POR UM PROJETO PARA AS CIDADES BRASILEIRAS

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A GRITARIA DE JAIR BOLSONARO E O AVANÇO DO “MITO”

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MILITAR DE RESERVA , político de carreira (sete vezes deputado federal, uma vez vereador) e presidenciável, Jair Messias Bolsonaro tirou alguns dias fora de Brasília, reino dos memes da corrupção brasileira, para vir até Florianópolis (SC) em maio. Em seguida, sua turnê passaria por Joinville, Blumenau e Jaraguá do Sul. Pela primeira vezde acordo com evento criado no Facebook, para uma palestra: 2,7 mil pessoas mostraram-se interessadasno encontro aberto ao público, sem cobrança de ingresso. Uma amostra dos 21% de eleitores brasileiros que dizem que, se a eleição fosse hoje, escolheriam Bolsonaro para comandar o país. Número que parece consolidar a direita mais radical como uma alternativa cada vez mais real de poder no Brasil.

A seu lado em Florianópolis estariam os deputados federais Eduardo “Mitinho” Bolsonaro e Rogério “Bancada-da-Bala” Peninha. Não havia muitos detalhes. A julgar pelo vídeo promocional, poderia muito bem ser um meet and greet com um desses YouTubers da moda que se veem internet adentro. A diferença é que era um político superstar e presidente do Brasil wannabe.

Mas sobre o que era a palestra? Nada constava. Teríamos de ir lá pra ver.

Para nós, não fazia sentido um homem com um discurso daqueles ser entendido como carismático. Também desconfiávamos de que a multidão agia ao seu redor como seguidores de um messias, com “m” minúsculo. Mas, principalmente, queríamos entender por que, para aquela fervorosa parcela de gente de bem, “político de estimação” não pode – mas mito, bem, aí são outros 200 mil.

#1. Os que não cansaram de esperar

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Admirador faz selfie com Bolsonaro ao fundo no aeroporto de Florianópolis.

Gabriel D. Lourenço/Brio Lab

Bolsonaro chegaria ao aeroporto às 10h20. Chegamos às 9h, e, obviamente, não éramos os primeiros a esperar por ele.

Algumas voltas clicando os vinte e tantos presentes, um senhor de cinquenta e tantos ralhou que não autorizava fotos dele. Acalmou quando explicamos que atrás dele estava a recepção ao deputado, e nosso trabalho era cobrir a vinda.

“Pena meu vôo sair antes do Bolsonaro chegar,” lamentou. “Queria ver o cara. Um dos poucos honestos que ainda sobraram por aí.”

“Então, você votaria nele?”

“Claro. Nele ou no Dória, são candidatos fortes na minha opinião. O Bolsonaro porque tá caindo de pau no Lula, no PSDB, nesses caras aí. E o Dória porque é um gestor de verdade. Essa eleição ou vai dar um, ou vai dar outro. O problema é o Nordeste.”

“Mesmo? Mas por que você acha isso?”

“O Nordeste é o forte da esquerda, é onde eles ganham voto. Porque lá o povo depende de Bolsa Família, de esmola, são massa de manobra. Eu sou de Campinas, moro aqui na ilha [Florianópolis] tem 15 anos e aqui, onde é mais desenvolvido, esses caras não se criam. Por que o Lula não tá fazendo campanha aqui no Sul, e lá no Nordeste já tem até outdoor dele, candidato a presidente? É verdade, recebi as fotos no meu celular e tudo…”

“O Bolsonaro não é homofóbico, não é contra os gays. Só não quer o Estado mandando no sexo das criança, pô.”

Logo depois, pedi a dois trinta-e-tantos de moletom do Bolsonaro que deixassem eu fotografar as estampas. O primeiro deles, mais alto e o único cabeludo lá além de mim, disse, desconfortável, que não. Seu amigo, de cabeça raspada, cutucou mandando se levantar, que não era pra ficar de frescura.

Na hora das fotos, fizeram cara de mau. E enquanto o primeiro voltou a seu mundinho, o segundo dizia por que Bolsonaro era o cara.

“Ele defende muita coisa que eu acredito. É de direita, defende punição pra bandido, porte de arma, é contra a ideologia de gênero – especialmente a ideologia de gênero. Esse negócio aí do Estado ficar mandando no sexo do meu filho, do que ele vai ser. Isso é um absurdo. Na criação da minha criança, mando eu.”

Chequei as fotos enquanto balançava a cabeça. Ele prosseguiu:

“O Bolsonaro não é homofóbico, não é contra os gays. Só não quer o Estado mandando no sexo das crianças, pô. É a favor da família, de  Deus, a favor do cidadão de bem. E ainda tem gente com a cara de pau de dizer que ele é preconceituoso, racista, homofóbico. Se ser a favor disso tudo é ser homofóbico, então eu sou um baita de um homofóbico.”

#2. Peregrinos, devotos e mártires das santas causas políticas

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Cartazes à espera do mito em Florianópolis

Gabriel D. Lourenço

Encontrei dois jovens, filiados ao Partido Social Cristão (PSC), que desceram os 68 km de Itapema até lá para ver o cara de perto. O mais falante deles vestia uma camiseta do político, autografada na semana anterior quando ele mesmo fora a Brasília. Era a terceira vez que estaria diante do ídolo.

Câmera no pescoço, me apresentei como repórter. Me olharam assustados, os dois, como se eu fosse um demônio saído das entranhas da Folha de S. Paulo. Cobraram meu alinhamento político. Respondi que não era aquilo que me faria deixar de ouvi-los nem de tentar entendê-los.

“Talvez vocês possam me responder uma coisa,” comentei. “Um amigo que trabalha na Câmara me contou que a sala do Bolsonaro é a única com uma cama. Isso é verdade?”

“Não. Não, não, não, não!”, protestava o de camiseta autografada. “Não tem, não!”

“É que faria sentido, afinal,” e joguei pela empatia. “Pensa comigo. Se você é um político e tem vários projetos para votar, passa a noite inteira votando…”

“Não é não, cara. O Bolsonaro é humilde, come marmita todo dia. Ele é que nem a gente, não tem isso, não.”

A comoção chamou a atenção de Leandro Chaplin, um simpático careca do Direita Santa Catarina e responsável pela organização. Expliquei a situação da mesma forma. Respondeu sorrindo.

“Deve ter. Faz sentido, afinal. Hoje mesmo mandou um vídeo pra gente, às 6h da manhã, direto no gabinete, teve de ficar votando projeto até mais tarde.”

Adiante, um trio comentava ter levantado cedíssimo para estar ali àquela hora. Era o casal Tayoana Schuller, 24 anos, e Gabriel Roberto, 23 anos, junto ao amigo Flávio Acquesta, 41 anos. Estavam lá desde as 7h. Tiveram de acordar às 3h da manhã para preparar tudo e encarar os 225 km de Lages até a capital.

“Esperança, cara. No meio de um país com tanta corrupção, com estes nossos políticos que só nos trazem vergonha,  vi nele uma esperança em si.”

Adiante, o professor de jiu-jitsu e medalhista mundial, Aron de Oliveira, 23 anos, tirava uma foto envolto na bandeira do Amapá – toda canetada por seus alunos. Planejou participar anteriormente de um campeonato em São Paulo só para facilitar a escala até Florianópolis, ver seu herói de perto. “Sem um puto no bolso, teria de pegar dinheiro emprestado dos amigos para se virar ali. Queria uma foto, um contato, e voltar pra casa com um autógrafo na bandeira para seus alunos do projeto social – privilégio para poucos de lá.

“Pra mostrar que lá no Norte também existem pessoas que o apoiam. Apesar de ser um povo meio esquecido, às vezes criticado por ignorante, no Norte também tem pessoas.”

“E o que significa pra você esse esforço de vir de tão longe só pra estar diante do Bolsonaro?”

“Esperança, cara. No meio de um país com tanta corrupção, com estes nossos políticos que só nos trazem vergonha, e quando eu comecei a pesquisar sobre ele – uns quatro, cinco anos atrás –, e mesmo ele sendo de outra cidade, vi nele uma esperança em si.”

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“Senta a pua!”: o slogan dos ex-comabtentes da segunda guerra foi resgatado em apoio ao ídolo.

Gabriel D. Lourenço

A multidão se aglutinava no aeroporto. Mais de cem pessoas chegaram no local, e a tendência era continuar crescendo. Na movimentação, branco, preto e verde-e-amarelo eram as cores majoritárias nas camisetas. Um sem-número de estampas do político superstar me fez pensar que talvez a direita sectária tenha arranjado um Che Guevara (ou, vá lá, um Lula) pra chamar de seu. Jovens ostentando alegremente o amarelo de suas ideologias, grandalhões com placas PVC de Senta a Pua (o famoso grito de guerra de combatentes brasileiros na Segunda Guerra Mundial), um velho orgulhoso de vestir a camiseta com a Gadsden Flag na altura do peito – uma cascavel em riste voltada à esquerda, símbolo da bravura militar americana.

Dez e tanto, e a ensandecida entourage se direcionava para esperar a chegada do Bolsonaro na rua, pois desembarcaria no portão externo. Da organização, alguém disse que poderiam falar com ele, abraçá-lo, mas sem viadagem.

Risadas coletivas. Uma senhora gritou que queria beijar aquele homem maravilhoso. Em êxtase, aquelas duzentas e tantas pessoas gritavam “mito! mito!” do lado de fora.

