência contra os homossexuais, alegando que querem privilégios, quando todos sabem que a heterossexualidade jamais foi contestada ou atacada, nem em sua expressão nem em seus direitos. E também é por essa conversão que os manifestantes de junho de 2013 foram tachados de “vândalos” por parte da mídia e, hoje, uma lei em discussão no Congresso ameaça converter quem protesta em “terrorista”.

A própria “democracia” pode ser vista a partir da prática da distorção, já que há aquela, mais difundida, que é vendida pelo mercado. “De um lado, há uma democracia que deve parecer como realizada, contra outra democracia, que está na ordem do desejo e do sonho e que não teria preço”. O capitalismo sequestra a democracia também como palavra, que passa a ser consumida, junto com outras: felicidade, ética, liberdade, oportunidade, mérito. Palavras que a filósofa chama de “mágicas”, invocadas a serviço do ocultamento da opressão. “Antidemocrático, o capitalismo precisaria ocultar sua única democracia verdadeira: a partilha da miséria e, hoje em dia, cada vez mais, a matabilidade”, afirma Marcia Tiburi.

Quando se invade o verbete de Simone de Beauvoir na Wikipedia é também disso que se trata: distorcer e replicar até virar “verdade”. Aliena-se os fatos de seu contexto histórico para produzir rótulos. Assim, após o ENEM, a filósofa foi tachada de “pedófila” e de “nazista”. Ambas as afirmações já foram retiradas da página pelo responsável, avisando que a manteria fechada até “que o furor acabasse e as pessoas perdessem o interesse em danificar o artigo”. Entre as dezenas de distorções do verbete, segundo a matéria da BBC, um usuário disse que a filósofa havia escrito um “livro de estupro”. Outro informou que Beauvoir era uma “antifeminista”. Um terceiro disse ainda que ela era “muito conhecida por seu comodismo e pela luta na justiça por uma lei que proibia o trabalho das mulheres fora de casa”.

Se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?

As distorções servem à reprodutibilidade da burrice. Ao converter a filósofa no que é interpretado como o mais monstruoso – “pedófila” e “nazista” – o objetivo é tornar impossível refletir sobre o que ela escreveu: “uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. A ampla distorção das palavras serve, de novo, ao vazio do pensamento. Pede-se aos burros que a repliquem à exaustão em cliques histéricos. A linguagem, como escreve Marcia Tiburi, tem sido rebaixada à distribuição da violência – também pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. “Vivemos no império da canalhice, onde a burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu”, afirma. “Ela se transformou no todo do poder.”

Aderir é viver. Esta parece ser a frase deste momento de orgulho da ignorância e exaltação da burrice. Aqui, a pergunta se impõe: “se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?”.

Na semana passada, foi divulgado na página da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República um estudo que reuniu pesquisadores de diversas instituições, apresentado como o mais completo já feito no Brasil sobre os efeitos da mudança climática. Refletir seriamente sobre a mudança climática é urgente, mas há muito menos pensamento e ação do que o momento exigiria, apesar de estarmos às vésperas da Conferência do Clima em Paris. Assim, a divulgação de um estudo com as conclusões a que se chegou poderia ser uma oportunidade excelente para promover participação e diálogo. Mas, entre as tantas previsões que apontaram para um possível drama climático daqui a 25 anos, em 2040 – doenças, calor extremo, falta d’água e de energia etc –, uma foi destacada por diferentes veículos da imprensa: a possível perda de uma área imobiliária avaliada em R$ 109 bilhões no Rio de Janeiro, devido à elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global.

