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Como a casta política controla o que o brasileiro sabe

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Pós-verdade e política

leia direto no site original: https://revistacult.uol.com.br/home/pos-verdade-e-politica/
Charles Feitosa
Pós-verdade e política

(Arte Revista CULT)

 

Onde não há fatos, nada é verdade  O que Trump tem a ver com Nietzsche, Foucault ou Derrida? A resposta para o título desse texto é simples e cristalina como água que jorra da fonte: nada, mas nada mesmo. Mesmo assim ocorre no noticiário político e na internet volta e meia a associação, completamente indevida por sinal, entre as estratégias midiáticas de desinformação de Trump e os esforços de desconstrução das grandes narrativas da verdade pelos filósofos ditos “pós-modernos”.

Por exemplo, a famosa afirmação de Nietzsche, em um fragmento de 1887, de que “não existem fatos, apenas interpretações”, costuma ser escutada na filosofia como um alerta crítico de que a verdade não é única, nem definitiva, nem imutável, mas precisa ser continuamente discutida e tematizada. No contexto político atual a frase está sendo relida, ao contrário, como se fosse a legitimação para os estados de “tanto faz” ou de “liberou geral” reinantes, pois onde não há fatos, nada é verdade.

Um sinal sutil dessa tendência é o uso da palavra “pós-verdade” como se fosse o ponto de interseção entre política e filosofia na contemporaneidade. O termo “pós-verdade” é conhecido pelo menos desde os anos 90, mas se tornou especialmente popular em 2016, tendo sido escolhida a palavra do ano pela equipe do Oxford Dictionaries.

A pós-verdade costuma ser definida brevemente como uma estratégia de desvalorização dos fatos em prol de interesses pessoais. Também chamada de fake news (notícias falsas), várias amostras da pós-verdade na política costumam ser citadas, tais como as estatísticas fictícias divulgadas na campanha do Brexit em 2016 sobre os altíssimos custos para permanecer na comunidade europeia ou os rumores conspiratórios sobre a origem muçulmana extremista do ex-presidente dos EUA, Barack Obama.

No Brasil, são também inúmeros e infindáveis os exemplos: os boatos em torno de uma suposta encenação da morte de Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula ou mais recentemente, a afirmação do atual prefeito de São Paulo de que os manifestantes da greve geral de 28.04.17 estariam recebendo dinheiro para irem às ruas.

Mas o grande garoto-propaganda da pós-verdade continua sendo Donald Trump. Em episódio emblemático, seus assessores, ao serem questionados sobre o número exato de pessoas que assistiram a posse presidencial em janeiro de 2017, alegaram que não estavam mentindo quando insistiam, a despeito de indícios contrários, que tinha mais gente na posse de Trump do que na de Obama em 2009, mas sim apenas apresentando “fatos alternativos”.

Onde não há fatos, não existe verdade única – Por que chamar essas formas midiáticas de manipulação de textos ou imagens como pós-verdade? A escolha do termo não é neutra, trata-se de uma interpretação que é ao mesmo tempo uma acusação. Tudo se passa como se a “pós-verdade” fosse a verdade típica dos tempos “pós-modernos”.

A própria expressão “pós-moderno” tornou-se muito frequente nos últimos trinta anos, tanto na imprensa, como na vida cotidiana. Falou-se muito e indistintamente de sociedade pós-moderna, de amor pós-moderno ou ainda de doenças pós-modernas. Trata-se de um conceito guarda-chuva, cujo uso inflacionário oculta a falta de clareza acerca de seu significado.

Etimologicamente o prefixo “pós” indica uma determinada fase histórica: não vivemos mais na modernidade, mas sim “depois”. Entretanto, o significado desse “depois” ainda é estritamente ambíguo e polêmico, podendo indicar tanto um “extra-“, um “anti-”, ou ainda como um “ultra-moderno”.  É preciso, antes de tudo, ter o cuidado de distinguir uma condição “pós-moderna” de um pensamento pós-moderno. Por condição pós-moderna entende-se, quer a celebremos ou a lamentemos, nossa situação histórica de viver e morrer na virada do século 20 ao 21.

Por pensamento pós-moderno, entretanto, entenda-se estritamente uma estratégia específica de lidar com essa condição, consolidada com a publicação em 1979 do livro La condition postmoderne de autoria do filósofo francês Jean-François Lyotard (1924-1998). Para Lyotard, o projeto dos modernos de liberar a humanidade da ignorância e da miséria produziu, ao contrário, sociedades que permitem o imperialismo, a guerra, o desemprego, a tirania da mídia e o desrespeito à vida humana em geral.

Contra a lógica da razão e do mercado seria preciso inventar outras lógicas, norteadas pelo reconhecimento do dissenso (a irredutível diversidade dos jogos de linguagem nas culturas) e por uma revalorização da dimensão estética. Em um tempo em que não é possível mais um discurso único e definitivo sobre o que é bom, justo ou verdadeiro, Lyotard propõe a emergência do pensamento pós-moderno, cuja característica fundamental é a afirmação das diferenças e do pluralismo.

Dentro desse contexto seria muito mais pertinente reconquistar o sentido mais original e positivo do termo “pós-verdade”, enquanto um esforço anti-dogmático de promover a pluralização e diversificação dos saberes. Então aqui cabem as seguintes perguntas: Isso a que se hoje se nomeia “pós-verdade”, não seria apenas uma nova fachada para um fenômeno bem antigo, a saber, a mentira na política? Não foi sempre assim, na história dos gestores políticos, manipular informações para se manter no poder? Ou será que há alguma diferença fundamental entre as mentiras tradicionais dos homens de estado e a onda contemporânea de desvalorização da verdade?