#3. À espera do messias

A multidão à espera de Bolsonaro era feita de três-quartos êxtase e um-quarto de ansiedade.

Coros comuns e repetíveis, que iam de “Bolsonaro-Guerreiro-Orgulho-Brasileiro” a “Lula-ladrão-teu-lugar-é-na-prisão” eram mais do que um gesto de pertencimentoEra a prova freudiana de que o ser humano não é só um animal coletivo, mas um animal que precisa de liderança. Um líder que satisfaça o desejo de ser guiado, de dar sentido ao caos do mundo – e que afaste o medo da morte.

Ao se submeter a um líder, é como se magicamente você ganhasse os atributos que enxerga nele.

A isso é chamado de transferênciae quando é atendido, a sensação de poder, de sentido, de certeza é imensa. E desaparecem as ilusões, as ideias de que não podemos garantir nada, de que somos frágeis, de que talvez tudo o que façamos seja inútil frente à forças que não temos chance alguma de controlar. Ao se submeter a um líder, é como se magicamente você ganhasse os atributos que enxerga nele.

Medo e euforia, claro, não são exclusivos dos seguidores do político superstar, mas inerentes ao animal humano. E sabe qual a principal razão das massas serem perigosas? É que, nela, todos se afirmam coletivamente. Nada de ruim acontecerá consigo, quando em grupo – com os outros, talvez.

Pedi licença a um sujeito, um gordinho trintão de preto que se debruçava no muro, esperançoso de ver o desembarque do mito. Ao fundo, os coros continuavam. Cedeu espaço, e por algum tempo, nada do político. Quando agradeci e desci do muro, o sujeito gritou:

“Aqui, até a mídia é de Direita!”

Sem querem protagonizar debates profundos com meus observados, recorri ao manualzinho do jornalista padrão:

“Ei,” e fiz cara de indignado, “cê tá ciente que a imprensa tem que ser imparcial, né?”

“Caramba, velho,” e me respondeu sem graça, baixinho. “Desculpa. Eu me empolguei.”

Tentei negociar com a organização por um mínimo de espaço antes que aquele messias tempesteasse o mar de quase 300 pessoas que lhe aguardava. Talvez o corredor pudesse ser aberto, alguns minutinhos, só pra imprensa conseguir algumas fotos?

Não. Quando o fenômeno passou pelo portão, uma multidão de pessoas se acavalou. Eu e a câmera, dois náufragos no oceano de braços e celulares, diante do sessentão militarista, aclamado por eles como o futuro presidente do Brasil. Tanto faz se pelo PR, PRB, DEM, PSC ou PHS.

Cinco minutos depois, subiria a uma caminhonete com microfone para discursar. Foi recebido aos gritos de “mito”, “mas o que que é isso”, “dá que eu te dou outra”dentre outras banalizações do mal – todas satisfazendo desejos difíceis de realizar sem punição.

Não nos deixaram subir para tirar fotos de seu ponto de vista superstar. Tivemos de ficar junto aos seguidores.

As vozes só cessaram com o hino nacional, cantado até a primeira metade.

#4. O rei fala tudo e abranda logo depois

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Bolsonaro fala aos seus seguidores ainda no aeroporto de Florianópolis.

Gabriel D. Lourenço

As primeiras palavras do candidato para seus seguidores foram para fazer piada com gaúcho. Em seguida, afirmou depressa que era brincadeira. E logo mandou chamar o “negão” – Linston Souza, da organização – ao seu lado.

“Tá vendo esse cara aqui? Conheci esse cara agora, na descida do avião. Falei com ele e disse: ‘porra, no meu tempo de solteiro as loirona que eu queria não tavam nem aí pra mim. Naquele tempo, as loiras queriam tudo saber é do negão aqui, porra.

Hoje em dia a gente vive numa sociedade em que não se pode mais nem brincar um com o outro.”

E recebeu a primeira salva de palmas e urros.

“Isso aqui é uma brincadeira entre nós, claro. Hoje em dia a gente vive numa sociedade em que não se pode mais nem brincar um com o outro.”

Linston, no fim do dia, disse que considera Jair uma grande figura e nem um pouco preconceituoso. Ele mesmo é contra as cotas raciais, fez parte do movimento negro e considera a medida racista. “As cotas deveriam ser de classe, não de raça.”

Mas Jair Bolsonaro não é racista. Não se a sua concepção de racismo, claro, for algo entre “os negros são uma raça inferior” e “a escravidão não deveria ser abolida”.

Jacques Mick, doutor e professor do departamento de sociologia e ciência política da Universidade Federal de Santa Catarina, disse, em entrevista à reportagem, que a razão para existir um fenômeno Bolsonaro é a grande transformação social por que o Brasil passou nos últimos 30 anos.

O primeiro elemento dessa transformação, segundo Mick, seria o maior acesso à educação – ocorrida em especial no período lulista, embora já iniciada por Fernando Henrique – , o que, num país que sempre foi “uma nação de ignorantes”, significa muito. O próximo é o fortalecimento do movimento feminista, muito beneficiado pela intensa conexão em rede. Por fim, o sistema de cotas e outros incentivos foram essenciais para que os negros começassem a assumir espaços aos quais antes não pertencia. Lugares banais, como um avião, exemplificou o professor.

Essa junção de elementos, ou seja, o maior acesso à educação, o maior destaque dos negros,  das mulheres, dos pobres, dos LGBTTI – as principais vítimas do preconceito – e a perda de hegemonia da esquerda nas últimas eleições fizeram com que a direita saísse do armário. Como disse Mick, num espaço em que nunca houve um negro, “o racista nunca teve que se manifestar”. Ou seja, a direita estava “escondida”, envergonhada por ter entregado um país em condições horríveis após o período ditatorial. Mas o avanço social desses grupos fez com que o segregacionismo se evidenciasse numa sociedade que sempre foi conservadora.

No momento da visita de Bolsonaro a Florianópolis, a gravação-bomba de Joesley Batista no Palácio do Jaburu ocupava o centro do noticiário e colocou o governo em suspenso. Foi a deixa pra Bolsonaro largar mais uma de suas piadas-bordão: “se continuar desse jeito, vou acabar sendo presidente por W.O.. ”

Não era a primeira vez que ouvia aquilo – alguém de sua legião já havia dito antes. Também afirmou que queria um país em que vagabundo não se criasse, porque não se negocia com patrão e reivindica direitos com “porfavor” e “comlicença”. E que chefe nenhum abusaria de empregado se o cidadão tivesse direito a arma.

O que talvez não fosse útil, já que a arma do meu patrão com certeza estaria alguns calibres à frente da minha.

A arma, segundo o Mito – e Carlos “Mitinho” Bolsonaro apenas reforçou – era mais do que o direito da autodefesa. Era, acima de tudo, o direito da liberdade individual. E essas e tantas outras mudanças viriam pela frente, “era melhor Jair se acostumando.”

#5. Se os militares fechassem o Congresso, Bolsonaro ficaria dentro ou fora?

O momento político em que Florianópolis recebeu Bolsonaro não poderia ser mais instável para o Brasil. Na noite anterior, o jornal “O Globo” revelou que áudios gravados por Joesley Batista, dono da JBS, mostravam o Presidente da República, Michel Temer, dando aval para a compra de silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, preso desde outubro de 2016. Essa informação faz parte da delação do empresário – a mesma que revelou que o senador Aécio Neves havia pedido R$ 2 milhões para pagar a sua defesa na Lava-Jato. A entrega desse dinheiro ao agora ex-presidente do PSDB foi filmada pela Polícia Federal.

Isso, pode-se dizer, nada tem a ver com o político superstar, porém, a semana também não estava sendo fácil para ele. Na segunda-feira, dia 15 de maio, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem mostrando que o deputado admitiu, em 1987, ter cometido atos de indisciplina e deslealdade no Exército. Foi considerado culpado por um conselho de justificação composto por três coronéis, mas absolvido em seguida pelo Superior Tribunal Militar. Quando procurado pelo jornal, na sexta-feira anterior à publicação, a assessoria do deputado disse que “a pauta é uma merda” e questionou “quem estava pagando”.

Em 16 de maio, foi publicado que superiores de Bolsonaro no Exército o julgavam possuidor de uma “excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente.” O político respondeu por telefone: “Publica essa porra de novo sem falar comigo. Eu só falo com vocês gravando”.

“Tudo fake news”

A Folha aceitou o convite – ou ameaça – e enviou dois repórteres para uma entrevista, que durou aproximadamente uma hora. No vídeo, vê-se o deputado contra a parede,  agressivo na postura, defensivo nas respostas. Não poupou nem os leitores: referiu-se ao público do jornal como “tudo fake news”. Ao final da entrevista, fez uma live no Facebook acompanhado de seu filho, Eduardo Bolsonaro – que contribuiu traduzindo “independência ou morte” para o inglês –, e ainda chamou o Jornal do Brasil de “jornaleco que fechou.” A transmissão teve 4 milhões e 200 mil curtidas.

Os atos de indisciplina aos quais o jornal se referiu envolvem um artigo em que escreveu para a revista Veja, chamado “O salário está baixo”, e a sua liderança num protesto contra o valor do soldo dos militares. Na época, Bolsonaro era capitão no 8º Grupo de Artilharia de Campanha e estava no Exército havia 12 anos, quando entrou na Academia Militar das Agulhas Negras.