Não as perdas humanas, não a corrosão da vida, não o aniquilamento dos mais pobres e dos mais frágeis. Não. O que se destaca é aquilo que se monetariza, é a perda do patrimônio material, no caso imobiliário. O que merece título é o cifrão. O episódio evoca um dos capítulos mais interessantes de Como conversar com um fascista: “O capitalismo é a redução da vida ao plano econômico. (…) O pensamento está minado pela lógica do ‘rendimento’. Viver torna-se uma questão apenas econômica. A economia torna-se uma forma de vida administrada com regras próprias, tais como o consumo, o endividamento, a segurança pela qual se pode pagar. Tudo isso é sistêmico e, ao mesmo tempo, algo histérico. (…) As palavras funcionam como estigmas ou como dogmas que sustentam ideias orientadoras de práticas”. Se a ordem do discurso capitalista é basicamente teológica, é porque ele funciona como uma religião no âmbito das escrituras e das pregações (em geral no púlpito tecnológico da televisão)”. Se depois de tanto calarmos sobre a mudança climática, falarmos dela a partir da lógica monetária, estamos todos (mais) perdidos.

Precisamos resistir em nome de um diálogo que torne o ódio impotente

Mas é em outro episódio destes últimos dias que a perversão do Brasil atual se revelou em toda a sua monstruosidade: a Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu em inquérito que o policial que matou um menino de dez anos agiu em “legítima defesa”. Eduardo de Jesus brincava na porta da sua casa, numa das favelas do Complexo do Alemão, quando teve a cabeça atingida por um tiro de fuzil. Sua mãe encontrou parte do seu cérebro na sala. O inquérito isentou de qualquer responsabilidade os policiais envolvidos, por estarem supostamente em confronto com narcotraficantes. Eles teriam apenas “errado” o tiro.

Eduardo estava a cinco metros do policial que o matou. Terezinha de Jesus, a mãe do menino, afirma que não havia tiroteio naquele dia. “Eu parti para cima do policial. Gritei que tinha matado meu filho e ele me respondeu, com seu fuzil na minha cabeça, que igual que tinha matado ele poderia também me matar, porque o menino era filho de bandido. Nunca vou esquecer aquilo. Posso estar em qualquer lugar do mundo, que nunca esquecerei a cara daquele policial”. Ao ser informada por jornalistas que a polícia concluiu que seu filho foi morto em legítima defesa, Terezinha disse que sentia vontade “de quebrar tudo”.

Quando a perversão supera tal limite é porque estamos quase no ponto de não retorno. “Não acabaremos com o ódio pregando o amor”, diz Marcia Tiburi. “Mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente.”

Em Como conversar com um fascista, a filósofa defende a necessidade de começar a tentar falar de outro modo. O diálogo não como salvação, mas como experimento, como ativismo filosófico para enfrentar a antipolítica. A política, lembra a autora, “é laço amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças de ódio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas”.

Num país de antipolítica e antieducação generalizada como o Brasil é preciso se mover. É urgente aprender a conversar com um fascista, mesmo que pareça impossível. Expor ao outro aquele que não suporta a diferença. Revelar suas contradições e confrontá-lo pelo diálogo é um ato de resistência. Enfrentar a burrice com a única arma que ela teme: o pensamento.

É isso ou não vai adiantar nem estocar alimentos.

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/09/opinion/1447075142_888033.html

Os 11 princípios do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels


Jornal GGN

reprodução

Conhece Joseph Goebbels, o violento ministro de propaganda de Hitler? Estes são os 11 princípios que levaram o povo alemão a tentar exterminar à humanidade:

1.- Princípio da simplificação e do inimigo único.

Simplifique não diversifique, escolha um inimigo por vez. Ignore o que os outros fazem concentre-se em um até acabar com ele.

2.-Princípio do contágio

Divulgue a capacidade de contágio que este inimigo tem.  Colocar um antes perfeito e mostrar como o presente e o futuro estão sendo contaminados por este inimigo.

3.-Princípio da Transposição

Transladar todos os males sociais a este inimigo.

4.-Princípio da Exageração e desfiguração

Exagerar as más noticias até desfigurá-las transformando um delito em mil delitos criando assim um clima de profunda insegurança e temor. “O que nos acontecerá?”

5.-Princípio da Vulgarização

Transforma tudo numa coisa torpe e de má índole. As ações do inimigo são vulgares, ordinárias, fáceis de descobrir.

6.-Princípio da Orquestração

Fazer ressonar os boatos até se transformarem em notícias sendo estas replicadas pela “imprensa oficial’.