De fato, já desde Platão sabemos que a mentira não é apenas um incidente ocasional na vida política, mas é ela mesma um dos recursos disponíveis aos governantes na difícil e inglória tarefa da administração das cidades. Na descrição da sua utopia, a despeito do compromisso de cada cidadão de sempre buscar e defender a verdade, Platão argumentava que seus dirigentes, somente eles, teriam a permissão de mentir, pois a mentira, se usada adequadamente, pode contribuir para a realização do bem-estar comum.

Onde não há fatos, tudo é verdade – Desde então a ideia da mentira na política como um remédio amargo, mas necessário, se consolidou no nosso imaginário. Há exatamente 50 anos atrás, em 25 de fevereiro de 1967 na The New Yorker, a genial filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt publicou um texto paradigmático sobre o tema, intitulado Verdade e Política (em relação ao qual o título do meu presente texto faz referência e reverência).

Arendt começa chamando de “lugar comum” a crença na incompatibilidade insuperável entre verdade e política, mas ao mesmo tempo ela extrai desse lugar comum uma pergunta incômoda,  que nos obriga a pensar: Será da própria essência da verdade ser impotente e da própria essência do poder enganar? A resposta de Arendt é complexa, pois se de um lado ela defende uma certa potência inerente à verdade de incomodar e questionar as tiranias, por outro lado ela também admite um certo uso tirânico das verdades absolutas, pois geralmente é em nome delas que se instalam discursos e práticas totalitárias.

Mas o mais importante é que Arendt defende que a natureza da verdade é essencialmente política, ou seja, “é sempre relativa a várias pessoas: ela diz respeito a acontecimentos e circunstâncias nos quais muitos estiveram implicados; é estabelecida por testemunhas e repousa em testemunhos; existe apenas na medida em que se fala dela, mesmo que se passe em privado”. Se a verdade é essencialmente política ela pode ser ameaçada pelas mentiras estratégicas dos poderosos e precisa continuamente ser defendida e conquistada com o máximo de questionamentos e debates públicos.

O que mais me interessa no texto de Arendt é sua tese de que, mesmo reconhecendo uma tensão estrutural entre verdade e política, existe uma mudança no modo clássico e contemporâneo do uso da mentira na disputa pelo poder.  A mentira clássica era dirigida estrategicamente para este ou aquele grupo de inimigos e por isso poderia ser facilmente detectada pelos historiadores como uma espécie de buraco ou de falha na rede dos acontecimentos.

O problema é que segundo Arendt a contemporaneidade é marcada por uma forma de “mentira organizada”, uma aliança entre os meios de comunicação e os regimes totalitários, onde toda a matriz da realidade pode ser falsificada através das estratégias midiáticas de manipulação em massa. O resultado não é mais apenas a substituição da verdade pela mentira, mas a paulatina destruição na crença em qualquer sentido que nos oriente pelo mundo. Em outras palavras, a mentira organizada contemporânea conduz a um cinismo niilista, uma recusa em acreditar na verdade de qualquer coisa. A descrença é a desistência da tarefa de fazer qualquer avaliação. Algo parecido acontece quando, no Brasil de hoje, se diz que todos os políticos são corruptos, como se não houvessem aí distinções mais finas ainda a serem feitas.

Onde não há fatos, há verdades em demasia – Talvez não possamos mais chamar de mentira essa versão sistêmica e explícita, onde todos estão sendo enganados ao mesmo tempo. Mas ao meu ver, “pós-verdade” também não é o nome mais adequado. Talvez o mais correto seria falar de hiper ou ultra-verdade, pois vivemos em uma época em que todos se sentem no direito de dizer qualquer coisa, seja nos discursos políticos ou nas redes sociais, embasados em dados fictícios ou não, mas garantidos pela crença tácita de que “tudo vale” e pela recepção acrítica da maioria dos tele-expectadores e internautas.

Quando há verdades em demasia o perigo não é mais apenas, como diz Arendt, a descrença generalizada na realidade, mas a sua contrapartida, a revalorização reativa, nostálgica e muitas vezes enceguecida dos fatos, como se eles existissem em algum lugar objetiva e efetivamente e pudessem funcionar como uma pedra de toque nas nossas falas.

Um sintoma dessa súbita revalorização dos fatos em si é a prática cada vez mais difundida de facts checking dos discursos políticos na internet. Embora seja muito saudável desvelar as falsas estatísticas citadas pelo MBL ou por Trump, é sempre bom lembrar aquela frase do Nietzsche citada do início desse texto, para não cair na armadilha inversa de achar que alguém tem o poder definitivo e inquestionável de dizer o que são os fatos.

Existem divergências de interpretações até mesmo entre os diferentes fact-checkers. Não podemos nunca deixar de nos perguntar criticamente quem são e como o fazem, estes que assumiram para si a tarefa de controlar a veracidade dos discursos dos outros. Avaliar continuamente não só os discursos, mas também os avaliadores e os próprios instrumentos de avaliação, é a tarefa política constante daqueles que ainda tem respeito pela liberdade e pelo pensamento. Isso inclui também o exercício da autoavaliação, pois a pós-verdade, entendida aqui não como a “não-verdade”, mas como a “verdade pluralizada e sob constante tematização”, exige sempre e de cada vez mais e melhores interpretações. Em suma, abaixo Trump e viva Nietzsche!