O feito ajudou-o a se tornar conhecido e a ser eleito, em 1988, como vereador no Rio e, dois anos depois, deputado federal pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Desde então, Bolsonaro passou por mais seis partidos e foi reeleito também mais seis vezes para o cargo, sempre vagando entre o baixo clero e breves relances de ascensão midiática baseados, invariavelmente, em declarações ultrajantes a ouvidos progressistas (embora, por muito tempo, tenha integrado os quadros do Partido Progressista…).

“matou foi pouco”

Se hoje seus clamores pela volta da Ditadura ou os elogios a Brilhante Ustra são o que, de certa forma, o impulsionam rumo à corrida presidencial, nos anos 1990 isso quase colocou em risco a sua carreira política. Em 1993, posicionou-se, na Câmara dos Deputados, a favor da Ditadura, crente que a irresponsável democracia não seria capaz de resolver problemas sérios da nação. O fechamento do Congresso acabaria com a corrupção e com a inflação. “Democracia de verdade é comida na mesa, a capacidade de planejar sua vida, a capacidade de caminhar na rua sem ser assaltado”, disse o deputado para o The New York Times à época.

Impressionado, o então presidente da Câmara, Inocêncio de Oliveira, até tentou cassar o mandato de Bolsonaro. Porém, os Bolsosmurfs enviaram cartas a vários jornais posicionando-se a favor do que o deputado havia dito, fazendo com que Inocêncio mudasse de ideia. Quem explica é Shawn C. Smallman. Como conta no livro “Fear & Memory in the Brazilian Army and Society, 1889-1954” (Medo e Memória no Exército e Sociedade Brasileiros, em tradução livre): “Os brasileiros de classe média escreveram cartas aos jornais brasileiros, enquanto os moradores de favelas publicaram banners dizendo ‘Forças Armadas, assumam’. O discurso de Bolsonaro certamente não representava os pontos de vista da maioria das autoridades brasileiras. Mas a resposta civil a seu discurso mostrou que o Exército ainda tinha alguma legitimidade.”

Bolsonaro ainda cometeria o mesmo “erro” em 1999. Em entrevista a um  programa da Band, disse que a ditadura militar “matou foi pouco” e que deveria ter fuzilado 30 mil corruptos, ‘‘a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso’’. O então Presidente do Congresso, o nada-famoso Antônio Carlos Magalhães, chegou a dizer: “Se ele prega isso [fechamento do Congresso], deveriam cassar o mandato dele. Não vi a entrevista e não tenho que tomar conhecimento das loucuras de alguém que, evidentemente, está perdendo o senso e o juízo”.

“Se eu não peço o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, ele [Jô] jamais estaria me entrevistando agora”.

Bolsonaro não estava, porém, perdendo a popularidade. Vários jornais receberam cartas de apoio ao que disse. E apesar do próprio FHC pedir que o deputado fosse punido, escapar foi fácil. O político superstar só teve de mandar uma carta de desculpas para o então presidente da Câmara à época, um político chamado Michel Temer.

Os anos 2000 não foram tão turbulentos para a estabilidade de Bolsonaro em seu cargo, mas, em entrevista ao Programa do Jô, resumiria a sua forma de propaganda: “Se eu não peço o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, ele [Jô] jamais estaria me entrevistando agora”.

De polêmica em polêmica, o político enchia a própria bola. Cada vez mais visível, seus gritos militares e intolerantes começaram a ganhar eco nos anônimos silenciosos em tempos de internet – que encontraram nele um herói para chamar de seu – e reverberar virtualmente. Seja dizendo que: se pegasse filho fumando maconha, o torturariaparlamentar não deve andar de ônibusmulher deve ganhar salário menor porque engravida ou que nenhum pai tem orgulho de ter um filho gay. Assim, o político superstar começa a ver sinais de um público a atender. E que podia ouvir os gritos em Florianópolis.

Também virou celebridade. Deu entrevista à Playboy, apareceu na televisão e participou de game-show. Em 2014, foi o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro, com 464 mil votos.

Essa popularidade e os quase 30 anos na política, no entanto, não garantem a ele relevância nos esquemas de poder em Brasília. Pouco consultado pelos colegas parlamentares, teve apenas quatro votos quando se candidatou a presidente da Câmara e não conquistou liderança pelos partidos em que passou. Logo, deve deixar o PSC, e entre os possíveis novos partidos já foram apontados o PR, PRB, DEM e PHS.

Para seu eleitorado, claro, isso não importa. Num esforço de revisionismo e boa vontade, serve até como prova mais de que não é “farinha do mesmo saco”.

#6. Não era herói (mas era tipo isso)

“Bolsonaro”, interrompeu o garoto, invisível na multidão, “sem viadagem cara, mas tu é muito mais bonito pessoalmente, puta que pariu.”

O nome do garoto era William, tinha dezoito anos, era aluno de terceirão do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Foi recebido como herói entre os amigos pelo seu gesto.

Todos riram. O deputado protestou, jocoso, preferindo que fosse uma mulher, “mas eu não tenho problema nenhum com o que cada um faz da sua vida.” Depois mandou o garoto subir com ele. Hastearam juntos uma bandeira do Brasil.

Naquele momento, William era o único que havia se destacado da multidão, trocado palavras, abraços e sido alvo da atenção especial do político superstar. Seus amigos estavam admirados. Para um jovem que é o único de sua turma que contesta o “discurso homogêneo de esquerda” difundido numa organização pública – e se sente oprimido com as tréplicas –, é capaz de estar sonhando com esse dia até hoje.

Quando perguntei a ele se considerava Bolsonaro um herói, respondeu que “não exatamente, mas era tipo isso.”

Pensei nisso por um bom tempo durante o trajeto até o centro. Procurei por um restaurante em que pudesse assistir aos cinco minutos de entrevista do presidenciável no jornal local do meio-dia, no qual o comentarista da afiliada da Globo o atacaria violentamente com perguntas não tão agressivas assim.

Quatro mesas adiante, um casal de meninas almoçava junto. Trocavam palavras e beijos antes da refeição.

As respostas de Bolsonaro iam equilibradas até o momento em que o entrevistador perguntou sobre “o que não era tolerável, na opinião do deputado, em relação às questões LGBT.”

“Olha, que façam o movimento que bem entenderem. O que eu não tolero, não posso admitir, é que esse tipo de informação chegue pra criancinhas a partir de seis anos de idade na escola. Não podemos admitir esses ativismos [sic] gay a partir dessa… tão pequena idade em sala de aula.”

O casal à minha frente não deu a mínima para ele.

#7. A sarrada voadora que erradica o Mal

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Manifestantes de esquerda à entrada do hotel em que aconteceria a palestra de Bolsonaro.

Gabriel D. Lourenço

Antes da palestra, um velhinho tentava, timidamente e por conta própria, arrecadar assinaturas para a fundação de um Partido Militar. Vendia seu peixe dizendo que, com essa fundação, Jair Bolsonaro seria o ícone e o candidato à presidência do novo partido.

Enquanto esperava lá fora, um sujeito trintão, de terno, gravata e credencial de imprensa veio falar comigo no saguão do hotel cinco estrelas onde Bolsonaro palestraria. Contou-me que tinha um sitezinho para cobrir festas e descolara aquelas credenciais só pra estar mais perto do político na coletiva de imprensa.

“Eu me identifico muito com ele, sabe?”

“Eu me identifico muito com ele, sabe? Em ideias, jeito, personalidade, pensamento… Mas eu não entendo essa da esquerda, de querer fazer baderna, fazer protesto. Por que tem que fazer bagunça?”

Ia dizer que não sabia, mas olhei para o lado e entendi as razões do assunto. Alguns sujeitos, uns trinta, no máximo, todos vestidos de preto, organizavam-se na rua. Um ato contra o deputado havia sido marcado para o momento de sua entrada no hotel. Quando cheguei, não havia ninguém.

Corri até a rua. A fila para os que queriam entrar para a palestra chegava a dobrar no quarteirão. A Polícia Militar logo formou um cordão de nove policiais equipados com cassetetes. Diantes deles, cartazes, músicas de protestos e gritos no megafone. Contrários a elas, uma massa de jovens de uniformes de escolas particulares, furiosos senhores nostálgicos e casais white-trash com a camiseta de seu político favorito.

Os manifestantes gritavam os discursos problemáticos do Bolsonaro que incitavam a violência. Os seguidores do político replicavam com os mesmos cantos do momento do aeroporto, num adicional de “vai comprar gilete”. Um adolescente negro batia no peito e no braço, agressivamente, bradando um eu sou Bolsonaro, eu sou brasileiro! Alguns musculosos, com penteados tão trabalhados quanto o corpo, faziam contagem regressiva para darem sarradasno ar e, depois, cumprimentos.

A chuva caía e obrigava os manifestantes a chegarem perto. A tensão era a mesma de um punhado de piranhas num balde d’água.

Durante a palestra, a dispersão dos manifestantes veio num estrondo só, numa bomba de efeito moral. Bolsonaro e os demais acharam graça.

#8. O que o deputado tinha a dizer

Eu já tinha visto aquela cena antes, algumas horas atrás. Com a diferença do número de pessoas (umas 600 lotando o pequeno auditório), todo o mais era igual. Foi recebido com a cantilena aplausos, uivos e gritos de mito. As considerações do seu filho, as piadas com Linston, o hino cantado até a primeira metade – se esticássemos a mão, ainda daria pra sentir o calor da receita pronta, aquecida quatro horas atrás.