7.-Princípio da Renovação

Sempre há que bombardear com novas notícias (sobre o inimigo escolhido) para que o receptor não tenha tempo de pensar, pois está sufocado por elas.

8.-Princípio do Verossímil

Discutir a informação com diversas interpretações de especialistas, mas todas em contra do inimigo escolhido. O objetivo deste debate é que o receptor, não perceba que o assunto interpretado não é verdadeiro.

9.-Princípio do Silêncio.

Ocultar toda a informação que não seja conveniente.

10.-Princípio da Transferência

Potencializar um fato presente com um fato passado. Sempre que se noticia um fato se acresce com um fato que tenha acontecido antes

11.-Princípio de Unanimidade

Busca convergência em assuntos de interesse geral  apoderando-se do sentimento  produzido por estes e colocá-los em contra do inimigo escolhido.

Qualquer semelhança com as práticas do PIG é pura coincidência….

O socialismo já existe,mas só para os ricos

http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1792

CRÉDITO PÚBLICO PARA O SETOR PRIVADO

A Corte de Justiça da União Europeia decidiu que um Estado pode limitar as bolsas de imigrantes intracomunitários “inativos”, suspeitos de perseguir compensações – o chamado “turismo social”. Novamente, a imagem do pobre é associada à do aproveitador.

por Owen Jones

s palcos da televisão, nas tribunas que a imprensa lhes oferece, os porta-vozes da classe dominante repetem que o Estado estaria freando o espírito empreendedor, único vetor de crescimento, inovação e progresso em sua opinião. A elite, no entanto, depende muito da generosidade do Estado.

Isso começa pela garantia da propriedade privada, que repousa num oneroso sistema judiciário e policial. O Estado não se contenta em proteger as empresas contra os ataques a seus bens ou o roubo de seus produtos. A lei britânica relativa às patentes, que proíbe a exploração de uma invenção ou de um procedimento por concorrentes, foi alterada em 2013, reduzindo o custo de patentear uma inovação em toda a União Europeia para apenas 600 libras.1

Inclusive, o setor privado solicita regularmente ao Estado que financie a pesquisa e o desenvolvimento dos quais depende sua atividade. No Reino Unido, a fatura dessa forma de assistência raramente denunciada na imprensa se eleva a 10 bilhões de libras por ano, um número que cresce regularmente. Em 2012, a principal organização patronal do país, a Confederação da Indústria Britânica (Confederation of British Industry, CBI), felicitava-se por ter obtido o aumento do investimento nas “infraestruturas científicas […] e relativas à pesquisa”, argumentando que isso permitiria ao Reino Unido “continuar atraindo empresas que investem na pesquisa, no desenvolvimento e na inovação”.2 Resumindo, graças à inovação subvencionada pelo Estado, a maré de abundância ergueria ao mesmo tempo o barquinho do trabalhador e o iate do patrão…

A economista Mariana Mazzucato estabeleceu alguns mecanismos que permitem ao setor privado se beneficiar diretamente da generosidade pública. Desde os anos 1970, por exemplo, o Conselho da Pesquisa Médica (Medical Research Council, MRC) investiga anticorpos monoclonais, utilizados no tratamento das doenças autoimunes e de alguns tipos de câncer. Ingênuo, o órgão público se felicita de ter “revolucionado a pesquisa biomédica e favorecido o surgimento de uma indústria da biotecnologia internacional liberando bilhões”.3 Ainda que tenha engendrado imensas fortunas privadas – a dos dirigentes do Facebook, por exemplo –, a internet nasceu de pesquisas financiadas pelo governo norte-americano, enquanto o World Wide Web foi criado pelo engenheiro britânico Tim Berners-Lee quando ele trabalhava no seio de uma instituição pública, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern). O motor de busca do Google (segunda mais importante empresa do mundo em termos de valorização na Bolsa) não existiria sem um algoritmo que foi generosamente oferecido pela Fundação Americana para a Ciência (National Science Foundation). O iPhone, da Apple, sem dúvida maravilharia menos se não concentrasse uma ampla gama de inovações financiadas pelo Estado, como as telas táteis com sistema de GPS (Global Positioning System).