Charles Feitosa é Doutor em Filosofia pela Universidade de Freiburg i.B./Alemanha; professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da UNIRIOChles Feitosa é Doutor em Filosofiala Universidade de Freiburg i.B./Alemanha; professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da UNIRIO

A era da pós-verdade

leia no original:

http://www.cartacapital.com.br/revista/933/a-era-da-pos-verdade

por Gabriel Priolli* 
O Dicionário Oxford consagrou o termo neste ano em que a sociedade preferiu os boatos aos fatos
Guillermo Legaria/AFP
Colômbia

Na Colômbia, a paz perdeu nas urnas para a mentira

Uma nova palavra entrou para o léxico mundial em 2016 e fecha o ano em alta, frequentando as mais diversas bocas e páginas do mundo político e jornalístico. É a “pós-verdade”, um elegante étimo composto que pode parecer fruto da mais refinada filosofia contemporânea, mas não vai muito além de “tucanar” a mentira, naquele antigo e consagrado sentido de falar difícil, com sotaque tecnocrático, o que pode ser dito de forma simples e direta.

A “pós-verdade” despontou para a fama graças ao Dicionário Oxford, editado pela universidade britânica, que anualmente elege uma palavra de maior destaque na língua inglesa. Oxford definiu a acepção e mostrou a evolução do termo, observando que ele não foi cunhado neste annus horribilis da história humana, mas seu uso cresceu 2.000% nele. O Google registra mais de 20,2 milhões de citações em inglês, 11 milhões em espanhol e 9 milhões em português, uma ideia de seu sucesso.

Na definição britânica, “pós-verdade” é um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Não seria então, exatamente, o culto à mentira, mas a indiferença com a verdade dos fatos. Eles podem ou não existir, e ocorrer ou não da forma divulgada, que tanto faz para os indivíduos. Não afetam os seus julgamentos e preferências consolidados.

O termo, diz a Oxford, foi empregado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, em um ensaio para a revista The Nation. Em 2004, o escritor norte-americano Ralph Keyes colocou-o no título de seu livro The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life. Mas quem mais contribuiu para a sua popularização mundial foi a revista The Economist, desde quando publicou, em setembro passado, o artigo “Arte da mentira”.

No texto de The Economist, o mundo teria entrado em uma era política de pós-verdade, especialmente depois que os britânicos ignoraram os alertas sobre o “Brexit” e votaram por deixar a Comunidade Europeia, e que os americanos desdenhavam das graves advertências sobre Donald Trump, estando prestes a colocá-lo na Casa Branca.

Friboi
Para muitos, a Friboi pertence ao ‘filho de Lula’ (Foto: Valdenir Rezende/Estadão Conteúdo)

O semanário lamenta que o eleitorado dos dois países desconsidere fatos objetivos e prefira acreditar em lendas, como a de que refugiados turcos invadiriam a Inglaterra se o Brexit não fosse aprovado, ou de que Barack Obama não é americano e fundou o Estado Islâmico, e de que os Clinton assassinaram um assessor em 1993, como propalou Trump.

Republicado em diversos países, o comentário da revista britânica suscitou analogias e um vasto inventário de “pós-verdades”. Na Colômbia, o acordo de paz do governo com as Farc foi derrotado em referendo porque as igrejas, em especial as evangélicas, convenceram boa parte dos eleitores de que ele estimularia a dissolução das famílias e a homossexualidade das crianças. “O anticristo está na Colômbia”, disparou um pastor nas redes sociais, em comentário que viralizou.

Em meio às suas 297 páginas, o tratado de paz apenas propunha a equidade de gênero, “para garantir que mulheres e homens participem e se beneficiem em pé de igualdade da implementação desse acordo”. E fazia referência à “necessidade de ter em conta a comunidade LGBTI”.

Foi o suficiente para políticos ultraconservadores como Álvaro Uribe fazerem uma barulheira, muito conhecida dos brasileiros, sobre uma suposta e temível “ideologia de gênero”. 

No Brasil, aliás, a “pós-verdade” é a linguagem da moda na política e não ocorre apenas nos delírios fundamentalistas. Como vários parlamentares admitiram, Dilma Rousseff não cometeu nenhum crime de responsabilidade na Presidência da República, condição indispensável para o impeachment, mesmo assim foi deposta pelo “conjunto da obra” e nada foi capaz de impedir.

A Operação Lava Jato mistura intencionalmente doações legais que empresas fizeram a candidatos nas eleições com propinas que pagaram a parlamentares, criminalizando a política como um todo, e o eleitorado conservador vai às ruas para apoiar o juiz Sergio Moro e seus cruzados da moralidade pública, sem fazer qualquer ressalva. 

É um eleitorado capaz de jurar sobre a Bíblia que o “filho do Lula”, esse ser abstrato e afortunado, é dono da Friboi e de quase tudo no País. E que se preocupa seriamente quando a “musa do impeachment”, a advogada Janaína Paschoal, comenta sobre a possível instalação de uma base naval russa na Venezuela e diz que Vladimir Putin está prestes a invadir o Brasil. 

Na tese de The Economist, endossada pela mídia tradicional de todos os países, a “pós-verdade” disseminou-se por culpa da internet e das redes sociais. “A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante”, diz a revista. “Mentiras compartilhadas online, em redes cujos integrantes confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade.”

Tesich e Keyes
Oxford destacou neste ano, mas o termo ‘pós-verdade’ foi criado em 1992 por Tesich (acima). Keyes o consagraria em 2004

É uma visão confortável que relativiza, quando não omite totalmente, a responsabilidade da própria mídia na eclosão do fenômeno. Se agora vivemos o reinado da “pós-verdade”, por dedução lógica teria havido antes uma época de pura verdade na mídia, na qual os cidadãos podiam confiar cegamente. Ignora-se em que parte do planeta tal era gloriosa teria ocorrido, que povo foi beneficiado e quais teriam sido os seus heróis jornalísticos.

“Os indivíduos e os veículos que mais alertam contra os perigos das ‘falsas notícias’ e da ‘política da pós-verdade’ são os maiores disseminadores delas”, resume o jornalista e blogueiro inglês Neil Clark. “É como ouvir lições da boca de Al Capone sobre a imoralidade do contrabando, ou o corcunda de Notre-Dame a exigir que todos sentem com as costas retas.”