A diferença dessa vez foi quem quebrou o silêncio antes do discurso. Tayoana Schuller, diante do político superstar, gritava freneticamente.

“Dá que eu te dou outra! Dá que eu te dou outra!” – uma referência a um arroubo de coragem, e clássico instantâneo do Bolsonaro way of life, quando o deputado respondeu a uma ameaça de bofetada da colega Maria do Rosário (PT-RS), que, segundo antes, havia recebido a seguinte gentileza do mito: “Jamais ia estuprar você porque você não merece”.

Bolsonaro, em Floripa, foi comedido o suficiente para, até onde eu acompanhei, em nenhum momento repetir referências ao incidente com Maria do Rosário. Sua seguidora, não.

“Dá que eu te dou outra! Dá que eu te dou outra!”

Enfim, sobre o quê ele falou?

Pode ser resumido em um parágrafo. Que o Brasil deveria ganhar dinheiro com as próprias terras, igual aos índios dos Estados Unidos que têm seus próprios cassinos. Que era um absurdo um livro com um buraco no meio para que se enfiasse o dedo e demonstrasse, a uma criança, como ocorre a penetração – e como a máfia do MEC faria de tudo para aquilo passar. Que nunca cogitou lançar candidatura com Aécio. E como a “Folha”, a mídia e tudo mais eram demônios por distorcer o que ele disse. Por muitas vezes falou que, no seu governo, levaria o país pra frente.

Mas Jair Bolsonaro não é candidato a presidente. Se fosse, aquilo seria campanha. E, se fosse campanha, estaria fora de época. Se fora de época, seria passível de punição por descumprir o Artigo 36 da Lei n.º 9.504/97, revisto em 2015. Da Propaganda Eleitoral em Geral: “A propaganda eleitoral somente é permitida após o dia 15 de agosto do ano da eleição.”

Bolsonaro veio para dizer que não era candidato à presidência, mas também para dizer tudo o que faria se fosse.

#9. O destino do ídolo é o mesmo que o nosso

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Rogério Peninha, Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro cantam o hino no evento em Florinópolis.

Gabriel D. Lourenço

Em outras palavras, o antropólogo norte-americano Ernest Becker diz: o líder não é tão foda assim quanto parece. E isso precisa ser esclarecido.

Ele tem seu efeito na multidão, mas de maneira sugestiva. Não num sentido hipnótico, mas sim num condescendente. Diante de um coletivo, ele é a figura que estabelece até onde se pode ir, o que pode ser feito – e isso normalmente vai além do que os sujeitos se permitem.

As pessoas não atirariam tijolos em alguém só porque Bolsonaro mandou; mas se ele fosse o primeiro a jogar, seriam necessários vários dias para juntar o total dos cacos. As pessoas se utilizam da figura do líder para se dar a liberdade de agir. E o líder, sem a massa, não se sente seguro para quebrar seus limites pessoais.

Bolsonaro é muito limitado como político. Começa pelo fato de que ele representa apenas uma parte específica e conservadora da direita. Claro, ele cresce nas pesquisas, motivado pela crise política e pelo grande descontentamento do eleitorado com os candidatos tradicionais. Mas Jacques Mick não acredita que aguente o processo eleitoral.

Primeiro porque ele é tal qual Celso Russomano, que liderou as pesquisas para a prefeitura de São Paulo durante quase todo o períodos das eleições, mas perdeu no primeiro turno para João Dória. Segundo, porque o processo eleitoral é cruel e capaz de trucidar quem tem passado duvidoso, quem não consegue pagar a alta conta e não possui uma forte estrutura partidária (como é o caso do PSC de Bolsonaro).

“Num embate entre Bolsonaro, Lula e Dória, você tem dúvida de que o Bolsonaro vai ser destruído?”

A exceção talvez seja Fernando Collor, que conseguiu se eleger apesar de não ser muito influente ou estar em um grande partido (era membro do PRN). O seu trunfo, ao contrário de Bolsonaro, estava em ter o sistema ao seu lado e, em especial, pelo destaque dado pela Rede Globo, aponta Mick.

A sociedade se mobiliza para punir casos de racismo como nunca antes. Flagrar alguém na torcida chamando um jogador de “macaco”, algo que talvez ainda(!) seja apenas uma brincadeira para alguém, para a maior parte da sociedade, motivo de revolta nacional. Este é um período em que as novelas e outros programas abrem espaço para minorias e apresentam relacionamentos homoafetivos em suas tramas – propaganda gayzista, diriam alguns mais revoltosos contrários.

Se os grandes tubarões da mídia, de fato, decidirem escolher um candidato nas próximas eleições, quais as chances de ser um político superstar cuja fama é de cair matando contra o ativismo gay?

Como a política está cada vez mais surpreendente a cada dia que passa, descartar qualquer candidato é arriscado. Até porque a esquerda à esquerda de Lula, por exemplo, ainda não achou o seu principal candidato – e pode enfrentar a sua mais difícil eleição na história recente. Mick, no entanto, opina de forma clara: “Num embate entre Bolsonaro, Lula e Dória, você tem dúvida de que o Bolsonaro vai ser destruído?”

Mas a fragilidade do político – política também, mas sobretudo a humana – não é vista pela multidão. Conforme Becker: por debaixo da figura do líder, além do cumprimento de seu papel, ainda existe, em essência, um ser humano. Um ser que treme diante do peso do mundo, que busca proteção e maneiras fáceis de afirmar sua ilusão de poder numa realidade.

A única chance de perceber isso diante de Bolsonaro foi durante sua coletiva de imprensa. Em determinado momento, disse que não saía mais para jantar, para churrasco ou pizzaria com sua família porque tinha medo de que algo acontecesse.

O mesmo sujeito que tinha medo da violência era o cara que, na pergunta seguinte, dizia que questões dos direitos humanos eram meros gastos da máquina estatal.

Algo não fazia sentido.

Em “A Negação da Morte”,  Ernest Becker diz que o medo de morrer é a maior angústia na vida do ser humano. A consequência disso é a busca por negar essa consequência inevitável, negar que, no fundo, apesar de nosso maior entendimento, a vida humana é tão insignificante quanto a de qualquer outro animal. Para provar que temos significância no mundo, buscamos e esforçamo-nos pelo heroísmo.

Com isso em mente, no fim da coletiva, quando Jair Bolsonaro dirigiru-se ao elevador para ser recebido em sua palestra, corri para alcançá-lo. Tínhamos dois andares e uma única pergunta a ser respondida.

“Fala, cabeludo,” disse, suspirando. “Qual é a sua pergunta?”

“Eu vejo que você fala bastante contra essas questões dos direitos humanos. Minha pergunta é: por um acaso você tem medo da morte?”

Deu de ombros. Num riso sem graça, antes de sair pela porta que abria, em direção à palestra cujo discurso seria a repetição do mesmo dito de manhã, no aeroporto, respondeu:

“Não. A morte é a única certeza que eu tenho.”

Historiadora negra dá resposta brilhante ao ser questionada “se faz faxina”

Luana Tolentino

“Hoje uma senhora me parou na rua e perguntou se eu fazia faxina…”. Mestranda, historiadora e professora responde de maneira precisa questionamento oriundo do nosso racismo institucional enraizado

historiadora mestre negra faxina preconceito racismo luana tolentino
Luana Tolentino (reprodução)

Luana Tolentino, via Facebook

 

Hoje uma senhora me parou na rua e perguntou se eu fazia faxina.

Altiva e segura, respondi:
– Não. Faço mestrado. Sou professora.

Da boca dela não ouvi mais nenhuma palavra. Acho que a incredulidade e o constrangimento impediram que ela dissesse qualquer coisa.

Não me senti ofendida com a pergunta. Durante uma passagem da minha vida arrumei casas, lavei banheiros e limpei quintais. Foi com o dinheiro que recebia que por diversas vezes ajudei minha mãe a comprar comida e consegui pagar o primeiro período da faculdade.

O que me deixa indignada e entristecida é perceber o quanto as pessoas são entorpecidas pela ideologia racista. Sim. A senhora só perguntou se eu faço faxina porque carrego no corpo a pele escura.

No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel.

É esse olhar que fez com que o porteiro perguntasse no meu primeiro dia de trabalho se eu estava procurando vaga para serviços gerais. É essa mentalidade que levou um porteiro a perguntar se eu era a faxineira de uma amiga que fui visitar. É essa construção racista que induziu uma recepcionista da cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência, a maior honraria concedida pelo Governo do Estado de Minas Gerais, a questionar se fui convidada por alguém, quando na verdade, eu era uma das homenageadas.

Não importa os caminhos que a vida me leve, os espaços que eu transite, os títulos que eu venha a ter, os prêmios que eu receba. Perguntas como a feita pela senhora que nem sequer sei o nome em algum momento ecoarão nos meus ouvidos. É o que nos lembra o grande Mestre Milton Santos:

Quando se é negro, é evidente que não se pode ser outra coisa, só excepcionalmente não se será o pobre, (…) não será humilhado, porque a questão central é a humilhação cotidiana. Ninguém escapa, não importa que fique rico.”

É o que também afirma Ângela Davis. E ela vai além. Segundo a intelectual negra norte-americana, sempre haverá alguém para nos chamar de “macaca/o“. Desde a tenra idade os brancos sabem que nenhum outro xingamento fere de maneira tão profunda a nossa alma e a nossa dignidade.

racismo é uma chaga da humanidade. Dificilmente as manifestações racistas serão extirpadas por completo. Em função disso, Ângela Davis nos encoraja a concentrar todos os nossos esforços no combate ao racismo institucional.