Mil e um mimos

Será que os “criadores de riqueza”, que as mídias celebram como heróis modernos, poderiam viver sem as infraestruturas públicas que o Estado coloca à sua disposição, como estradas, aeroportos e ferrovias? Mesmo exigindo cada vez mais cortes nos orçamentos sociais do país, a CBI não tolera nenhuma avareza nos setores que lhe dizem respeito. Por um lado, a organização se declara “completamente favorável ao programa [do governo] de redução do déficit público” a fim de “manter a confiança dos mercados estrangeiros”: depois do exame do orçamento em 2012, a CBI celebrou a diminuição (em termos reais) dos benefícios acordados aos trabalhadores e aos desempregados. Simultaneamente, ela militou por outra amputação, a dos impostos sobre as empresas. E por que não matar dois coelhos com uma cajadada só? Assim, em 2012, logo depois do tradicional discurso de outono do ministro da Economia, George Osborne, a CBI sugeriu que as economias realizadas graças à redução dos benefícios destinados aos trabalhadores servissem para financiar “a melhoria da rede de estradas estratégicas e a redução do engarrafamento nas pequenas estradas”.

“As infraestruturas são importantes para as empresas”, declarou John Cridland, atual diretor-geral da CBI. “E a evolução de nossa rede rodoviária conta entre nossas maiores prioridades, na ótica de uma retomada da economia.”4 Mensagem recebida: em junho de 2013, o governo britânico prometia aquilo que o jornal The Guardian qualificou como “a mais importante despesa consagrada às estradas desde os anos 1970”, um valor de 28 bilhões de libras. Boa parte dos investimentos em estradas e a quase totalidade dos gastos de manutenção da rede devem-se à circulação dos caminhões pesados. O peso por eixo necessário ao transporte de mercadorias justifica o dimensionamento das obras e provoca um desgaste sem comparação com o dos carros (segundo diversos estudos, um único caminhão de 40 toneladas degrada tanto uma estrada quanto no mínimo 100 mil carros).

A rede ferroviária – cuja construção foi financiada pelo contribuinte antes de sua privatização – representa um caso exemplar. Segundo um relatório feito em 2013 pelo Centro de Pesquisas sobre a Mudança Sociocultural (Centre for Research on Socio-Cultural Change) por solicitação do Congresso dos Sindicatos Britânicos (Trades Union Congress, TUC), as despesas públicas nas redes ferroviárias foram multiplicadas por seis… desde a privatização de 1993. Segundo o documento, as empresas de exploração ferroviária se beneficiaram “de um aumento das despesas públicas a partir de 2001, quando o Estado se viu obrigado a intervir para compensar a fraqueza de seus investimentos”.5 A privatização nunca levou à melhoria prometida dos trens e das vias de ferro; a substituição do material de uso cotidiano foi acontecendo em intervalos cada vez mais longos, enquanto os trens, pouco numerosos, não respondiam mais de maneira satisfatória a uma demanda crescente. “Para empresas privadas que têm dificuldades com investimentos e tomadas de risco”, a privatização teve como principal efeito permitir “a retirada de dinheiro dos antigos ativos públicos, e isso graças às subvenções maciças do Estado.” Ainda nesse caso, o contribuinte ficou com a responsabilidade de arcar com os custos, enquanto as empresas embolsaram os lucros. Ou, retomando a expressão do relatório: “Cara, as empresas ganham; coroa, nós perdemos”. Entre 2007 e 2011, as cinco principais empresas ferroviárias britânicas receberam 3 bilhões de libras na forma de incentivos públicos. Ao longo desses quatro anos, elas lucraram mais de 500 bilhões de libras, sendo a maior parte redistribuída aos acionistas na forma de dividendos.