Clark lembra das armas de destruição em massa no Iraque, que a mídia acreditou existirem e que justificaram uma invasão militar sanguinária, com milhares de mortos. Elas nunca apareceram. Lembra do pretexto amplamente noticiado para liquidar Muammar Kaddafi (e a Líbia junto), um suposto massacre que estaria na iminência de ocorrer em Benghazi, mas nunca se efetivou.

Lembra que a mídia ainda não apresentou prova dos ataques químicos que acusa Hafez al-Assad de cometer na Síria. Lembra, enfim, de verdades incômodas, que The Economist e a mídia pró-ocidental preferem não trazer ao seu cenário de “pós-verdade”. 

O máximo que esses veículos admitem é que alguns mecanismos do jornalismo que praticam não funcionam. “A busca da ‘imparcialidade’ na veiculação de notícias com frequência cria um falso equilíbrio, à custa da verdade”, afirma The Economist. “Os cientistas da Nasa dizem que Marte, provavelmente, é desabitado. O professor Zureta diz que pululam alienígenas no planeta. Opinião por opinião, cada qual que escolha a sua.” 

Expostos a uma mídia que cultiva o pensamento único, os brasileiros não têm essa opção. Não encontram uma segunda opinião para acreditar, visto que a prática basilar do jornalismo, de sempre ouvir o “outro lado” nos assuntos apurados, faz tempo que entrou em desuso por aqui.

Não é pelo excesso de versões, portanto, senão pelo seu exato oposto, que a opinião pública nacional desacredita dos fatos e se nutre de factoides imaginários, cevados na ignorância e no preconceito. 

A “pós-verdade” talvez expresse, no plano da mídia, a mesma perda de credibilidade que afeta a política. Uma imprensa que se acredita “a serviço do Brasil”, “de rabo preso com o leitor”, que “faz a diferença”, que tem “tudo a ver”, padece hoje da desconfiança tanto do público de esquerda quanto daquele de direita.

Ambos sabem que essa imprensa lê o mundo pela ótica estrita de seus interesses – de classe, políticos, empresariais etc. – e que são eles que definem as notícias, não a importância dos fatos.

Se é assim, se a notícia é o que o veículo quer que ela seja, se a “verdade” é tão relativa e subjetiva quanto qualquer opinião, por que o espanto com a explosão da “pós-verdade”? O cidadão comum posiciona-se sobre um terreno movediço de informações, cada vez mais instável, e precisa angustiadamente da segurança das certezas.

Vai encontrá-la no próprio cabedal de ideias que lhe foram incutidas pela educação familiar, a formação escolar e o convívio social. Se os fatos se ajustarem a essas ideias, ótimo. Caso contrário, não virão ao caso.

À era da “pós-verdade”, portanto, corresponde um “pós-jornalismo”. Não é mais aquele que duvida, pergunta, reflete, busca interpretar a complexidade do mundo, mas que afirma peremptoriamente, sentencia, reitera, constrói a realidade conforme os lobbies que faz ou defende.

Na balbúrdia da vida digital, no caos informativo das redes sociais, ele é apenas uma fonte a mais de “convicções”, não uma bússola para a informação confiável. Mas, prepotente, prefere atacar o Facebook e demais distribuidores de conteúdos do que fazer a autocrítica dos próprios defeitos.

Em meio a tudo isso, o cidadão vai desanimando. Pesquisa da empresa de tecnologia Kaspersky apurou que 73% dos usuários brasileiros de redes sociais pensam em excluir seus perfis e só não o fazem para não ficar longe dos amigos e das recordações. No mesmo estudo, global, os americanos insatisfeitos são 78%. 

O porquê da insatisfação? Todos consideram as plataformas uma perda de tempo. Estão saturados das meias-verdades e mentiras inteiras que alimentam indistintamente notícias ou delírios, em tempos obscuros de “pós-verdade”. 

Para entender a pós-verdade

leia no original:
http://www.cartacapital.com.br/revista/936/para-entender-a-pos-verdade?utm_campaign=CartaCapital+Newsletter&utm_content=Para+entender+a+p%C3%B3s-verdade+%E2%80%94+CartaCapital+%282%29&utm_medium=email&utm_source=EmailMarketing&utm_term=Newsletter+25.01.2017
Televisão

O cinema, a tevê e a internet passaram a ter mais valor do que a realidade

O ano de 2016 foi profícuo em análises sobre a natureza ficcional da política contemporânea. A revista britânica The Economist partiu do óbvio: políticos sempre contaram mentiras. O problema é que agora eles parecem estar abandonando inteiramente o lastro da verdade.

Megan Garber, escrevendo para a revista norte-americana The Atlantic, relembrou oportunamente a obra clássica de Daniel Boorstin, publicada em 1962 – The Image: A guide to pseudo-events in America. Ao analisar o avanço da fotografia, do cinema, da tevê e da propaganda, o historiador alertou que a nossa sociedade estava substituindo a realidade por eventos dramatizados e trocando heróis por celebridades.

Boorstin observou que o dia a dia passou a ser habitado por pseudoeventos, acontecimentos não espontâneos que guardam uma relação ambígua com a reali­dade e são criados com o propósito específico de seduzir ou manipular a audiência. Pseudoeventos são mais dramáticos e atraentes que eventos espontâneos.  

A imagem, seja um filme, uma foto ou uma notícia, é um simulacro da realidade, produzida para ser mais dramática e sedutora do que o fato. A imagem não é necessariamente uma mentira, mas pode ser. O notável é que o lastro do fato é pouco relevante.