É o racismo institucional que cria mecanismos para a construção de imagens que nos depreciam e inferiorizam.

É ele que empurra a população negra para a pobreza e para a miséria. No Brasil, “a pobreza tem cor. A pobreza é negra.”

É o racismo institucional que impede que os crimes de racismo sejam punidos.

É ele também que impõe à população negra os maiores índices de analfabetismo e evasão escolar.

É o racismo institucional que “autoriza” a polícia a executar jovens negros com tiros de fuzil na cabeça, na nuca e nas costas.

É o racismo institucional que faz com que as mulheres negras sejam as maiores vítimas da mortalidade materna.

É o racismo institucional que alija os negros dos espaços de poder.

O racismo institucional é o nosso maior inimigo. É contra ele que devemos lutar.

A recente aprovação da política de cotas na UNICAMP e na USP evidencia que estamos no caminho certo.

Pós-verdade e política

leia direto no site original: https://revistacult.uol.com.br/home/pos-verdade-e-politica/
Charles Feitosa
Pós-verdade e política

(Arte Revista CULT)

 

Onde não há fatos, nada é verdade  O que Trump tem a ver com Nietzsche, Foucault ou Derrida? A resposta para o título desse texto é simples e cristalina como água que jorra da fonte: nada, mas nada mesmo. Mesmo assim ocorre no noticiário político e na internet volta e meia a associação, completamente indevida por sinal, entre as estratégias midiáticas de desinformação de Trump e os esforços de desconstrução das grandes narrativas da verdade pelos filósofos ditos “pós-modernos”.

Por exemplo, a famosa afirmação de Nietzsche, em um fragmento de 1887, de que “não existem fatos, apenas interpretações”, costuma ser escutada na filosofia como um alerta crítico de que a verdade não é única, nem definitiva, nem imutável, mas precisa ser continuamente discutida e tematizada. No contexto político atual a frase está sendo relida, ao contrário, como se fosse a legitimação para os estados de “tanto faz” ou de “liberou geral” reinantes, pois onde não há fatos, nada é verdade.

Um sinal sutil dessa tendência é o uso da palavra “pós-verdade” como se fosse o ponto de interseção entre política e filosofia na contemporaneidade. O termo “pós-verdade” é conhecido pelo menos desde os anos 90, mas se tornou especialmente popular em 2016, tendo sido escolhida a palavra do ano pela equipe do Oxford Dictionaries.

A pós-verdade costuma ser definida brevemente como uma estratégia de desvalorização dos fatos em prol de interesses pessoais. Também chamada de fake news (notícias falsas), várias amostras da pós-verdade na política costumam ser citadas, tais como as estatísticas fictícias divulgadas na campanha do Brexit em 2016 sobre os altíssimos custos para permanecer na comunidade europeia ou os rumores conspiratórios sobre a origem muçulmana extremista do ex-presidente dos EUA, Barack Obama.

No Brasil, são também inúmeros e infindáveis os exemplos: os boatos em torno de uma suposta encenação da morte de Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula ou mais recentemente, a afirmação do atual prefeito de São Paulo de que os manifestantes da greve geral de 28.04.17 estariam recebendo dinheiro para irem às ruas.

Mas o grande garoto-propaganda da pós-verdade continua sendo Donald Trump. Em episódio emblemático, seus assessores, ao serem questionados sobre o número exato de pessoas que assistiram a posse presidencial em janeiro de 2017, alegaram que não estavam mentindo quando insistiam, a despeito de indícios contrários, que tinha mais gente na posse de Trump do que na de Obama em 2009, mas sim apenas apresentando “fatos alternativos”.

Onde não há fatos, não existe verdade única – Por que chamar essas formas midiáticas de manipulação de textos ou imagens como pós-verdade? A escolha do termo não é neutra, trata-se de uma interpretação que é ao mesmo tempo uma acusação. Tudo se passa como se a “pós-verdade” fosse a verdade típica dos tempos “pós-modernos”.

A própria expressão “pós-moderno” tornou-se muito frequente nos últimos trinta anos, tanto na imprensa, como na vida cotidiana. Falou-se muito e indistintamente de sociedade pós-moderna, de amor pós-moderno ou ainda de doenças pós-modernas. Trata-se de um conceito guarda-chuva, cujo uso inflacionário oculta a falta de clareza acerca de seu significado.

Etimologicamente o prefixo “pós” indica uma determinada fase histórica: não vivemos mais na modernidade, mas sim “depois”. Entretanto, o significado desse “depois” ainda é estritamente ambíguo e polêmico, podendo indicar tanto um “extra-“, um “anti-”, ou ainda como um “ultra-moderno”.  É preciso, antes de tudo, ter o cuidado de distinguir uma condição “pós-moderna” de um pensamento pós-moderno. Por condição pós-moderna entende-se, quer a celebremos ou a lamentemos, nossa situação histórica de viver e morrer na virada do século 20 ao 21.

Por pensamento pós-moderno, entretanto, entenda-se estritamente uma estratégia específica de lidar com essa condição, consolidada com a publicação em 1979 do livro La condition postmoderne de autoria do filósofo francês Jean-François Lyotard (1924-1998). Para Lyotard, o projeto dos modernos de liberar a humanidade da ignorância e da miséria produziu, ao contrário, sociedades que permitem o imperialismo, a guerra, o desemprego, a tirania da mídia e o desrespeito à vida humana em geral.

Contra a lógica da razão e do mercado seria preciso inventar outras lógicas, norteadas pelo reconhecimento do dissenso (a irredutível diversidade dos jogos de linguagem nas culturas) e por uma revalorização da dimensão estética. Em um tempo em que não é possível mais um discurso único e definitivo sobre o que é bom, justo ou verdadeiro, Lyotard propõe a emergência do pensamento pós-moderno, cuja característica fundamental é a afirmação das diferenças e do pluralismo.

Dentro desse contexto seria muito mais pertinente reconquistar o sentido mais original e positivo do termo “pós-verdade”, enquanto um esforço anti-dogmático de promover a pluralização e diversificação dos saberes. Então aqui cabem as seguintes perguntas: Isso a que se hoje se nomeia “pós-verdade”, não seria apenas uma nova fachada para um fenômeno bem antigo, a saber, a mentira na política? Não foi sempre assim, na história dos gestores políticos, manipular informações para se manter no poder? Ou será que há alguma diferença fundamental entre as mentiras tradicionais dos homens de estado e a onda contemporânea de desvalorização da verdade?

De fato, já desde Platão sabemos que a mentira não é apenas um incidente ocasional na vida política, mas é ela mesma um dos recursos disponíveis aos governantes na difícil e inglória tarefa da administração das cidades. Na descrição da sua utopia, a despeito do compromisso de cada cidadão de sempre buscar e defender a verdade, Platão argumentava que seus dirigentes, somente eles, teriam a permissão de mentir, pois a mentira, se usada adequadamente, pode contribuir para a realização do bem-estar comum.

Onde não há fatos, tudo é verdade – Desde então a ideia da mentira na política como um remédio amargo, mas necessário, se consolidou no nosso imaginário. Há exatamente 50 anos atrás, em 25 de fevereiro de 1967 na The New Yorker, a genial filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt publicou um texto paradigmático sobre o tema, intitulado Verdade e Política (em relação ao qual o título do meu presente texto faz referência e reverência).

Arendt começa chamando de “lugar comum” a crença na incompatibilidade insuperável entre verdade e política, mas ao mesmo tempo ela extrai desse lugar comum uma pergunta incômoda,  que nos obriga a pensar: Será da própria essência da verdade ser impotente e da própria essência do poder enganar? A resposta de Arendt é complexa, pois se de um lado ela defende uma certa potência inerente à verdade de incomodar e questionar as tiranias, por outro lado ela também admite um certo uso tirânico das verdades absolutas, pois geralmente é em nome delas que se instalam discursos e práticas totalitárias.

Mas o mais importante é que Arendt defende que a natureza da verdade é essencialmente política, ou seja, “é sempre relativa a várias pessoas: ela diz respeito a acontecimentos e circunstâncias nos quais muitos estiveram implicados; é estabelecida por testemunhas e repousa em testemunhos; existe apenas na medida em que se fala dela, mesmo que se passe em privado”. Se a verdade é essencialmente política ela pode ser ameaçada pelas mentiras estratégicas dos poderosos e precisa continuamente ser defendida e conquistada com o máximo de questionamentos e debates públicos.

O que mais me interessa no texto de Arendt é sua tese de que, mesmo reconhecendo uma tensão estrutural entre verdade e política, existe uma mudança no modo clássico e contemporâneo do uso da mentira na disputa pelo poder.  A mentira clássica era dirigida estrategicamente para este ou aquele grupo de inimigos e por isso poderia ser facilmente detectada pelos historiadores como uma espécie de buraco ou de falha na rede dos acontecimentos.