O Estado, porém, mima a elite de mil e uma formas diferentes. Em geral, os britânicos mais ricos desdenham o ensino público. Enviando seus filhos para estabelecimentos privados, eles se beneficiam de uma redução de impostos anual de 88 milhões de libras, porque essas escolas gozam do estatuto de órgão filantrópico. Quando levamos em conta a origem social dos alunos das escolas privadas, os resultados que elas obtêm não se revelam melhores do que os de suas homólogas públicas. Por outro lado, como observa o historiador David Kynaston, esses estabelecimentos oferecem “formidáveis redes sociais que impedem que os filhos de boa família pouco brilhantes, ou totalmente preguiçosos, fracassem”.6 Em outras palavras, os contribuintes subvencionam diretamente os privilégios de classe e a segregação social.

Ainda que as empresas dependam do trabalho qualificado de seus funcionários, elas lhes pagam cada vez menos. As remunerações médias nunca baixaram tanto desde a era vitoriana. Segundo a Resolution Foundation (um think tankde centro-esquerda), em 2009 cerca de 3,4 milhões de trabalhadores britânicos ganharam menos que o salário mínimo, ou seja, 7,20 libras por hora fora de Londres. Em 2012, esse número atingiu 4,8 milhões, dos quais um quarto das mulheres ativas (contra 18% da população feminina total três anos antes). Para sobreviver, esses trabalhadores sub-remunerados contam com um auxílio do Estado que completa seu salário líquido. O custo dessa subvenção aos salários baixos? Entre 2003 e 2011, 176,64 bilhões de libras…

Mesma lógica na área dos auxílios-moradia, que atingem 24 bilhões de libras por ano. Em 2002, 100 mil locatários londrinos recorreram a esse benefício. Ao final da era New Labour (1997-2010), quando os aluguéis estavam nas alturas, eles eram 250 mil. O número ilustra o fracasso dos governos em oferecer habitações sociais acessíveis. Já que todas as demandas não podiam ser atendidas, algumas pessoas tiveram de se dirigir para o setor mais custoso, da locação privada, e os auxílios-moradia funcionam então como uma forma de subvenção aos aluguéis elevados que exigiam os proprietários. Em outras palavras, os auxílios-moradia permitem que os baixos salários existam. Segundo um estudo realizado em 2012 pela Fundação para a Construção e as Habitações Sociais (Building and Social Housing Foundation), mais de 90% dos lares que se tornaram beneficiários durante os dois primeiros anos do governo da atual coalizão (entre conservadores e liberais democratas, eleitos em 2010) eram ativos, não desempregados.

Para concluir, a mãe de todas as subvenções: o salvamento dos bancos pelo governo britânico em 2008. Empresas privadas naufragaram por sua própria culpa, levando consigo uma parte da economia mundial. Resultado? Elas exigem que os contribuintes paguem a conta. O governo de David Cameron gastou então mais de 1 trilhão de libras para socorrer os bancos britânicos. O sistema financeiro do país se encontrou sob a perfusão de um Estado que, no entanto, ele considera “obeso” quando vem auxiliar os mais desfavorecidos.

“Socialismo para os ricos, capitalismo para os outros.” Seria realmente injusto resumir assim a ideologia da classe dominante?

Owen Jones

Autor de Chavs: The Demonization of the Working Class [Chavs: a demonização da classe trabalhadora]. Londres: Verso, 2011.

Ilustração: Alves
1  R$ 2.567 (1 libra = R$ 4,28).

2  “CBI analysis of the autumn statement 2012” [Análise CBI do pronunciamento do outono de 2012], comunicado de novembro de 2012.

3  Citado por Mariana Mazzucato em The entrepreneurial State: debunking public vs. private sector myths [O Estado empreendedor. Desmascaramento público vs. mitos do setor privado], Anthem Press, Londres, 2013.

4  “Gear change can accelerate the UK towards a 21st century road network” [Mudança de marcha pode acelerar Reino Unido em direção à rede de estradas do século XXI], comunicado da CBI de 8 de outubro de 2012.

5  “The great train robbery: rail privatisation and after” [O grande assalto a trem: privatização dos trilhos e depois], relatório do Cresc, Manchester, jun. 2013.

6          David Kynaston, “Private schools are blocking social mobility” [Escolas particulares estão bloqueando a mobilidade social], Daily Telegraph, Londres, 29 out. 2013.