O escritor italiano Umberto Eco certa vez observou que em um passeio pela reconstituição do Delta do Mississippi, em um dos parques temáticos Disney é possível ver mais jacarés do que no ambiente natural original e isso torna o fato de serem mecânicos completamente secundário.

Outra obra profética do século XX foi La Société du Spectacle, do pensador francês Guy Debord. O livro foi publicado em 1967, cinco anos após o de Boorstin. A espetacularização, para Debord, é consequência da evolução das condições de produção, que quebra a unidade de vida, extraindo as imagens e agrupando-as em uma grande e única corrente.

O espetáculo produz uma representação superior ao mundo real. Cria-se dessa forma um mundo à parte, onde a relação entre os indivíduos é mediada por imagens. 

O espetáculo, ainda segundo Debord, manifesta-se na mídia de notícias, na propaganda, nas atividades culturais e nas interações pessoais. O espetáculo é uma narrativa totalizante que justifica, legitima e celebra o sistema. Toda a sociedade e os fenômenos sociais estão baseados e são permeados pelo espetáculo.

O habitante da sociedade do espetáculo é o espectador, ser que não vive, apenas contempla. Ele é eterno coadjuvante, pressionado a encontrar o seu papel e a desempenhá-lo. O espetáculo fornece o roteiro, o ato e a fala, e ainda avalia o desempenho, de acordo com critérios de excelência em representação.

O próprio espetáculo determina o que são necessidades e desejos válidos e adequados. No espetáculo, o indivíduo sem individualidade procura conforto para suas necessidades e seus desejos. É atendido pela experiência de emoções tão fortes quanto rasas.

A sociedade da imagem e do espetáculo, da pós-verdade, é uma estrutura disciplinadora, habitada por voyeurs que espiam obsessivamente a si mesmos e uns aos outros, produzindo e assimilando imagens.

Nas telas das tevês, dos computadores e dos telefones celulares, o espectador-voyeur penetra no mundo do personagem-voyeur. Voyeurs são espias e objetos de espia. Tudo que era diretamente vivido, como observou Debord, foi reduzido a mera representação.

A imagem e o espetáculo avançam. O cinema já teve o monopólio de imagens. Hoje divide espaço com outros canais de produção e geração de imagens, como a tevê e a internet. O fluxo imagético não tem início nem fim.

A imagem não representa mais nada em especial, ela existe por e para ela mesma. Tem a finalidade de saciar uma demanda ansiosa por entretenimento e por emoções. E a sociedade a produz e consome, em notáveis ritos de auto-hipnose.

O cinema, a tevê e a internet passaram a permitir um prodígio: viver em um mundo no qual o simulacro tem mais valor do que a realidade. Medimos a realidade por sua contraparte virtual. O risco para uma sociedade maciçamente orientada para a imagem é a perda da noção de realidade ou, ainda pior, a perda da preocupação com a perda da noção de realidade.

Teorias sobre a morte de Teori mostram em qual bolha da rede você está

Leia no original:
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/01/21/teorias-sobre-a-morte-de-teori-mostram-em-qual-bolha-da-rede-voce-esta/

Leonardo Sakamoto

Há muitas dúvidas envolvendo a queda do avião que levou à morte de Teori Zavascki, relator da operação Lava Jato no STF, e mais quatro pessoas, no mar de Paraty (RJ).

Como já disse aqui na própria quinta (19) da tragédia, apenas uma investigação séria e transparente, monitorada pela imprensa e pela sociedade, talvez seja capaz de dizer o que aconteceu, ou seja, se foi falha humana ou mecânica, condições metereológicas ou sabotagem da grossa.

Até lá, qualquer tentativa de cravar uma resposta é mimimi.

Mas tem um lado bom das teorias conspiratórias que surgiram no rastro do ocorrido. De certa forma, elas funcionam como um indicador que mostra em qual bolha você está inserido (OK, estou simplificando, porque não há apenas duas).

Se em suas timelines de redes sociais e mensagens de WhatsApp aparece apenas que Lula, Dilma e PT derrubaram o avião, você está em uma bolha.

Se aparece apenas que Temer, Jucá, PMDB e PSDB foram os responsáveis por sabotar, você está em outra bolha.

Se você é da minoria em que as duas teorias aparecem mais ou menos por igual, meus pêsames. Sua vida deve ser um inferno.

O mais interessante é que as pessoas não percebem que há um mundo de gente defendendo algo totalmente oposto à sua timeline porque não consegue ver além da bolha. Isso, é claro, é culpa do algoritmo das redes sociais, que garante que você veja coisas de pessoas com a qual interage mais, com a qual concorda mais. Dessa forma, você fica mais tempo na rede, gerando conteúdo de graça e clicando em links patrocinados.

O susto por conta de alguns resultados nas eleições de 2014 (muitos achavam que Aécio ia levar, por exemplo) e de 2016 (outros tantos ficaram de queixo caído com a eleição de Dória no primeiro turno) são provas disso. Ou mesmo todo o processo de impeachment.

Alguns veículos de comunicação de grande alcance, como o próprio UOL, têm se esforçado em trazer textos que separam o que é fato do que é especulação na queda do avião. Mas esses textos não chegam a quem deveria ou, lá chegando, são recebidos com desconfiança. Nem tanto pela perda de credibilidade da imprensa nesse momento de polarização estúpida em que vivemos, mas porque as pessoas estão sendo guiadas pela emoção e não pela razão.

A impressão é de que realmente querem uma conspiração para o caso por ajudar, como já escrevi aqui, a preencher um vazio deixado pela aparente falta de sentido de uma realidade política e econômica que transforma em estagiários os roteiristas de House of Cards e Game of Thrones.