O problema é que segundo Arendt a contemporaneidade é marcada por uma forma de “mentira organizada”, uma aliança entre os meios de comunicação e os regimes totalitários, onde toda a matriz da realidade pode ser falsificada através das estratégias midiáticas de manipulação em massa. O resultado não é mais apenas a substituição da verdade pela mentira, mas a paulatina destruição na crença em qualquer sentido que nos oriente pelo mundo. Em outras palavras, a mentira organizada contemporânea conduz a um cinismo niilista, uma recusa em acreditar na verdade de qualquer coisa. A descrença é a desistência da tarefa de fazer qualquer avaliação. Algo parecido acontece quando, no Brasil de hoje, se diz que todos os políticos são corruptos, como se não houvessem aí distinções mais finas ainda a serem feitas.

Onde não há fatos, há verdades em demasia – Talvez não possamos mais chamar de mentira essa versão sistêmica e explícita, onde todos estão sendo enganados ao mesmo tempo. Mas ao meu ver, “pós-verdade” também não é o nome mais adequado. Talvez o mais correto seria falar de hiper ou ultra-verdade, pois vivemos em uma época em que todos se sentem no direito de dizer qualquer coisa, seja nos discursos políticos ou nas redes sociais, embasados em dados fictícios ou não, mas garantidos pela crença tácita de que “tudo vale” e pela recepção acrítica da maioria dos tele-expectadores e internautas.

Quando há verdades em demasia o perigo não é mais apenas, como diz Arendt, a descrença generalizada na realidade, mas a sua contrapartida, a revalorização reativa, nostálgica e muitas vezes enceguecida dos fatos, como se eles existissem em algum lugar objetiva e efetivamente e pudessem funcionar como uma pedra de toque nas nossas falas.

Um sintoma dessa súbita revalorização dos fatos em si é a prática cada vez mais difundida de facts checking dos discursos políticos na internet. Embora seja muito saudável desvelar as falsas estatísticas citadas pelo MBL ou por Trump, é sempre bom lembrar aquela frase do Nietzsche citada do início desse texto, para não cair na armadilha inversa de achar que alguém tem o poder definitivo e inquestionável de dizer o que são os fatos.

Existem divergências de interpretações até mesmo entre os diferentes fact-checkers. Não podemos nunca deixar de nos perguntar criticamente quem são e como o fazem, estes que assumiram para si a tarefa de controlar a veracidade dos discursos dos outros. Avaliar continuamente não só os discursos, mas também os avaliadores e os próprios instrumentos de avaliação, é a tarefa política constante daqueles que ainda tem respeito pela liberdade e pelo pensamento. Isso inclui também o exercício da autoavaliação, pois a pós-verdade, entendida aqui não como a “não-verdade”, mas como a “verdade pluralizada e sob constante tematização”, exige sempre e de cada vez mais e melhores interpretações. Em suma, abaixo Trump e viva Nietzsche!

Charles Feitosa é Doutor em Filosofia pela Universidade de Freiburg i.B./Alemanha; professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da UNIRIOChles Feitosa é Doutor em Filosofiala Universidade de Freiburg i.B./Alemanha; professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da UNIRIO

Com a Rota da Seda, a China entra no vácuo aberto por Trump

leia direto no site original:  https://www.cartacapital.com.br/revista/959/com-a-rota-da-seda-a-china-entra-no-vacuo-aberto-por-trump
 
Pequim conecta 66 países em três continentes com o canteiro de obras global. O Brasil de Temer despreza os investimentos
DPA/FotoArena
Putin China

Na reunião de cúpula em Pequim, Xi Jinping, o anfitrião, Vladimir Putin, presidente de vários países e um funcionário brasileiro do 3º escalão

O Deutsche Bank, maior banco da Alemanha, anunciou em maio sua participação, com 3 bilhões de dólares, no financiamento do projeto chinês das novas Rotas da Seda, de conexão com países da Ásia, África e Europa por ferrovias e estradas, ao Norte, e por mar, ao Sul.

A decisão, que deverá ser acompanhada de iniciativas semelhantes de várias instituições financeiras, é uma resposta positiva ao chamamento do presidente Xi Jinping de unir aquele que é considerado o maior programa de infraestrutura do mundo ao plano europeu de investimento, conhecido como Plano Juncker. Além de vias de transporte, serão construídos portos, aeroportos, barragens, dutos de petróleo e gás, obras para geração e distribuição de eletricidade e telecomunicações, sistemas de água e esgoto e habitações.

A união dos projetos chinês e europeu de investimentos significa a ocupação de parte do espaço deixado com o abandono, pelos Estados Unidos, por iniciativa de Donald Trump, dos tratados Transatlântico e Transpacífico, propostos pelo ex-presidente Barack Obama para barrar a influência econômica do país oriental no mundo.

A decisão do Deutsche Bank foi anunciada duas semanas depois da realização do Belt and Road Forum, em Pequim, sobre as Rotas da Seda, convocado por Xi Jinping e prestigiado por 29 chefes de Estado, inclusive o presidente Vladimir Putin, da Rússia. A América Latina foi representada por dois presidentes, Mauricio Macri, da Argentina, e Michelle Bachelet, do Chile. O Brasil enviou só seu secretário da Presidência da República.

O pouco caso brasileiro para com o projeto chinês, considerado a maior oportunidade de investimentos e negócios internacionais das últimas décadas e de grande significado político e diplomático, ocorre no quarto ano de economia doméstica estagnada, sem que o governo consiga colocar em pé nem mesmo seu acanhado programa de infraestrutura.

Lançada em 2013, a iniciativa adota o mesmo nome da estrada construída entre 206 a.C. e 220 d.C., durante a dinastia Han, e tem potencial para ser a maior plataforma mundial de colaboração regional, segundo Kevin Sneader, presidente da consultoria McKinsey na Ásia. Abrange 66 países, com 65% da população do planeta, cerca de um terço do PIB e um quarto de todo o transporte de mercadorias e serviços.

Só no ano passado, os projetos e negócios realizados geraram 494 bilhões de dólares, contabiliza a consultoria PwC. Números preliminares da McKinsey indicam que os novos empreendimentos anunciados em 2016 somaram 400 bilhões de dólares, valor 2,1% acima do previsto, mas eles podem superar em mais de 10% as projeções, prevê a consultoria.

de Investimento em Infraestrutura, criado pela China, é um dos financiadores das obras (Foto: Li Xin/Xinhua via Zuma/FotoArena)

A PwC estima que a China gastou o equivalente a 3 trilhões de dólares em infraestrutura no ano passado, valor 10% acima de 2015 e 40% superior à média dos últimos cinco anos. Os investimentos fazem parte da estratégia definida por Pequim para enfrentar tanto as dificuldades econômicas internas quanto a Grande Recessão mundial e tem força suficiente para conduzir a uma nova etapa da globalização, avaliam vários economistas.Marcos Antonio Macedo Cintra, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Eduardo Costa Pinto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explicam a estratégia no artigo “China em Transformação: Transição e Estratégias de Desenvolvimento”. Apesar da desaceleração, dizem, a economia chinesa permanece uma das mais dinâmicas do mundo e continua a criar entre 12 milhões e 13 milhões de postos de trabalho urbanos ao ano.

Com o aumento da taxa de investimento, de 40% do PIB para 47%, entretanto, o crescimento ficou desequilibrado, pois gera capacidade ociosa em inúmeros setores produtivos e passa a depender da construção de obras gigantescas, da expansão do mercado imobiliário, do endividamento das províncias e dos governos locais, bem como da elevada alavancagem de alguns segmentos dos setores bancário e não bancário.

Busca-se, assim, um novo regime de crescimento sustentável, ancorado em um dinamismo menos intensivo em capital e em energia, e ainda um novo contrato social (um Estado de Bem-Estar Social com características chinesas) para a redução das desigualdades sociais e regionais e a implementação de maior cobertura no sistema de saúde pública e de previdência, sublinham os economistas.

A provisão de bens públicos universais, o desenvolvimento de uma urbanização e uma industrialização com menor impacto sobre o meio ambiente, a ampliação da renda e do consumo da população são os pilares do planejamento estratégico que visa reformar o regime de crescimento nos próximos anos.

“Esse caminho de desenvolvimento, ainda em construção, pressupõe um processo de aprendizado contínuo com avanços e recuos. Articula uma estratégia nacional, inserida regional e globalmente, que visa tornar a China um país moderno, rico e poderoso. As políticas macroeconômica, industrial, de ciência e tecnologia, externa e de segurança são direcionadas pelo Estado para a construção de uma estabilidade política, a melhora das condições de vida do povo chinês e a reconquista de uma posição internacional autônoma.”

Os megaprojetos internacionais de infraestrutura são, conforme destacado acima, um dos eixos da transição interna e, ao mesmo tempo, da redefinição das relações com o restante do mundo, por desencadearem um processo de reconfiguração da ordem global. Não se trata, entretanto, de uma opção tirada da cartola, como provavelmente imaginam aqueles analistas incansáveis na elaboração reiterada de previsões furadas de derrocada do país asiático por insubmissão ao livre-mercado.

“A construção de infraestrutura para fomentar o comércio e a estabilidade social foi uma pedra fundamental da própria prosperidade de longo prazo da China durante mais de 2 mil anos. A política recentemente enunciada baseia-se na história de antigas redes de comércio e transmissão de cultura entre esse país, a Ásia Central e o Sudeste Asiático. A Europa está no longínquo terminal Oeste dessas redes”, explica o economista Peter Nolan, professor da Universidade de Cambrige e consultor do governo chinês, no livro Understanding China: The Silk Road and the Communist Manifesto.