Neste momento, muita gente divulga informação de sites que claramente estão alimentando teorias de conspiração ao invés de promover investigação séria. Porque esses sites não fazem jornalismo, não contam com profissionais analisando dados e entrevistando pessoas, mas caçam-cliques para ganhar dinheiro através de views em anúncios ou foram construídos como armas na guerra digital – que se fortaleceu no Brasil após a pancadaria promovida por Dilma e Aécio em 2014.

São sites que não informam os seus responsáveis, que não têm endereço, anônimos e apócrifos, produzidos para formarem opinião e manipularem as diferentes bolhas que se estabelecem na sociedade.

Até entendo as pessoas que nunca refletiram sobre isso e não veem diferença entre uma Folha de S.Paulo, um O Globo, uma Carta Capital, um Nexo, uma Ponte Jornalismo de sites que não contam com assinatura, redação, fotos de colunistas, enfim.

O primeiro grupo, independente do que acha deles, dá a cara a tapa para bater. Podem ser processados diante de informações equivocadas por um motivo: as pessoas existem e podem ser encontradas. O segundo grupo, vive no submundo, buscando gente que torce para ser enganada, sendo armas de certas organizações e políticos. Usam nomes que parecem de veículos antigos, mas dificilmente conseguem ser rastreados por um oficial de Justiça, com uma liminar de direito de resposta.

A tristeza é ver pessoas sérias, de um campo ideológico ou de outro, neste momento de extrema emoção, compartilhando esses sites e páginas abastecidas com notícias distorcidas.

Como há, pelo menos, duas bolhas defendendo que houve conspiração, está acontecendo um fato interessante: conteúdo produzido por esses sites e páginas para abastecer uma bolha, está sendo compartilhado pela outra.

Daí, sites que normalmente são criticados por um grupo como chorume estão sendo difundidos por pessoas desse grupo com comentários como ”Veja o link! Ele traz provas que comprovam que não foi acidente” ou ”Veja! Pelo menos isso dá o que pensar, não?”. Quando abrimos, vemos conteúdo não checado, com inferências vazias, apurações mal feitas, maquinações que não passam pelo crivo lógico ou um monte de wishful thinking.

Espero que o caso seja investigado de forma transparente e rápida, como já disse. E que imprensa e investigadores não se deixem levar pelo esgoto que está circulando loucamente.

A ideia de pós-verdade, quando a emoção ao transmitir um fato é mais importante para gerar credibilidade em torno dele do que provas de sua veracidade em si, nunca pareceu tão pertinente.

Não que uma conspiração não seja possível, claro que é. Mas temos que esperar para dizer isso.

O problema é que há tanta gente que já se decidiu por essa opção que elas só aceitarão uma investigação que levar a resultados que vão ao encontro de sua opinião. Ou seja, que foi A ou B que mandou matar.

Caso contrário, se apontar falha humana ou mecânica, chuva, vento ou sabotagem envolvendo outras pessoas (como J.Pinto Fernandes que, como lembra Carlos Drummond de Andrade, estava na quadrilha, mas não havia entrado na história), perderá um pouco mais de fé em nossas já desacreditadas instituições, rangendo os dentes para o caso por toda a vida.

Falsas notícias: o fracasso da verdade no ano de 2016

Ler no original:
 http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,falsas-noticias-o-fracasso-da-verdade-no-ano-de-2016,10000095160

A distopia totalitária de ‘1984’, livro em que um homem reescreve a História para que a memória seja derrotada, revela-se atual em 2016, quando a verdade fracassou na urna de dois faróis da democracia, a Grã-Bretanha e os EUA

Lúcia Guimarães.

“Pós-verdade: fazer referência ou denotar circunstâncias em que fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que apelos à emoção e a convicções pessoais.”

A eleição de Donald Trump e o referendo que aprovou o Brexit estão por trás da escolha de pós-verdade como palavra de 2016 pelo venerando dicionário Oxford da língua inglesa.

Mas isto se passou no longínquo mês de novembro. Quando 2017 acordar, já é possível escolher uma palavra que perdeu sua artilharia semântica: Orwelliano. O adjetivo foi cunhado no pós-guerra com a publicação do romance 1984, a distopia totalitária imaginada por George Orwell, em que o protagonista reescreve a história para que a memória seja derrotada.

 

Os fatos sempre viveram sob assalto de ditadores, demagogos e comerciantes de biotônicos inócuos ou de guerras devastadoras com base em fabricações. Mas 2016 foi o ano em que a verdade foi derrotada na urna de dois faróis da democracia ocidental, Grã-Bretanha e Estados Unidos. Fatos mundanos, aritmética simples foram omitidos ou falsificados para exacerbar o sentimento anti-imigrante entre os britânicos. Mas a realidade voltou para puxar a perna dos angustiados eleitores do Brexit, como demonstra o moroso processo de desligamento da União Europeia.

Nos EUA, o ano termina com um cenário mais assustador. Mesmo depois de eleito, Donald Trump continuou a mentir com a aprovação tácita de parte da mídia e da minoria que votou nele. E ele conta com um fenômeno que nasceu na era Nixon, mas foi articulado e cozinhado nas duas últimas décadas por seu ex-assessor de campanha, Roger Ailes, fundador da Fox News: o antijornalismo. A mensagem da mídia favorita dos eleitores de Trump é: todos os jornalistas mentem, menos os que nós empregamos. Ailes foi demitido em julho por múltiplas acusações de assédio sexual, mas sua usina de fabricações continua intocada e facilitadora do recém-eleito Trump, Editor-Chefe dos Estados Unidos do Pensamento Mágico.

O principal repórter político da Fox, o veterano Chris Wallace, nem piscou, muito menos contestou quando o presidente eleito afirmou o seguinte, no último domingo: “minha vitória foi uma das maiores da história”. Fato: a vitória de Donald Trump em número de delegados está em 48º lugar em 58 eleições presidenciais no Colégio Eleitoral. Ele obteve a maior derrota no voto popular da história da república. Hillary Clinton tem, até este momento, uma vantagem de 2,85 milhões de votos dos norte-americanos.

Além de ter sido decidida por 80 mil eleitores em três Estados, num país de 300 milhões de habitantes, a campanha presidencial de 2016 marcou um descolamento de fatos sem precedentes turbinado pela explosão de fake news, as falsas notícias veiculadas pelo duopólio digital planetário do Facebook e do Google. A epidemia de desinformação mobilizou até o Papa Francisco, que comparou o consumo de fake news a comer cocô. Mas o apetite pela iguaria escatológica não será diminuído com sermões ou ressentimento ideológico. Sim, os conteúdos falsos anti-Hillary Clinton tiveram muito maior distribuição no Facebook do que os críticos ao presidente eleito.

Na quinta-feira, o Facebook anunciou uma série de medidas para combater a veiculação de fake news. Durante um mês, Mark Zuckerberg tentou desconversar, insistindo na neutralidade de sua rede social com mais de 1,8 bilhão de membros ativos. As novas medidas incluem um recurso para o internauta levantar suspeita sobre um conteúdo e a terceirização do fact checking para uma coalizão que inclui a Associated Press, ABC News e o Washington Post. É cedo para avaliar a eficácia das medidas, mas elas implicam a aceitação do óbvio: o Facebook é uma companhia de mídia.

Até o fato de usarmos a expressão pós-verdade e não mentira, lorota, embuste ou ficção aponta para a desejada derrota da memória tramada no romance de Orwell. O que fazer? Já passamos da complacência travestida de postura libertária como “todo filtro é censura”? Quando uma quase tragédia ocorre dentro de uma popular pizzaria de Washington, invadida por um homem armado que acreditou numa falsa notícia viral sobre Hillary envolvida com tráfico sexual de menores, é o caso de avaliar as consequências do fenômeno sobre a democracia?

Depois da eleição de novembro, uma escola de jornalismo no belo e sonolento câmpus da Universidade de Stony Brook, em Long Island, Nova York, recebeu telefonemas vários países, com pedidos de informação sobre um curso, conta o veterano jornalista e editor Howard Schneider, diretor da escola. Quando o Facebook e o Twitter eram ainda recém-nascidos, Schneider, com décadas de carreira analógica, ensinava Ética em Jornalismo e criou um novo curso na escola de Jornalismo da Universidade de Stony Brook, em Long Island, a 90 minutos de Manhattan. Ele já ensinava Ética em Jornalismo, mas notou que seus alunos pareciam perdidos com o aumento de fluxo de informação digital e demonstravam um crescente cinismo sobre a credibilidade de fontes. Com o apoio de acadêmicos de outras área no câmpus, Schneider fundou o centro de News Literacy de Stony Brook, uma espécie de alfabetização adulta em consumo de notícias.

Uma década e dez mil estudantes depois, Schneider diz ao Estado que o alvo ideal do curso de News Literacy tem 12 anos. “É mais difícil incutir ceticismo e capacidade crítica numa geração que já chega à universidade tendo consumido tanta mídia,” diz.

O centro de Stony Brook apoia um programa piloto numa escola pública de ensino médio do bairro de Coney Island, no Brooklyn, em que alunos desde a 6ª série – média de 11 anos – “se alfabetizam” em jornalismo com ajuda de materiais multimídia fornecidos pela equipe de Schneider. Eles são estimulados a questionar fatos, conferir origem da informação e até avaliar se as fontes têm interesse em se beneficiar desta ou daquela versão.

“Os embustes são parte da história do jornalismo”, diz Schneider. “A diferença hoje é a rapidez da propagação e o fato de que há tecnologia e interesse econômico em maximizar a distribuição. Há duas frentes, a ideológica e o interesse financeiro em monetizar conteúdo online”, conclui. A este cenário, ele acrescenta o fato de que uma população cada vez maior se informa através da rede social sem contato com as fontes e a explosão de polarização política nos Estados Unidos, que ele chama de hiperpartidarismo. O jornalista expressa também alguma simpatia pelo Facebook e o Google. “Mudar algoritmos e filtrar conteúdo apenas não resolve o problema”, argumenta. “O filtro mais poderoso é o público alerta e educado para distinguir fato de ficção.”

Uma pesquisa feita pelo BuzzFeed descobriu dezenas de websites difusores de fake news em Veles, cidade de menos de 50 mil habitantes na Macedônia. Os redatores produziam conteúdo que gerava mais dinheiro em hits, como notícias sobre saúde ou, nos websites políticos, notícias pró Trump ou anti-Hillary. Não se tratava de ideologia, e sim de monetização da ferramenta AdSense de anúncios do Google.

Há outro fator que facilita a propagação de embustes como a notícia de que Hillary Clinton era traficante de sexo. Experiências feitas por psicólogos mostram que teorias conspiratórias triunfam mais entre pessoas vulneráveis – aqueles que não se sentem no controle de seu destino.

Não é coincidência as mentiras notórias do presidente eleito pouco importarem a boa parte do seu eleitorado, trabalhadores brancos em indústrias em declínio que se sentem marginalizados com a crescente diversificação étnica do país e a transformação tecnológica da economia. Quando o seu horizonte parece drasticamente reduzido, é compreensível a atração e o consolo de uma voz que oferece soluções simples (falsas) para problemas complexos. Quem passou 30 anos ganhando um salário de classe média numa mina de carvão que acaba de ser fechada, prefere ouvir a fantasia de que um homem vai colocar o mercado de energia de joelhos para reabrir a mina e tornar o carvão uma fonte de energia viável.