O trem Golden Eagle percorre trecho recém-construído da nova Estrada da Seda, entre a Ásia e a Europa

O governo não abre mão da estratégia político-econômica nem da sua permanente revisão e reformulação, em sintonia com a dinâmica da realidade. A planificação estratégica visa à harmonia, ou seja, o equilíbrio de forças, destacam Cintra e Pinto. Nesse sentido, os interesses privados ou capitalistas não devem ser poderosos o suficiente para ameaçar a supremacia incontestável do Estado, que mantém amplo conjunto de empresas e bancos públicos e regula rigorosamente diversas esferas econômicas e as relações com o exterior.“Os mecanismos de mercado – a taxa de juros, a taxa de câmbio, a tributação, os preços – são considerados um instrumento e não um fim em si mesmos e a abertura assume a condição de eficácia que conduz a uma diretriz operacional, qual seja, alcançar e ultrapassar os concorrentes estrangeiros”, esclarecem os autores do artigo.

As adequações da estratégia ocorrem por meio de reformas, que consistem em mudanças feitas de modo integrado, como detalham os economistas Michel Aglietta e Guo Bai, no livro China’s Development: Capitalism and Empire: “A reforma é a transformação conjunta de estruturas e instituições econômicas. É pluralista e alimenta-se das contradições que gera, em um processo interminável. Não tem qualquer referência em relação a qualquer modelo ideal.

O seu significado não é teleológico; é imanente à prática histórica. Graças à continuidade da liderança política, a reforma pode ser gradual, informada por uma visão de longo prazo e testada no experimento pragmático. O planejamento estratégico visa à harmonia, que é o equilíbrio de forças que contribui para reforçar a soberania do Estado. Consequentemente, interesses capitalistas nunca serão tão poderosos a ponto de ameaçar a supremacia primordial do Estado. É por isso que o Estado mantém um grande domínio de propriedade soberana e regula firmemente as finanças”.

O avanço chinês foi muito além das elucubrações ocidentais. Transcorrido um quarto de século desde as reformas iniciadas entre 1989 e 1990, chama atenção Nolan, o cenário parece muito diferente daquele amplamente previsto e desejado no Ocidente. “O colapso do ‘Império do Mal’ na União Soviética não foi seguido pelo colapso do regime do Partido Comunista na China.

A ‘mudança de regime’, que muitas pessoas ainda esperam e trabalham para acontecer, não ocorreu. O PCC tem 87 milhões de integrantes e em 2021 celebrará o centenário da sua fundação. Sob seu comando o país experimenta a era mais notável de crescimento e desenvolvimento da história moderna. Sob o guarda-chuva protetor da estabilidade política e social, conquistou três décadas de crescimento em alta velocidade.”

Com o controle absoluto sobre o sistema político, o Partido Comunista Chinês restaurou a legitimidade anteriormente personificada no imperador, acrescentam Cintra e Pinto. Ele prolongou e radicalizou uma tradição milenar ao criar uma espécie de “dinastia mandarim”, que segue governando a China segundo os mesmos preceitos morais confucianos do período imperial.

Fazer sumir: políticas de combate à Cracolândia

leia direto no site original:  http://diplomatique.org.br/fazer-sumir-politicas-de-combate-a-cracolandia/

SERES HUMANOS VARRIDOS EM SÃO PAULO

É política concreta de “arrasa quarteirão”, que, com rapidez, eficácia, legalidade duvidosa e estratégia militarizada, visa erradicar essa famigerada territorialidade, abrindo espaço para acionar práticas de fazer sumir os que conflitam com o projeto de cidade limpa, moderna e parceira da iniciativa privada

Por: Fábio Mallart, Marina Mattar, Taniele Rui e Vera Telles

 

Em São Paulo, o dia 21 de maio despertou ao som dos aparatos de combate. Atiradores de elite da Polícia Civil, observados do alto por um helicóptero da Polícia Militar, posicionaram-se. Ao chão, mais especificamente no cruzamento entre as ruas Dino Bueno e Helvétia, balas de borracha e bombas se anteciparam à chegada das tropas, formadas por centenas de policiais, que se deslocaram em direção ao fluxo, onde se aglomeravam pessoas em situação de rua, consumidores de crack, sujeitos sem condições de habitar outros cantos da cidade, prostitutas, egressos do sistema penitenciário e da Fundação Casa, entre outros marginalizados urbanos. Cavalos e cães também compuseram a cena, cujo traço distintivo foi a completa desproporção das forças. De um lado, armaduras, fuzis, metralhadoras, capacetes, coturnos, escudos, corpos fortes; de outro, cobertores esfarrapados, chinelos, corpos sujos e emagrecidos, cachimbos e pedras – nas mãos e na mente. Em poucos instantes, policiais civis – em suas versões militarizadas (Garra, GOE) – desmontaram barracas, invadiram hotéis, apreenderam drogas e importunaram pessoas. Sob as justificativas de conter a presença do chamado “crime organizado” e destruir a “feira livre de drogas”, donos de pensões, pequenos comerciantes e toda uma miríade de grupos sociais marginalizados, que vivem e sobrevivem dos recursos, afetos e solidariedades que circulam por esse pequeno recorte do urbano, foram escorraçados do coração da cidade.

Por volta das 17h, quase dez horas após o início da operação, a Rua Dino Bueno, antes ocupada por dezenas de pessoas, encontrava-se totalmente vazia, sem sequer um papel de bala. Apenas os jatos de água lançados pelos caminhões-pipa tocavam o chão, como se estivessem à procura de um palito, um plástico, um fósforo, um único copo, para erradicá-los do tecido urbano. Já na Rua Helvétia, logo à frente da tenda do agora extinto programa De Braços Abertos, as viaturas da Inspetoria de Operações Policiais (Iope), da Guarda Civil Metropolitana – mais uma tropa de combate –, dividiam espaço com as “viaturas” da assistência social. Fardas azuis, jalecos brancos, verdes e azuis, e alguns poucos usuários, sem destino, transitavam pela região. Longe de ser ineficiente, o objetivo da operação foi alcançado em seu propósito: desgarrar pessoas daquele espaço, fazer sumir corpos, barracas, restos, cheiros, cores. O projeto das autoridades públicas se concretizou: a área ficou limpa.

***

Alvo novamente de uma megaoperação espetacularizada, a região estigmatizada como Cracolândia está, ano após ano, no centro das disputas políticas em São Paulo.1 Repondo táticas de operações anteriores (2005, 2007 e 2012), a recente incursão militarizada também esteve imbricada, por um lado, com a intervenção urbana, alicerçada sob a lógica da limpeza do espaço, da demolição de imóveis e da reconfiguração dos grupos sociais que frequentam o território, sempre acompanhadas da tentacular especulação imobiliária; e, por outro, com o confinamento em instituições de controle, sejam elas punitivas, como as prisões, para os tachados como “traficantes”, ou vinculadas a certa perspectiva de saúde e assistência, como as comunidades terapêuticas e clínicas de reabilitação psiquiátrica para os apressadamente diagnosticados como “dependentes químicos”.

Os efeitos espaciais de tais ações, apesar de conhecidos, aperfeiçoam-se: à dispersão de dezenas de pessoas pelas vias centrais da cidade, conformando pequenos agrupamentos que se fixam em territórios adjacentes ou seguem circulando, em geral direcionados pela atuação das forças policiais militarizadas (estatais ou municipais),2 articulam-se a concentração e o cerceamento destes em espaços circunscritos, fazendo o fluxo orbitar em torno de si mesmo, como é o caso recente da Praça Princesa Isabel. Longe de serem incompatíveis, trata-se de estratégias, a um só tempo, de controlar e circunscrever os fluxos de tais sujeitos pela cidade.

O que está em questão em operações com tais contornos, acentuadas e atualizadas ano após ano, é mais do que o sempre criticado higienismo. É política concreta de “arrasa quarteirão”, que, com rapidez, eficácia, legalidade duvidosa e estratégia militarizada, visa erradicar essa famigerada territorialidade, abrindo espaço para acionar práticas de fazer sumir os que conflitam com o projeto de cidade limpa, moderna e parceira da iniciativa privada, tal como proposto pelo prefeito João Doria desde o início de seu mandato.

Muito tem sido escrito e narrado sobre essa operação e seus efeitos. Para esse conjunto de narrativas – que, em geral, oscilam entre a defesa de mais punição para “traficantes”, mais tratamento e atenção para “dependentes químicos”, e a observação dos interesses mercantis no espaço –, interessa-nos contribuir com a sistematização das múltiplas tecnologias de poder e controle conectadas a esse tipo de ação, que, ao botar para circular, contudo, sem deixar de confinar, almeja fazer sumir essa população considerada indesejável e perigosa.