É impossível lidar com a desinformação global de olhos fechados para 15 anos de investimento de Vladimir Putin em propaganda em múltiplos países. Ainda estamos navegando no escuro sobre o que descobriu a inteligência norte-americana sobre o hacking russo da eleição. Sabemos que contou com participação ativa do FSB (sucessor da KGB) e do GRU (o serviço de inteligência militar) – às vezes, comicamente hackeando a sede do Partido Democrata ao mesmo tempo, como um gatuno sem notar a presença do outro numa joalheria escura. Sabemos que Vladimir Putin queria punir Hillary Clinton, desacreditar a eleição nos EUA e talvez até tenha se surpreendido com a eleição de Donald Trump, um resultado que satisfaz o Kremlin.

Até novembro, o ecossistema de falsificação e propaganda era observado à distância pelos norte-americanos, como instrumento de ditadores ou de uma minoria extremista doméstica. Até que acordaram no dia 9 de novembro e começaram a compreender que o autoritarismo da desinformação foi legitimado nas urnas. A ideia de que comunidades compartilham de fatos como o índice de emprego, ou o aumento da temperatura média é desafiada diariamente. Mas uma nova pesquisa do Pew Research Center revela fadiga do caos informativo. Dois terços dos adultos consultados pelo disseram que notícias fabricadas provocam confusão e têm impacto na vida do país. Um sinal de que o telefone deve continuar tocando no câmpus de Stony Brook.

OPERAÇÃO CORTINA DE FUMAÇA

EM ROMANCES POLICIAIS, é manjada a técnica de encher a narrativa de elementos para distrair o leitor da raiz do mistério. As pistas importantes estão todas lá, desde o início. Você é que não as vê, perdidas entre tantas subtramas e personagens secundários – um inocente Coronel Mostarda na biblioteca com um punhal no bolso, por exemplo. É a mesma técnica do mágico que tamborila o ar com os dedos de pianista enquanto tira da outra manga uma carta, como um ladrão que te conta uma piada enquanto rouba a sua carteira.

Escritores chamam essas falsas pistas de “arenques vermelhos”. Diz-se que a origem da expressão inglesa (“red herrings”) vem da prática de arrastar peixes mortos por uma trilha para confundir ou testar o olfato de cães em adestramento para a caça de lebres. A tática de encher uma história de cortinas de fumaça não está presente apenas em livros de ficção – é uma falácia argumentativa bastante comum para nos convencer de qualquer coisa desde sempre.

O princípio básico é o de usar um argumento diversivo para defender ou atacar uma questão. É como ver os defensores da inconstitucional PEC55distraindo os brasileiros ao fazer analogias absurdas com o orçamento doméstico de uma família – sendo que uma família não pode fazer ajuste fiscal, regular juros ou emitir moeda. E, pior, sabendo perfeitamente que o corte de gastos dentro do orçamento doméstico não gera impacto sobre a receita de uma família, ao contrário do que acontece com a economia de um país.

Arenques vermelhos dominam o discurso de políticos e o noticiário

E se vemos articulistas e políticos baseando todo seu discurso em arenques vermelhos, o que dizer do noticiário? Quanto melhor informados, maior a impressão de sempre perder algo fundamental. Somos submetidos diariamente a uma profusão de pistas falsas que transformam a política nacional em um teatro absurdo. As instituições derreteram ao chocar o ovo da serpente golpista e levaram com elas nossa própria percepção da realidade.

Apenas na última terça-feira no Brasil, tivemos um racha institucional sem precedentes entre o STF e um presidente do Senado alvo de 11 inquéritos, um ministro do Supremo pedindo a cabeça de outro, o anúncio de uma leonina reforma da previdência, o centro do Rio transformado num caldeirão, com policiais militares atirando bombas das janelas de uma igreja, e, para fechar o dia, imagens do convescote amistoso entre o paladino dos pachecos e o próprio Aécio Quem Não Conhece o Esquema do Aécio Neves, político quecoleciona citações na operação Lava-Jato que dão em lugar nenhum. Osalvador da pátria também trocou idéias alegremente com outro tucano – este, acusado de ter R$ 23 milhões de propina depositados na Suíça.

Apenas mais um dia de bundalêlê no Bananão.

Um loop infinito de notícias que vamos esquecer

Bons eram os tempos em que Ivan Lessa podia escrever que “a cada quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos.” Hoje, a cada semana esquecemos o mês passado, a cada dia a semana anterior. Como, afinal, lembrar da negociata e do escândalo de ontem, se hoje há um mais espetacular – que logo também será esquecido? É uma história autofágica, não circular como um oroboro, mas como um animal disforme que se canibaliza imóvel.

Presos num loop infinito de notícias e contradições, tanto perdemos a capacidade de construir qualquer narrativa confiável, para os outros e para nós mesmos, que a própria palavra narrativa caducou em 2016 – virou sinônimo de enrolação, ladainha, proselitismo, pós-verdade.

No Brasil de 2016, não precisamos de um talentoso conspirador comoVladislav Surkov, assessor de Vladmir Putin responsável por plantar o caos político na Rússia. A confusão política que mina nossa percepção do mundo em momentos caóticos como esse é fruto de blefes simultâneos, dados por diferentes atores econômicos e políticos – pense num grupo de whatsapp com personagens como Gilmar Mendes, Zé Pilintra, Ali Kamel, Mefistófeles e os donos da banca. Quando todos têm cartas na manga, a única certeza é a de que todos os jogadores da mesa são culpados de alguma coisa.

Mesa de oligarcas que vemos de longe, de baixo, cada vez mais distantes do poder. Nossa melancólica aposta hoje é tentar decifrar seus porta-vozes, os que nos informam ao contrário. Pois aqui a máxima de Maquiavel ganha sentido imediato: os que vencem hoje contam a história. No jornalão de amanhã.