O encarceramento – sobretudo o provisório – opera há tempos como um mecanismo que retira temporariamente homens e mulheres das ruas da cidade. Ao longo dos últimos anos e tendo como justificativa a mesma retórica do combate ao tráfico, centenas de pessoas foram encarceradas na região, literalmente “presas por atacado”. Apenas para ter uma ideia, entre junho e outubro de 2009 ao menos 261 pessoas foram encarceradas.3 Entre 3 e 9 de janeiro de 2012, início da Operação Sufoco, 48 presos – 23 por tráfico e 25 recapturas.4 No decorrer de 2014, somente a GCM fez 319 prisões.5 Na última megaoperação, em um único dia, ou melhor, em pouquíssimas horas, 53 pessoas foram detidas, entre as quais, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), 48 traficantes.6 Se a máquina de produzir supostos traficantes opera em velocidade acentuada, inclusive com o retorno deles às ruas por inconsistência das acusações, o mesmo não pode ser dito em relação às propaladas armas e drogas, que, quando apreendidas, se resumem a quantias risíveis, como na operação realizada pela mesma Polícia Civil em fevereiro de 2010, na qual foram necessários mais de noventa homens fortemente armados para, entre outras miudezas, apreender 410 pedras de crack, que juntas pesavam menos de 500 g, nove porções de maconha, que somavam menos de 10 g, um revólver calibre .22, que cabia na palma da mão de um único policial, e 25 cachimbos artesanais. Nesta recente, centenas de policiais apreenderam quase 20 kg de drogas, entre crack, cocaína, maconha e lança-perfume. Algo ínfimo diante da quantidade comercializada diariamente na cidade. Nada, em comparação com um helicóptero recheado com meia tonelada de cocaína…

Concomitantemente à prisão – e não deixa de espantar o paralelismo com a lógica do encarceramento por atacado –, ressaltam-se as múltiplas possibilidades de internação, entre elas a proposta de internação compulsória em massa, que, por mais que não tenha sido colocada em prática, explicita o tipo de “tratamento” disponibilizado a esse contingente populacional, evidenciando que a lógica manicomial – a despeito da reforma psiquiátrica – não é coisa do passado. Com efeito, constata-se que tal estratégia não é de todo nova. A assinatura do primeiro termo pelo governador Geraldo Alckmin em 20137 mobilizou à época o Cratod, serviço de referência em dependência química, que acabou se tornando alvo de disputas públicas em torno dessas internações, que, ademais, foram criticadas em carta aberta pelos funcionários da instituição.8 Tratando-se de estratégia discursiva potente, porque apoiada pela opinião pública, os efeitos de pôr em cena esse tipo de proposição visam criar uma possibilidade nebulosa para a abertura de convênios entre órgãos públicos e instituições privadas, que competem pela “terapêutica” mais eficiente.

Menos visível e, portanto, em total ressonância à lógica do fazer sumir, encontra-se a possibilidade de submeter os “dependentes químicos” às chamadas medidas de segurança, cumpridas em Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTPs). Ponto de fixação e parada, sobretudo em relação às prisões provisórias, haja vista que a saída desses hospitais se vincula à produção de laudos psiquiátricos que, em geral, sempre tardam a interromper o tratamento-contenção, é em tais instituições que o crack – substância sempre equiparada às forças do mal – cede espaço às pílulas psiquiátricas de todos os tipos, cores e tamanhos, além de injetáveis como o haldol, que muitas vezes opera como mecanismo de tortura. Ressalta-se que após a chegada dessa população a tais hospitais, movimento que ganhou força ao longo dos últimos anos, tornam-se visíveis reconfigurações locais, simbolizadas, entre outros traços, pela profusão de cercas, revistas e outras tantas técnicas de segurança, que apenas acentuam o caráter carcerário do “tratamento”.

Além do acionamento de instituições como prisões, comunidades terapêuticas e albergues, que compõem a rede estatal e municipal, uma série de outros equipamentos, como as religiosas Cristolândia e Missão Belém, serve de “refúgio” àqueles que sofrem com as operações. É comum também o “incentivo” ao “retorno para casa”, cujo exemplo mais ilustrativo foi figurado em vídeo recentemente publicado pelo próprio secretário de Assistência Social, Filipe Sabará, que, no auge do projeto de fazer sumir as pessoas do centro da cidade, acompanhou um morador de rua até a rodoviária para que ele pudesse voltar à sua “terrinha”, o Maranhão, portando ao seu lado o “kit dignidade”, composto de materiais de higiene. Bem longe de indicar assistência social como direito, repete-se uma prática comum às prefeituras que, ao emitirem passagens, despacham de sua vista e responsabilidade a situação de rua.

Ainda mais explícita que a tentativa de fazer sumir foi a entrada avassaladora de tratores com o logotipo do Projeto Redenção nas ruas Helvétia e Dino Bueno, demolindo ilegalmente imóveis, derrubando paredes sobre as pessoas e fechando pequenos comércios. Reeditando velhas iniciativas de revitalização da área, os governos estadual e municipal pretendem demolir quarteirões inteiros, a fim de construir novos empreendimentos e atrair outros grupos sociais à região. Assim como anteriormente, trata-se de mais uma tentativa de expulsar os sujeitos que circulam por ali, nos cortiços, hotéis, pensões, ruas, ocupações e bares, atingindo não apenas os usuários de crack, mas também moradores e trabalhadores do centro paulistano. O mais novo projeto, segundo tais autoridades, é a construção de prédios de habitação popular, os quais, porém, ao que tudo indica, não servirão aos já moradores da área. As recentes provas de que o plano em curso envolve a expulsão de tais grupos são a repressão ao estabelecimento de barracas nas ruas da região e os pedidos de reintegração de posse às ocupações Mauá, Marconi e São João, todas localizadas nas adjacências, e que estavam em via de ser regularizadas anteriormente. Sem espaço seguro para se estabelecerem, com as forças policiais impedindo a montagem de lonas e barracas que protegem do frio cortante, as pessoas em situação de rua se deslocam para albergues e outras áreas da cidade, como a favela do Cimento, na Radial Leste, que cresceu ao longo das últimas semanas.

Por certo, as faces do fazer sumir são inúmeras, incluindo também o apagamento de memórias e experiências acumuladas. Não é de hoje que a “Cracolândia” é conhecida, estudada e igualmente prenhe de projetos, programas públicos e privados, além de ações de interesse internacional. Apresentar essa última megaoperação como a de um governo que, finalmente, agiu sobre a situação é, no mínimo, questionável. Trata-se também de políticas de fazer sumir do mapa cognitivo qualquer referência progressista, qualquer pesquisa ali realizada, bem como a mobilização social e cultural que se aglutinou nos últimos anos.
Os que hoje estão sendo varridos do centro de São Paulo configuram uma população – como diria Deleuze (1992) – pobre demais para ascender ao mundo do consumo e numerosa demais para ser simplesmente confinada nas prisões ou internada em hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas.9 Alguns são definitivamente aniquilados por máquinas de matar, manejadas tanto por forças estatais como por (des)arranjos no universo do crime. A grande maioria, entretanto, não se evapora, não desaparece. Tais homens e mulheres, ainda que sejam colocados para circular indefinidamente,10 por instâncias que articulam punição e repressão; assistência e saúde,11 fazendo sumir os indesejáveis, vão se instalando em lugares e limiares da cidade, traçando linhas de fuga que criam outras tantas territorialidades. Gestados e geridos pelas políticas dos tempos presentes, compõem a população – cada vez mais crescente – de refugiados urbanos.

*As questões aqui elencadas têm sido trabalhadas coletivamente no âmbito de um Projeto Temático Fapesp intitulado “A gestão do conflito na produção da cidade contemporânea: a experiência paulista” e coordenado por Vera Telles, professora do Departamento de Sociologia da USP. Fábio Mallart é doutorando em Sociologia pela USP (bolsista Fapesp); Marina Mattar é mestre em Sociologia pela USP; e Taniele Rui é professora do Departamento de Antropologia da Unicamp.


1 Taniele Rui, Nas tramas do crack: etnografia da abjeção, Terceiro Nome, São Paulo, 2014.

2 Deve-se atentar para a emergência de inúmeras tropas de combate ao longo dos últimos anos, as quais, a nosso ver, derivam da lógica militarizada que embasa a gestão de múltiplos territórios urbanos. É esse o caso, por exemplo, da Inspetoria de Operações Policiais (Iope), que opera como uma espécie de tropa de choque da Guarda Civil Metropolitana, mas também do Grupo de Intervenções Rápidas (GIR), que atua no interior do sistema carcerário paulista, bem como do Choquinho, que opera nas unidades de internação da Fundação Casa, destinadas aos adolescentes que cometeram os chamados atos infracionais.

3 “PM usa tática de espalhar usuários da cracolândia”, Agora São Paulo, 18 out. 2009.

4 “Operação da PM na Cracolândia prende 48”, G1, 9 jan. 2012.

5 “Um ano depois, ‘De Braços Abertos’ reduz fluxo na Cracolândia em 80%”, SpressoSP, 20 jan. 2015.

6 “Denarc apresenta balanço da megaoperação na Cracolândia”, Portal do Governo (SP), 23 maio 2017.

7 “Alckmin assina termo para internação involuntária de dependentes químicos”, Estadão, 11 jan. 2013.

8 Coletivo DAR, “Em carta aberta, trabalhadores do Cratod criticam: voltamos a ser um centro de internação como há 30 anos, com superlotação”, 31 jan. 2013.

9 Gilles Deleuze, “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. In: Conversações: 1972-1990, Editora 34, Rio de Janeiro, 1992, p.219-226.

10 Marina Mattar Nasser, No labirinto: formas de gestão do espaço e das populações na Cracolândia, dissertação (mestrado em Sociologia), USP, 2016.

11 Fábio Mallart e Taniele Rui, “Por uma etnografia das transversalidades urbanas: entre o mundão e os dispositivos de controle”. In: J. Melo, D. Simião e S. Baines, Ensaios sobre justiça, reconhecimento e criminalidade, EDUFRN, Natal, 2016.

A CIDADE-MERCADORIA E OS LIMITES DA REFORMA URBANA BRASILEIRA

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A cidade-mercadoria e os limites da reforma urbana brasileira